PROENÇA, Edyr Augusto. Angelim, o outro lado da Cabanagem. In: PROENÇA, Edyr Augusto. O Teatro de Edyr Augusto. Belém: Secult-PA, 2022.
Valéria Frota de Andrade
Ilustração: Julio Lapagesse
Movido pelo desejo de jogar luz sobre um dos maiores fatos históricos da Amazônia, o escritor e dramaturgo Edyr Augusto Proença (Belém, PA, 1954) mergulhou na pesquisa sobre o movimento cabano e escreveu, em 1985, sua segunda peça: Angelim, o outro lado da Cabanagem. Ela pode ser lida ao lado de outras 33 obras de dramaturgia em um volume de 371 páginas e capa dura editado pela Secretaria de Estado de Cultura do Pará. O autor publicou ainda livros de poesia, volumes de crônicas, contos e romances, alguns deles publicados também na França, dentre eles Pssica, obra adaptada para o audiovisual em formato de minissérie, que estreou em agosto de 2025. Com predileção pelas comédias, musicais e teatro de revista, especialmente no início da carreira, o autor tem se entranhado cada vez mais no universo teatral. Desde 1995, integra o Grupo Cuíra, criado em 1982, que montou quatorze dos seus textos, dois dirigidos por ele.
O título da peça de Edyr Augusto faz menção ao mais popular líder da revolta cabana, o jovem Eduardo Nogueira, chamado de Angelim, nome da madeira cujas fibras são extremamente resistentes. Lavor Papagaio – pseudônimo do jornalista cearense Vicente Ferreira, que chegou à província do Grão-Pará na década de 1820 – narra e conduz a trama. Vestido com farrapos vermelhos (manchados de sangue, como informa ao leitor/espectador), levando uma viola pendurada no ombro e uma gaitinha no pescoço, narra o horror da guerra que mataria cerca de 30 mil pessoas. Conta “que do meio do mato, do coração dos igarapés, do sítio do Acará, viria a maré doida feito pororoca derrubar e arrastar consigo sangue e desgraça, alegria e discórdia, vingança e coragem!”. Nesse prólogo, em que brada pela morte dos portugueses e dá vivas ao Pará, exalta dois protagonistas do movimento: o cônego Batista Campos, grande responsável por disseminar ideias sobre a espoliação econômica e marginalização social a que os paraenses estavam submetidos, morto antes mesmo da revolta eclodir, e Eduardo Angelim, entusiasta das ideias liberais desde que veio fugido da seca no Ceará, sua terra natal.
Os episódios desse acontecimento tão complexo e cheio de contradições são apresentados de maneira a reinventar a atmosfera de uma sociedade em ebulição. Diálogos curtos, falas incisivas, promessas de revanche e embates contundentes, sempre salpicados com a cor local, traduzem a dimensão do conflito que ao longo de cinco anos exterminou parte expressiva da população e deixou uma cidade devastada. Da aliança entre mestiços, indígenas e negros e a elite revolucionária veio a força para o enfrentamento da opressão econômica, racial, social, por parte do Império brasileiro. A historiografia sobre o fato produziu inúmeras versões, que adotaram diferentes pontos de vista. A que serviu de base para Edyr Augusto foi a primeira, intitulada Motins Políticos: ou História dos principais acontecimentos políticos da Província do Pará desde o ano de 1821 até 1835, de Domingos Antonio Raiol (Barão de Guajará), publicada em 1970 pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
Entre cenas de baile, corre-corre e combates, o texto passa a mostrar a rede de intrigas e traições na qual os líderes cabanos são envolvidos a partir do assassinato do governador Bernardo Lobo de Souza, na madrugada de 7 de janeiro de 1835, dia do início do levante. Em apenas oito meses, três desses líderes, individualistas e com tendências despóticas, ocupariam o cargo de governador: Félix Malcher, militar e senhor de engenho que acabaria deposto e executado; Francisco Vinagre, preso, e finalmente Angelim, que tenta resistir diante da chegada do Marechal Jorge Rodrigues, enviado por D. Pedro II para reprimir a revolta.
A essa altura, o personagem-título dá sinais de cansaço e, ainda sentado na cadeira do palácio, sentencia: “Eu sou o juiz da morte e da vida”, enquanto clama ajuda ao espírito de Batista Campos. Nesse momento, “farto de sangue e cheio de saudades”, ele pede para ver sua mulher. A chegada de Luisa em pleno delírio aniquila de vez o bravo Angelim, que se retira para o sítio em Carnapijó, à espera da anistia da Assembleia Geral, mas cai na armadilha planejada pelo General Soares Andréa, calando violenta e definitivamente os revoltosos.
No fundo do palco, ao som de tempestade, raios e tiros, Lavor Papagaio reaparece, mencionando novamente Batista Campos e “a maré doida feito pororoca”. E completa: “A história nos julgará. Cabocos? Sanguinários? Única revolução a assumir o poder no Brasil? Incompetentes? Corajosos!”. Uma rubrica indica a saída do personagem, acompanhado de um coro, enquanto o palco escurece. Contudo, há mais uma: “Enquanto a plateia bate palmas, levanta-se alguém e diz: Paraenses! O sacrifício desses homens não pode ter sido em vão. […] Mas não, eu não estou sendo tolo de propor um levante popular […]. Mas voltar para casa e pensar no que fazer […] para reverter esse processo de uma vez por todas […] égua, isso deve ser um compromisso com a terra em que nascemos”. E então puxa o hino do Pará, cantado por todo o elenco, ao cumprimentar a plateia.
Os três primeiros textos de Edyr Augusto foram encenados pelo Grupo Experiência, um dos mais longevos de Belém, em atividade ininterrupta desde 1969, e no qual muitos artistas se formaram. Coube a Geraldo Salles, seu fundador e mestre de várias gerações, a direção de Angelim, o outro lado da Cabanagem. A montagem, com quase duas horas, foi vista por mais de 10 mil pessoas durante os três meses em cartaz no imponente Teatro da Paz. O nível da produção era algo inédito em Belém – e continua sendo inusual –, assegurando condições dignas de trabalho para a equipe de sessenta pessoas, composta por grandes talentos na atuação, cenografia, figurinos, dança e música.
O espetáculo estreou nas comemorações oficiais dos 150 anos da Cabanagem, promovidas pelo governo de Jader Barbalho. A principal foi a inauguração do Memorial da Cabanagem, um grande monumento em concreto, projetado por Orcar Niemeyer. Numa época de parcos incentivos oriundos de políticas públicas, o governador, que chegou a assistir a um ensaio, autorizou o empréstimo do Banco do Estado do Pará (Banpará) a fim de garantir os recursos para a montagem. Com a repercussão, além de pagar a dívida, a produção conquistou apoio privado até o fim da década de 1980.
Se por um lado a peça cumpria o objetivo de divulgar uma das mais sangrentas revoltas populares brasileiras, por outro, instigou debates. O mais interessante gerou dissenso no contexto do teatro paraense, sendo considerada mera propaganda oficial do governo por um grupo importante naqueles anos, o engajado Cena Aberta, dirigido por Luís Otávio Barata (1941-2009). O Cena Aberta – principal referência de teatro experimental da cidade – montou, em resposta a ela, um outro espetáculo, Quintino, o outro lado da sacanagem. A encenação de Barata partia da história de Quintino Lira, liderança do campo assassinada pela Polícia Militar naquele mesmo janeiro de 1985, a 320 km da capital paraense. Interessante mencionar que os dois eventos, separados por um século e meio de história, mereceram a atenção de outro dramaturgo, Nazareno Tourinho (1934-2018). Cabanagem e Quintino bom de briga defensor dos sem terra foram publicadas em 2012, pela editora Paka-Tatu, e depois em 2014 numa coletânea das quatorze peças do autor, organizada pela professora Bene Martins.
Segundo Rohan Lima (2024), amigo de longa data, produtor e leitor de tudo o que Edyr Augusto Proença já escreveu, a peça “escapa da fácil caricatura e provê alimento para o ator e para as polêmicas sobre o assunto”. Ainda segundo o crítico, o autor, ao procurar a imparcialidade para tratar do tema, deparou-se com a impossibilidade e optou por posicionar-se em defesa dos cabanos, refletindo a respeito da linha tênue que separa civilização e barbárie, em um texto sereno e emocionante, no qual “o amor à terra é o traço em que se misturam a liberdade e a justiça, sonho maior acalentado pelos cabanos de ontem e de hoje” (Lima, 2024).
Angelim, o outro lado da Cabanagem estreou em um momento de catarse histórica. A sociedade brasileira vivia as últimas semanas de um cruento regime militar e aguardava a posse do primeiro presidente civil depois de mais de duas décadas. O fato é que, mesmo que sob acusação de ter invólucro de propaganda estatal, a peça emanava a precisão daquilo que o povo sentia na pele. A liberdade, naquele período, era parte integrante dos figurinos, e a esperança por um país mais igualitário era fala recorrente, que se renova, quem sabe, para quando a Cabanagem fizer 200 anos.
Para saber mais
LIMA, Francisco Rohan de (2024). O jornalista acidental: memórias afetivas. Rio de Janeiro: Ed. Catalivros.
RAIOL, Domingos Antonio (1970). Motins políticos: ou história dos principais acontecimentos políticos na Província do Pará desde o ano de 1821 até 1835. Coleção Amazônica, Série José Veríssimo, Belém, Universidade Federal do Pará, v. 1.
Iconografia

