Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Ibiamoré, o trem fantasma

MARTINS, Roberto Bittencourt. Ibiamoré, o trem fantasma. São Paulo: L&PM, 1981.

Carolina Vigna
Ilustração: Julio Lapagesse

O romance Ibiamoré, o trem fantasma (1981), do escritor e psicanalista Roberto Bittencourt Martins (Bagé, RS, 1937), é um experimento ousado. Embora pouco conhecido no cânone literário nacional, o livro articula o fantástico, a crítica social e a pesquisa sobre tradições culturais do interior, propondo uma narrativa que transita entre alegoria, realismo mágico e comentário histórico. O “trem fantasma” do título, que corta a paisagem e provoca medos coletivos, é mais do que uma invenção sobrenatural: é um dispositivo literário para pensar o choque entre modernização e memória, técnica e oralidade, desejo e opressão.

A escolha do título aponta para a duplicidade fundamental da obra. O trem, símbolo da modernidade do século XIX e do avanço do progresso pelo interior do Brasil, aparece aqui como fantasma: imagem de promessa e, ao mesmo tempo, de assombro. A máquina de ferro que deveria trazer desenvolvimento chega investida de mistério, associada a lendas, pesadelos e maldições. O romance, assim, não apenas narra uma história de assombração, mas indaga como a técnica pode se converter em mito, como o progresso pode se travestir de ameaça.

Ibiamoré, o trem fantasma é organizado em onze paradas-capítulos curtos, como o andar de um trem com pressa. Cada estação-capítulo é uma parada. As histórias se entrecruzam mesmo sem a ciência dos personagens, quase um efeito borboleta no campo expandido. As paradas são nomeadas, conhecidas, e há uma relação importante com o local. Entretanto, esse local é fictício. Pensando a partir da geocrítica, que explora como os espaços configuram subjetividades, compreende-se o que e onde seria Ibiamoré. É, portanto, um local imaginário, em uma tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Uruguai. Esse espaço é uma área rural e pouco conurbada.

Cada estação segue rigorosamente a mesma estrutura. São quatro partes: uma história sobre o trem fantasma; uma parada, que nomeia o capítulo; e duas histórias sobre o protagonista daquela estação ou o local onde está. O protagonista é o narrador da lenda do trem fantasma. A repetição da estrutura é uma forma de emular o ritmo do trem e, ao mesmo tempo, dar uma visão em camadas – trilhos e caminhos entrecruzados – de como compreender nossas histórias, sejam elas lendas ou não.

A narrativa inicia em Campos Claros, e o Capitão Menino Afonso Inácio e sua história são apresentados. Rapidamente se percebe que a narrativa trata de muitas narrativas possíveis. Cortoxines surge, então, como um narrador dentro do narrador, questionando tudo o que foi dito. A memória não é confiável. Esse jogo semiológico continua até o final, quando se chega em Porto Saibro, na última parada.

O autor situa a trama em uma localidade imaginária, Ibiamoré, nome que remete à sonoridade tupi e ao lirismo sertanejo. Esse espaço funciona como condensação de muitas cidades pequenas do sul do país, produzindo um cenário ao mesmo tempo real e simbólico. Ibiamoré é menos um ponto no mapa do que um território alegórico: lugar onde a modernidade chega de forma espectral, onde o trem não se materializa plenamente, mas impõe a sua presença fantasmagórica, mítica e folclórica.

O trem fantasma é, portanto, metáfora de processos históricos e políticos mais amplos. Representa, de um lado, a promessa do progresso, anunciada pelas elites urbanas como a solução para os problemas do interior. De outro, o medo da dissolução das tradições, o risco de destruição das formas de vida locais. Ao mesmo tempo, evoca a violência do avanço capitalista, que instala a máquina sem perguntar pelo destino dos que vivem na terra. O fantasma, nesse sentido, é a imagem do progresso que não se cumpre, promessa que se realiza apenas como ruído e ausência. O trem, em sua forma espectral, continua a atravessar a paisagem simbólica do país. Simboliza tanto as promessas quanto os fracassos, tanto a esperança quanto o medo. O romance de Martins mostra que a literatura é capaz de transformar experiências em mito sem perder a densidade crítica. Ao apresentar o progresso como fantasma, o livro sugere que a modernidade brasileira, mais do que concluída, permanece inacabada, sempre retornando como assombração.

O trem fantasma se torna então metáfora de processos psicológicos. Representa, de um lado, a morte e o esquecimento; de outro, a vida e a existência. O trem é uma metáfora da biografia da qual não se pode escapar. O fantasma, nesse sentido, é a dualidade freudiana entre Eros (pulsão de vida, que segue o caminho e explora novas paradas) e Tânatos (pulsão de morte, que não retorna ou escapa do trem).

A principal questão de um trem em movimento, seja ele fantasma ou não, é a vivência da viagem que, necessariamente, atravessa o lugar. Vivência, aqui, tem um sentido amplo, que pode englobar as experiências do sujeito autoral, do sujeito narrativo ficcionalizado, do sujeito leitor e das relações que surgem entre eles. O romance insere-se no contexto da produção do autor, que atua também como psicanalista. As questões metafóricas e imagéticas do trem fantasma dialogam necessariamente com essa interpretação. Ibiamoré, o trem fantasma propõe que o sobrenatural não é fuga, mas modo de revelar tensões históricas invisíveis.

Os espaços literários extrapolam fronteiras físicas e tornam-se metáforas para questões culturais e sociais. Considerando que o espaço é moldado pela experiência humana, que lhe atribui um significado, o lugar literário é tanto real quanto fictício, influenciando e sendo influenciado pela narrativa e pelas dinâmicas sociais que operam nele.

O narrador não impõe uma versão única dos fatos, mas deixa que as vozes populares se sobreponham, gerando múltiplas interpretações. Essa opção formal aproxima o romance da tradição oral: cada relato acrescenta uma camada, cada memória reinterpreta a anterior, como ocorre nas rodas de conversa em que lendas são contadas e recontadas. A fragmentação narrativa, em vez de dispersão, opera como método para reconstruir o impacto de um fenômeno que não pode ser reduzido a uma só explicação.

No estilo, Martins combina uma prosa densa, marcada por descrições de forte carga visual, com diálogos curtos e coloquiais. Essa justaposição evidencia o interesse do autor em cruzar registros, em criar contraste entre a fala popular e a linguagem literária. O efeito é de estranhamento: o leitor oscila entre a imersão no mistério e a percepção de que está diante de um texto que reflete sobre o próprio ato de narrar. O tom oral da passagem convive com a elaboração literária, compondo uma prosa híbrida.

A recepção da obra, à época, foi marcada por certa perplexidade. Críticos acostumados a romances mais realistas viam na narrativa um excesso de imaginação. No entanto, o livro antecipa debates que posteriormente se tornariam centrais na literatura latino-americana, como o diálogo entre mito e história, a convivência de real e sobrenatural, a crítica à modernidade truncada. Lido hoje, Ibiamoré, o trem fantasma revela afinidades com tendências do realismo mágico, embora nasça em contexto distinto.

Outro aspecto do romance é a representação da comunidade. Ibiamoré não é apenas palco do fantasma; é também espaço de encontros, de narrativas compartilhadas, de resistência simbólica. Os moradores, ao contarem e recontarem a lenda, transformam o medo em história, o assombro em memória. O ato de narrar, aqui, é forma de sobrevivência. Ao transformar o trem em mito, a comunidade afirma o seu poder de elaborar simbolicamente as forças que a ameaçam. Esse gesto confere ao romance uma dimensão antropológica: revela como as culturas populares respondem ao novo por meio da imaginação.

A escrita de Martins é atravessada pelo interesse em valorizar a voz coletiva. O narrador cede espaço às falas de velhos, de crianças, de trabalhadores comuns. Não há hierarquia entre essas vozes; todas colaboram para construir o mito. Tal multiplicidade se articula com a fragmentação formal, criando uma narrativa polifônica. Em vez de impor uma verdade única, o romance mostra como a realidade se constrói no entrechoque de relatos.

Para saber mais

BRISOLARA, Valéria; MEDINA, Roberto (2014). Pelas malhas e vagões da memória: uma análise de Ibiamoré, o trem fantasma. Organon, Porto Alegre, v. 29, n. 57. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/organon/article/view/48268. Acesso em: 7 set. 2025.

FROEHLICH, Carla Rosângela (2011). Ibiamoré: o trem da narrativa viaja pelos trilhos da poesia. Dissertação (Mestrado em Letras) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Disponível em: https://tede2.pucrs.br/tede2/handle/tede/1984. Acesso em: 29 ago. 2025.

MASINA, Lea Silvia dos Santos (1995). Ibiamoré, o trem fantasma. Cadernos do IL. Porto Alegre, RS, n. 13, p. 49-54, jul. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/247831. Acesso em: 29 ago. 2025.

SEIXAS, Cid (1995). Contos do Rio Grande. A Tarde, 28 ago. Disponível em: https://linguagens.ufba.br/text/contos_rio_grande.html. Acesso em: 29 ago. 2025.

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VIGNA, Carolina.
Ibiamoré, o trem fantasma.

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Brasília. 

21 maio. 2026.

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7846.

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07 jun. 2026.