Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Os tais caquinhos

PONTES, Natércia. Os tais caquinhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

Gabriela Dal Bosco Sitta
Ilustração: Rafael Trinco

No site da editora responsável pela publicação de Os tais caquinhos, romance lançado em 2021 por Natércia Pontes (Fortaleza, CE, 1980), a obra é definida como um “romance de formação trágico e comovente”, mas essa talvez não seja uma síntese muito precisa. Lançado nove anos após Copacabana dreams, que rendeu a Pontes um lugar entre os finalistas do Prêmio Jabuti, Os tais caquinhos apresenta uma série de episódios instantâneos da família desarranjada da narradora e de seu cotidiano em um apartamento ornamentado por anos de acumulação compulsiva do pai. Com um olhar atento para o mundo e uma escrita que, com frequência, formula boas descrições, o livro, por outro lado, coloca em segundo plano a coesão narrativa.

A trama, situada nos anos 1990, gira em torno da narradora, Abigail, de sua irmã Berta e do pai das duas, Lúcio, que vivem juntos em um apartamento caótico no qual restos de comida, mofo, livros, embalagens usadas e infinitos outros itens são acumulados há anos. A história inicia-se com uma cena em que duas amigas de Abigail utilizam cotonetes para limpar as orelhas da narradora e, espantadas com a quantidade de sujeira que sai de lá, esbugalham “os olhos com fascínio e repugnância”. Esses dois substantivos, “fascínio” e “repugnância”, podem caracterizar a reação que a família da protagonista e seu modo de vida tendem a despertar no leitor, e eles sintetizam noções valiosas para uma leitura de Os tais caquinhos.

A mãe de Abigail, ainda antes da trama iniciar, sai de casa levando o que se supõe que sejam os irmãos mais novos da narradora e de Berta. O pai, por sua vez, não tem um emprego e passa boa parte de seu tempo sentado em frente a copos de chope morno em restaurantes sofisticados (não fica claro de onde vem o seu dinheiro). Já as adolescentes Berta e Abigail, devido à negligência da família, adquirem uma autonomia que não têm idade para gerenciar. Embora continuem morando com o pai e frequentando a escola, elas não têm suas necessidades mais básicas atendidas, recebendo insólitas doações de ovos das vizinhas para matar a fome. A certa altura, Berta, com quem a protagonista tem uma série de conflitos, muitos deles velados, começa a passar mais tempo na casa de uma amiga do que no apartamento da família. Abigail, enquanto isso, se envolve com vários homens, bebe demais e usa drogas. Em uma imagem recorrente no livro, ela estica suas pernas contra a parede e, de estômago vazio, passa horas observando insetos.

Episódios instantâneos como esse em que Abigail aparece com as pernas encostadas na parede compõem boa parte de Os tais caquinhos, sendo apresentados em capítulos bastante breves. Há imagens da protagonista se encontrando com homens no apartamento onde vive, do umbigo inchado de Lúcio subindo e descendo no ritmo da sua respiração durante o sono, das irmãs se refestelando eventualmente em algum restaurante para o qual o pai as leva. Os capítulos são em geral bem escritos, ainda que os adjetivos e as listas que os percorrem às vezes beirem o excessivo. Esses recursos, aliás, assim como a estruturação do livro em capítulos curtos e pouco coesos entre si (alguns são trechos de diários e bilhetes), apontam para uma tentativa da autora de emular na forma do livro a acumulação pouco criteriosa que caracteriza o apartamento onde vive a protagonista. Contudo, devido ao modo como essa estrutura é explorada, muitas das ações e eventos parecem desencontrados, o que é acentuado pelo uso de verbos no pretérito imperfeito que dificulta a localização temporal dos eventos e a apreensão de sua duração.

Os títulos dos capítulos com frequência não são óbvios, nem dizem respeito diretamente ao conteúdo daquele trecho, um recurso inventivo que acrescenta camadas de sentido ao texto. Entre os títulos, alguns são meramente descritivos, mas o que descrevem é inusitado, curioso ou poético. É o caso de “Abotoar a camisa de olhos fechados”, que remete a um hábito curioso de Lúcio, com um apelo muito imagético. Há também títulos que evidenciam um olhar desautomatizado para o mundo, como “Espinha dorsal de sardinha”, “Rasgando os papéis com excelência” e “Os mapas mentem”.

Entre os capítulos, alguns consistem em bilhetes ou cartas escritas por Lúcio e Abigail, e neles a repugnância que o pai poderia causar inicialmente – sendo ele um acumulador compulsivo, um pai negligente, um homem com pouca propensão à higiene pessoal, um bêbado, um desocupado etc. – vai se transformando aos poucos em fascínio. O que os bilhetes escritos por Lúcio revelam é um sujeito que, embora tenha todos esses atributos negativos, é também carinhoso e articulado, inclusive com um apreço pelas artes, como atestam os livros espalhados pelo apartamento e algumas das referências que a adolescente Abigail inclui em sua narrativa, que deixam o leitor com a impressão de serem compartilhadas por pai e filha (em dado momento, Abigail cita o cineasta japonês Yasujirō Ozu, por exemplo).

Embora o mote de Os tais caquinhos pareça ser o processo de formação pelo qual uma adolescente passa em meio a um contexto familiar conturbado, com os dilemas típicos da adolescência se somando aos de uma família desestruturada, talvez o mais cativante nessa obra seja o olhar que Abigail, a narradora, dirige a seu pai. Trata-se de um olhar que, como quase tudo no livro, é permeado por fascínio, mas, especialmente, é um olhar que se demora, um olhar que levanta perguntas e gera inquietações.

Tem ganhado força na literatura contemporânea a voz de filhos que se propõem a falar sobre seus pais. Essa voz é encontrada, por exemplo, em A invenção da solidão (1982), de Paul Auster, Patrimônio (1991), de Philip Roth, Onde você vai encontrar um outro pai como o meu (2015), de Rossana Campo, Mar azul (2012), de Paloma Vidal, e O que é meu (2023), de José Henrique Bortoluci. Em todas essas obras, os narradores são mobilizados pelo desejo de realizar a tarefa de atribuir algum sentido ao que lhes foi deixado como herança. É esse mesmo desejo que transparece em Abigail, que busca encontrar no pai algo que explique seu comportamento compulsivo e seu desânimo diante da vida (“Por que a morte não me vem?” é uma pergunta recorrente que ele se faz em voz alta). “Por que Lúcio se maltrata tanto? Queria que Lúcio se maltratasse menos”, ela diz a dada altura.

Assim como o amor de Lúcio – um amor que está longe de ser óbvio –, o de Abigail se revela nos bilhetes que ela escreve para o pai, mas também nos comentários que formula após observá-lo com a atenção de quem tem um mistério a solucionar. É o que fica evidente neste trecho, por exemplo: “Então [Lúcio] seguia avançando para a região das gavetas, onde poderia com muito silêncio e cuidado alcançar uma cueca e vesti-la, ainda sentado, […] por fim levantando-se e repuxando o elástico da cueca já praticamente vestida. Quanto mais alto fosse o estalo seco do elástico rebatido na carne dura de sua barriga, mais alegre Lúcio estava”.

Em uma obra que discorre sobre relações de parentalidade na contemporaneidade, O complexo de Telêmaco, o psicanalista italiano Massimo Recalcati escreve que “a herança é um movimento singular e não uma aquisição que acontece por direito”. Na obra de Natércia Pontes, a herança que o pai lega às filhas não parece ter muito valor à primeira vista: em termos concretos, elas herdam um acúmulo de objetos desencontrados e de lixo; em termos subjetivos, herdam um modelo de vida pouco apropriado, marcado por uma relação disfuncional com o mundo e pela dificuldade de dar conta e apreciar a própria vida. Mas, se o leitor seguir o exemplo de Abigail e observar as coisas com mais atenção, talvez se dê conta de que ela realiza o que Recalcati chama de “um movimento singular” para apropriar-se de sua herança em seus próprios termos, e de que esse movimento passa pela palavra.

Como aponta Recalcati, a situação da parentalidade se alterou muito nas últimas décadas e hoje não existe mais uma “demanda por poder e disciplina”. “A demanda por pai não é mais demanda por modelos ideais, por dogmas, por heróis lendários e invencíveis”, ele escreve. Com isso, os pais enfrentam a difícil tarefa de reinventar seu papel, o que para o autor passa pela noção de testemunho: o pai que hoje é invocado é aquele “capaz de mostrar, por meio da própria vida, que a vida pode ter um sentido”. Na canção da qual foi retirada a epígrafe e também o título de Os tais caquinhos, escrita por Antonio Cicero e interpretada por Marina Lima, há um diagnóstico parecido com o de Recalcati, bem como um chamado à reinvenção: “Pra começar/Quem vai colar/Os tais caquinhos/Do velho mundo/Pátrias, famílias, religiões/E preconceitos/Quebrou não tem mais jeito/Agora descubra de verdade/O que você ama/Que tudo pode ser seu”.

Na história narrada por Abigail, o pai falha recorrentemente na função de testemunhar a possibilidade de vida, indicando uma quebra no modelo parental, mas, em alguns momentos, com recursos como dancinhas desajeitadas que fazem as filhas rirem, jogos de palavras e apoio para uma mudança, ele acaba oferecendo à narradora uma herança da qual ela pode se apropriar.

Ao fim e ao cabo, o que tem mais força em Os tais caquinhos é o olhar que a filha dirige à família e que depois volta a si mesma, bem como uma relação singular com as palavras, uma relação que passa pelo fascínio diante da inventividade da linguagem, mas também pela repugnância que as histórias às vezes nos causam.

Para saber mais

SANTOS, Darlan Roberto dos (2021). Os tais caquinhos, de Natércia Pontes. Matraga, v. 28, n. 54, p. 615-618. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/matraga/article/view/62100/39539. Acesso em: 5 out. 2024.

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Como citar:

SITTA, Gabriela Dal Bosco.
Os tais caquinhos.

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da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

25 mar. 2025.

Disponível em:

4238.

Acessado em:

05 mar. 2026.