Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

O torturador em romaria

STUDART, Heloneida. O torturador em romaria. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

Leonardo da Silva Claudiano
Ilustração: Francisco Dalcastagnè Miguel

O torturador em romaria (1986) conclui o que a autora Heloneida Studart (Fortaleza, CE, 1932 – Rio de Janeiro, RJ, 2007) classificou como “Trilogia da Tortura”, integrada também pelos volumes O pardal é um pássaro azul (1975) e O estandarte da agonia (1981). Embora façam parte dessa trilogia, os romances são autônomos, podendo ser lidos de maneira isolada e aleatória. O fio de união que os caracteriza em uma espécie de unidade fragmentária é o peso, a violência desmedida do aparato repressivo da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). Articulando, ficcionalmente, as violações estatais e as resistências a elas impostas, os enredos causam ruídos e pressionam tanto a normalidade discursiva oficial quanto certo ambiente cultural que lhes deu (e dá) sustentação, no direcionamento de uma reconciliação forçada e baseada numa política de memória pautada pelo esquecimento. As obras de Heloneida reconstroem o terrorismo de Estado e seus mecanismos do medo disciplinador, da violência inscrita nos corpos. Refazem a gramática do horror inenarrável e transformam leitores em testemunhas. Assim, cientes do ocorrido, a responsabilidade pela reprodução da violência, advinda do silenciamento e da não punição aos agentes do Estado, transmite-se de geração em geração. A literatura, então, torna-se um arquivo que nos mantém alertas. 

Na obra O torturador em romaria, o leitor é apresentado ao torturador Carmélio – ou, antes, Carmélio se faz conhecer. Não tem cismas, dispensa disfarces. Sua presença é larga, ocupa todos os espaços – e quase sempre com a prepotência de quem tem ciência do poder que maneja, da força que mobiliza, da competência cuidadosa com a qual desempenha as atividades a ele delegadas. Principalmente, identifica-se e confessa crimes munido da certeza de estar acima, distante de qualquer legislação que possa puni-lo, seja presente ou vindoura. Está-se diante do conhecido e escorregadio narrador-personagem. Nesse caso, o dono da voz em primeira pessoa conduz o leitor por porões, Casa da Morte, bares, prostíbulos e romaria do Padre Cícero – sempre imerso em dor, sangue e morte. 

Trata-se de um narrador curioso. Triste e cruelmente curioso, que desestabiliza o leitor, retirando, inclusive, as bases teóricas com as quais se tenta capturá-lo. Distante da onisciência realista, Carmélio não parece se importar em ganhar a confiança do leitor, como tantos narradores-personagens. Ele deixa de lado qualquer sutil subterfúgio, dispensa a exposição de fraquezas calculadas, tão típicas. Descarta, uma a uma, todas as conhecidas tentativas de construção empática entre quem conta e quem lê. Também não demonstra arrependimento algum por seus atos, nem quando se lança ao sertão do Ceará em caminhos de sacrifícios religiosos. Tudo se dá ao contrário: não alimenta silêncios ou reticências e exibe orgulhoso a precisão milimétrica, o caráter científico com o qual opera as sessões de tortura. Mesmo quando a vítima sucumbe antes da delação forçada, transborda em satisfação, pois carrega, consigo, imenso potencial destrutivo. Exibe-o. Não parece mentir, não parece requerer do leitor a participação no jogo sutil entre crença e descrença que, regularmente, se estabelece com o narrador que se mostra no texto, cuja história se desenvolve pela própria ação enquanto personagem. Carmélio não tropeça em seu discurso, tampouco camufla ou afirma intencionalmente o lugar de onde fala. A sensação é de que não tem consideração alguma por quem o lê. Aprovação? Nenhuma. Nada, ou muito pouco, faz pelo convencimento por meio da palavra. Carmélio as impõe, como de hábito. É mecânico demais para artimanhas elaboradas, incapaz de articulações abstratas. Coloca-se direto, pela força. Uniforme, superfície homogênea, lisa. Nem mesmo as pequenas arestas que se criam (o abandono materno, o desprezo de Dorinha – única mulher que parece ter lhe despertado algo além da objetificação – e a romaria de Padre Cícero) levam-no a questionar, sinceramente, o papel que desempenha na estrutura de tortura e desaparecimento. Assim, Heloneida entrega ao leitor um personagem-narrador que foge de categorizações costumeiras: na mesma medida em que se esmiúça no texto, parece não pertencer a ele – desgarrado, mas consciente de tudo, tamanha a burocratização e o monopólio da vigilância e agressividade que exerce. Mais, a autora, ao construir a trama pela perspectiva do torturador, desconforta o leitor para além da temática que aborda, uma vez que elabora, naquele que narra, pela forma enunciativa e pelo recurso metonímico, toda a engrenagem repressiva da ditadura civil-militar brasileira. Não se escapa de Carmélio. Ninguém escapa. E os corpos torturados se avolumam a cada página.

Interessante notar como a mudança do lugar narrativo abre outras possibilidades de entendimento. Novos aspectos se mostram e tornam abrangente a análise, tensionando, ainda mais, o debate por memória, verdade e justiça. Muitos são os relatos sob a perspectiva das vítimas. Romances e testemunhos fundamentais, pelos quais se sabe da confrontação com a derrota, quando do exílio ou isolamento de militantes; toma-se consciência dos sonhos que se despedaçam em choques e paus de arara; vê-se a tentativa, tantas vezes vã, de não ceder, de impedir o desfazimento do eu, o rompimento do corpo/carne com o sujeito – entendido, aqui, como vontade, sensação, pensamento –, num intento quase sempre infrutífero de não se apresentar objetificada diante daquele que exerce a tortura. São narrativas que buscam, de alguma forma, a reconexão por intermédio da linguagem, na transmissão da experiência e consequente reelaboração do trauma. No romance O torturador em romaria, ao contrário, Heloneida Studart faz uso da voz do agente repressivo. Com isso, descortina a estrutura de violência impessoal, abrangente, diluída pelo meio social e por ele, implícita ou explicitamente, aceita – pois a tortura só existe pela relação entre o poder que a exerce, o corpo na qual se marca e a sociedade que lhe abre exceções. 

À medida que a leitura avança, a agressividade do torturador sugere perguntas: o que leva um homem a torturar seu semelhante? Por que submeter um indivíduo a tanta dor? Sadismo, unicamente? Não. Não parece ser o caso, a razão singular. Se assim o fosse, as justificativas militares de que excessos foram cometidos por indivíduos ao arrepio da lei e do conhecimento dos presidentes-generais teriam sustentação. Carmélio, em diversos momentos, parece ir além do prazer doentio pela dor do outro. A perversa dimensão onde se situa o coloca numa espécie de fria indiferença pelo sofrimento que desencadeia. Há satisfação, é verdade. Mas essa advém muito mais da atividade que cumpre com esmero e do poder de vida ou morte que detém do que, propriamente, da quantidade de sangue que vê derramar. Analisando-se atentamente, trata-se de uma forma de desconexão, pois a tortura rompe elos fundacionais de humanidade, tanto na vítima como no algoz. Em Carmélio, não se desassocia o corpo/carne do sujeito, como no torturado. A linguagem está presente. Inexiste, de sua parte, o inenarrável, a ausência da expressão. É ele quem causa a dor e, tecnicamente, fala sobre ela. O rompimento se dá entre iguais. A desarticulação, como nos diz Maria Rita Kehl, ocorre entre um homem (o torturador) e seu semelhante (o torturado): é a despersonalização de quem recebe toda a carga da violência instituída; é o corpo como objeto desprovido de vida e vontades, como algo à mercê, disponível, desumanizado – a massa amorfa entregue ao trabalho de assassinos. Pode-se dizer, portanto, que não se tortura o semelhante. Primeiro, promove-se a desidentificação. Depois, a violação se exerce sob um punhado de pele, músculos e ossos – muitas vezes nus, noutras tantas encapuzados, mas sempre rompidos e descaracterizados de dignidade humana.

 Por fim, há que se apontar, ainda, a dessubjetivação do torturador. Diluído num imenso aparato que assassina e desaparece, este se vê como parte, como um ser maquinal. Não participa por vontade – já não a possui, mas pela impessoalidade da tarefa, desempenhada como outra qualquer. Ele não se reconhece na dor que causa, imerso no transe mecânico das sessões de tortura. Transe que não é quebrado pelas súplicas, pelas confissões, mas pelo silêncio da morte que as sucede. É nessa quietude que o orgulho do dever cumprido se manifesta, robótico; trata-se da completa desarticulação do sujeito, a dissolução do homem na estrutura repressiva da qual faz parte. Não se sente responsável pelas surras que aplica, pelas queimaduras que provoca. Não relaciona suas atitudes com os urros inumanos que retira da garganta de suas vítimas. É, apenas, o que executa ordens, dentro do organograma do terrorismo de Estado. Um funcionário, que não tem nada de especial e, a despeito do horror de que é capaz, leva uma vida rotineira, em esquinas e vizinhanças tranquilas. Ele não é o monstro, mas o homem com um sítio e gardênias na varanda. Não é a excepcionalidade, o desvio do sistema, mas parte dele. 

Heloneida Studart condensa em Carmélio e suas vítimas todas essas questões. Entendê-las em suas dimensões simbólicas e concretas é fundamental. Não há transição democrática completa sem verdade, memória e justiça; sem o conhecimento dos mecanismos repressivos utilizados pelas forças de segurança e apoiados por parte da sociedade civil. Somente assim é possível identificar e superar as práticas de tortura ainda vigentes e atuantes contra a população periférica. Nessa disputa, a literatura tem papel relevante na crítica às políticas de esquecimento e pretensa normalidade. 

Para saber mais

KEHL, Maria Rita (2004). Três perguntas sobre o corpo torturado. In: KEIL, Ivete; TIBURI, Marcia (Orgs.). O corpo torturado. Porto Alegre: Escritos.

SOUZA, Ioneide Maria Piffano Brion de (2022). Entre o lembrar e o esquecer: a ditadura civil-militar brasileira a partir da Trilogia da Tortura de Heloneida Studart. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora.

TARGINO, Renata da Silva (2019). Poder, violência e subversão em O Torturador em romaria, de Heloneida Studart. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal do Amazonas, Manaus.

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Como citar:

CLAUDIANO, Leonardo da Silva.
O torturador em romaria.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

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da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

05 jun. 2024.

Disponível em:

1364.

Acessado em:

06 mar. 2026.