Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

A resistência

FUKS, Julián. A resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Sheila Jacob
Ilustração: Carolina Vigna

Narrado em primeira pessoa, o romance A resistência foi publicado em 2015 por Julián Fuks (São Paulo, SP, 1981). Filho de pais argentinos, o escritor, que também é tradutor e crítico literário, teve reconhecimento nacional e internacional com essa publicação. A obra é construída a partir de lembranças que irrompem quando o narrador busca contar a história do seu irmão mais velho, filho adotivo dos pais psicanalistas, por eles acolhido enquanto viviam em Buenos Aires em plena ditadura, à qual se opunham. Os militantes, que fogem de seu país natal e esperam que a estadia no Brasil seja provisória, acabam escolhendo aqui permanecer, e é onde teriam, anos mais tarde, dois filhos biológicos, cabendo a um deles o desafio de contar essa história.

A epígrafe da obra, inscrita em espanhol e retirada do livro de mesmo nome assinado pelo argentino Ernesto Sábato, dá o tom da obra: “Creo que hay que resistir: éste há sido mi lema. Pero hoy, cuántas veces me he preguntado cómo encarnar esta palabra”. Ou seja, Julián Fuks apresenta, nesse livro, os vários sentidos que a palavra “resistência” pode assumir, compreendidos tanto no âmbito familiar quanto no contexto histórico e social mais amplo. Trata-se da resistência política, da resistência ao esquecimento e, também, da resistência da/pela linguagem, mesmo que se (re)conheça – e se anuncie – quais são suas limitações.

A ideia do livro surge a partir de um pedido do irmão do narrador-personagem: “Sobre isso você devia escrever um dia, sobre ser adotado, alguém precisa escrever”. Para corresponder a tal expectativa, é preciso mergulhar nas lembranças e tentar captar o passado, que sempre escapa e do qual, mesmo assim, não é possível fugir, trazendo à tona as trapaças e os imperativos da memória. “Não consigo lembrar como era passar um minuto, dez minutos, uma hora ao seu lado, e também não consigo evitá-lo”.

Além de convocar momentos íntimos e caseiros, alguns deles já vividos durante o exílio da família no Brasil, o romance aborda a história da Argentina ao trazer cenas e registros sobre o regime militar do país vizinho, proporcionando um trânsito entre o particular e o coletivo. Um dos vários exemplos é quando o narrador cita um jantar organizado pelos pais aos colegas de trabalho da mãe. Ninguém aparece, provavelmente — suspeita o enunciador — por considerarem inseguro aquele tipo de encontro. “Colegas de todas as horas, companheiros de lutas diárias, por que desapareciam, por que calavam agora?”. Inspirado por tais reflexões, imaginam-se outros jantares suspensos, mas por motivos distintos, em tempos de perseguição, tortura, exílio, assassinatos e sumiços repentinos.

A obra de Julián Fuks integra um conjunto de produções sobre as ditaduras latino-americanas assinadas não por quem viveu diretamente tais regimes de exceção, mas, sim, por seus filhos, filhas, netos, netas, parentes de outras gerações, sujeitos que se propõem a contar a história daqueles que resistiram e que, por isso, foram perseguidos, partiram para o exílio, sofreram tortura, caíram na clandestinidade e/ou até mesmo desapareceram. É como se, em coro com o autor do livro, questionassem: “Pode um exílio ser herdado? Seríamos nós, os pequenos, tão expatriados quanto nossos pais? […] Estará também a perseguição política submetida às normas da hereditariedade?”.  Nesse caso, a escrita converte-se em uma forma de honrar a história de quem ousou resistir e de perpetuar seu exemplo, fazendo jus a esse legado.

Soma-se, ao tema do exílio — vivido e herdado — a questão do desaparecimento político, referida como uma “morte incompleta”. A colega de trabalho da mãe do narrador, a jovem psicóloga Marta Brea, é mais uma das tantas vítimas do terrorismo de Estado argentino, sequestrada em meio a uma reunião profissional e nunca mais vista, até que uma carta, recebida em 2011, ratificava o seu assassinato trinta e quatro anos antes. Registra-se, nesse momento, a violência de um regime que eterniza o luto ao inviabilizá-lo. Nas palavras do autor, “a atrocidade de um regime que mata também a morte dos assassinados”.

Ao (tentar) recuperar a trajetória do irmão mais velho, cuja origem é desconhecida e assim permanecerá, o texto também trata de um tema caro às ditaduras latino-americanas, que é o sequestro, por agentes do regime, de filhos e filhas de desaparecidos políticos. Quando se pensa na Argentina, vêm à mente um dos filmes mais famosos do cinema daquele país, A história oficial (1985, dirigido por Luis Puenzo), e o célebre Movimento das Avós da Praça de Maio, com seu apelo pela devolução daqueles “muitos bebês sequestrados, apropriados pelos militares, entregues a famílias amigadas ao regime, passados de mão em mão como mercadorias valiosas, extraviados sem deixar rastros”. Há inclusive no romance o registro da recuperação do neto 114, um caso de extremo valor simbólico por ser neto de Estela de Carlotto, líder histórica e presidenta de uma associação que pode ser referenciada como mais uma das personificações da palavra-chave que dá título à obra.

A resistência constitui-se em “um livro sobre essa criança, meu irmão, sobre dores e vivências de infância, mas também sobre perseguição e resistência, sobre terror, tortura e desaparecimento”. É, além de tudo isso, uma obra de metaficção com traços autobiográficos, ou seja, convoca acontecimentos vividos por seu produtor ao mesmo tempo em que revela o processo de escrita e as angústias que o acompanham.

Esse aspecto metalinguístico se evidencia quando, já perto do desfecho, narra-se um diálogo com os pais após terem lido um livro escrito pelo filho motivado pela adoção do irmão mais velho e alguns de seus impactos nas relações familiares. A mãe atesta a fidelidade aos fatos, “fiel como se pode ser fiel às instabilidades da memória”, ao mesmo tempo em que reconhece algumas lacunas e imprecisões, ressaltando ter apreciado “que houvesse ao menos um desvio patente, vestígio de tantos outros desvios, apreciei que nem tudo respondesse ao real ou tentasse ser seu simulacro”.

Apresenta-se ao leitor uma trajetória ambígua e porosa em que autor e narrador se aproximam, se confundem e, ao mesmo tempo, se afastam e se tensionam, o que se percebe quando, no momento final, é citado o alter ego Sebastián — presente, inclusive, em outras obras de Fuks, como o livro antecessor, Procura do romance (2011), e o que o sucedeu, A ocupação (2019):  “Com esses escombros imateriais tenho tratado de construir o edifício desta história, sobre alicerces subterrâneos tremendamente instáveis”. 

Expõe-se, portanto, o jogo entre realidade e ficção que sustenta essa e tantas outras narrativas que se propõem a abordar episódios históricos traumáticos, sempre refletindo sobre as lacunas, as limitações, a urgência, a inevitabilidade e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de se narrar o vivido. Como lê-se na obra: “Sei que escrevo o meu fracasso. […] Vacilo entre um apego incompreensível à realidade — ou aos esparsos despojos de mundo que costumamos chamar de realidade — e uma inexorável disposição fabular, um truque alternativo, a vontade de forjar sentidos que a vida se recusa a dar. Nem com esse duplo artifício alcanço o que pensava desejar”. Nessa busca pela palavra inalcançável, mesclam-se narrativa ficcional, ensaio, relato autobiográfico e registro histórico, além de incorporar a dissolução das fronteiras rígidas que costuma(va)m definir os diferentes gêneros textuais. O próprio autor vem chamando de “pós-ficção” essas aproximações e hibridismos presentes em grande parte dos romances contemporâneos, inclusive no seu livro aqui resenhado

Com essa obra, Julián Fuks recebeu diversos prêmios, entre eles o Jabuti de melhor Romance Literário, e o segundo lugar no Prêmio Oceanos, ambos no ano de 2016. Foi, na mesma época, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria “melhor livro de romance do ano”. Também foi vencedor dos prêmios literários José Saramago (2017) e Anna Seghers (2018). Em 2019, foi mais uma vez vencedor do Prêmio Jabuti, dessa vez na categoria “livro brasileiro publicado no exterior”.

Seus primeiros reconhecimentos foram bastante alardeados e comemorados, principalmente porque, no ano posterior à publicação da obra, a sociedade brasileira viveu a “ruptura com a ordem democrática” por meio do golpe que destituiu a presidenta Dilma Rousseff, e o “combate e a resistência estavam na ordem do dia”, como ressaltado pelo próprio escritor em discurso proferido na cerimônia do Prêmio Jabuti. Soma-se a esse contexto mais imediato a importância de se resgatar, divulgar e denunciar, cada vez mais, o que foi o período das ditaduras em nosso continente, apontando, sempre que possível, para os riscos e as ameaças dos regimes autoritários na atualidade. Afinal de contas, como ressalta o próprio pai, em um diálogo inscrito na obra, quando questionado sobre o eventual interesse por acontecimentos de um tempo tão distante: “as ditaduras podem voltar, você deveria saber”.

Para saber mais

FERNANDES, Pádua (2019). Poéticas da migrância e ditadura: exílio e diáspora nas obras de Julián Fuks e Francisco Maciel. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 58, p. 1-12. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/28065/24111. Acesso em: 12 fev. 2023. 

FIGUEIREDO, Eurídice (2020). A resistência, de Julián Fuks: uma narrativa de filiação. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 60, p. 1-8. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/30795/25813. Acesso em: 8 fev. 2023. 

FUKS, Julián (2017). A era da pós-ficção: notas sobre a insuficiência da fabulação no romance contemporâneo. DUNKER, Christian et al. Ética e pós-verdade. Porto Alegre: Dublinense, p. 73-93. 

HEINEBERG, Ilana (2020). Exílio da ditadura na ficção brasileira da geração pós-memorial: a perspectiva e a estética dos filhos. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 60, p. 1-12. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/30804/25814. Acesso em: 19 fev. 2023. 

Iconografia

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Como citar:

JACOB, Sheila.
A resistência.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

22 maio. 2024.

Disponível em:

964.

Acessado em:

05 mar. 2026.