EMEDIATO, Luiz Fernando. Os lábios úmidos de Marilyn Monroe. São Paulo: Ática, 1978.
Ewerton Martins Ribeiro
Ilustração: Léo Tavares
Os anos 1970 marcam a consolidação da proeminência do conto no contexto da contraditória e tardia modernização do Brasil. O chamado boom do gênero coincide com o auge da Ditadura Militar brasileira (1964-1985); assim, não espanta que parte significativa da produção do período trate da situação política da nação. Os lábios úmidos de Marilyn Monroe, livro de Luiz Fernando Emediato (Belo Vale, MG, 1951), é exemplar desse tipo de produção da era de ouro do conto brasileiro.
O volume reúne 15 histórias de forte e quase sempre explícito teor político, escritas durante a juventude do autor, vivida na época da intensificação da repressão estatal promovida pela Ditadura. De modo geral, seus contos parecem se passar no violento período pós-1968, tempo de crescimento da censura, escancarada perseguição política, prática sistemática de tortura e aniquilação de grupos de resistência à repressão.
A maior parte dos contos alude diretamente a esse contexto, como ocorre em “Longe da terra” e em “A extirpação do câncer”, dois dos destaques do volume, que apresentam histórias de homens mutilados física e mentalmente pela tortura. Escritos em terceira pessoa, mas sob o ponto de vista dos torturados, esses contos expõem a consequência que a desumanidade vivida terá para a (impossibilidade de plena) vida futura dos indivíduos, sejam os que foram capazes de resistir calados (caso do primeiro conto), sejam os que capitularam à dor e delataram (caso do segundo).
Outros contos fazem referência a aspectos dos bastidores do momento político. Um exemplo é “O vago brilho das estrelas”, conto que, se não trata diretamente da participação dos Estados Unidos no Golpe de 1964 e na subsequente manutenção da Ditadura, alude indiretamente à posição exercida pelos EUA, naquele momento, de baluarte da opressão latino-americana e da direita mundial. No conto, um jovem brasileiro está andando de bicicleta e encontra, também sobre uma bicicleta, o “grande ator e show-man” estadunidense Ringo Martin, então já “velho e triste”. Enquanto pedalam, os personagens entabulam um diálogo banal, de fundo alegórico, mas atravessado por desilusão e abandono, alusivo a ambas realidades nacionais.
Na história, pedala-se não na direção de um destino (do trajeto) ou de um desfecho (do contexto político geral), mas na direção do impasse (entre norte e sul, velhice e juventude, morte e vida, opressor e oprimido, explorador e explorado). “Ringo Martin faz-me ver, com um sinal, que seguirá pela rua da direita. Devo seguir pela da esquerda, o que significa que chegou ao fim nossa viagem a dois”, anota-se em dado momento, compondo uma imagem objetiva para a subjetividade do impasse vivido.
Por outro lado, os contos do volume que não referenciam de forma clara o contexto da Ditadura parecem sugeri-lo negativamente, via ausência. Exemplo disso é “A origem dos anéis de Saturno”, que apresenta – em tom sublime, hiperbólico, quase transcendental – a cena de uma primeira experiência sexual de dois adolescentes, Cândida (a pura, inocente) e Paulo (o pequeno, humilde). Pelo contraste que estabelece com o teor político geral e de natureza macrossocial do livro, essa pureza arquetípica e quase mítica da cena se instaura como ruído evocador daquilo que não aparece objetivamente no texto.
Quando se fala do que não aparece objetivamente no texto, fala-se da onipresença do estado opressor naquela época histórica, que se fazia sentir como potência, sempre na iminência de se realizar como repressão e violência reais. Além disso, faz-se referência também ao medo genérico entranhado nos espíritos jovens da época; diz-se, ainda, dos horrores da violência realmente empírica, praticada diuturnamente no escuro dos porões, subtraindo da vida de centenas de brasileiros qualquer possibilidade de viver o amor naquele molde idílico retratado pela cena.
A despeito de relativa variedade de formas empregadas nos textos da obra, alguns recursos formais se destacam no conjunto como recorrências estilísticas. Vários contos, por exemplo, iniciam-se tratando de assuntos triviais, próprios do cotidiano afetivo e social (a relação amorosa, no já citado “Longe da terra”; a rotina de participação na instituição cidade, em “A perna”, talvez o mais sofisticado texto do livro etc.), para mais à frente, quando o leitor já se familiarizou com o andamento da trama, situá-la conjunturalmente no contexto da repressão estatal.
O recurso colabora para gerar efeitos não apenas de surpresa, mas sobretudo de intensificação da complexidade, como o conto “A perna” exemplifica. Sua trama se inicia repassando a rotina citadina de um desempregado que é amputado da perna direita, passa fome e está na iminência de ter de morar na rua. Só mais à frente, após recuperar a vida pregressa do personagem e situar também sua fragilidade mental, a história faz saber que se trata de uma vítima da Ditadura – com isso, faz nascer, na recepção, um acréscimo de compaixão. Mais tarde, uma nova virada ocorre, resultando outra vez numa intensificação da complexidade. Quando vai se encaminhar para o final, a história finalmente faculta compreender que o protagonista resultou, daquilo que a vida lhe fez, num assediador sexual. Ao apresentar sua trama nessa ordenação, o conto convoca a recepção a interpretá-lo como um homem que só consegue recuperar algo da possibilidade de sociabilidade que a repressão lhe subtraiu por meio do contato abusivo que estabelece com suas vítimas.
De fato, esta será uma ideia que o livro repetirá: a de que a Ditadura, quando não desaparecia com as pessoas, no mínimo tornava-as incapazes de seguir funcionais para as vidas social e pessoal. Em suma, o período mutilou a humanidade brasileira de maneira decisiva. Ao mesmo tempo, por diferentes imagens, o livro também parece sugerir que é preciso “cortar na carne” se aquilo que um país quer é realmente vencer e superar seu histórico cancro golpista e ditatorial.
Há ainda outros recursos que reincidem no conjunto, como as epígrafes de modulação bíblica, as enumerações, as chaves de ouro, as repetições formais. Um exemplo desse último recurso se faz perceber no conto “O teu sofrido povo desgarrado”. Dos 21 parágrafos do texto, 16 se iniciam com o sujeito “O presidente”; paralelamente, os que não se valem da fórmula são escolhidos para tratar do seu contraponto, um general que domina o microfone. A montagem é um dos exemplos de como, nos contos, o trabalho formal se alinha ao conteúdo e se associa a ele no estabelecimento da história.
Além da macrotemática política comum, o livro repisa, de tempos em tempos, certas imagens e perspectivas – recurso que colabora para que se estabeleça o senso geral de unidade do volume. A principal dessas recorrências é o erotismo, evocado por três de seus símbolos: a nudez feminina, a masturbação masculina e os seios (sugestivamente, sempre pequenos) das mulheres. Outros refrões, para além do sexo: o caráter espetacular das experiências sociopolíticas, o motivo religioso, a violência vinda do poder e o já citado tema da amputação.
Ainda no âmbito dos aspectos formais, destacam-se a linguagem e o vocabulário simples e fortes, de ordem direta, em consonância com a macrotemática de violência e crueza que permeia toda a obra. Sob essa perspectiva, expressões chulas próprias da oralidade – como “cão”, “cu”, “bunda”, “punheta”, “filho de uma puta” – aparecem com naturalidade, sem serem moduladas nem pelo autopoliciamento moral, nem pela afetação da sobreintencionalidade estética.
No mesmo ano em que lançou Os lábios úmidos de Marilyn Monroe, Emediato – que iniciou a carreira no jornalismo, para mais tarde tornar-se editor, ao fundar a Geração Editorial – publicou outro livro de contos de mesmo enfoque, A rebelião dos mortos (1978), e, no ano anterior, havia publicado Não passarás o Jordão (1977), livro que também orbita o tema da repressão. Contudo, após essa primeira safra, o escritor praticamente abandonou a carreira literária, tornando-se bissexto.
Em razão da temática de suas obras, Emediato também pôde experimentar algo da repressão estatal que é retratada em seus contos. Em 1976, o escritor venceu o Concurso Guimarães Rosa (com os originais de Não passarás o Jordão), mas viu a decisão ser revogada por influência da censura. No ano seguinte, venceu o Concurso de Literatura Cidade de Belo Horizonte (com A rebelião dos mortos), mas a prefeitura do município, responsável pelo galardão, retirou o prêmio, recusando-se a pagá-lo e a publicar o livro conforme mandava o regulamento.
Em 2004, o escritor Luiz Ruffato organizou o conjunto de toda essa produção Luiz Fernando Emediato – incluindo contos esparsos – em Trevas no paraíso: histórias de amor e guerra nos anos de chumbo, publicado pela editora do autor, a Geração Editorial. No livro, Ruffato divide as histórias de Emediato em três vertentes: as que fazem a denúncia da situação política via alegoria; as que aludem a essa situação por meio do realismo (eventualmente, também do realismo mágico) e as que buscam explorar a trivialidade do cotidiano.
De fato, as três perspectivas são profícuas para se mapear os principais macroaspectos formais e temáticos dos contos de Os lábios úmidos de Marilyn Monroe. Cumpre notar, complementarmente, que vários desses contos, talvez todos, intercalam em si aspectos que remetem a mais de uma vertente, quando não às três simultaneamente, variando apenas no quanto articulam cada uma delas.
Para saber mais
CUNHA, João Manuel dos Santos (2012). Seis contos na era dos generais. Revista Eletrônica Literatura e Autoritarismo, Santa Maria, n. 10, p. 131-157, set. Disponível em: http://w3.ufsm.br/grpesqla/revista/dossie10/RevLitAut_art09.pdf. Acesso em: 16 set. 2025.
DALCASTAGNÈ, Regina. O conto brasileiro durante a ditadura. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 66, p. 1-15, out. Disponível em: https://doi.org/10.1590/2316-40186606. Acesso em: 16 set. 2025.
Iconografia

