Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

A queda para o alto

HERZER, Anderson. A queda para o alto. São Paulo: Vozes, 1982.

Erick Gregner
Ilustração: Léo Tavares

“Um homem jamais morre, enquanto sua existência for recordada”. A ideia exposta nesse verso, de Anderson Herzer (Rolândia, PR, 1962 – São Paulo, SP, 1982), parece consoante com a relevância da leitura de sua obra A queda para o alto (1982). Best-seller no Brasil, o livro alcançou 26 edições até 2023 e foi traduzido para o alemão – Ich, Anderson Bigode (1990) – e para o italiano – Io, Anderson Bigode: diario di una ragazza di strada (1999). Herzer também teve poemas e uma breve biografia reunidos na coletânea Versejando (1982), obra construída coletivamente e de difícil acesso atualmente.

Em A queda para o alto, há uma questão fundamental sobre a identidade do autor, estampada nas capas das diferentes edições: a ausência do nome com o qual assinou suas memórias e seus poemas, Anderson. Em respeito ao conjunto de autonomeações e descrições que o escritor fazia de si mesmo, e também à sua assinatura na apresentação do livro e na biografia que escreveu para a publicação coletiva, nesta resenha ele será nomeado como Anderson Herzer. Compreende-se que nas décadas de 1970 e 1980 as informações sobre identidade e gênero eram outras e, consequentemente, ainda não havia direitos relacionados a nome social ou retificação de nome.

Herzer foi poeta, escritor e dramaturgo. Ficou órfão de pai e mãe antes dos 10 anos, permanecendo por algum tempo sob a tutela de tios, com os quais se mudou para São Paulo e que foram os responsáveis por sua internação na Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem-SP) – substituída pela Fundação Casa em 2006. Em sua curta vida, o autor sofreu as consequências devastadoras da negligência e do abandono familiar, além dos efeitos oriundos da incompreensão em relação à sua identidade de gênero, fato que o impeliu, devido à vulnerabilidade e violência, a sair da casa dos tios e ir morar nas ruas, onde iniciou sua dependência química.

Na década de 1980, período final da Ditadura Militar, com a lei da vadiagem ainda em vigor, crianças e adolescentes marginalizados eram capturados e enviados à Febem. Nesse contexto, muitos jovens eram mantidos em cárcere privado sem qualquer acusação, como foi o caso de “Bigode”, apelido pelo qual o escritor ficou conhecido na fundação.

Herzer, apesar das circunstâncias, nutriu afetos e cultivou seu lado artístico, especialmente com a escrita de poemas. Um de seus sonhos era publicá-los. A primeira chance que teve de editar seu trabalho originou a tentativa malsucedida de apropriação de seu trabalho pelo diretor da Febem à época, que pretendia lançar os poemas sob autoria da fundação com o título “Os menores escrevem”, a fim de promover positivamente sua gestão da instituição, apagando, consequentemente, a autoria de Herzer.

Nesse mesmo período, Bigode foi apresentado ao então deputado Eduardo Suplicy por Lia Junqueira, à época presidente do Movimento em Defesa do Menor. A partir desse encontro, Suplicy, sabendo da ausência de justificativas para a permanência de Herzer na Febem e da necessidade de alguém que se responsabilizasse por ele, dispôs-se a ser seu mentor, apoiando-o em todas as esferas de sua vida. Foi ele quem apresentou os poemas e o próprio autor a Rose-Marie Muraro, uma das diretoras da editora Vozes, que então recomendou a Herzer que escrevesse uma autobiografia a fim de somá-la aos poemas e publicá-los pela editora em um mesmo volume.

O principal objetivo da obra é denunciar as violências infligidas aos menores de idade abandonados, especialmente aqueles que viveram como internos da Febem. Com o seu texto, Herzer pretendia chamar a atenção, sensibilizar e mobilizar a sociedade em prol dos jovens excluídos socialmente.

O livro é dividido em “Parte I: Depoimento” e “Parte II: Poemas”, precedidas por dois textos introdutórios. Seguindo a proposta do pesquisador de autobiografias trans Caio Jade Costa (2022), a segunda parte do livro será apresentada primeiro, a seguir, as suas memórias e, por último, os prefácios. Dessa maneira, prioriza-se a voz autoral de Herzer, para depois se conhecer os pontos de vista dos prefaciadores. Esse movimento é importante porque as possibilidades de compreensão da identidade do autor se ampliaram, sobretudo a partir dos anos 2000, com a expansão dos debates sobre gênero na sociedade.

Em “Parte II: Poemas”, entre tristezas e sonhos, Herzer apresenta seus amores, especialmente em relação às garotas pelas quais foi apaixonado, e seus sofrimentos, sobretudo a solidão de um jovem que vivia em meio a tantas violências. O autor também escreveu poemas sobre o pai biológico, o pai adotivo e Suplicy, manifestando os sentimentos que envolviam cada uma dessas relações. Outros temas aparecem em sua poesia, como a prostituição, o cristianismo e o seu desejo de que as relações humanas não fossem permeadas por preconceitos: “Queria tanto unir todos os sentimentos / mas onde estarão eles? / Queria muito mais unir o mundo todo, queria tanto…”.

“Parte I: Depoimento” é o capítulo narrativo de A queda para o alto. Nele, o autor apresenta sua infância, ainda em Rolândia, PR, as recordações das mortes do pai, da mãe e da avó materna, e a sua mudança com os tios para São Paulo. Além disso, conta sobre sua adolescência, suas saídas noturnas, o uso de bebidas alcoólicas e medicações, bem como a relação desgastada com os tios. Em seguida, e pela maior parte do texto, Herzer se dedica a dar testemunho sobre suas passagens pelas unidades da Febem. Nesse sentido, “Depoimento” dá o tom das memórias compartilhadas pelo autor.

O primeiro capítulo do livro denuncia que grande parte dos diretores e inspetores da fundação, funcionários que deveriam gerenciar e prezar pela saúde, segurança e cuidados dos menores infratores, na realidade eram responsáveis por institucionalizar e tornar cotidiana a violência e as violações de direitos, em suas mais diversas manifestações. Além disso, esses funcionários destilavam ódio em forma de discriminações contra jovens que, assim como Herzer, não vivenciavam seu gênero e sua sexualidade segundo as normas sociais impostas.

Os dois textos introdutórios, um escrito por Lia Junqueira e o outro por Eduardo Suplicy, apresentam Herzer sob o ponto de vista dos prefaciadores, que, entre outras coisas, especulam sobre o nome e a identidade do autor. Segundo Suplicy, Herzer era uma “pessoa doce”, que ajudava a todos, mas que enfrentava dificuldades para conseguir moradia e emprego em razão da incompreensão social de sua identidade.

Em uma lista de publicações de autoria trans organizada por Amara Moira, doutora em literatura pela Unicamp, A queda para o alto figura entre os primeiros livros lançados no país. É importante pontuar que Herzer não reivindicava uma identidade trans, a qual provavelmente desconhecia. Contudo, as semelhanças entre suas experiências e as de pessoas transmasculinas, sobretudo seu pertencimento à masculinidade – essa reconhecida, censurada e punida socialmente, tanto no ambiente familiar quanto na Febem –, aproximam-no dessas vivências.

Costa, Gregner e Lugarinho (2025) afirmam que, apesar do sucesso de A queda para o alto, o livro não proporcionou o reconhecimento das afirmações de sexo/gênero de seu autor. Eles acrescentam, ainda, que isso foi reforçado pela crítica jornalística da época, que “apagou as autonomeações e expressões masculinas de Herzer”, ou mesmo “tratou o autor como alguém que teria sofrido um tipo de transformação” que incluía a alteração de nome. O assunto é tematizado em um dos poemas do livro: “E se me quer na lembrança, / guarde meu nome contigo / meu nome é nome, só nome / é simples, mas decisivo”.

A escolha do título e do nome do autor nas capas das várias edições da obra não foram de Herzer, uma vez que ele faleceu de maneira trágica pouco tempo antes de o livro ser publicado, aos 20 anos de idade. Ao que tudo indica, a opção por não acrescentar o nome Anderson ao título da primeira e das edições posteriores do livro e, em alguns casos, utilizar seu nome de registro comprovariam a dificuldade da sociedade em lidar com questões relacionadas ao gênero em um país no qual o conservadorismo e o autoritarismo continuam presentes.

Desse modo, A queda para o alto teve seu êxito atribuído muito mais ao caráter de denúncia de seu texto do que ao ineditismo de abordar o tema da identidade trans. Ao expor as experiências de menores infratores desassistidos e de suas vidas corroídas pela violência e pelo desamparo de familiares, a obra denunciou uma das instituições mais cruéis do período, criada durante a Ditadura Militar. No livro, o destaque ao abandono por parte do poder público fica evidente na crítica obstinada ao funcionamento de instituições de encarceramento no Brasil, situação que permanece ainda sem uma solução adequada, na qual prevaleça o respeito à dignidade humana.

Para saber mais

COSTA, Caio Jade Puosso Cardoso Gouveia (2022). Marcas sobre o mundo: nomeações em Anderson Herzer e João W. Nery. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade de São Paulo, São Paulo.

COSTA, Caio Jade Puosso Cardoso Gouveia; GREGNER, Erick; LUGARINHO, Mário César (2025). (Des)encontros entre A queda para o alto de Anderson Herzer e Vera de Sérgio Toledo. In: SILVA, Edimar Pereira da; CAMARGO, Flávio Pereira (orgs.). Gêneros e sexualidades dissidentes na narrativa brasileira contemporânea. 2. ed. Goiânia: Cegraf UFG. p. 31-50. [livro eletrônico]. Disponível em: https://doi.org/10.63756/CegrafUFG.GEN.ebook.978-85-495-1110-2/2025. Acesso em: 6 out. 2025.

MOIRA, Amara (2017). Quem pode se dizer homem? Revista Cult, 8 ago. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/quem-pode-se-dizer-homem/. Acesso em: 6 out. 2025.

MOIRA, Amara (s.d). Lista de publicações trans. s.l.: s.e. Disponível em: https://docs.google.com/document/d/1qKQpF_4NhcmDibNaK43OYG_izc4rFEk7/edit?usp=sharing&ouid=113008686359434640449&rtpof=true&sd=true. Acesso em: 6 out. 2025.

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GREGNER, Erick.
A queda para o alto.

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18 ago. 2026.

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8917.

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06 set. 2026.