Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Crônicas da vida operária

JATOBÁ, Roniwalter. Crônicas da vida operária. São Paulo: Global; Versus, 1978.

Mariana Moura
Ilustração: Julio Lapagesse

O dia a dia de jovens trabalhadores da indústria em São Paulo na década de 1970, a promessa de uma vida melhor na cidade grande, os sonhos acalentados pela esperança e estilhaçados pela aridez da labuta. Esse é o universo proletário que Roniwalter Jatobá (Campanário, MG, 1949) descreve em Crônicas da vida operária (1978). Finalista do prêmio Casa das Américas, de Cuba, o volume de sete contos integra a Trilogia da Vida Operária, junto com Sabor de química (1976), primeira obra publicada do autor, e o mais recente Paragens (2004), finalista do prêmio Jabuti.

Com linguagem simples, precisa e, ainda assim, poética, narrados em primeira pessoa, os contos de Crônicas da vida operária são um testemunho de quem viveu o chão de fábrica na indústria química e automobilística do ABC paulista no auge de sua expansão, que ocorreu na esteira do chamado “milagre econômico”, durante o qual o governo militar da Ditadura (1964-1985) priorizou o desenvolvimento industrial. Os empregos gerados nesse esforço ensejaram o surgimento de uma nova classe operária na região, composta, em boa parte, por migrantes nordestinos que viram aí a oportunidade de fugir da miséria e melhorar de vida. As condições de trabalho, no entanto, refletindo o ambiente autoritário que o país vivia no campo político, eram de intensa exploração, um terreno fértil para o novo sindicalismo que se desenvolveu e desempenhou papel fundamental na mobilização da classe trabalhadora e na resistência ao regime.

O relato em primeira mão de Jatobá dá uma dimensão humana e amargamente poética a um importante momento da história recente brasileira. Isso porque o próprio escritor migrou de Minas Gerais e da Bahia para a metrópole paulista e trabalhou na indústria, como os personagens que cria, antes de se formar como jornalista e passar a dar voz aos operários, instaurando a “literatura proletária brasileira”, como descreve Luiz Ruffato, citado pelo próprio Jatobá em uma espécie de prefácio da obra.

Os sete contos que compõem o livro – “A mão esquerda”, “Alojamento”, “O pano vermelho”, “Trabalhadores”, “Nos olhos, gases e batatas”, “Duas margens” e “O trem, a estação… todos os dias” – compartilham de uma mesma ambientação que dá unidade ao conjunto da obra. Os personagens transitam entre as fábricas, pensões na Rua Rangel Pestana e habitações precárias em São Miguel Paulista, em deslocamentos feitos de trem, arrastando suas malas – símbolo tão emblemático tanto do desenraizamento migratório quanto da esperança nostálgica por dias melhores –, nos ônibus e caminhões das firmas.

É no transporte, aliás, que muitos desses personagens têm a oportunidade de observar seus pares e refletir sobre a vida dura que levam, na batalha por conquistar condições de vida melhores do que aquelas das quais fugiram no campo, sobretudo no Nordeste: “As minhas mãos suavam em ver tanta gente com o mesmo jeito na fala, mas nenhum conhecido, todo mundo, eu sabia, tinha vindo do nordeste afora, de outros estados, na procura que arrasta todos nesse rumo”.

Essa procura, que une a todos, a princípio sempre impregnada de intensa esperança, sentimento que tantas vezes aparece ao longo dos contos, nos olhos dos jovens que se lançam ao mundo do trabalho, frequentemente esbarra nos desafios da vida fabril. Essa euforia não demora a ser estilhaçada pela realidade: “nunca estive, como agora, tão perto das verdades, tão vazio de esperanças, tão oco de sonhos”.

Em “Trabalhadores”, o narrador João conduz o leitor desde os deslocamentos da periferia para a cidade em busca de trabalho, passando pelas horas sem comer na fila de emprego até conseguir ter a carteira fichada. Mas isso não é garantia de sossego: mesmo com a sorte de estar empregado, a rotina laboral torna-se tensa pela constante ameaça do facão. O perigo de ser demitido sem explicação pode se abater sobre qualquer um e pressiona quem permanece a aceitar condições cada vez piores de trabalho, em jornadas que se estendem por horas crescentes e engolem até mesmo os domingos – tudo para não se tornar mão de obra descartada: “Fiquei dois anos e meio, novecentos dias esperando, toda manhã, em ser posto pra fora, vendo o medo passeando em todos, assim esperando, assim trabalhando”.

Outro desafio é o risco de sofrer acidentes de trabalho. Um dos contos que se destacam no conjunto por apresentar aspectos formais mais sofisticados é “A mão esquerda”, no qual o narrador Natanael conta sua experiência na cidade grande e na indústria se referindo a um interlocutor “você”, a quem observa na rua à espera do ônibus como se visse a si mesmo no passado, indo para o primeiro dia de trabalho, cheio de expectativas com a vida nova na cidade, mas que logo seriam frustradas pela perda de sua mão na prensa da fábrica. Antes dele, ocorreu o mesmo com seu predecessor, seu Ismael, o que leva o leitor a inferir que o jovem “você” que o narrador observa pode ter o mesmo fim.

Aleijado, resta a Natanael abrir mão do sonho da pujança urbana e voltar para a casa dos pais no interior a fim de trabalhar com o pai ferreiro, que levava semanas para realizar o serviço que a máquina fazia em poucas horas. Os avanços tecnológicos, nesse sentido, ao mesmo tempo que provocam assombro e maravilhamento, também desumanizam, massacram, não só porque mutilam, mas também porque diante da grandiosidade industrial, apequenam o trabalhador acidentado, que culpa a si mesmo pelo ocorrido: “não me veio um tico de nada de ódio da prensa, da prensa que me deixou com tocos de dedos, […] não senti raiva cega da máquina, só da minha fraqueza, do meu medo, do descuido, do choro”.

As precárias habitações que restam aos trabalhadores ocuparem na nova vida são outro desafio. No conto “Nos olhos, gases e batatas…”, elas estão expostas na descrição do quarto de pensão: “O quarto: a janela miúda, […] eu aqui olhando as pernas nuas das mulheres a cores, penduradas nas paredes descascadas e sujas de bosta de moscas que, com o calor da tarde e o cheiro fedorento da água de esgoto correndo rente à calçada, lá fora, voam desinquietas espantando o sono”. Já em “Duas margens”, é a precariedade de infraestrutura urbana da periferia que é descrita: “Aqui em São Miguel Paulista a casa é pobre, sei. Foi difícil acostumar os meninos que não deviam ficar na frente da casa por causa dos carros que passam na rua poeirenta bem apressados; se [as autoridades] cuidassem da valeta que corria perene dia e noite com cheiro de bosta […]”. Ainda assim, no mesmo conto, o narrador se alegra ao ver os filhos arranjando emprego, na sala a televisão comprada a prestações, a família em melhores condições: “É quando sempre digo: dá uma vontade de pegar todo mundo de minha terra, lá, e trazer todos aqui pra avistarem a minha sorte”.

Uma quase ausência nos contos é a de mulheres. O ambiente industrial se mostra eminentemente masculino. As poucas personagens femininas que aparecem, nunca como narradoras, são esposas ou filhas dos narradores. Mas elas também têm um papel eloquente a desempenhar, também têm uma experiência de exploração a suportar: a da reprodução social, gerando a mão de obra que futuramente vai ocupar os postos fabris.

Em “O pano vermelho”, o narrador relata os principais acontecimentos anuais em um intervalo de mais de vinte anos, desde a decisão por migrar, o emprego arranjado na fábrica de química, o casamento com Adelina, para preencher “o vazio de uma mulher”, até a aposentadoria. Em diversos dos anos que se seguiram, o único acontecimento relatado foi o nascimento de filhos, abortos, acidentes que Adelina sofreu, o desgosto de ver um filho morrer, “miséria aqui, miséria lá, aqui é cativeiro” e, por fim, a tristeza que a acometeu até sua morte.

Já no conto “Duas margens”, o narrador, ao ver a filha engravidar jovem, fora do casamento, decide levar a família para tentar a vida em São Paulo. Lá, torna-se avô e logo a filha passa a deixar o bebê na creche porque arrumou um emprego. Aliviado, ele vê nos costumes urbanos menos conservadores uma oportunidade de vida mais digna para a filha: “Aqui, nunca ninguém falou do erro de Dalva, que ela é mãe de filho sem pai, num sei mais o quê, nada disso. Logo ela arruma algum marido e vai viver a sua vida”.

O trabalhador urbano e pobre a quem Jatobá dá vida em suas Crônicas da vida operária continua a ser um protagonista poucas vezes encontrado em nossa literatura, como atestou Regina Dalcastagnè (2005) em extensa pesquisa sobre a personagem do romance brasileiro contemporâneo. Mais recentemente, o esforço de dar voz ao proletariado que Jatobá empreende encontrou eco na obra de Luiz Ruffato, em especial em Eles eram muitos cavalos (2001) e na pentalogia Inferno Provisório (2016).

Nesse sentido, a obra de Roniwalter Jatobá permanece relevante como um retrato histórico da classe trabalhadora num momento de uma pujança econômica e industrial que poucas vezes o país viu, às custas, evidentemente, de um contingente operário explorado e massacrado. As periódicas reedições que Crônicas da vida operária ganhou ao longo dos anos, desde sua publicação no fim da década de 1970, atestam a longevidade e a potência desse retrato e dessa temática na literatura brasileira contemporânea.

Para saber mais

DALCASTAGNÈ, Regina (2005). A personagem do romance brasileiro contemporâneo: 1990-2004. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 26. p. 13-71.

FANINI, Angela Maria Rubel; SANTOS, Adriana Cabral dos (2013). Trabalho artesanal e trabalho industrial como elementos de sociabilidade, subjetividade e tragédia em “A mão esquerda”, de Roniwalter Jatobá. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 42, p. 197-208.

MARQUES, Guiosepphe Sandri (2015). Construções discursivas do trabalho em Crônicas da vida operária, de Roniwalter Jatobá. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) – Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba.

MEDINA, Ettore Dias (2014). Família operária, memória e subjetividade em uma narrativa de Roniwalter Jatobá. Cadernos de Campo, Araraquara, n. 18, p. 131-145.

MONTEIRO, Ana Lúcia Barbosa; FANINI, Angela Maria Rubel (2020). As vozes em torno da obra de Roniwalter Jatobá: um contexto contemporâneo de leitura. Revista Trama, Marechal Cândido Rondon, v. 16, n. 38, p. 61-74.

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MOURA, Mariana.
Crônicas da vida operária.

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18 ago. 2026.

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06 set. 2026.