AMORIM, Paloma Franca. Eu preferia ter perdido um olho. São Paulo: Alameda, 2017.
Antonio Carlos da Silva Moraes Júnior
Ilustração: Graça Craidy
A instabilidade das formas e dos gêneros literários é uma das características mais notáveis do que se convencionou chamar de literatura contemporânea. Ao se restringir o corpus de observação à experiência da produção literária brasileira dos últimos 50 anos, tal afirmação continua válida e há um volume considerável de estudos que buscam identificar os motivos de tal hibridização nessas escritas. Eu preferia ter perdido um olho (2017), primeiro livro de Paloma Franca Amorim (Belém, PA, 1987), reflete essa tendência ao constituir-se com textos que se apresentam ora como crônicas, ora como contos e, por vezes, quimeras oriundas de um exercício de extrapolação literária da matéria vivida, assemelhando-se em feitio a textos memorialísticos e de testemunho.
Massaud Moisés (2000) observa que a crônica pendula entre o texto jornalístico e o literário e o faz ao se mostrar, por vezes, como relato frio e impessoal dos fatos e, em outras vezes, como reconstrução ficcional do cotidiano. Isso tornaria o cronista não um repórter, mas o poeta ou ficcionista da realidade, que reage de imediato aos fatos, sem esperar que o tempo assente os seus sentidos ou lhes confira o status de mito. O autor afirma ainda que quando o caráter literário da crônica assume protagonismo, ela deriva para a crônica-poema ou crônica-conto, sendo esse segundo tipo o de maior ocorrência em Eu preferia ter perdido um olho.
Os textos que compõem o livro foram originalmente publicados no jornal O Liberal, de Belém do Pará, entre 2011 e 2017, o que pode, em um primeiro momento, influenciar a percepção do leitor e levá-lo a tomar todo o conjunto presente na edição por uma coletânea de crônicas. Essa impressão poderia ainda ser reforçada após a leitura do texto de abertura da publicação, que empresta título ao livro, “Eu preferia ter perdido um olho”. Nessa crônica, a partir do relato de dois estupros que sofrera, um deles quando ainda era uma criança de seis anos, a autora constrói uma relação com um caso de estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro, em 2016, muito publicizado à época, quando uma adolescente de dezesseis anos foi vítima de 33 agressores sexuais.
Um ponto da construção desse texto de abertura salta aos olhos já durante a leitura de seu primeiro parágrafo: “No final de toda queda tem um coice. No caso de estupro é a mesma coisa: na hora em que acontece parece que o mundo está terminado, nós sequer suspeitamos que o julgamento moral do dia seguinte (se conseguirmos sobreviver) pode ser pior do que a própria violência do ato”. A autora substitui a primeira pessoa do singular, costumeira na construção do gênero crônica, pela primeira pessoa do plural “nós sequer suspeitamos […]”. Cechinato (2023) aponta que essa escolha da autora convoca uma leitura coletiva, que conversa diretamente com as mulheres vítimas de estupro, estabelecendo a autorrepresentação como técnica narrativa. Ao voltar à primeira pessoa do singular para relatar os próprios casos – “Vivi duas experiências de estupro […]” –, citando o julgamento moral ao qual foi submetida após ambos episódios, Amorim utiliza-se das possibilidades de aprofundamento psicológico que esse ponto de vista narrativo permite para expor as diferentes camadas oriundas desse tipo de violência, que não cessa no ato físico: “Solidão é o nome que dou para a dor psicológica de um estupro”. A autora, então, segue para o gatilho motivador da crônica: “A situação atroz que ocorreu com a jovem de dezesseis anos no Rio de Janeiro revela o quanto a cultura do estupro ainda é naturalizada. Os trinta e três agressores não manifestaram nenhum constrangimento ao postar o crime nas redes sociais. Esses rapazes antes de serem monstros são homens”. Ao ancorar o texto em um acontecimento demarcado no tempo e no espaço, e de notória repercussão, o caráter de crônica se mostra em sua tradicional construção.
Entretanto, se o texto de abertura da coletânea se mostra como exemplar do gênero crônica, ao longo do livro as fronteiras entre os gêneros vão se borrando e emerge o caráter híbrido já citado. No próprio parágrafo de abertura do texto seguinte, “Três notas sobre a morte”, já se pode perceber tal fenômeno: “Eu tinha um amigo que era deus e que vivia comigo. Roubávamos juntos farinha na feira da Vinte e Cinco. Era um homem e uma mulher num corpo de chuva”. Fica claro no excerto o esforço ficcional e poético empregado em sua construção, apesar de sua ligação com o concreto, a feira real de uma rua em Belém. O texto segue e cita Orfeu e Caronte, personagens que se juntam a deus em um amálgama de mitologias que é constante em todo o livro, figuras às quais os encantados e as encantarias da Amazônia vão também se juntar para construir um horizonte poético. Aqui aparece também um tema recorrente nos textos e que será explorado sob diferentes vieses, a morte, em especial a morte precoce da mãe: “Nós, de modo muito instintivo e pueril, permanecemos na terrível tentativa de buscar no invisível a presença de nossos ausentes, sem êxito. Humilhados, continuamos atravessando infernos e cemitérios para resgatar nossos amores, nossas mães, nossos mitos”.
Uma constante dos textos é o tom de desafio na narração, que não se subjuga seja perante deus, a morte, o amor, a verdade ou qualquer que seja a força de outras naturezas que procurem se impor sem questionamento: “Se estivermos no mesmo espaço, eu e deus, exijo que ele se retire”; “A verdade não quer o amor, porque ele é de mentira… E foi por isso que a verdade não me quis, porque eu sou feita de amor”. Há uma espécie de composição barroca nas imagens que a autora antagoniza a partir dessa narração. Seus textos falam de fragilidades e forças – como quando expõe a doença mental do pai –, da poética do banal, da erudição e da cultura popular, enfim, dos cheios e vazios que compõem as experiências que surgem ficcionalizadas e são mote para as reflexões propostas a partir da técnica narrativa empregada. O aprofundamento e desdobramento dessas observações em alguns dos textos da coletânea expõe, ainda, outra de suas características: um certo caráter ensaístico que se imiscui na construção literária.
Para além disso, é notável também o tom melancólico nos textos que falam de Belém. O exílio, não só espacial, mas também enquanto impossibilidade de regresso a um tempo vivido, é aspecto marcante de constituição de alguns dos contos e crônicas presentes na coletânea. Essa melancolia aparece explicitada em trechos como: “Eu me sinto bem, mas hoje é Natal e até mesmo quando me encontro no epicentro do tropicalismo, nossa Belém do Pará, eu disparo melancolias”, ou ainda oculta em símbolos clássicos de sua presença na literatura, como no caso dos espelhos e ruínas: “Desconfio ter perdido a fé. Talvez em uma dessas casas em ruínas de Belém que gosto de invadir”.
Se para Agamben (2009) a contemporaneidade representa uma relação particular com o próprio tempo, que dele se aproxima e se distancia por meio de relações ditadas por dissociação e anacronismo, pareceria estranho destacar a contemporaneidade de textos que são formatos híbridos de contos e crônicas, estas tão afeitas a uma ancoragem no tempo e no espaço reais. Entretanto, é justamente nesse trânsito entre os gêneros, o qual Paloma Franca Amorim perfaz com habilidade em Eu preferia ter perdido um olho, que está o caráter contemporâneo de seu texto. Por meio de uma prosa que demonstra recursos narrativos sofisticados, a autora paraense trata de temas caros à sociedade, em especial as questões de gênero e raça, colaborando para a construção de um corpus literário que fala de corpos e lugares diversos daqueles que historicamente compõem o cânone literário do Brasil. Após Eu preferia ter perdido um olho, Paloma Franca Amorim publicou também o romance O oito (2021) e o livro de ensaios Economia da tragédia (2025), ambos pela editora Alameda.
Para saber mais
AGAMBEN, Giorgio (2009). O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Tradução de Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos.
CECHINATO, Natalia (2023). Eu preferia ter perdido um olho: a representação do estupro, na crônica de Paloma Franca Amorim (2017). Revista Lusófona de Estudos Culturais e Comunicacionais, v. 5, n. 2, p. 19-29. Disponível em: https://revistas.ponteditora.org/index.php/naus/article/view/810/816. Acesso em: 8 set. 2025.
MOISÉS, Massaud (2000). A criação literária: prosa II. São Paulo, SP: Cultrix.
Iconografia

