TAVARES, Léo. Ruibarbo do deserto. São Paulo: Patuá, 2019.
Larissa Dantas
Ilustração: Manuela Dib
Estabelecer laços é inerente à vida humana e os humanos, portanto, estão fadados ao encontro – e ao desencontro. Léo Tavares (São Gabriel, RS, 1984), em Ruibarbo do deserto (2019), ficcionaliza essas relações. São personagens singulares e complexas que se apresentam ao leitor com sentimentos profundos de amor, amizade e compreensão, mas também de dor, raiva e desamparo. Nos 17 contos que compõem a coletânea, acompanha-se a nem sempre fácil trajetória da vida, mediante as lentes de narradores sensíveis que se utilizam de linguagem alegórica e metafórica para recriar a experiência de ser em contato com os outros.
O filósofo Emmanuel Lévinas (2010; 2023) definiu a alteridade como o encontro do eu com o outro em sua diferença, em uma relação que busca a totalidade, porém que jamais consegue alcançá-la em razão do mistério que o outro representa. Portanto, há no outro algo inapreensível, que escapa, que foge a explicações ou categorizações. Contudo, visto que o ser só encontra seu verdadeiro sentido nas relações, e que estas passam pela linguagem, a ficção pode ser o lugar em que se encena o desejo de compreensão, e é justamente nesse lugar que a obra de Tavares se coloca. Os contos do livro, dessa maneira, aproximam o leitor de questões pessoais das personagens, criando um clima de tensão que, contraditoriamente, pode despertar empatia.
A narração em primeira pessoa é predominante em Ruibarbo do deserto, e as histórias tratam de buscas interiores, escavações do eu com o intuito das personagens compreenderem quem de fato são. Entretanto, ainda que o olhar sobre si se revele central na obra, há contos em que a primeira pessoa desloca seu olhar para outra personagem, posicionando-se como observador, em uma elaboração estética da alteridade por meio da linguagem. É o que ocorre em “Mas as coisas não deixam de existir no escuro” e “Águas de Mara”, textos de abertura e de encerramento do livro, respectivamente.
Neles, os únicos dois contos em que o narrador e as personagens se repetem, Téo conta a história de seu tio, Olímpio Guerra. No encontro com Olímpio, porém – e, talvez, sem que o próprio narrador perceba – Téo acaba por narrar a si mesmo, pois é o que conta do tio que dá contornos à sua existência. Este movimento é levisiano porque demonstra que a subjetividade de Téo não precede a relação com o outro, mas sim constitui-se nela. Téo não se funde com Olímpio. Olímpio é o outro que se recusa a ser apreendido, enquanto Téo se descobre Téo porque se constitui no encontro com o tio.
No texto de abertura do livro, é apresentado ao leitor o relacionamento íntimo entre três personagens, membros de uma mesma família: os irmãos Olímpio e Lígia e o sobrinho deles, Téo. Ele é o narrador dessa história familiar que tem como ponto central o envelhecimento e o apagar da memória de Olímpio. Logo no início da narrativa, o espaço familiar é apresentado aos leitores: a casa dos tios, dois irmãos já idosos, com Lígia como responsável pelos cuidados de Olímpio, um homem perdido na demência provocada pelo Alzheimer. Téo viveu nessa casa, foi criado pelos tios e, como autointitulado “solteirão”, tem tempo para visitá-los com frequência.
O narrador expressa seu desejo de conhecer verdadeiramente os parentes idosos, que já haviam “adentrado aquele trecho final da vida”. Dando-se conta de que “eles deixariam este mundo” sem que ele os conhecesse, a vontade de montar o quebra-cabeça da memória é pungente para Téo. Ele se propõe a organizar narrativamente o que se apresenta para ele, o envelhecimento dos tios e quem eles foram e são. Especialmente tio Olímpio, que parece estar sumindo aos poucos diante dos olhos de seus familiares. O narrador, portanto, decide trazer à tona as memórias do tio, com a intenção de não deixar que elas sejam esquecidas.
Em “Águas de Mara”, anos transcorridos da morte dos tios, Téo decide viajar ao Egito para conhecer os lugares por onde passou Arthur William Jansen, arqueólogo e ex-companheiro de seu tio. Uma história completa a outra e simboliza o cerne da obra de Tavares: ninguém passa pela vida sem se conectar a outras pessoas ou sem ser afetado pelas experiências humanas ao seu redor. As palavras de Téo ressoam essa afirmação: “Penso em tio Olímpio […]. Nunca saberei os detalhes, os movimentos exatos do curso da sua vida, mas é para ele que estou vendo o que Arthur Jansen viu. E de repente sinto que todas as minhas andanças são mais que um pretexto para que eu preencha com imagens inventadas a caderneta que comprei quando comecei esta viagem, e que permanece sem nenhuma inscrição, nenhum traço”.
Nos dois contos mencionados e no que dá título ao livro, as referências ao deserto são recorrentes, seja na menção à cultura do Antigo Egito, seja na alusão à sua natureza inóspita. Há referências a um poema egípcio de 3 mil anos, oriundo de escavações das ruínas de Deir el-Medina, ou Set Maat, o “lugar da verdade”; à “caravana para a terra de Punt”, da faraó Hatshepsut, em busca de incensos; ao caminho para Canaã percorrido pelos israelitas libertados do Egito que chegam ao oásis de Mara, de águas amargas; a Kemet, terra negra e fértil trazida pelo Nilo após as inundações; à neve no deserto em Ain Sefra e ao ruibarbo do deserto, planta resiliente capaz de captar e guardar água para sobreviver.
Essas referências simbolizam a solidão e os conflitos que surgem dos relacionamentos humanos, a eterna busca por compreensão e as travessias que todos precisam percorrer para construir laços outrora destruídos (ou construir novos em lugares desconhecidos). Ainda com as inúmeras dificuldades, são essas mesmas relações que podem, inesperadamente, ser terreno fértil para o conhecimento de si e do outro. Essas alegorias e metáforas presentes nos contos de Ruibarbo do deserto não são apenas recursos ornamentais, pois estruturam a própria experiência de leitura por meio dos recursos de linguagem poética empregados.
Há, porém, em outros contos, a constatação de que ser compreendido, aceito e amado não faz parte de muitas trajetórias de vida, contrastando com a ideia sublime do encontro como algo transformador, tal como se deu com Téo e seu tio, visto que a transformação pode ser pela destruição e subjugação de outrem. Em muitos contos, personagens homossexuais, outras enlouquecidas, mulheres violentadas, por exemplo, apresentam-se marcadas pela dor do abandono, da discriminação e da violência. Tais narrativas revelam que a exclusão do outro diferente, visto como abjeto, ou daquele a quem não se deve acolher, pode dilacerar vidas e perpetuar ciclos de sofrimento.
Na orelha do livro, a escritora Natalia Borges Polesso afirma que as personagens carregam “conflitos que atravessam o tempo e põem em xeque suas existências plenas, como se dependessem um pouco desse exílio íntimo, de algum esconderijo subterrâneo, como raízes”. A partir das imagens de Polesso, pode-se vislumbrar como as dores, os sofrimentos e a solidão profunda são elaborados intimamente, como um movimento em que o narrador procura dentro de si, exilado em si, sua origem e busca, na elaboração da subjetividade, perceber a potência de se ser quem se é. Essa é uma qualidade de destaque de Ruibarbo do deserto: o mergulho em questões subjetivas que nascem, estando escondidas ou soterradas “como raízes”, e que emergem em potência, como acontece com Liliana, personagem do conto que dá título ao livro, a qual, sabendo das dificuldades vindouras, bebe água e afirma: “Estou me preparando”, feito a planta desértica, única no mundo “que irriga a si mesma”.
Léo Tavares foi premiado como contista estreante pela FestiPoa Literária, de Porto Alegre, com Os doentes em torno da caixa de Mesmer (2014) e, além de escritor, é artista visual, seara em que investe na relação entre palavra e imagem. Sua atuação diversa singulariza sua expressão literária com referências plurais, apelo imagético e linguagem poética e de profunda sensibilidade. Ruibarbo do deserto é uma obra que permite adentrar a intimidade das vidas de outros e fazer ver suas vicissitudes e potências, suas dores e temores, de modo que, nesses encontros e desencontros, em mais uma citação a Lévinas, mesmo que esse outro esteja em situação de fragilidade ou dependência, nunca se pode conhecer completamente quem ele é ou reduzir-se sua vida a uma única explicação. Talvez seja possível apenas aproximar-se por uma fresta, como propõe o autor.
Para saber mais
FLORES, Guilherme Gontijo (2018). Antes do original: a poesia amorosa do Egito Antigo. Remate de Males, v. 38, n. 2, p. 502-533. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/article/view/8652460/18885. Acesso em: 3 set. 2024.
LÉVINAS, Emmanuel (2010). Entre nós: ensaios sobre a alteridade. Petrópolis: Vozes.
LÉVINAS, Emmanuel (2023). Outro modo que ser ou Além da essência. Lisboa: Chiado Editorial (edição digital).
REFERÊNCIA GALERIA DE ARTE. Léo Tavares. Disponível em: https://www.referenciagaleria.com.br/artista/leo-tavares/. Acesso em: 12 set. 2025.
WALKER, Cameron (2004). What ancient Egyptian love poems reveal about the practice of love. National Geographic, 14 fev. Disponível em: https://www.nationalgeographic.com/culture/article/ancient-egyptian-love-poems. Acesso em: 4 set. 2024.
Iconografia

