Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

O homem vermelho

PELLEGRINI, Domingos. O homem vermelho. São Paulo: Civilização Brasileira, 1977.

Carlos Wender Sousa Silva
Ilustração: Julio Lapagesse

A produção de Domingos Pellegrini (Londrina, PR, 1949) abrange diferentes gêneros literários como contos, romance e literatura infanto-juvenil. O homem vermelho, publicado em 1977, reúne oito contos marcadamente realistas da literatura brasileira contemporânea. A obra foi o primeiro livro lançado pelo autor, tendo sido contemplada com o Prêmio Jabuti no mesmo ano. Trata-se de um livro que articula crítica social com elementos imagéticos e sensoriais a uma linguagem concisa e direta, privilegiando personagens comuns cujas trajetórias refletem tensões históricas mais amplas. 

O vermelho que marca o título, por exemplo, remete, para o autor, às cores da terra e do sangue que se incorporam à construção das personagens dos contos e suas posições no mundo. Essa tonalidade surge como cor viva que pulsa por entre veias, palavras, silêncios, rupturas e dores, ao mesmo tempo que evoca vitalidade e violência, pertencimento e conflito. Tal símbolo marca a identidade coletiva de um país, não como bandeira política, mas como reflexo de rostos diversos banhados por águas profundas de uma nação contraditória, cheia de inconsistências e incertezas, um país marcado pela poeira avermelhada que sobe com o pisar no solo daqueles que nele depositam suas esperanças.

Ao longo dos contos, o país é apresentado não como uma unidade coesa, mas como um território fragmentado, composto por arquiteturas sócio-históricas descontínuas e por contradições entre promessa e abandono, progresso e exclusão. A obra de Pellegrini constrói uma cartografia de um Brasil que se moderniza sem romper com suas bases estruturais desiguais e hierarquizadas. A narrativa privilegia personagens comuns – trabalhadores, posseiros, barrageiros, sujeitos periféricos – submetidos a forças históricas, econômicas e políticas maiores que suas posições individuais. Estradas sem infraestrutura e obras abandonadas, propriedades rurais ameaçadas e centros urbanos que ecoam projetos antagônicos e conflitantes compõem o mosaico de espaços e recortes socioculturais presentes na trama. O discurso oficial de desenvolvimento e progresso contradiz a experiência concreta de precariedade.  

O caráter inacabado das infraestruturas, as estradas intransitáveis, a degradação do valor do trabalho humano, o conflito pela terra, pequenas cidades em expansão, tudo isso funciona como metáfora de um projeto nacional interrompido. A narrativa apresenta imagens de estagnação diante da provisoriedade estrutural do nível institucional à ação mais cotidiana das personagens. Precariedade que denuncia a prevalência de certos interesses em detrimento de outros que são deixados à margem. O autoritarismo e a violência institucional também permeiam a obra. Os mecanismos de controle invadem o espaço privado, tornando-o um território de suspeita e de vigilância. Nesse cenário de exceção, o medo e o silêncio se revelam dispositivos de sobrevivência. Há também a presença de um Estado que gerencia a institucionalidade e a esfera pública de forma seletiva e desproporcional, coagindo, excluindo e oprimindo acentuadamente os atores sociais em posição de vulnerabilidade. 

A cidade, por sua vez, é representada como espaço de circulação e também de invisibilidades que não são consideradas pelo discurso desenvolvimentista, subsidiado por um projeto centrado na ideia de progresso que, todavia, convive dissimuladamente com estruturas generalizadas de informalidade, trabalho precário e fragilidade das redes de proteção social. O projeto de modernização se expande sobre o corpo ferido dos trabalhadores, que permanecem anônimos e invisíveis. 

No conto “A maior ponte do mundo”, são evidentes as condições de exploração do trabalho no campo. O barrageiro percorre barragens em busca de emprego. Jornadas exaustivas, ausência de pausas, contratos assinados sem conhecimento do conteúdo. Visitantes de terno e gravata surgem esporadicamente, com “capacete novinho na cabeça, tropeçando em tudo e fazendo perguntas”. A entrega da obra é mais importante que a vida dos trabalhadores. A ponte, símbolo máximo do progresso, ergue-se sobre uma cidadania incompleta e fragmentada, formando um quadro que aponta para uma percepção assimétrica das relações sociais, jurídicas – trabalhistas – e culturais do país.

A questão do acesso à terra também ocupa papel central nesse contexto historiográfico em “No estralar da pipoca”, por exemplo. A posse e o cultivo da terra criam tensões que evidenciam a ameaça de desapropriação imposta por uma estrutura fundiária historicamente baseada na concentração da propriedade e na experiência escravagista do país. Posseiros que já ocupam o espaço há anos se veem diante da ameaça de perdê-lo. Eles vão lembrando o que aquelas terras significam para eles e suas famílias: “Posse; a palavra faz bem, tem cheiro de porco, milho, menta, arroz, feijão”. O conto revela um conflito fundiário que permanece como uma das feridas abertas no país: afinal, os direitos fundamentais à moradia e à terra nunca foram garantidos. De um lado, o desejo de acordar no dia seguinte para trabalhar “pra amanhã pegar cedo na enxada, dá vontade de virar as leis no avesso, que nem milho estralando vira pipoca”. Do outro, a concentração histórica de terras nas mãos de poucas famílias que se beneficiam da experiência colonial e dos processos de extermínio e exclusão. O estralar da pipoca, imagem sonora e visual, traduz o impulso contido de ruptura diante de uma estrutura jurídico-política que não recepciona igualmente a todos, assim como o desejo de transformação que encontra limitações diante dessas estruturas existentes. 

As transformações do território – a mata que se converte em município, as perobas transformadas em tábuas, a chegada da televisão – indicam que a modernização implica ainda em substituições e apagamentos. O progresso, contudo, não reduz as desigualdades, mas tão-somente as reorganiza. Não há, por exemplo, inclusão substantiva nesses novos centros urbanos. O desfecho das personagens nos indica, na verdade, que a modernização brasileira ocorre de modo seletivo, beneficiando alguns grupos hegemônicos em detrimento do conjunto expressivo da população. Essa modernidade traz consigo um desejo incessante de rentabilizar as relações sociais nas diferentes dimensões da vida humana. O tempo, as artes, as relações, tudo precisa ser financeiramente justificado. O reconhecimento da cidadania passa a ser então dimensionado com base na capacidade que cada indivíduo tem de consumir ou não. O personagem que, por exemplo, migra do campo para a cidade, levando consigo a lacuna educacional e a experiência do trabalho precoce, ao se deparar com espaços abundantes de consumo – prateleiras de supermercado repletas de produtos variados –, evidencia ao leitor o contraste entre a promessa de acesso universal ao ideal de inclusão da modernidade e a realidade concreta de exclusão socioeconômica e política. O que se tem ali é apenas a reformulação das bases da desigualdade pelas atuais formas de dominação e de exclusão.  

O conjunto de contos revela, portanto, todo um projeto histórico nacional contraditório, que promete o desenvolvimento, mas que não traz mudanças substanciais em relação às desigualdades presentes no tecido social. A terra, a estrada, a fábrica, a ponte, o apartamento à venda, todos esses elementos funcionam como cenários de um país que se move, mas não necessariamente se transforma num projeto coletivo e democrático. O vermelho, que atravessa essas paisagens por meio do sangue, da terra, do trabalho, permanece como signo de um processo inacabado, direcionado aos mesmos grupos detentores do poder econômico, político e cultural. Do progresso anunciado pela siderurgia à precariedade do trabalhador informal, do direito formal à terra e à moradia à não coincidência com os fundamentos da justiça social, do crescimento da cidade como espaço de circulação intensa à invisibilidade social também crescente, todos esses antagonismos presentes em O homem vermelho revelam o descompasso entre o projeto de sociedade institucional e a experiência vivida, entre o discurso oficial e a violação à dignidade no cotidiano.

Do ponto de vista estilístico, a escrita de Pellegrini se caracteriza por uma certa objetividade narrativa, mas também pelas amplas dimensões imagéticas que esse texto literário permite ao leitor adentrar. Marcado por frases curtas e imagens concretas – como os desfechos das diferentes personagens –, o livro ganha densidades literária e estilística significativas. A posição das personagens nas histórias possibilita um efeito de proximidade em relação aos eventos que se sucedem, tornando o conjunto de contos esse mosaico representativo de uma realidade em que se pretende questionar e enfatizar omissões, silêncios e sobreposições. A crítica social emerge de forma espontânea das diversas situações narradas, do contraste entre discurso oficial e experiência concreta. Isso não quer dizer que os contos ofereçam encerramentos conciliatórios ou respostas definitivas e fechadas. Ao contrário, deixam o leitor diante de conflitos que permanecem abertos. Essa é uma opção formal – estrutural do texto – que reforça o caráter crítico da obra literária. Tais escolhas reforçam, ainda, o papel fundamental da literatura como espaço discursivo-cultural de apresentação e exposição dos projetos sociais distintos em disputa, revelando suas limitações, contradições e inconsistências. 

As personagens não são alçadas a um patamar heroico ou idealizado, tampouco são vítimas passivas desse sistema que opera a vida coletiva e institucional. Elas também oscilam entre acomodações e desejos, entre projetos e frustrações, entre ascensões e recuos. Em síntese, O homem vermelho incorpora uma diversidade de aspectos próprios da realidade brasileira: contradições, desigualdades, injustiças, lutas cotidianas de pessoas excluídas e marginalizadas, dualidade entre cidadãos e subcidadãos, entre campo e cidade. Mais do que narrar episódios isolados, o livro constrói um arranjo crítico em que cada conto dialoga com os demais, compondo uma visão integrada e panorâmica do Brasil. Em um país com tanta terra e tanta gente sem moradia, sem direitos fundamentais garantidos, permanece, ainda assim, um desejo de futuro nos pés cobertos pela poeira avermelhada de quem pisa cotidianamente essas terras tão ricas e tão desiguais.

Para saber mais

DALCASTAGNÈ, Regina (2023). O conto brasileiro durante a ditadura. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 66, p. 1-15. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/46949. Acesso em: 16 set. 2025. 

NASCIMENTO, Naiara. (2009). Uma leitura da terra e do mar em Domingos Pellegrini e Miguel Sanches Neto. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 33, p. 141-155. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/9589. Acesso em: 16 set. 2025. 

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Como citar:

SILVA, Carlos Wender Sousa.
O homem vermelho.

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mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

13 ago. 2026.

Disponível em:

8874.

Acessado em:

06 set. 2026.