Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Contos negreiros

FREIRE, Marcelino. Contos negreiros. Rio de Janeiro: Record, 2005.

Marcus Rodolfo Bringel de Oliveira
Ilustração: Julio Lapagesse

Composta por dezesseis contos (cantos, na nomenclatura escolhida pelo autor), a obra Contos negreiros (2005), lançada no início do século XXI, estabelece, desde seu título, a ligação entre o tráfico de pessoas negras escravizadas durante séculos no período de colonização e Império no Brasil e os efeitos e as metáforas que tal processo produz na atualidade nacional. A partir de um panorama de personagens majoritariamente periféricas, distribuídas por portarias de prédio, estações de metrô e viagens de ônibus, Marcelino Freire (Sertânia, PE, 1967) dá voz às mais diferentes figuras, numa associação dos desdobramentos da experiência contemporânea urbana com o passado histórico, sem recorrer a didatismos.

A escolha do termo “canto” para denominar os textos que compõem a obra evoca diretamente a epopeia, estilo literário clássico, que encaminha o leitor, novamente, para o passado histórico, indicando que o livro, desde a capa até a organização das seções, perpassando a epígrafe, tem sua origem num referencial ancestral. A capa e a quarta capa – que se mantiveram durante todas as edições subsequentes – trazem o retrato de um homem negro nu, de frente e de costas, com as tarjas do título e do código de barras na altura da genitália e das nádegas, fazendo uma relação direta, mas também metafórica, com a escravidão: a imagem, como capa do livro, simboliza uma dupla vendagem: a da obra em si, como chamariz para o leitor sobre seu conteúdo, e a dos corpos negros em contextos de servidão, históricos e contemporâneos.

Além disso, as epígrafes inicial e final são parte da composição desse panorama colonial: a primeira – “Brasil, do meu amor / Terra de nosso sinhô” – foi retirada do samba-exaltação “Aquarela do Brasil”, do compositor Ary Barroso, enquanto a segunda – “E se hoje ele é branco na poesia / Ele é negro demais no coração” – é do “Samba da Bênção”, de Vinicius de Moraes e Baden Powell. Ambas adicionam certa tensão racial, incontornável na história do Brasil, à obra, por meio da figura colonial do “sinhô” das fazendas escravistas ou da hegemonia brancocêntrica da produção literária, sublinhando de que maneira o livro aborda a noção de “negreiro” sob múltiplas perspectivas.

No gancho das expressões poéticas, como nas duas epígrafes do livro, a linguagem de Freire em Contos negreiros, apesar de ser uma obra em prosa, tem sua poesia própria como forma de resistência e crítica – retomando novamente a relação com a ideia de cantos –, desenvolvida principalmente a partir da oralidade. Há um predomínio do discurso direto em quase todos os textos que compõem a coletânea, com pouca participação de um narrador externo, deixando aos personagens o ritmo e a prosódia da narrativa, marcada por sotaques e estruturas variadas. É o caso, por exemplo, do primeiro conto, “Trabalhadores do Brasil”, constituído por longos períodos sem o uso de vírgulas, finalizados pela frase “tá me ouvindo bem?”, opondo-se à gramática normativa. A ausência de pontuação e o uso repetido dessa frase final traz uma cadência própria, próxima do registro oral, que é marca comum a vários dos textos que compõem o livro.

Ainda na seara da linguagem oral, em “Totonha”, uma senhora idosa inverte o valor do ensino acadêmico em seu forte discurso, destacando seu poder de falar e se comunicar oralmente como recurso humano superior à escrita, como um saber não hegemônico. A escrita, linguagem do outro, representaria as instituições, como a escola e o governo, distantes da realidade e da experiência da personagem, ligada aos signos da natureza, como o fogo, o cachorro e a água, alheios à escrita. A protagonista, com efeito, afirma que não vai baixar “a cabeça para escrever”, sinal de sua postura de oposição aos modelos opressores ocidentalizados e eurocêntricos de conhecimento, ressaltando, assim como toda a obra, a oralidade como parte dos valores subalternizados pela lógica colonial. É também o espaço escolar o tema do conto “Curso superior”, que tensiona a universidade como instituição potencialmente opressora no contexto das cotas, em um diálogo do narrador com a mãe sobre os medos daquela nova realidade.

O trabalho linguístico também serve como modo de se opor ao colonizador, como no texto “Alemães vão à guerra”, que narra uma ligação telefônica entre Brasil e Alemanha, na qual dois conterrâneos teutônicos conversam sobre as mulheres brasileiras, num diálogo em que o forte sotaque estrangeiro é marcado pelo uso dobrado da letra R. Esse recurso escrito-fônico amplia o absurdo e o ridículo do diálogo, em que um dos interlocutores convida o outro a vir ao Brasil realizar turismo sexual, justificando tal ideia como se o relacionamento com europeus fosse uma salvação para as “negrinhas”, retomando o ideário colonial da branquitude como desejo dos povos racializados.

A inversão dos valores coloniais é tema de outros contos, como “Solar dos príncipes”, em que jovens negros interpelam um assustado porteiro, também negro, num prédio de classe média, sobre a possibilidade de gravarem um documentário a respeito da vida daqueles moradores, ironizando a atitude contrária, mas normalizada, quando cineastas invadem casas da favela para exotizar o modo de vida dos moradores de periferias. A simples presença desse grupo, ainda que do lado de fora do condomínio, é responsável por tensionar o ambiente, como se representasse uma ameaça à integridade dos espaços que não deveria ocupar.

Esse contexto de violência também se apresenta como cenário de outros textos, como “Esquece”, que narra um roubo pela perspectiva do assaltante, denunciando a desigualdade social e a truculência policial como problemáticas que conversam diretamente com a potente epígrafe desse conto: “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, da canção homônima do grupo O Rappa. Mais uma vez, o histórico escravocrata se sobrepõe na narrativa, articulando presente e legado escravista.

A junção da inversão da lógica colonial ao contexto de violência é ressaltada pelas poéticas do empobrecimento, que unem a oralidade, o discurso de resistência e o conteúdo inesperado de alguns dos contos. É o caso de “Vaniclélia”, espécie de avesso de “Alemães vão à guerra”, em que uma ex-prostituta grávida rememora os tempos de exploração sexual que viveu junto a homens estrangeiros, às margens do aeroporto, na esperança de mudar de vida junto àqueles que a levavam “para ser escrava”. Há também uma lógica que beira o absurdo, mas que desafia ferozmente o discurso do senso comum, em “Nação Zumbi”, ao denunciar o descaso estatal da saúde pública em paralelo à violência policial na história de um homem que desejava vender seu rim num país africano. O absurdo também é a marca do conto “Linha do tiro”, estruturado como diálogo circular, e de “Polícia e ladrão”, em que dois amigos de infância, após um assalto, veem-se baleados, rememorando suas trajetórias.

Há espaço ainda para o afeto em tempos negreiros a partir da perspectiva homoafetiva em três dos contos do livro. Em “Coração”, é o desafeto, a impossibilidade amorosa mediada pelo sexo casual que dá o tom da narrativa, nos encontros fortuitos em estações de trem e banheiros, diante do que o protagonista vaticina: “Bicha devia nascer sem coração”. Em “Meus amigos coloridos”, há uma jornada pelos relacionamentos entre homens desde a infância, em um percurso urbano, e em “Meu negro de estimação”, o narrador apresenta o depoimento desconcertante sobre o marido negro, explorando estereótipos sobre cultura, sexualidade e ascensão social.

Lidando com as mais diferentes facetas da vivência negra na realidade urbana da contemporaneidade, Freire, embora não faça referências diretas ao contexto escravista e aos tumbeiros, traz de modo evidente os desdobramentos da exploração e da desigualdade sofridas pelas pessoas negras, apresentando o racismo estrutural como dado elementar dessas vivências. A partir de questões como violência, exploração, educação e saúde, o autor problematiza, em contos curtos, mas potentes, diferentes perspectivas entrecortadas pelo quesito racial.

A exiguidade dos textos serve, em contraponto, à força expressa pelo conteúdo dos contos, reiterando a técnica do gênero discutida por Júlio Cortázar em “Alguns aspectos do conto” (2006): no boxe diegético, o romance ganha por pontos, enquanto o conto ganha por nocaute. É a potência do soco final, levando à lona em pouquíssimas linhas, que orienta as narrativas do livro. Na luta com o leitor, não se sabe se o golpe vem da linguagem, do conteúdo ou do subtexto racial. Junto ao projeto gráfico e às epígrafes, os cantos negreiros constroem uma unidade que evidencia a lógica necropolítica e um colonialismo persistente.

Publicado em 2005, este foi o quarto livro de Marcelino Freire, escritor pernambucano radicado em São Paulo, autor de diversas obras, entre as quais se destacam Angu de Sangue (2000), BaléRalé (2003), Amar é crime (2010) e Nossos ossos (2013). Nome expressivo da literatura contemporânea brasileira, sua produção é reconhecida pelas temáticas sociais contundentes, linguagem ágil e ambientação urbana, com personagens atravessados por tensões raciais e violência, compondo uma marca literária que evidencia as opressões do cotidiano periférico.

Para saber mais

ANDRADE, Diego Souza de (2023). Vozes da periferia na literatura brasileira contemporânea: uma análise da obra Contos negreiros (2005) à luz dos Estudos Subalternos e da Teoria Queer. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife.

ARAGÃO, Liana (2011). Marcelino Freire: Contos negreiros. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n. 26, p. 159-162. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/9086. Acesso em: 26 set. 25.

CORTÁZAR, Julio (2006). Alguns aspectos do conto. In: CORTÁZAR, Julio. Valise de cronópio. Tradução de Davi Arrigucci Jr. e João Alexandre Barbosa. São Paulo: Perspectiva. p. 147-163.

JESUS, Marcos; CAMARGO, Flávio (2019). Representações do homem negro em Contos negreiros de Marcelino Freire. Via Litterae, Anápolis, GO, n. 11, v. 2, p. 237-252. Disponível em: https://www.revista.ueg.br/index.php/vialitterae/article/view/10645. Acesso em 26: set. 25. 

VASCONCELOS, Liana Aragão Lira (2007). Estratégias de atuação no mercado editorial: Marcelino Freire e a Geração 90. Dissertação (Mestrado em Literatura) – Universidade de Brasília, Brasília.

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OLIVEIRA, Marcus Rodolfo Bringel de.
Contos negreiros.

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12 ago. 2026.

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06 set. 2026.