CAMARGO, Oswaldo de. O carro do êxito. São Paulo, Martins Fontes, 1972.
Maria Eduarda Miranda Paniago
Ilustração: Julio Lapagesse
O carro do êxito, publicado em 1972, é o primeiro livro de contos do escritor, crítico e ativista Oswaldo de Camargo (Bragança Paulista, SP, 1936). Embora tenha sido inicialmente reconhecido por sua poesia com Um homem tenta ser anjo (1959) e Quinze poemas negros (1961), o autor causou grande impacto na literatura brasileira com sua estreia na prosa, obra que ganhou nova edição em 2021, pela Companhia das Letras – com alterações em relação à edição original. Militante do Movimento Negro desde os anos 1950, Camargo mostra em sua obra literária como o enfrentamento político também se trava no território literário, não apenas por palavras de ordem, mas por um mergulho genuíno e cuidadoso na interioridade de sujeitos por tanto tempo reduzidos a estereótipos e destituídos de subjetividade. A centralização da experiência negra é uma das marcas de seu trabalho literário e se destaca particularmente neste livro de contos.
Os catorze contos do livro, narrados em primeira pessoa, concentram-se sobretudo na experiência da negritude vivida por diferentes personagens no Brasil pós-abolição e, mais especificamente, nos círculos de uma pequena burguesia negra ascendente na São Paulo dos anos 1970. O espaço urbano é preponderante nas narrativas, ainda que haja contos ambientados em um universo mais rural, como “Maralinga”, “Por que fui ao Benedito Corvo” e “Tia Genoveva”. Este último, em sua simplicidade, contrasta com a efervescência cultural e intelectual da negritude brasileira presente nos enredos paulistanos da obra, concentrando-se sobretudo em tramas familiares.
A consolidação de um pensamento afro-brasileiro é tema fundamental nos contos, o que se pode observar a partir de elementos que reaparecem em diferentes histórias, como a Associação Negros Contemporâneos e a revista Pixaim. Nesses núcleos de convivência, geralmente associados a redações de revistas e jornais encabeçados pelos personagens, o leitor é apresentado aos prazeres e às tensões vividos por essa população negra paulistana intelectualizada, consciente de sua condição racial na sociedade brasileira. O conto “Família”, por exemplo, oferece o vislumbre de uma comunidade fortalecida de negros interessados em comunicar suas ideias e experiências por meio de publicações periódicas.
No entanto, também são tematizadas as divergências e os atritos entre os personagens negros, decorrentes de suas distintas experiências de vida. O personagem Damião, protagonista do conto homônimo, é um caso expressivo nesse sentido: o jovem é tido pela sociedade como um “preto violento” e tem uma atitude diante da discriminação racial considerada mais reativa e intempestiva por outros colegas, dos quais se afasta, acusando-os de serem “pretos burgueses”. Em contraponto a Damião, o narrador argumenta: “mas nós queríamos encontrar a escada do êxito, nos vestíamos de gravata e camisa social, é preciso, e Damião não entendia”. Nesse embate, revelam-se as diferentes estratégias de que dispõe a população negra para confrontar o racismo, em um jogo tenso entre o enfrentamento mais combativo e a assimilação mais passiva de certos contratos sociais.
Ansiando pelo “carro do êxito”, os personagens tentam, cada um a seu modo, escrever com nova tinta o futuro da população negra brasileira, antes relegada ao “carro da miséria”, como já escrevera Mário de Andrade. Muitas dessas tentativas se transfiguram, no entanto, em experiências igualmente violentas, como a separação entre um menino e seu pai, narrada no conto “Maralinga”. Após a morte da mãe, o pai, trabalhador do campo, decide entregar o garoto ao doutor Ricardo, que detém condição social abastada e afirma recebê-lo “como filho”. Em poucas páginas, Camargo retrata a herança escravocrata na ordem do dia, mascarada pela relação aparentemente cordial de quem, do alto de seu poder, diz ainda hoje: “é como se fosse da família”.
A figura do “negro excepcional” também aparece em alguns contos, figura por meio da qual os personagens podem “pegar carona” nesse “carro do êxito”. O primeiro conto, “Oboé”, conta a história de um menino negro que, por meio de seu talento musical desenvolvido no colégio, conquista certo prestígio tocando em eventos de famílias ricas. Conhecedor das obras clássicas da música ocidental, o menino é como que apadrinhado pelo Dr. Otávio, membro da Associação Negros Contemporâneos. O doutor vê nele uma contribuição para o “perfazimento da Abolição”, numa tentativa de provar aos brancos o valor do negro por meio da própria cultura branca. Já a família e os colegas do oboísta, embora compareçam sempre a suas apresentações, zombam dele e de seu instrumento esdrúxulo: “mas isso já é frescura”, dizem. Grande é a tristeza do menino ao decidir deixar para trás o seu querido oboé depois que a vereadora Madalena, representante do professorado negro na câmara, lhe explica que seu talento atrapalha a causa negra, por deixar a todos maravilhados.
As contradições internas não cessam de aparecer nas tramas do livro, evidenciando os dilemas inescapavelmente dolorosos e injustos enfrentados pelos personagens: ou precisam se esforçar por uma integração à branquitude, torcendo para nela serem aceitos, ou precisam se desfazer de partes constituintes de suas personalidades para corresponder à ideia do que se espera de um negro. Saltando de caixinha em caixinha, vivem o drama de não poder sequer ser senhores de sua própria subjetividade.
A música é, aliás, um elemento essencial na obra, conferindo dissonância aos enredos, na medida em que marca o contraste entre os universos branco e negro no Brasil. O autor explora o gênero musical como manifestação cultural capaz de materializar as diferenças sociorraciais enraizadas no país.
O interesse de Camargo pela música precede, na verdade, sua carreira literária: na juventude, estudou harmonia e órgão no seminário que frequentou, onde também começou a ler e escrever poesia. Outras marcas biográficas são perceptíveis no livro, como as referências a colégios cristãos – presentes, por exemplo, no conto “Medo” – e à cidade de Bragança, que chamam atenção em “Deodato”, o que leva parte da fortuna crítica do autor a classificar sua obra como exemplo de escrita autoficcional. Segundo Érica Luciana de Souza Silva (2021), os narradores do livro “traçam o perfil de Camargo, indo do menino filho de catadores de café no interior paulista, passando por orfanatos e conventos, até chegar no ponto em que se encontra hoje: um intelectual e escritor negro reconhecido pela crítica”.
Funcionem ou não os narradores como alteregos do autor, certo é que, por meio de suas histórias, Camargo encena os grandes dilemas de uma parcela da população negra brasileira, já há muito alforriada, mas que começa com mais afinco a liberar-se mentalmente dos grilhões que lhe foram impostos. Tudo isso potencializado pelo autoritarismo que se impunha ao Brasil à época, com a Ditadura Militar. No convívio entre os seus, os personagens encontram divergências e acolhimento. Circulando na sociedade, encontram a persistência do racismo nas mínimas sutilezas, assim como nas mais escancaradas situações. Entre as várias linhas de força que motivavam a literatura brasileira dos anos 1970, a obra de Camargo evidencia – de forma depurada e sem escorregar para o panfletário – algumas de suas principais características: o engajamento político e a resistência. Vale sublinhar, aliás, a sua participação na primeira edição dos Cadernos Negros, em 1978, publicação que reuniu colaborações de diversos intelectuais negros em enfrentamento ao regime militar. Assim, O carro do êxito reflete o compromisso ético e cívico assumido pelo autor em toda a sua atividade literária.
Com uma linguagem simples e objetiva, o autor desenvolve um estilo próprio capaz de dar conta das subjetividades complexas de cada personagem sem reduzi-los a tipos esquemáticos. Nesse sentido, a obra herda algo da concepção literária de Machado de Assis, explicada por ele mesmo no célebre ensaio “Instinto de Nacionalidade”, na medida em que põe em cena questões fundamentais da sociedade brasileira por meio da relação entre caracteres e acontecimentos do enredo, mais do que pela aposta na criação de uma cor local artificial e difusa. Assim, a obra de Oswaldo de Camargo continua a ter muito a oferecer à atual literatura brasileira e a seus leitores, uma vez que maneja com precisão a tematização dos problemas nacionais sem deixar de lado o cuidado formal e estilístico.
Para saber mais
SILVA, Érica Luciana de Souza (2021). A escrita (auto)ficcional de Oswaldo de Camargo em O carro do êxito. Literafro: O portal da literatura afro-brasileira. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/resenhas/ficcao/1632-oswaldo-de-camargo-o-carro-do-exito. Acesso em: 10 set. 2025.
SILVA, Mario Augusto Medeiros da (2021). Busca na vida rota. In: CAMARGO, Oswaldo de. O carro do êxito. São Paulo: Companhia das Letras. p. 9-16.
SOUZA FILHO, Vinebaldo Aleixo de (2012). O carro do êxito e Oswaldo de Camargo: a literatura de um negro em transição. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas. Disponível em: https://repositorio.unicamp.br/acervo/detalhe/856035. Acesso em: 10 set. 2025.
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