Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Dupla exposição

VIDAL, Paloma. Dupla exposição. Rio de Janeiro: Anfiteatro, 2016.

Edmon Neto
Ilustração: Carolina Vigna

Publicado em 2016 pelo selo Anfiteatro, da editora Rocco, Dupla exposição é um livro de contos assinado por Paloma Vidal (Buenos Aires, Argentina, 1975) em colaboração com a fotógrafa Elisa Pessoa. Composta por narrativas nas quais a palavra escrita e a imagem desempenham papéis de igual relevância no processo criativo, a obra produz significados desde a sua organização interna até a sua materialidade editorial, conduzindo o leitor a uma experiência estética e literária singular.

A dupla exposição é uma técnica fotográfica clássica que sobrepõe duas imagens capturadas em instantes distintos, fundindo-as para formar uma terceira, inédita e híbrida. O que no passado era frequentemente visto como uma falha nos fotogramas das câmeras analógicas, hoje constitui um recurso estético amplamente explorado por meios digitais. Em Dupla exposição, as fotografias de Elisa Pessoa – que flertam com o aspecto fantasmagórico de técnicas como o holograma – não funcionam como meras ilustrações ou traduções visuais do texto de Vidal. Como aponta Maria Esther Maciel (2016) no prefácio, elas estabelecem uma “relação instável” que intensifica a carga gráfica e visual do livro. Participando ativamente das narrativas, as imagens criam zonas de afinidade e dissonância: ora afirmam e negam o que está sendo contado, ora se intercalam entre os capítulos para acrescentar camadas de sentido, antecipando ou retomando os enredos.

Não por acaso, a prosa de Vidal apropria-se dessa lógica fotográfica para construir histórias experimentais baseadas no entrecruzamento de linguagens, memórias e suportes artísticos. Comentários narrativos são interpolados a citações, diálogos, descrições de exposições, álbuns de família e exercícios imaginativos de toda ordem. Nesse processo, a memória – impossível de ser capturada em sua totalidade – é justaposta a um presente ficcional, controlado por uma voz narrativa que costura os nove textos do volume. A técnica literária da escritora prioriza o informe, a incompletude, o fragmento e a fusão entre o real e o imaginário, resultando em uma performance textual que exige do leitor confiança e certa perícia. Soma-se a isso o projeto gráfico da edição: o formato quadrado remete imediatamente às antigas câmeras populares de meados do século XX, como a Kodak Instamatic e a Polaroid. O livro, portanto, informa a partir de sua própria estrutura física, reivindicando para si o status de livro-objeto ou de livro de artista.

Logo de saída, em “Please come flying” (Por favor venha voando), a narradora nos convida a ler fragmentos de Esforços do afeto (1996), na tradução de Paulo Henriques Britto para a obra de Elizabeth Bishop. Trata-se de um relato em que a escritora estadunidense aborda sua relação com a poeta Marianne Moore. A narradora-leitora de Vidal debruça-se sobre a incerteza e a ambiguidade que permeiam o texto de Bishop, situado na fronteira entre a “delicadeza” e o “melindre”. Evitando o tom categórico, a narradora utiliza a marca discursiva “leio” ao longo das citações, chamando a atenção para detalhes que passariam despercebidos em uma leitura desatenta. Ela aponta não apenas o que escapa pela voz do inconsciente, mas também o que se formula explicitamente: “Maneiras e moral; maneiras em forma de moral? Ou será moral em forma de maneiras?, murmura Bishop”.

Procedimento narrativo semelhante ocorre em “Sempre a partida”, conto inspirado no trabalho do fotógrafo Rogério Reis. Entrecruzado aos comentários da narradora, surge um diálogo, digno de uma cena cinematográfica, motivado por uma discussão de ordem aparentemente gramatical entre as expressões “que a gente pudesse” e “se a gente pudesse”. Trata-se da relação tensionada de um homem e uma mulher, “uma intimidade pegajosa entre os dois. Quase um incesto”, mas que é marcada, sobretudo, pela iminência da perda. O que se passa entre os dois é construído por meio de silêncios, pausas e interdições comunicativas, forjando uma atmosfera sugestiva, onírica e incerta em torno da frase misteriosa que intitula a história.

Destacam-se também os textos que nos deslocam para outras paisagens, carregando a mesma sensação de “sobreposição” – neste caso, gerando um imediato estranhamento geográfico e linguístico. Em “Tavistock Square”, nome de um quarteirão no centro de Londres, acompanhamos o desamparo de uma brasileira casada com um inglês, às voltas com a dupla nacionalidade do filho (“como um esquilo, mas mais assustado”) gerado por essa união. Já em “EFA”, inspirado em uma carta de Daniela Andersson para o projeto Utopia.doc, da diretora Christiane Jatahy, a relação de uma imigrante brasiliense com sua namorada alemã em Frankfurt aborda não apenas a homoafetividade e as tensões sociais decorrentes dela, mas o clássico conflito entre o nativo (estabelecido) e o estrangeiro (outsider). A protagonista, sentindo-se vigiada em um clube de natação, propõe uma reflexão sobre a nossa permeabilidade. Embora as respostas da namorada soem ásperas (“Wie im Krieg” – como na guerra), o conto sugere a busca por uma utopia: a possibilidade de mudar de língua e recomeçar “como alguém que dá a primeira braçada numa piscina”.

Caminho distinto segue “Un petit noir comme celui-là” (Um negrinho como esse aí). Desde o princípio, a esperança do menino Fabiano Santos de receber cartas do pai, preso no Brasil, é frustrada pelas negativas do carteiro em Paris, onde o garoto vive e estuda. “Você sabe que seu pai não pode te escrever, não é?”, sentencia a mãe em certa altura. A frase, alinhada ao título do conto, induz o leitor a projetar um cenário de racismo em solo europeu. No entanto, o texto subverte essa expectativa, surpreendendo o leitor quanto à verdadeira vítima da injúria. A manobra narrativa mobiliza o imaginário sobre as populações negras e expõe as armadilhas de seus preconceitos internalizados. Na imagem de Elisa Pessoa que acompanha o conto, há uma placa desfocada da Rue de Tolbiac – local onde Fabiano mora – justaposta à figura de uma criança branca com trajes de inverno, reforçando visualmente a quebra de paradigma do texto.

No conto “10 exercícios para”, tudo converge para as particularidades – e, por vezes, para a impossibilidade de representação – de uma gestação em que se espera uma menina. “Se tivesse uma menina compraria para ela uma fantasia de princesa?”. A partir de fragmentos, a narradora investiga o que se pode fazer, pensar e sentir antes e depois da chegada da filha. Debate-se o significado de ser mulher e as raízes da aversão ao feminino na sociedade, ilustrada pela menção ao caso verídico de Romeo Clarke, o menino britânico proibido de frequentar a escola de vestido por “confundir as outras crianças”. Antes mesmo do nascimento, a narradora conclui, com precisão cortante, que o que ela realmente não precisava era de um homem em sua vida.

A maternidade também atravessa “Sun in an empty room” (Sol numa sala vazia), conto cujo lirismo advém de um notável esforço imaginativo. A narradora joga com a possibilidade de ter visitado uma exposição do pintor Edward Hopper no Grand Palais, em Paris, entre 2012 e 2013. A visita real não ocorreu porque o filho de sete anos não poderia acompanhá-la devido ao frio e ao horário avançado. O texto, então, projeta essa ida à galeria com o menino e conjectura um encontro ocasional com Josephine, a esposa do artista (aqui poeticamente recriada). É essa figura que guia a visita imaginária, fornecendo os detalhes mais preciosos sobre a vida e a obra de Hopper, culminando na constatação de que “as crianças sabem mais do que nós sobre a alegria”.

Dupla exposição não apenas reflete a fusão entre a arte e a vida, mas desafia diretamente as convenções da leitura por meio de seu formato físico, de suas imagens fantasmagóricas e da prosa fragmentada de Paloma Vidal. O efeito de sobreposição, inerente à técnica fotográfica, é amplificado pelas relações instáveis entre texto e imagem, convocando o leitor a participar ativamente da montagem narrativa. Se a literatura contemporânea tem exigido uma atenção redobrada diante do hibridismo de suportes, obras como esta ensinam, na prática, o axioma formulado por Marshall McLuhan (1969) nos anos 1960: o meio é, indubitavelmente, a mensagem. Um olhar atento aos gestos estéticos de Vidal e Pessoa é um exercício indispensável para os amantes da intersecção entre arte, materialidade e literatura.

Para saber mais

BISHOP, Elizabeth (1996). Esforços do afeto: e outras histórias. Tradução: Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras.

JATAHY, Christiane. Utopia.doc. Disponível em: https://christianejatahy.com/en/creation/utopia-en/. Acesso em: 18 set. 2025.

MACIEL, Maria Esther (2016). Prefácio. In: VIDAL, Paloma. Dupla exposição. Rio de Janeiro: Anfiteatro. p. 6-7.

MCLUHAN, Marshall (1969). O meio é a Mensagem. In: MCLUHAN, Marshall: Os Meios de Comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix.

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NETO, Edmon.
Dupla exposição.

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12 ago. 2026.

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06 set. 2026.