Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

O menino grapiúna

AMADO, Jorge. O menino grapiúna. Rio de Janeiro: Record, 1981.

Carlos Wender Sousa Silva
Ilustração: João Victor Flecki

O menino grapiúna, de Jorge Amado (Itabuna, BA, 1912 – Salvador, BA, 2001), é um livro de memórias que abre as portas para uma visita à infância e juventude do escritor baiano e à construção de sua identidade, tecida no esboço das experiências sociais estabelecidas na região cacaueira, que abrange cidades como Ilhéus e Itabuna. Isso permite ao leitor compreender a obra não apenas como relato memorialístico, mas também como leitura crítica de uma formação social específica. Grapiúna, além de uma identificação geográfica, corresponde a um modo de experimentar e compartilhar a vida.

Nesse livro, o protagonista narra o avanço da plantação de cacau sobre a mata virgem, até então inexplorada, assim como o deslocamento migratório de pessoas que deixavam a seca e a pobreza do alto sertão em busca de trabalho nos cacauais do sul da Bahia. Eventos como eleições vigiadas por jagunços e epidemias de doenças que dizimavam as populações da zona do cacau, como o surto de varíola, revelam não apenas o contexto histórico, mas a naturalização da violência e da precariedade como elementos estruturantes daquela sociedade.

Além disso, as lembranças incluem atividades corriqueiras, como o encontro do rio com o mar, a movimentação dos dias de feira e a satisfação em acumular histórias e experiências vividas no cotidiano daquele povo. Em meio a esse cenário, o menino crescia e acompanhava o surgimento da cidade, da vida urbana, da primeira loja e do primeiro veículo a motor. Desse modo, o narrador aprendeu sobre as pessoas e a vida circulando por bares, salas de jogo e bordéis, e não se conformou com a imposição de pensamentos alheios e dogmáticos, muito comuns no internato do colégio dos jesuítas, onde estudou. Ele construiu um aprendizado social à margem das instituições formais, revelando o tensionamento com os modelos tradicionais de formação moral e intelectual.

Esse menino constitui, portanto, sua identidade em meio a relações sociais e de trabalho que evidenciam tanto a vitalidade quanto as contradições daquele universo: o canoeiro que passa o dia para lá e para cá levando gente e carga, o plantador de cacau que se confunde com a mata fechada, os mascates que anunciavam mercadorias diversas e os feirantes. A narrativa percorre a vida familiar e comunitária, revela os laços de amizade e expõe histórias regionais que se misturam às memórias individual e coletiva, assim como as disputas em torno da posse da terra e as lendas e mitos constituintes do imaginário das comunidades locais. São memórias de um menino que “vive entre a realidade e a imaginação”. Ele cresceu sobre uma terra violenta, em meio a epidemias e disputas armadas, ao mesmo tempo em que vivenciou momentos agradáveis ao lado do mar, entre encontros e vínculos afetivos que estabelecia ao longo da vida. Conviveu, de forma paradoxal, com experiências de afeto e práticas sistemáticas de exclusão. 

Essas memórias apresentam também aquilo que alimentou a experiência literária de Amado: “temas permanentes, o amor e a morte estão no centro de toda a minha obra de romancista”, declara. Ele foi inserido no mundo das jogatinas de pôquer, no qual coronéis e comerciantes depositavam suas sortes. Logo também conheceu as casas de mulheres, onde se deparou com “os limites extremos da miséria e da grandeza do ser humano”. Essa matéria-prima da condição humana serviu substancialmente à produção literária do escritor baiano, deslocando o foco tradicional da narrativa literária para a representação dos sujeitos marginalizados: “Que outra coisa tenho sido senão um romancista de putas e vagabundos? Se alguma beleza existe no que escrevi, provém desses despossuídos, dessas mulheres marcadas com ferro em brasa, os que estão na fímbria da morte, no último escalão do abandono”. E acrescenta: “Na literatura e na vida, sinto-me cada vez mais distante dos líderes e dos heróis, mais perto daqueles que todos os regimes e todas as sociedades desprezam, repelem e condenam”. 

Como já mencionado pelo autor, o vazio e a prepotência dos líderes e heróis não lhe interessavam, pois estes se legitimam por meio dos instrumentos de opressão e de violência. A literatura buscada por ele, ao contrário, é espaço essencialmente de liberdade, de invenção e de sonho. Trata-se de uma escrita que se alimenta das potencialidades humanas, encontradas sobretudo em espaços destituídos de poder. Assim, pode-se considerar que sua obra é permeada pelo suor, pela labuta do dia a dia, por uma espécie de sujeira que se lança sobre qualquer pretensão literária limpa, linear e idealizada. É uma literatura que não apenas recusa os modelos heroicos tradicionais, mas afirma uma estética que converte a vida ordinária em matéria central de elaboração artística e crítica social.

Amado buscou essas potencialidades na amizade, ainda na juventude, com os considerados vagabundos, os feirantes e os praticantes do candomblé. Experiências como a liberdade de sua adolescência em Salvador abriram-lhe horizontes e permitiram a construção de espaços ficcionais que captavam a dimensão humana, ou seja, sua literatura era construída tendo como base o cotidiano de pessoas comuns que dão vida à cidade e à comunidade. Além disso, o escritor apreciava o tio, a quem atribuía uma moral própria, e que apontava a heresia de um padre do colégio dos jesuítas, refutando as ideologias alienantes. O autor também leu livros apresentados por esse mesmo padre, que reconheceu nele, ainda garoto, um potencial literário. O menino grapiúna projeta, portanto, a formação autobiográfica de Amado, revelando um conjunto de relações e eventos – imaginários e reais – de sua infância e juventude que contribuíram significativamente para a formação de sua personalidade e de seu pensamento. 

Essas memórias são constitutivas da própria compreensão que o escritor baiano teve de si, da sociedade, da literatura, do ato de escrever, do papel do escritor, em suma, de todos esses debates que atravessaram toda a sua vida. As experiências narradas pelo autor remetem a outro livro conhecido, no qual há certo teor memorialístico semelhante, As palavrasLes mots –, publicado em 1964, por Jean-Paul Sartre. Na obra do escritor francês, assim como na literatura de Amado, as palavras funcionam como mediação entre experiência e escrita, evidenciando que a formação do escritor é indissociável do mundo social. No caso de Amado, ele também traduziu em palavras a imensidão de um Brasil cuja experiência é frequentemente invisibilizada ou distorcida pelos diferentes espaços de produção de sentidos e significados dessa organização social. 

A obra do autor, dessa forma, é um mosaico daquilo que há de melhor e pior no ser humano. Caleidoscópio esboçado por um menino que cresceu e amadureceu entre coronéis do cacau, jagunços, vagabundos, jogadores, trabalhadores e tantos outros grupos sociais que, de fato, atribuíam sentido à vida social e faziam parte de sua experiência vital. Nessa efervescência, ele experimentou a autonomia do pensamento e fez escolhas que lhe permitiram sonhar e enxergar outros mundos possíveis: “Não possuímos direito maior e mais inalienável do que o direito ao sonho. O único que nenhum ditador pode reduzir ou exterminar”. O sonho, portanto, é, para o escritor, um aspecto inerente à condição humana, algo que garante ao indivíduo o direito “a comer, a trabalhar, a amar”. É esse desejo de sonhar que se encontra traduzido em toda a sua obra.

Para saber mais

SILVA, Maria Cleunice Fantinati; MACIEL, Sheila Dias (2012). As memórias de Jorge Amado: O menino grapiúna e Navegação de cabotagem. Revista Moara, Belém, n. 37, p. 102-111, jan./jun. Disponível em: https://periodicos.ufpa.br/index.php/moara/article/view/1351. Acesso em: 7 out. 2025. 

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SILVA, Carlos Wender Sousa.
O menino grapiúna.

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Brasília. 

05 ago. 2026.

Disponível em:

8829.

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06 set. 2026.