Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

O que é isso, companheiro?

GABEIRA, Fernando. O que é isso, companheiro?. Rio de Janeiro: Codecri, 1979.

Lúcia Tormin Mollo
Ilustração: Ademaro Mollo Junior

É a partir da visão de um guerrilheiro que o leitor se aproxima da narrativa sobre o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, no ano de 1969. O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira (Juiz de Fora, MG, 1941), publicado em 1979, é o relato pessoal de um dos participantes do sequestro que marcou o período da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985). Na obra memorialística, ele narra a sua inserção na guerrilha, os dilemas de quem opta pela luta armada, a vida na clandestinidade, assim como detalha de que modo se deu o rapto do embaixador dos EUA e, depois, a própria prisão, que durou meses até o exílio.

A biografia de Gabeira transita entre o jornalismo, as letras e a política. Na década de 1960, ele era jornalista e trabalhava no Jornal do Brasil, ao mesmo tempo em que escrevia para o Panfleto, semanário da ala esquerda do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Passou um período em exílio no Chile e na Suécia, e, depois de voltar ao Brasil, em 1979, publicou mais dois livros em sequência: O crepúsculo do macho (1980) e Entradas e bandeiras (1981). Junto a O que é isso, companheiro?, esses outros dois títulos são considerados, por parte da crítica, uma trilogia. 

Posteriormente, Gabeira escreveu uma série de outros livros memorialísticos e de reportagens. Como político, participou da criação do Partido Verde, foi eleito deputado federal pela primeira vez em 1994 e, depois, por mais três mandatos consecutivos (1998, 2002 e 2006). Concorreu ainda à Presidência da República, à prefeitura e ao governo do Rio de Janeiro. Atualmente, é comentarista de televisão e de rádio. Seu livro de estreia ganhou notoriedade e foi adaptado para o cinema em 1997, com direção de Bruno Barreto, além de ter sido lançado também nos Estados Unidos com o nome Four days in September.

No ano da publicação de O que é isso, companheiro?, Gabeira havia chegado recentemente de um período de quase dez anos fora do país. Segundo o próprio autor, a obra foi escrita durante os anos de exílio, a partir de uma promessa feita a si mesmo: registraria suas memórias, caso conseguisse escapar das perseguições da ditadura. O Brasil caminhava para a redemocratização. Nesse cenário, a voz e os relatos do jornalista trouxeram para a superfície uma análise, até então pouco conhecida, das torturas de presos políticos e da luta armada. Na época, muito se questionava sobre a militância que pegava em armas, mesmo dentro do próprio movimento: “O caminho da tomada do poder é ou não é pacífico? Isso era mais do que uma discussão: era uma obsessão”. Gabeira, assim, retrata o guerrilheiro que resiste e combate, mas também revela aquele que foge do conflito: “Você diz que vai resistir, você parte para resistir, mas o que você vai fazer, de verdade, é fugir”.

O livro é narrado em primeira pessoa, escrito a partir do presente, por meio de um autor-narrador-personagem. A primeira edição foi feita pela editora Codecri, com integrantes do periódico O Pasquim. Essa escolha foi decisiva para a produção da obra, assim como para a inserção dela e do autor no meio literário, bem como para a formação de um perfil para o seu público: o leitor do jornal. Logo um ano e meio após a publicação, já tinham sido vendidos 100 mil exemplares (Waizbort, 2013). Atualmente, o interesse na obra continua existindo, prova disso é que a última edição foi publicada em 2016, 37 anos depois do lançamento da primeira.

O que é isso, companheiro? leva o leitor ao Rio de Janeiro da década de 1960, desde os primeiros anos sob a Ditadura Militar até o auge do autoritarismo, com a decretação do Ato Institucional n.º 5 e a intensificação das torturas e mortes. O título do livro pode ser compreendido a partir das contradições apresentadas pelo narrador em relação às escolhas políticas, às diferentes gerações, às encruzilhadas dentro do próprio movimento da esquerda e às escolhas entre quem estava na militância e quem seguia fora dela. Nesse panorama, acompanha-se a trajetória de um intelectual que decidiu pegar em armas e precisou se adaptar ao novo meio, em diferentes sentidos.

Na clandestinidade, Gabeira intensificou seus trabalhos de militante: distribuiu panfletos a operários; ligou para familiares de desaparecidos; aprendeu a usar técnicas de guerrilha, a manusear armas, a se preparar para uma possível prisão e tortura – “algo inalcançável”. Além disso, o autor mostra como alguns integrantes do movimento, incluindo ele, romantizavam a ação armada. Sair no jornal, nas páginas policiais era uma conquista. Sobre isso, ele acrescenta e explica: “a fantasia trilha caminhos que não se controlam, ali onde eu caí, qualquer um caía”.

A escrita do livro é fluida e econômica, e essa concisão parece ser uma escolha. Ao tratar de acontecimentos verídicos, Gabeira dispensa muitos detalhes, como nomes completos e contextos históricos abrangentes, e essa opção estilística levantou críticas tanto por parte de colegas militantes quanto de especialistas. O narrador admite que busca uma construção textual sem “efeitos técnicos”, e declara não ser possível “controlar” um livro. Assim, ele inicia o relato sobre o sequestro do embaixador norte-americano. Em sua memória, os detalhes do fato se acumulam e é desta forma que ele conta o que aconteceu naquela quinta-feira, 4 de setembro de 1969.

A ação foi integrada entre o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), do qual Gabeira fazia parte, e a Ação de Libertação Nacional (ALN), liderada por Carlos Marighella, que mandou dois militantes vindos de São Paulo com revólveres, rifles e metralhadoras. Com o plano pronto, eles partiram para a execução do sequestro. O resultado foi o embaixador sendo levado com um saco na cabeça, dentro de uma kombi, chegando numa casa alugada em Santa Teresa, e cercado por sequestradores “encantados” com o resultado bem-sucedido da captura.

O livro é dividido em dezesseis partes. Na mais extensa, intitulada “Onde o filho chora e a mãe não ouve”, o narrador conta sobre o tempo na prisão e as torturas. Depois da entrega do embaixador, Gabeira é preso, ocasião em que leva um tiro que atinge o rim, o estômago e o fígado. Os interrogatórios policiais começam ainda no hospital. A partir disso, o escritor passou por diversos presídios e celas no Rio de Janeiro e em São Paulo: pela Operação Bandeirantes, pelos Departamentos de Ordem Política e Social, pela Ilha das Flores, pela Ilha das Cobras, pelo 1º Batalhão de Polícia do Exército (onde funcionou o DOI-Codi), pela Ilha Grande e pelo presídio Milton Dias Moreira. Daí vem o título citado da seção do livro: são locais em que muitos presos políticos choraram sem serem ouvidos por suas mães.

Durante a escrita, o narrador se divide entre a dor, a indignação e, em certa medida, até mesmo o bom humor. Em determinado momento, escreve: “divertia-me escalando a cela como um gato e escorando nas grades para ver Santa Teresa”. Em outro, o tom muda: “Os relógios tapados ficaram para mim como símbolos da tortura… A tortura só é perfeita se o tempo não passa”. Por esse e por outros motivos, sua narrativa foi e ainda é objeto de pesquisa e análise.

Em O que é isso, companheiro?, o leitor vai encontrar uma reflexão sobre a dor física provocada pelas agressões. Devido ao seu quadro clínico agravado, algumas técnicas de tortura não foram aplicadas a Gabeira, como por exemplo, o pau de arara. Diante dessa constatação, ele levanta uma questão: “é preciso pedir desculpas por não ter sido tão torturado quanto os outros?”. A fala expõe um sentimento recorrente entre aqueles que passaram por vivências traumáticas coletivas, que muitas vezes sentem culpa pelos que não sobreviveram ou foram mais torturados: “O que adiantaria sobreviver, quando tantos, melhores do que nós, desapareciam?”.

A maioria da população desconhecia o que se passava com os presos políticos. Nem mesmo aqueles que estavam dentro do conflito armado e que se preparavam para uma possível prisão possuíam clareza dos acontecimentos: “não conseguiríamos apreender aquele processo em sua complexidade antes de vivê-lo na carne”. Por isso, é necessário ouvir as vozes daqueles que vivenciaram tal experiência. Ademais, sabe-se que, após um trauma surge a necessidade de elaboração dessa memória. Portanto, O que é isso, companheiro? pode ser visto como um relato histórico que ajudou a abrir caminho para se discutir a violência da ditadura militar, as torturas dentro das prisões e a vida daqueles que optaram pela luta armada.

Para saber mais

LÍSIAS, Ricardo (2016). O que os fortes queriam? Uma análise de O que é isso, companheiro? e Os carbonários. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 48, p. 229-246. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/10119. Acesso em: 10 out. 2025.

O QUE é isso, companheiro? (1997). Direção: Bruno Barreto. Produção: Angelo Gastal, Lucy Barreto e Luiz Carlos Barreto Mary Ann Braubach. Distribuição: Columbia Pictures do Brasil e Sony Corporation of America, 1998. Brasil. (105 min), son., color., 35 mm.

PEREIRA, Rogério Silva; CURY, Maria Zilda (2019). O que é isso, companheiro?, 40 anos: entre a autobiografia, o testemunho, a entrevista e a confissão. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, n. 73, p. 210-227. Disponível em: https://revistas.usp.br/rieb/article/view/161916/155862. Acesso em: 3 out. 2025.

WAIZBORT, Leopoldo (2013). A trilogia do retorno de Fernando Gabeira. Revista da Fundação Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro, n. 7, p. 41-92. Disponível em: https://rubi.casaruibarbosa.gov.br/handle/20.500.11997/18007. Acesso em: 17 out. 2025.

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MOLLO, Lúcia Tormin.
O que é isso, companheiro?.

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05 ago. 2026.

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06 set. 2026.