ANTÔNIO, João. Leão-de-chácara. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.
José Humberto Torres Filho
Ilustração: João Victor Flecki
A música “Esse cara”, de Caetano Veloso, é a primeira de algumas epígrafes musicais que compõem o livro Leão-de-chácara (1975) e seus quatro contos. Sussurro lamentado, o bolero gravado por Bethânia se derrama: “com seus olhinhos infantis / como os olhos de um bandido”. Nessa imagem da contradição pinçada por João Antônio (Osasco, SP, 1937 – Rio de Janeiro, RJ, 1996), o diminutivo “olhinhos” parece quase singelo demais, como se destoasse do livro por vir, que Leo Gilson Ribeiro, em resenha de 1975, classificou como “um soco”. É, antes de mais nada, um aceno para personagens e histórias que partem da vulnerabilidade de uma infância de abandono, um embate sem descanso com a vida, invariavelmente estampados nos olhos do malandro.
O bolero se mistura à ironia do samba carioca na epígrafe seguinte, do conto “Leão-de-chácara”. Em “Esquina da vida”, Noel Rosa localiza a boemia de João Antônio naquilo que ela tem de mais pungente, a consciência das desigualdades sociais e o enorme mal-estar vindo daí. Os versos cantam: “É na esquina da vida / Que eu faço o confronto / Do malandro pronto e do otário / Que nasceu para milionário”. No samba, uma esquina; na literatura, a porta de boate. De repente, como quem dá de cara com seu destino em uma rua escura, a primeira frase do conto anuncia: “O luminoso se acende e, num golpe, fixa as oito letras do nome francês e isto aqui, a que os otários e os espertinhos chamam de buate, está aberto na noite”.
A preferência pela narração em primeira pessoa demonstra o interesse pelo malandro e pelo leão-de-chácara como sujeitos, as questões que lançam sobre o mundo e a si mesmos. Como se pode notar, o ponto de vista assumido é o de quem observa a boate a partir do lado de fora. Narrador-personagem, o leão se situa neste limiar, que é a porta da boate. A adoção da perspectiva de fora sugere a consciência que o autor possuía sobre o perfil dos seus leitores e a postura literária assumida por ele, de enfrentamento às acomodações sociais. Em entrevista à revista Crítica, de 1975, João Antônio diz que o leão “é um personagem muito rico e muito dramático, é um personagem que incomoda muito, incomoda principalmente a classe que o usa”. Condensando as inquietações do livro, o leão sai do silêncio esperado do porteiro que serve para revelar que seu silêncio não é gosto de servir, mas estratégia para lidar com os otários. Apesar de estar rente à porta, o leão não é um sujeito fronteiriço. De modo geral, os demais personagens dos contos são muito bem situados socialmente e geograficamente. Advindos das periferias da cidade, seja Rio de Janeiro ou São Paulo, são pessoas marcadas pela violência das ruas e pelo forte sentimento de exclusão.
Filho de uma família pobre de São Paulo, o próprio João Antônio viveu próximo do universo que retrata. Sobre “Malagueta, Perus e Bacanaço”, conto a respeito de três jogadores de sinuca da periferia paulistana e que dá título ao seu livro de estreia, publicado em 1963, chega a dizer: “A aventura ou desventura da noite dos três jogadores, em cima da qual eu faço a novela ou conto, foi vivida por mim muitas vezes” (Antônio, 1975). Já se referindo a “Paulinho Perna Torta”, último conto de Leão-de-chácara, afirma: “não é autobiográfica, mas muita coisa daquilo foi vivenciada, foi vista, fui acompanhando”. A literatura aqui está impregnada do mundo, ou seja, nas palavras do autor, “é um corpo-a-corpo com a vida e não uma atitude literária, vazia de sentido” (Antônio, 1975).
Ainda assim, trata-se de uma obra que se faz a partir da representação do outro, o que revela certo olhar externo, curioso, até mesmo com marcas de uma perspectiva de classe média, a mesma que João Antônio busca questionar. Mesmo que por vezes o autor não consiga totalmente livrar seu texto desse olhar de fora, em seus contos não há apenas simpatia pelos personagens que atentamente observa, mas um enraizado compromisso com eles. Dito de outro modo, a literatura de João Antônio se volta para um arsenal de personagens ignoradas na história da literatura brasileira, com todos os riscos daí advindos, porque parte de uma posição política de crítica aos avanços do capital sobre a cidade.
O conto “Três cunhadas – Natal 1960” é o único do livro em que o autor deixa de lado malandros e leões para acompanhar a perambulação de um funcionário no centro do Rio de Janeiro em busca de presentes de Natal para suas cunhadas, ainda que lhe falte dinheiro para sustentar a casa e os filhos em Niterói. É também a única narrativa em terceira pessoa e se constrói pelo uso constante do discurso indireto livre: “O que esculhamba a vida da gente são as prestações”. O tom de desabafo sustenta a intromissão do personagem que nunca deixa a voz narrativa atuar sozinha: “Pobre não luta; pobre peleja”. Aqui, a incursão crítica sobre os apelos do que João Antônio chamará em obras futuras de “classe mérdea”, com a promessa inalcançável de acesso a bens e de uma experiência de pertença, ganha uma abordagem, pela primeira vez, central na contística do autor. Este aspecto passa a figurar continuamente em sua produção seguinte, encontrando no título Abraçado ao meu rancor (1986) uma das grandes imagens-síntese de sua obra.
Todos os livros de João Antônio são dedicados a Lima Barreto, um autor cuja crítica social foi interpretada como manifestação de ressentimento. Mais que dedicado, Leão-de-chácara é consagrado ao escritor fluminense. Em uma ponta, isso diz do empenho de validar o trabalho de um autor cuja história foi marcada pelo desprezo de seus pares, fruto do racismo, do incômodo às críticas tecidas à elite literária da época e, por fim, de uma boemia sabidamente rejeitada pelos imortais da Academia Brasileira de Letras. Na outra ponta, trata-se de um posicionamento do autor como herdeiro artístico e político de Lima, um modo de dar seguimento a um projeto literário que tem interesse pela vida daqueles que não convêm e pelo pessimismo crítico sobre as transformações do meio urbano.
Em João Antônio, o rancor é um catalisador de afetos como a raiva e o sentimento de injustiça, ajudando a dar vazão a um sentido de insubordinação social. Nenhum personagem ilustra tão bem isso quanto Joãozinho da Babilônia, o leão-de-chácara, narrador do conto homônimo, que encontrou o amor em Guiomar, uma “malandreca” que fala como ele, inclusive na aversão aos otários: “esta coisa nos junta – vivendo de otários, na humilhação e no vexame, tendo de suportar as vontades para levantar os tutu dos trouxas, a gente tem bronca dessa raça. Diferença séria, raiada; enrustida, represada. […] Pudéssemos, seriam esfolados vivos. Todos e sem pena”.
Desde sua estreia com Malagueta, Perus e Bacanaço (1963), o sentido de revolta já estava presente na obra de João Antônio, com certa dose de melancolia envolvida. Com Leão-de-chácara, publicado mais de dez anos depois, o autor compromete-se ainda mais com seus personagens, principalmente naquilo que eles têm de inapreensível. Alfredo Bosi (1986), a propósito de Abraçado ao meu rancor (1986), identifica “um fortíssimo pathos que vai do ódio à ternura e do sarcasmo à piedade. Ora, realismo fervido na revolta pende mais para a margem que para o centro da sociedade”. Por isso, João Antônio impregna esses indivíduos de experiências antes de tudo humanas. E nada demonstra isso tão bem como a profusão de conselhos que brota das narrativas de Leão-de-chácara, sobretudo do conto-título. “Nunca um bom conselho”, diz esse narrador, lembrando da infância difícil, para logo em seguida dividir seus próprios e muitos conselhos com o leitor: “No mundo tem dois tipos de gente: os que aturam e os que faturam. […] Cá de minha parte, tenho faturado pouco e aturado muito. Outras certezas: em lagoa de piranha, jacaré nada de costas ou procura as margens. Quem vacilar e não for duro se estrepa”.
O conto final, “Paulinho Perna Torta”, o único do livro que se passa em São Paulo, o mais extenso também, parece reunir todos esses aspectos: infância, amor, descoberta de si, do mundo e de sua crueldade, violência policial, morte, solidão, busca por pertencimento e a história de um nome que é uma alcunha, mas que nunca deixou de ser o nome possível. A vida de Paulinho Perna Torta tem a dimensão da experiência transmitida, que não pode ignorar a cidade à sua volta, porque de resto seria falsificação.
Hoje, a obra de João Antônio segue desafiando a classe média em suas acomodações, toma a literatura como um espaço de resistência e vive o desafio da representação do outro, sem se esquivar das feridas que marcam a sociedade, que fundamentam nossas desigualdades. Produção de enorme inventividade estética que se planta na terra concretada dos problemas sociais brasileiros, trata-se de uma literatura que busca modos de dizer e pensar essa sociedade, pautados na revolta dos dias.
Para saber mais
ANTÔNIO, João (1975). O [sub] mundo de João Antônio. [Entrevista concedida a] Crítica. In: ANTÔNIO, João (2002). Leão-de-chácara. São Paulo: Cosac Naify. p. 163-181.
BOSI, Alfredo (1986). Um boêmio entre duas cidades. In: ANTONIO, João. Abraço ao meu rancor. Rio de Janeiro: Guanabara. p. 5-13.
CANDIDO, Antonio. Na noite enxovalhada. Remate de Males, Campinas, n. 19, p. 83-88. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/article/view/8636100. Acesso em: 20 set. 2025.
LUCAS, Fábio (2012). Reflexões sobre a prosa de João Antônio. Remate de Males, Campinas, n. 19, p. 89-103. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/ article/view/8636101. Acesso em: 20 set. 2025.
MACEDO, Tania (2002). Malandros e merdunchos. In: ANTÔNIO, João (2002). Leão-de-chácara. São Paulo: Cosac Naify. p. 5-14.
RIBEIRO, Leo Gilson (1975). O livro que deu um soco em nosso crítico. Jornal da Tarde, 23 ago. 1975. Disponível em: https://leogilsonribeiro.com.br/volume-10/01-joao-antonio/01-o-livro-que-deu-um-soco-em-nosso-critico.html. Acesso em: 27 abr. 2026.
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