Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

O cego e a dançarina

NOLL, João Gilberto. O cego e a dançarina. São Paulo: Civilização Brasileira, 1980.

Anderson da Mata
Ilustração: Nino Palmieri

Estreia de João Gilberto Noll (Porto Alegre, RS, 1946, – Porto Alegre, RS, 2017), O cego e a dançarina apresenta, em seus 25 contos, parte importante do que viria a constituir a poética de contestação, erotismo e iconoclastia de um autor que se dedicou majoritariamente a outro gênero: o romance. Não passou despercebido, contudo, o lançamento desse volume de contos em 1980. O impacto refletiu-se não apenas nas premiações que recebeu Prêmio Jabuti, Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte e Prêmio do Instituto Nacional do Livro –, mas também na tradução para o audiovisual logo após a publicação, com a adaptação do conto “Alguma coisa urgentemente” para o cinema no multipremiado longa-metragem Nunca fomos tão felizes (1984), dirigido por Murilo Salles. Noll, que nunca deixou de escrever e publicar contos em antologias e na imprensa, apenas retornaria ao gênero em livro mais de duas décadas depois, com os experimentais Mínimos múltiplos comuns (2003) e A máquina do ser (2006). É um livro cuja atualidade se confirma, de um lado, pelo momento histórico da abertura cujos acertos, erros e omissões seguem repercutindo no presente, e de outro, pela força do estilo de Noll, que leva para a forma do conto a elaboração de um modo de presença sensual que desvia do realismo para chegar a uma abertura radical para a experiência do leitor na construção de sentidos – ou na recusa dessa obrigação.

“Alguma coisa urgentemente”, que abre o livro, é o conto de Noll que mais repercutiu ao longo de sua carreira. Não por acaso: trata-se de uma narrativa que absorve e traduz a atmosfera de expectativa e ansiedade que cercava o país naquele momento de transição – no pós-anistia, durante a abertura e antes da saída dos generais dos palácios de Brasília. Na história, um jovem narra sua infância e adolescência longe do pai — que, após anos na clandestinidade, retorna já doente e mutilado para se preparar para a morte diante dos olhos do filho. Quase nada é mencionado diretamente e não há um acontecimento que conduza a narrativa. Ela se constrói no adiamento ansioso e cheio de expectativas de um futuro que não chega – mas que não é, necessariamente, de esperança. Tudo se sintetiza na frase com que ele encerra o relato: “e eu fiquei parado na porta pensando que eu precisava fazer alguma coisa urgentemente ”.

Os espectros do autoritarismo estão presentes de diversas formas em muitos dos contos de O cego e a dançarina. Em algumas narrativas, essa presença é clara e direta, como em “Ruth”, na qual um senador prestes a ser cassado e um personagem chamado Exilado, ambos em Paris, se reencontram. Eles se ligam tanto pelo amor à mesma mulher quanto por uma trajetória comum de luta política, mostrando como a militância se entrelaça ao desejo, unindo na trama personagens em posições de poder tão distintas por suas afinidades afetivo-políticas. Isso fica ainda mais explícito em “Encontro no quarto escuro”, que apresenta a história de uma mulher que esteve presa no início dos anos 1970 e que, anos depois, encontra-se deitada com o filho de um ministro do regime, como um paradoxo do desejo, íntimo, em contraste com a política, vivida fora da cama. 

Em outra chave, de modo mais elusivo, o autoritarismo aparece na violência absurda de “O cego e a dançarina”, quando o narrador é baleado pela própria mulher que admira; ou ainda no suspense crescente de “Duelo antes da noite”, em que duas crianças caminham em tensão até o momento em que uma delas é levada por um carro misterioso, deixando em ambas um “nó no peito”, como afirma o narrador. Nessas e em outras histórias, Noll constrói atmosferas densas e inquietantes, nas quais o passado repressivo, ora passível de ser mapeado na história, ora elaborado como um mito, nunca está totalmente ausente, manifestando-se nos gestos, nas relações e nos silêncios das personagens.

A construção de uma atmosfera de incerteza, tensão e expectativa é um aspecto que ganha relevo no conjunto dos contos, mesmo sem o peso do contexto histórico marcado pela ditadura. Nesse sentido, destaca-se “O meu amigo”, que traz um narrador ressentido relatando, com crescente ansiedade, a relação ambígua com esse amigo que despreza, admira e, de algum modo, deseja. Formalmente intrincado, o texto é interrompido no momento em que o adolescente que narra explica a um estranho – um homem que fugira de um hospício e que ele encontra à beira de um lago – como pretendia matar o amigo, abrindo a possibilidade de leitura de que o plano teria sido executado contra ele mesmo. O tom soturno do conto não dispensa a sensualidade que atravessa a experiência de um adolescente às voltas com seu amadurecimento sexual.

A sensualidade associada ao absurdo e à violência é outra dinâmica presente em diferentes contos do volume, como “Irmã Linda”, narrado por uma freira de vida sexual intensa. A personagem associa o gozo à vida sem meias palavras: “não devo, porque ser freira é a morte. E eu gozo”. Explorar a relação entre o sagrado e o profano – transformando religião em culto à vida pela via da profanação – é uma das ideias que Silviano Santiago (2002), ao criticar o primeiro romance de Noll, desenvolve ao aproximar sua obra de um “evangelho” e que também vale para os textos reunidos em O cego e a dançarina. Esse sagrado, à sua maneira, expressa-se pelo modo como o desejo se torna o eixo central da experiência humana, não para tornar o texto pornográfico, mas, sim, para evitar que essa dimensão seja escamoteada em outras formas estéticas tradicionalmente vistas como mais elevadas.

Ao enfocar o desejo e a expressão das sexualidades diversas de suas personagens, o texto desvia de um realismo que situaria as figuras em tempo e espaço bem delimitados, investindo na construção de percepções individuais que acompanham homens e mulheres por vezes perdidos, confusos ou em errância. O título de um dos contos, “Cena imprecisa”, já antecipa o modo como as imagens são construídas nesses textos. O conto, marcado por uma metalinguagem que também atravessa outros textos do volume, apresenta a paisagem de uma cidade abandonada, prestes a ser tomada por uma represa. Nas memórias do narrador diante das ruínas, ele evoca a história de um jovem infeliz tragado pelas águas na relação com o pai, um macho feito de virilidade vaidosa e misoginia convencional, promotor de festas e orgias sobre a miséria. A narrativa se constrói sobre o artifício, descarnando os personagens e deixando-os como pessoas de papel que são, vivas apenas em um simulacro, ou num teatro, como afirma o narrador.

Nesse sentido, diversas expressões do desejo, buscadas na individualidade de cada experiência e de cada corpo, conferem aos textos uma materialidade que não se restringe à forma social ou à relação entre ficção e história. Elas criam uma poética de desestabilização dos sentidos, que resguarda os sentidos do texto como potência, abrindo-os a diferentes leituras como uma proposta político-estética. No caso de O cego e a dançarina, essa proposta está relacionada tanto à história de um país sob Ditadura Militar e às dinâmicas sociais de gerações em processo de profunda mudança política e social, quanto ao delírio, ao sonho, à ansiedade, ao tesão e à expectativa de que alguma coisa deveria urgentemente acontecer, enfim.

Para saber mais

AVELAR, Idelber (2014). Revisões da masculinidade sob ditadura: Gabeira, Caio e Noll. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 43, p. 49-68. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/9944. Acesso em: 20 set. 2025.

SANTIAGO, Silviano (2002). O evangelho segundo João. In: SANTIAGO, Silviano. Nas malhas da letras: ensaios. Rio de Janeiro: Rocco. p. 72-78.

SANTOS, Luis Alberto Brandão (2019). Canção de amor para João Gilberto Noll. Belo Horizonte: Relicário.

SUSSEKIND, Flora (1986). Ficção 80: Dobradiças e Vitrines. Revista do Brasil, Ano 2, n. 5.

NUNCA fomos tão felizes (1984). Direção: Murilo Salles. Produção: Murilo Salles e Mariza Leão. Embrafilme, 1984. (100 min), son., color., 35 mm.

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Como citar:

MATA, Anderson da.
O cego e a dançarina.

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Brasília. 

05 ago. 2026.

Disponível em:

8791.

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06 set. 2026.