Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

A mancha roxa

MARCOS, Plínio. A mancha roxa. São Paulo: Edição do autor, 1988.

Felipe Augusto Leite
Ilustração: João Victor Flecki

Em 1988, Plínio Marcos (Santos, SP, 1935 – São Paulo, SP, 1999) concluiu a versão definitiva de A mancha roxa. O drama começou a ser redigido em 1969 e, inicialmente, foi intitulado A noite das diabas. Ocupando um lugar singular dentro da vasta e multifacetada produção dramatúrgica de Plínio Marcos, A mancha roxa, escrita três décadas depois da primeira peça do autor, assinala seu retorno à violência característica de suas obras mais conhecidas após a breve e profícua incursão pela religiosidade subversiva de Madame Blavatsky (1985) e de Balada de um palhaço (1986). A primeira encenação do texto ocorreu em 13 de março de 1989 no Teatro do Bixiga, localizado em São Paulo, capital, e contou com a direção de Leo Lama, filho do dramaturgo.

Dando ênfase à miséria dos marginalizados e à progressiva dissolução das estruturas e dos vínculos sociais, a fábula de A mancha roxa estende-se ao longo de um ato. Para Patrice Pavis (2001), o drama em um ato desenvolveu-se sobretudo a partir do século XIX e concentra a matéria dramática em um conflito marcante ou em um episódio substancial. Sendo assim, esse tipo de peça costuma apresentar ritmo dinâmico e acelerado. Em A mancha roxa, a emergência da crise instaura uma atmosfera de tensão permanente, que avança com crescente intensidade.

Ambientada em um presídio feminino (mais precisamente em uma cela especial do presídio), a peça expõe as vísceras dos mecanismos de controle dos corpos e delineia um quadro de vida penetrado pela violência e pela morte. Na cela destinada a detentas que possuem nível superior (e que também é ocupada por mulheres que ali chegaram por intermédio da concessão de benefícios e da troca de favores), o grupo composto por Santa, Doutor, Professora, Linda, Tita e Isa vê surgir entre elas uma moléstia que, identificada pela irrupção de manchas arroxeadas na pele, é transmitida por meio de fluidos e matéria corporal: as presas entoam repetitivamente as frases “Pelo sangue. Pela porra. Pela merda”, como em um transe ou em uma litania.

Em larga medida, A mancha roxa parece evocar o contexto que abrigou a sua própria escrita. Plínio Marcos finalizou o drama no mesmo ano em que, a pedido de Dráuzio Varela, elaborou o texto Ei, amizade (1988) para uma campanha de prevenção da AIDS realizada na Casa de Detenção (SP). No entanto, o dramaturgo evita nomear diretamente a enfermidade na peça e ela apenas se manifesta como “a roxa”, elemento que extrapola a função de simples prognóstico e adquire densidade alegórica.

Se, por um lado, a mancha pode ser vista como sinal concreto de contágio (ao descobri-la nos braços de Isa, em uma passagem presente no início do texto, o Doutor assegura: “A Isa tá com a roxa. Tá com a roxa. É meu dever avisar. Não sei o que se pode fazer, mas ficamos sabendo que a mancha roxa tá aí mesmo”), por outro, corresponde à marca produzida pela violência a que as mulheres encarceradas são submetidas nesse universo regido por micropoderes, dependência química, abuso sexual institucionalizado, ausência de amparo jurídico, barganha, coerção e hierarquias internas instáveis. Desse modo, a mancha roxa simboliza a desintegração das instituições, das relações humanas e do tecido social, ultrapassando o domínio do corpo individual e incidindo, de maneira vigorosa e decisiva, principalmente ao final da peça, sobre a coletividade: “Ninguém vai escapar. A roxa pega um por um”, o Doutor sentencia.

Nessa história de mulheres roxas, a mazela transforma-se em sintoma de uma necropolítica cotidiana fundamentada no descarte de vidas presas e pobres. Destacando o caráter arbitrário das categorias de poder dentro do sistema prisional, o texto dá continuidade à investigação sobre a opressão instalada no cerne das instituições disciplinares iniciada já em Barrela (1958), que marca a estreia de Plínio Marcos na cena literária. Em A mancha roxa, o presídio surge como dispositivo que, ao promover e perpetuar violência física e simbólica, revela o fracasso do Estado. Regulando os desejos e os corpos das detentas, a cela especial consubstancia os poderes que, ao punir, abandonam; ao vigiar, corrompem; ao encarcerar, são incapazes de garantir condições adequadas àquelas que estão sob a sua tutela.

É nesse sentido que, ao encontrar “a roxa” em sua própria pele, a Professora, uma das detentas, vocifera: “Canalhas! Eu estou doente. Doente. Mas vim para cá boa. O Estado, o Estado, o Estado é responsável por mim. O Estado tem que me curar. Eu quero minha saúde. Quero minha vida. O Estado é culpado. O Estado é culpado. O Estado é culpado”. No limite, mais do que sinal de uma afecção física, a presença da “roxa” materializa uma falha estatal grave.

À medida que o contágio progride, as detentas convertem “a roxa” em um instrumento de enfrentamento contra a negligência e o descaso. Por meio de uma inversão disruptiva, a mancha, que de início surge como índice de vulnerabilidade, torna-se uma espécie de arma apontada para o Estado que condena as detentas à precariedade. Trata-se de uma atitude extrema que é assumida como forma de resistência a um sistema que as abandona e as sujeita à violência estrutural. Em sua lógica interna, esse movimento dá a ver que o corpo social, ao excluir sistematicamente essas mulheres, está sob ameaça e corre perigo: “Pra cada uma, mil! Pra cada uma, mil! Pra cada uma, mil!”, é o que indica outro bordão, reiterado várias vezes durante a peça.

Com A mancha roxa, Plínio Marcos demonstra ser um dos mais incisivos dramaturgos na representação da violência que permeia as relações humanas, sociais e interpessoais. Explorando a intersecção entre doença, cárcere e abandono estatal, o autor constrói uma topografia da opressão e configura uma densa reflexão a respeito da desumanização imposta a sujeitos marginalizados. Com linguagem agressiva e direta, a peça constrói um microcosmo atravessado por brutalidade e degradação e aproxima as dimensões estética e ética.

Em relação à composição do drama, chama a atenção a emersão de procedimentos tradicionalmente vinculados à lírica (como a polifonia de fontes enunciativas e a inserção de ritmo, melodia e música nos diálogos), o espelhamento entre os fragmentos extraídos do Evangelho (proferidos em vários momentos por Santa, uma das detentas) e o que é dito e experienciado pelas mulheres encarceradas. De fato, A mancha roxa transita em meio a uma zona de tensões, e a degradação das condições de existência nos presídios é expressa ora por meio dos recursos da poesia (“Muitas mulheres roxas / no fígado, nos rins, no martírio / roxas dilaceradas / obscuras roxas / carnes podres / almas debilitadas / podres roxas / suplicam piedade / mas nenhuma consolação / nenhuma responderá”), ora por meio da crueza do léxico e do rebaixamento do vocabulário (“Nojentas! Filhas da puta! Porcas! Estão todas empesteadas”).

Como se percebe, Plínio Marcos delineia o drama individual das detentas, isto é, o aparecimento da enfermidade, para constituir um panorama mais complexo e amplo. Partindo de uma tragédia íntima, a peça coloca em cena uma crítica sistêmica e evidencia um quadro brutal. Convocando o leitor e o espectador a focalizar a miséria, a violência e o horror que alimentam esse quadro, A mancha roxa incita à conscientização frente à dura realidade enfrentada nos presídios brasileiros, e talvez seja essa a sua contribuição mais poderosa para a dramaturgia nacional.

Para saber mais

LIMA, Rainério (2023). A mancha roxa, o teatro da peste e o direito à violência. Aletria: Revista de Estudos de Literatura, v. 33, n. 4, p. 76-95. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/aletria/article/view/44887. Acesso em: 19 out 2025.

PAVIS, Patrice (2001). Dicionário de teatro. São Paulo: Perspectiva.

PÉCORA, Alcir (2016). Atrás desses muros. In: MARCOS, Plínio. Obras teatrais: atrás desses muros. Rio de Janeiro: Funarte. p. 19-44.

SANTOS, Clóvis Domingos; MACIEL, Paulo Marcos Cardoso (2023). Um espelho sem reflexo: A mancha roxa na crítica teatral brasileira. Urdimento – Revista de Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v. 2, n. 47, p. 1-26. Disponível em: https://periodicos.udesc.br/index.php/urdimento/article/view/23074. Acesso em: 25 out 2025.

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Como citar:

LEITE, Felipe Augusto.
A mancha roxa.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

14 jul. 2026.

Disponível em:

8678.

Acessado em:

22 jul. 2026.