Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

A invenção do Nordeste

FONTES, Henrique; CAPISTRANO, Pablo. A invenção do Nordeste. In: GRUPO CARMIN. Década Carmin. Natal: Fortunella Casa Editrice, 2017.

Luan Queiroz da Silva
Ilustração: Manuela Dib

Na primeira cena de A invenção do Nordeste, peça publicada e encenada em 2017, já se enuncia a questão central que será o mote da investigação que sustenta a composição do texto de Pablo Capistrano (Natal, RN, 1974) e Henrique Fontes (Manaus, AM, 1975) para o grupo Carmin: um ator nordestino poderia representar um personagem nordestino? A pergunta, que aparece na boca de um dos personagens, estabelece-se como o ponto de partida para uma reflexão em torno das condições e do conjunto de forças responsáveis pela constituição das identidades, em especial a nordestina. Ao mesmo tempo, a interrogação colocada pela dramaturgia exibe e tensiona o questionamento a respeito da maneira com que a arte reflete e participa da concepção de um imaginário sobre essa região do país, articulando as representações do nordestino a uma série de efeitos que serão também sociais e políticos.

A invenção do Nordeste é a quarta peça do repertório autoral do grupo Carmin, companhia que nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, e que desenvolve seus trabalhos desde 2007. Com uma pesquisa que se volta ao tratamento da memória e da História, o Carmin apoia sua linguagem estética em referências e técnicas do teatro documental, além de fazer uso de elementos do audiovisual, costurando uma prática artística na qual se conjuga ainda, em muitos momentos, a apropriação do cômico e de aspectos humorísticos. A tessitura desse projeto se alinha à formulação de uma postura política e crítica, com o indicativo nas peças de um exercício que se realiza por meio de uma escavação e de uma reescrita do passado. Isso se projeta também como um questionamento do tempo presente, com a exploração nas dramaturgias de temas sociais variados, como a condição de mulheres em situação de rua, o abandono de idosos ou os hábitos da classe média brasileira.

Muitas dessas características já se fazem presentes em Jacy, de 2013, peça de ampla repercussão cujo enredo se alimenta do encontro que os integrantes do Carmin tiveram com velhos documentos e fragmentos da vida de uma senhora de 90 anos, fato que os levou ao desejo de contar a trajetória de uma mulher aparentemente comum que morou no Rio Grande do Norte. Em A invenção do Nordeste, por sua vez, há um fortalecimento dessa relação do grupo com o tratamento da memória histórica. Como indica Quitéria Kelly, atriz e integrante do coletivo potiguar, em entrevista concedida a Ivan de Melo Santos (Santos, 2018), a ideia para a peça surgiu em 2014, diante do crescimento de ataques xenofóbicos dirigidos a nordestinos durante a disputa presidencial que culminou com a reeleição de Dilma Rousseff. Foi ali que nasceu nos artistas a vontade de investigar como se constroem e se manifestam os clichês sobre o Nordeste, em uma busca que ganharia fôlego, posteriormente, no contato dos atores com as contribuições oferecidas pela leitura do livro A invenção do Nordeste e outras artes (2009), do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr.

De acordo com Albuquerque Jr. (2009), mais do que apenas uma região dotada de traços naturais, econômicos, políticos e sociais, o Nordeste é resultado de uma série de construções imagético-discursivas estabelecidas ao longo de muitas décadas e responsáveis por moldar e modular os sentidos individuais e coletivos que são difundidos sobre esse espaço geográfico. Essas construções, fabricadas por instâncias como o discurso sociológico, mas também pela literatura, pelo cinema e por outras artes, teriam, na reflexão do historiador, intensificado uma homogeneização do imaginário disseminado a respeito do Nordeste e dos nordestinos. Tal homogeneização traria como efeito o apagamento das diferenças e das especificidades que marcam os nove estados da região, em nome do ideal de uma suposta essência capaz de capturar e sintetizar uma identidade que, na verdade, é heterogênea e diversa.

É justamente essa reflexão que conduz A invenção do Nordeste. Na peça de 2017, o enredo que se desenrola tem como núcleo a preparação de dois atores, Mateus e Robson, que, após uma série de entrevistas e testes, foram escolhidos para a última etapa de uma seleção que tem como objetivo a convocação de um ator que representará, em uma grande produção, um personagem nordestino. Como supervisor e avaliador dos intérpretes está Henrique, um diretor contratado por uma produtora “de fora” que direciona Mateus e Robson na busca por uma voz e por expressões categorizadas como tipicamente nordestinas. Nessa lógica, a adequação dos atores ao papel se liga à capacidade de cada um deles de se aproximar o máximo possível de um repertório já compartilhado sobre a região nordestina, imprimindo e emulando elementos e códigos associados ao que, em dado momento da dramaturgia, classifica-se como um “nordeste familiar”.

No processo de descoberta desse “nordeste familiar”, o que a peça explora são algumas das imagens enraizadas sobre a região, e que passam, por exemplo, pela discussão a respeito do jeito de corpo e do sotaque “perfeitos” para uma representação fidedigna do estilo de vida daqueles que pertencem à região ou pela indicação de que seria impossível um tratamento da realidade nordestina sem a exposição de temas como a seca, o coronelismo e o cangaço. Na articulação dessas imagens, o que se produz ao longo da dramaturgia é uma espécie de ganho de consciência, por parte dos aspirantes ao tão desejado papel, da artificialidade dessa construção idealizada sobre uma região tão complexa. Isso é ressaltado, ao final, com o anúncio de que, ironicamente, após todos os esforços dos atores para imprimir uma “nordestinidade” durante a preparação e os ensaios, quem ficaria com o personagem seria Cauã Reymond, um ator carioca. Como reação à notícia, Mateus, então, pergunta-se e pergunta a Robson: “Será que a gente não consegue representar o lugar que a gente mesmo inventou?”.

O desconforto e a decepção que se manifestam na fala do personagem também orientam o olhar para a forma escolhida pela dramaturgia, que, dividida em movimentos (oito, no total), apropria-se da metalinguagem como recurso de composição dramatúrgica, colocando em cena os próprios bastidores da criação de um processo artístico. Essa escolha, que faz com que a peça se apresente como a preparação para uma produção por vir, ajuda a apontar como o espaço da representação, incluindo o da representação dramática, participa diretamente da configuração de imagens e de um repertório muitas vezes limitante sobre o Nordeste, ao mesmo tempo em que pode se tornar refém desse mesmo imaginário.

Isso se torna particularmente importante ao se observar o percurso de um grupo como o Carmin, que, surgido em Natal, tem, ao longo de sua trajetória, não só se desvencilhado de concepções estereotipadas acerca da cultura e da vivência nordestinas, bem como tem operado com um deslocamento crítico dessas imagens genéricas. Nessa perspectiva, não parece mera coincidência que os nomes dos personagens da peça se confundam com os nomes de alguns dos próprios integrantes do coletivo potiguar que aparecem em cena – Henrique Fontes, Mateus Cardoso e Robson Medeiros –, em um movimento que põe em xeque os limites entre o “real” e o ficcional e abre a possibilidade de leitura a respeito de quanto a memória dos atores, incluindo a experiência que eles têm como artistas nordestinos, também contribuiu para a construção da dramaturgia.

Nesse sentido, o que se organiza em A invenção do Nordeste é uma retomada irônica de algumas das representações associadas ao território nordestino. O que a dramaturgia agencia, afinal de contas, é o quanto essas representações que se lançam à missão de pensar o Nordeste como uma essência deveriam ser vistas sob suspeita, propondo uma reescrita da relação estabelecida com essa perspectiva que por tantos anos ambicionou, e ainda ambiciona, encontrar no nordestino uma autenticidade ou um traço identitário totalmente definido e definitivo.

Para saber mais

ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de (2009). A invenção do Nordeste e outras artes. 4. ed. Recife: FJN; Ed. Massangana; São Paulo: Cortez.

PENHA, Alexandre Vinícius Xavier (2021). A invenção do Nordeste, do grupo Carmin: mediações entre teatro, história e memória. Dissertação. (Mestrado em Letras) – Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR.

SANTOS, Ivan de Melo (2018). História em cartaz: o teatro documental do Grupo Carmin, um exercício de história pública. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN.

Página sobre o grupo na Enciclopédia do ItaúCultural. Acesso em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupos/81576-grupo-carmin. 29 maio.2026.

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Como citar:

SILVA, Luan Queiroz da.
A invenção do Nordeste.

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mapeamento 

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literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

07 jul. 2026.

Disponível em:

8415.

Acessado em:

22 jul. 2026.