Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Trilogia Abnegação

DAL FARRA, Alexandre. Trilogia Abnegação. Belo Horizonte: Javali, 2017.

Artur Sartori Kon
Ilustração: Léo Tavares

Trilogia Abnegação é um ciclo dramático escrito por Alexandre Dal Farra (São Paulo, SP, 1961) para montagens estreadas em 2014, 2015 e 2016 por seu grupo, o Tablado de Arruar (nome posteriormente alterado para Tablado SP). O conjunto de textos tem como premissa a recusa de uma avaliação apressada a respeito do cenário político nacional, bem como de qualquer pretensão de superioridade crítica ou posição de exterioridade em relação à realidade criticada. Ler a trilogia hoje pode ser uma tarefa difícil, devido à pouca distância em relação a acontecimentos recentes da política brasileira.

Como a maior parte da obra dramatúrgica do autor, a trilogia é uma imersão no que há de absurdo e contraditório na política brasileira contemporânea, sendo esse efeito imersivo intensificado pela proximidade temporal excessiva entre a obra e os acontecimentos que nela são refletidos. A ação da peça revela não as mazelas de um sistema político do qual o artista se coloca como opositor virtuoso, mas antes algo estarrecedor, e até monstruoso, dentro do próprio campo ideológico do autor, que é o da esquerda brasileira. Nesse caso, o espectro referido aparece tal como organizado desde o fim da Ditadura Civil-Militar, posteriormente dominado pelo Partido dos Trabalhadores e principalmente configurado a partir da chegada dele ao poder no século XXI.

Em Trilogia Abnegação se vê, segundo Luiz Fernando Ramos (2017), “o derreter de um projeto emancipatório galvanizador das esperanças de milhões de brasileiros”, de modo que o leitor se enxerga tragicamente lançado “do cume da expectativa radiante ao fosso do árido deserto”. Desse modo, não parece haver um intuito reacionário, mas antes um efeito provocativo ou polêmico, não por acaso recebido com incompreensão e até acusações de “fazer o jogo da direita” quando esse espectro político voltava a ganhar espaço, ameaçando voltar ao poder e destruir conquistas de três mandatos presidenciais do PT (Martins, 2022).

Diante desse cenário, “Abnegação 1” encena a reunião secreta de um partido numa fazenda no interior de São Paulo, durante a madrugada. Celso, Jonas, José e Paulo estão ali para lidar com uma situação desconhecida para o leitor/espectador, referida como “o nosso problema” ou “o acidente”. Adiante, os personagens citam uma relação aparentemente ilícita com empreiteiras, mas não há exatamente a discussão de uma solução para o problema apresentado, apenas digressões, desvios e desavenças sobre questões menores.

Em dado momento, Celso e José brigam acaloradamente, e sabe-se que há alguns documentos importantes referentes ao caso, mas o leitor não tem conhecimento do conteúdo deles. Em vez da exposição do que há de relevante nessa documentação, acompanham-se os gritos e a violência que se desencadeiam nas discussões. Aos poucos percebe-se que os próprios personagens não entendem bem as regras do caso: a linguagem, mais do que um código interno que o leitor não acessa, mostra a falta de clareza e o desentendimento entre os participantes da reunião.

Uma quinta personagem, Flávia, entra em cena e parece só estar no local para servir café e bebidas, mas, aos poucos, revela-se peça importante do mistério: aceita propina para se manter em silêncio, declara estar ali por convicção e fidelidade (uma vez que dedicou mais de dez anos ao partido) e sugere um possível passado amoroso com um dos homens. Por fim, uma breve segunda cena, fora da casa, encerra a peça, sem explicações. O espectador fica apenas com a imagem de Celso sujo, impregnado do mau cheiro de matéria em decomposição oriundo de um silo de sementes da fazenda, terminando a peça de modo brusco.

“Abnegação 2: o começo do fim” faz referência ao assassinato nunca esclarecido do petista Celso Daniel, então prefeito de Santo André, em 2002, que aparece como inspiração para a história do personagem Jorge, ou seja, não há caráter documental no texto. Acompanha-se, pois, a crônica de uma morte anunciada desde a primeira cena, que se inicia com a comemoração da eleição de Jorge, “transtornado” com o enriquecimento de colegas do partido. Ele declara ter feito um dossiê sobre o assunto, enquanto seus companheiros tentam dissuadi-lo de uma possível denúncia. A menção aos colegas de Jorge, que reconhecemos como sendo personagens de “Abnegação 1”, parece localizar temporalmente a ação da segunda peça antes da primeira.

Ao longo da peça, a consciência do escândalo e do risco de vida vai fazendo com que Jorge mergulhe em uma loucura hamletiana, real ou encenada, enquanto as demais personagens tentam manter a aparência de normalidade. Mesmo diante do absurdo e do horror, as ações são justificadas pelas personagens como partes necessárias do “caminho para o socialismo”. Porém, entremeadas às cenas em que é contado o caso do assassinato de Jorge, surgem outros episódios que não têm relação com ele, nos quais personagens anônimos vivem e descrevem violências gratuitas, quase nonsenses. Desse modo, parece impossível definir se a contraposição entre esses dois tipos de cenas deveria produzir um efeito de contraste ou se, pelo contrário, essa construção funcionaria como duplicação da narrativa principal: a história de como “mataram uma utopia”.

“Restos: Abnegação 3” se afasta das peças anteriores por não continuar a narrativa, criando antes um “prisma multiplicador” (Ramos, 2017) com cinco contextos sociais diferentes, de cenas unidas pelo contraste entre passado de luta política e presente de conformismo e desilusão. Na casa dos herdeiros ricos (cenas I e VI), há uma mulher que participou da luta armada, e que agora lida com a culpa por ter uma empregada doméstica, e um jovem aspirante a empreendedor. Numa casa de classe média (cenas II e VII), dois homens que trabalham no Partido dos Trabalhadores disputam a mesma mulher: o ex-marido, que nunca conseguiu um cargo profissional, vê o concorrente, advogado bem-sucedido, como sintoma de uma rendição à vida burguesa, não mais “capaz de ser transformadora”. Já na residência da nova rica (III e VIII), a filha recebe seu pai, um ex-guerrilheiro, separado da dona da casa, decadente e sem teto, desgostoso com o enriquecimento da ex-esposa e com as novas gerações, que vê como “jovens e ignorantes”. Ele está desiludido com “esse país [que] não tem mais futuro”. Acompanha-se também um padre (possivelmente ex-guerrilheiro) que visita um apartamento pobre na Cohab (cenas IV e IX), onde morou no passado, local do qual tem boas lembranças e para onde deseja voltar – seja por uma estranha valorização da miséria ou para fugir de bandidos que o perseguem. Além disso, há a casa de um oficial (cena V), onde um homem com passado de luta clandestina decide abandonar a família e uma vida estranha e sem sentido que o levou a conviver com o desprezado cunhado militar.

Como se vê, se a trilogia começa com uma forma dramática clássica, não apenas seguindo as três unidades aristotélicas de ação, tempo e espaço, mas concentrando tudo em um único momento dramático, na peça seguinte é instaurada uma cisão entre dois tipos de cena: uma principal que conta a história e outra que lhe contrapõe imagens de violência sem referenciar nomes nem lugares. Por fim, a última peça se divide em vários cenários independentes, nenhum mais importante do que o outro. Temos, ao longo das três partes, portanto, um “caminho de destruição”, ou de fragmentação e despersonificação crescentes, “apontando, assim, para a universalidade da ruína” (Pinto, 2024).

Ao mesmo tempo, há uma diminuição das indicações cênicas. “Abnegação 1” tem rubricas abundantes e, em alguns casos, grandiosas – “três silos de armazenamento de 20 metros de altura”, “trinta carros oficiais” –, sugerindo uma abordagem realista, “cinematográfica” (Ramos, 2017), ou que exige recursos épicos para ser encenável. “Abnegação 2” ainda traz rubricas, de tamanho médio, contextualizando as cenas e descrevendo as ações, que ainda têm grande importância. Finalmente, “Restos: Abnegação 3” quase dispensa por completo essas indicações. Esse procedimento parece corresponder à escolha da primeira encenação, em que os atores ficavam parados, sentados em cadeiras e olhando para a frente, sem sequer contracenar propriamente. Fica evidente “a concentração do autor nas falas, que jorram violentamente […], e menos no ajuste dos fatos da suposta trama” (Ramos, 2017). O ciclo todo opera uma tensão interna no realismo dramático, forçando seus limites “não com procedimentos habituais de distanciamento”, mas expondo “um discurso explícito demais, consciente demais […] absolutamente violento, como se as personagens não tivessem superego a lhes frear palavras e ações”: trata-se de um “cinismo psicótico” (Kon, 2017) que move a sociedade brasileira. Mas há uma diferença determinante entre as duas primeiras partes e a terceira: naquelas estão ausentes “recursos antirrealistas que nos levem à identificação com as personagens (e portanto à autocrítica)” (Kon, 2017). Corre-se o risco de transformá-las em monstros morais, ou, pelo contrário, de fetichizar a violência como elemento disruptivo do conformismo. A última peça alcança – tanto no texto como na encenação – um impactante procedimento genérico, incluindo leitores e espectadores no horror encenado.

Para saber mais

MARTINS, Alexandre Ferreira Dal Farra (2019). [Entrevista concedida a] Isabel Diegues, José Fernando Peixoto de Azevedo e Kil Abreu (org.). Maratona de dramaturgia. Rio de Janeiro: Cobogó; São Paulo: Edições SESC, p. 17-37.

MARTINS, Alexandre Ferreira Dal Farra (2022). O transe brasileiro no teatro: dinâmicas de diferenciação e ascensão autoritária vistas da cena. Tese (Doutorado em Artes Cênicas) – Universidade de São Paulo, São Paulo.

KON, Artur Sartori (2017). Da teatrocracia: estética e política do teatro paulistano contemporâneo. São Paulo: Annablume.

PINTO, André de Souza (2024). Restos, ruínas e violência em Trilogia Abnegação, de Alexandre Dal Farra. Missangas: Estudos em Literatura e Linguística, Teixeira de Freitas, v. 5, n. 11, p. 66-80. Disponível em: https://revistas.uneb.br/missangas/article/view/22021. Acesso em: 9 nov. 2025.

RAMOS, Luiz Fernando (2017). Prefácio. In: DAL FARRA, Alexandre. Trilogia Abnegação. Belo Horizonte: Javali. p. 7-10.

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KON, Artur Sartori.
Trilogia Abnegação.

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Brasília. 

03 jul. 2026.

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8434.

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22 jul. 2026.