Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Agreste

MORENO, Newton. Agreste. In: MORENO, Newton. Agreste. Body Art. A refeição. São Paulo: Coleção Palco Sur Scène, 2009.

Rafael Masotti
Ilustração: Léo Tavares

Na altura em que Agreste estreou nos palcos com a Cia. Razões Inversas, em 2004, sob a direção de Marco Aurélio, houve, não sem razão, um frisson prolongado em torno de uma espécie dramatúrgica rara que acabava de nascer, episódio que garantiu ao dramaturgo pernambucano Newton Moreno (Recife, PE, 1968) lugar cativo nas primeiras páginas do teatro brasileiro. No decorrer dos anos seguintes, Agreste, uma das mais impactantes fábulas representadas à época, foi sendo legitimada tanto pela Academia quanto pela cena teatral do país, com inúmeras encenações que ainda hoje fazem o Nordeste renascer em outros cantos. Em 2009, a obra foi publicada em edição bilíngue, português-francês, ao lado de Body Art e A refeição, projetos do mesmo autor que também investigam temas e tabus relativos aos limites do corpo e da identidade. 

Ao dar um passo atrás na trajetória do autor, é possível encontrar produções consideradas por leitores mais conservadores como lascivas e obscenas, como é o caso de Deus sabia de tudo e não fez nada (2001) e Dentro (2002). Ainda envolto nos labirintos da sexualidade, Agreste iniciava uma segunda fase, agora com as marcas de um retorno ao Nordeste. Entretanto, nem só de luxúrias e nostalgias vive um dramaturgo, e Moreno bem parece não caber nesses limites. Mestre e doutor em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo, na biografia pós-Agreste ele trabalhou em peças inspiradas em Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, Chico Buarque e Edu Lobo; fez minissérie para a televisão, escreveu mais textos autorais, desenvolveu parcerias com artistas afamados e discutiu, em diálogo com Shakespeare, desde ditadura e liberdade na América Latina em Sueño (2021) até poder e território em ORioLEAR (2025), sempre atento à pulsação social do Brasil. 

Em seu título, Agreste (Malva-Rosa) não dá pistas do enredo que irá apresentar, mas condensa uma metáfora dos movimentos de oposição e ambiguidade que perpassam toda a peça. De um lado, Agreste remete, ainda que de forma caricatural, a uma geografia inóspita e ao masculino de aspecto mais rústico; de outro, Malva-Rosa, a uma fina flor e ao feminino de contornos delicados, pueris. Contudo, é evidente que há delicadeza e vida agreste no agreste; há flores brutas, espinhosas – a malva-rosa, por exemplo, é uma planta/flor resistente ao sol. Alusões dessa ordem não passam despercebidas quando noções binárias de gênero (masculino versus feminino) estão essencialmente em xeque. Dos enigmas do título, vale anotar aqui mais um: os parênteses e o nome da flor têm sido suprimidos na maioria das encenações desde a publicação da peça. Mas Agreste é mais agreste sem malvas-rosas? 

Nas rubricas iniciais da obra, indica-se que o texto deve servir como uma prática cênica, “um exercício de narrativa para um ator-contador (uma atriz-contadora)”. Descreve-se também que o ator/atriz “pode assumir todas as outras personagens, a viúva, o padre, o delegado e as vozes dos moradores”. Essa indicação objetiva garante de saída as aberturas e o caráter ficcional do texto teatral; trata-se de um jogo de assumido simulacro, mesmo que o registro das personagens no papel tenha partido de histórias de pessoas de carne e osso da região Nordeste. Cabe notar que os embates entre ficção e realidade também aparecem nas demandas de representatividade no teatro, característica recorrente das artes na atualidade, que acompanham nesse ponto o debate público. Nesse cenário, quem pode, de fato, representar as personagens de Agreste? Eis uma questão que a encenação certamente precisará enfrentar. 

A narrativa é conduzida por um(a) velho(a) contador(a) de histórias, ao redor de uma fogueira, que rememora a vida de dois sertanejos envolvidos em um jogo erótico-amoroso: “Ele andava muito para encontrá-la. Mas quando se viam, ficavam, no mínimo, a cinco metros de distância”. Inicialmente, as personagens não têm nomes definidos – eram chamadas de Seu Zé e de Dona Maria; posteriormente, descobrimos que o nome dele é Etevaldo. Na exposição do enredo, sem diálogos, a aproximação entre eles acontece por olhares, gestos e movimentos introvertidos. Essas figuras inocentes (“uma criança brincando onde não devia”), até animalizadas (“eram tímidas como caramujo”), viviam separadas por uma cerca em uma região de seca desértica, um “reino de areia e de sede”. Aos poucos, elas vão se achegando sob a severidade de um sol escaldante, mas também guia desses nossos protagonistas. Por muito tempo, seguiram assim, tanto hesitantes quanto resistentes com o cortejo: “Ela deixava um pedaço de chita do vestido, ele amarrava na enxada”. 

Não sabendo o que o destino lhes reservava, atravessaram a cerca, o deserto e fugiram para viver juntos como marido e mulher, em um pequeno povoado distante. Como um presságio da tragédia iminente, o(a) contador(a) adianta que “tinha alguma coisa no amor deles que não devia acontecer. Mas aconteceu”. Cabe lembrar que, quando a primeira montagem foi apresentada na Alemanha, a cerca fez o público recordar-se do muro de Berlim; antes da queda, em meio à Guerra Fria, quem cruzasse o muro poderia receber como recompensa a morte. A condição funesta de amor proibido, na criação de Moreno, ecoa a incapacidade de comunicação entre as pessoas e os muros que continuam dividindo os povos, comprovando, a cada dia, que nem todos têm permissão para viver em qualquer lugar ou de acordo com quem são. Portanto, Agreste está também em toda a parte.

A trajetória da peça é feita de saltos temporais, de modo que a trama poética nos conduz logo para a cena da morte de Etevaldo, que teria ocorrido vinte e dois anos depois. Enquanto as vizinhas cantam as típicas incelências das carpideiras e vestem com “indisfarçável contentamento” o marido, descobre-se algo que altera bruscamente os rumos da história – a identidade do homem vivo entra em conflito com o corpo do homem morto. Etevaldo carregava em segredo na carne uma condição biológica natural; diante do fato exposto, o de que não tem o órgão sexual masculino (“Menina, cadê a bilola?”), vem o decreto incisivo da comunidade inflamada: “O marido dela é fêmea!!”. Na ocasião, não há qualquer espaço para discussões a respeito de sexualidades e identidades… Com efeito, a nova certeza desperta o ódio e a repulsa da população, com quem o casal havia vivido sempre em aparente harmonia. Essa reviravolta traz novos movimentos que culminam em um desfecho inesperado. 

A narração da história é feita, dessa forma, por meio de uma gramática reconhecível, colocando em evidência personagens que vacilam em uma estrada de sol e fogo, de vida e morte. Em meio a um pastiche de recursos literários, amalgamam-se a contação de histórias, o poema dramático, a fábula, o drama e o épico, o cômico e o trágico, na composição de uma dramaturgia ambígua, lacunar, emblemática das obras contemporâneas. Na esteira de Toscano (2004), interessa notar ainda que Agreste é em tudo desejante do outro, de outras interpretações e de outras encenações, de um leitor e de um espectador ávidos por um jogo erótico, dispostos a caminhar sobre um campo minado (cuidado!) em busca de encontrar o que está além, escondido. Dessa maneira, a história da peça não é apenas a de Etevaldo e Maria, mas a de cada um que se permita reconhecer-se em seus movimentos de idas e vindas. 

Ficamos, assim, diante de palavras escritas em linguagem de poeta, que se expandem na imensidão para desvelar, ao fim, uma geografia humana localizada em “lavouras, varais e gerações” arcaicamente atuais. Valendo-se, à primeira vista, de símbolos locais, Agreste (Malva-Rosa) vislumbra também desejos de mundo, traços da condição humana em qualquer lugar; ali, o Nordeste faz a vez de uma fração da sociedade, uma metonímia de um necrociclo vigilante e punidor dos rejeitados e inclassificáveis – é o reflexo de um mundo de ontem, mofado, que todos já estão exaustos de ver e rever. A obra-prima de Newton Moreno, no entanto, desejante de singulares veredas, nos conduz a um local e a um tempo expandidos, ou seja, ao regional, ao brasileiro e ao universal, de ontem e de hoje, expostos como um horrendo espelho da nossa incrustada hipocrisia e dos nossos mais fundos preconceitos.

Para saber mais

MASOTTI, Rafael José (2016). Teatro e sexualidade: uma análise de Agreste (Malva-Rosa). Dissertação (Mestrado em Estudos Literários) – Universidade Estadual Paulista, Araraquara. 

MORENO, Newton et al (2004). Dossiê Agreste. Sala Preta (Revista do Departamento de Artes Cênicas da USP), São Paulo, v. 4, p. 93-124. Disponível em: https://revistas.usp.br/salapreta/issue/view/4686. Acesso em: 30 nov. 2025.

TOSCANO, Antônio Rogério (2004). Agreste: uma dramaturgia desejante. Dossiê Agreste, Sala Preta, São Paulo, v. 4, p. 105-113. Disponível em: https://revistas.usp.br/salapreta/pt_BR/article/view/57141/60129. Acesso em: 29 maio 2026.

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Como citar:

MASOTTI, Rafael.
Agreste.

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mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

24 jun. 2026.

Disponível em:

8329.

Acessado em:

30 jun. 2026.