VICENTE, José. Hoje é dia de rock. Rio de Janeiro: Lia, 1972. A peça veio a público em 1971.
Esther Marinho Santana
Ilustração: Espírito Objeto
Em sua primeira publicação, de 1972, Hoje é dia de rock, de José Vicente (Alpinópolis, MG, 1945 – São Paulo, SP, 2007), vem acompanhada do curioso subtítulo “Roteiro para um espetáculo em estilo de romance”, que desaparece na reedição do texto lançada em 2010 pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. À nova versão foi acrescentado um prólogo escrito pelo autor, em que classifica a obra como uma “peça-romance” e atribui a sua gênese a uma carta recebida em 1970, na qual seu irmão, Messias, comunicava o falecimento do pai, Pedro.
Então com 25 anos de idade, José Vicente passava uma temporada na Inglaterra ao lado do amigo e também dramaturgo Antônio Bivar (1939-2020), meses depois de ambos terem despontado como dois dos nomes mais elogiados da cena brasileira, em meio ao enrijecimento das práticas de censura impostas pelo Ato Institucional n nº 5. Após ter a sua primeira peça, Santidade, citada pelo presidente Artur da Costa e Silva em rede televisiva como uma perfeita ilustração da imoralidade a ser banida da cultura nacional, em 1968, José Vicente logrou ter O assalto estreada no ano seguinte, no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, de onde seguiu para o Teatro Maria Della Costa, em São Paulo. Graças ao embate vulcânico entre o bancário Vitor e o Varredor do prédio, trancafiados após o expediente em uma sala abafada, o dramaturgo foi aclamado pelo crítico Sábato Magaldi (1969) como expoente de uma “nova dramaturgia brasileira”, inédita em seu tom intimista e provocativo. Em 1970, Os convalescentes apresentou para as plateias dos Teatros Opinião e Galpão, novamente nos eixos carioca e paulistano, um diagnóstico colérico do beco sem saída encontrado pela intelectualidade brasileira do período. A fúria adotada até ali dissipa-se de súbito, porém, com Hoje é dia de rock.
Desenvolvida sem intrigas ou qualquer clímax dramático e repleta de índices autobiográficos, a peça se apresenta como um exercício memorialístico de ares deliberadamente fantasiosos, incorporando à sua estrutura diversas imagens poéticas e elementos da forma romanesca e dos contos de fada. Trata-se, como José Vicente declara no prólogo da edição de 2010, de uma “recherche”, isto é, uma busca. O termo assinala uma provável intertextualidade com Em busca do tempo perdido (À la recherche du temps perdu), de Marcel Proust, publicado em sete volumes, de 1913 a 1927. Não raro chamado apenas, justamente, de La Recherche, o romance abarca as experiências da infância à idade adulta de um narrador não nomeado. Nas reflexões em torno do processo criativo de narrar, das contradições dos sujeitos e da sociedade francesa do final do século XIX e início do XX, bem como do escoar irrefreável dos anos, o leitor de Proust se vê diante de diversas lembranças involuntárias que invadem uma narrativa que termina por acolhê-las. Hoje é dia de rock, ao contrário, organiza-se como uma caminhada empenhada na escavação da memória na qual a própria procura se satura e se justifica em si mesma.
Dividida em duas partes, a peça começa com a incorporação de um recurso típico dos contos de fada: conforme determinam as rubricas, projetadas no palco, “em gótico de livro infantil velho”, surge a expressão “Era uma vez”. As diversas cenas autônomas que se seguem acompanham o deslocamento do sertão para a cidade do músico e fogueteiro Pedro e sua esposa, Adélia, com os cinco filhos. Na imemorial e irrecuperável Minas – assim denominada, simplesmente Minas – a família abandona uma rotina descrita como tão precária quanto arrebatadora, triste e bonita, para que cada um de seus membros encontre uma nova vida. “Minas morreu. Virou lenda. Nós é que estamos vivos”, declara Adélia a um Pedro enredado na nostalgia.
Alternados por musicalidade, os diferentes momentos mostram o casal administrando um botequim comprado com o dinheiro da venda de suas terras; Quincas, o filho mais velho, anunciando uma viagem pelo mundo com a esposa, Neuzinha; Davi, o filho do meio, indo para o seminário para que assim pudesse estudar; Rosário, a filha cega, imersa em um seu próprio universo; Isabel, a filha exuberante, flertando com Elvis Presley, mas fugindo com o namorado Teco; Valente, uma faceta de José Vicente, em sua nítida solidão desarranjada; e uma personagem indígena, a Inca, cujos presságios refletem, naquelas personagens, as trilhas arrasadas, e também ainda inexploradas, de uma América ancestral.
Compostas como um rememorar consciente, cada cena possui algo de graça e redenção. Assim, Hoje é dia de rock segue na esteira da concepção de José Vicente de seu teatro como uma “liturgia selvagem” (Vicente, 1981), ainda que reorientada em outra direção. Em suas obras anteriores, tal liturgia se constituiu como uma celebração ritualística de desnudamento violento das máscaras cotidianas e, não raro, da própria estrutura teatral, sugerindo a salvação dos leitores/espectadores pela via das destruições, dos paroxismos e de peças que pareciam implodir a si próprias. Aqui, no entanto, o texto se redime ao se expandir, tomando emprestadas descrições que escapam do formato habitual das rubricas dramáticas para remeterem à narração romanesca. Pedro, Adélia, os cinco filhos e seus conhecidos ocupam um cotidiano que poderia ter sido dramatizado como banal, até mesmo tacanho, não fosse um sopro de ar mágico. O botequim interiorano indistinto, frequentado todos os dias por um aposentado carente e alcóolatra, é resgatado das memórias para, em cena, transformar-se no local onde a inquietude de uma jovem adolescente encontra, quando a mãe e a irmã vão para a missa, ninguém menos que o cantor Elvis Presley, surgido de lambreta. Enquanto diversas personagens do dramaturgo sufocam e sucumbem em seus artifícios, a família de Pedro Fogueteiro, por sua vez, alça voos na fantasia para encontrar caminhos abertos.
Segundo o crítico Yan Michalski (1979), as tantas repressões impostas ao teatro brasileiro no período da Ditadura Civil-Militar (1964-1985) produziram um “palco amordaçado”, incapaz de expressar as reais insatisfações e aspirações dos criadores teatrais. Em cartaz no Teatro Ipanema de 1971 a 1973, Hoje é dia de rock – cujo título foi inspirado pelo programa de rádio homônimo, transmitido aos sábados pela Mayrink Veiga – transformou-se em uma espécie de sonho coletivo de uma juventude encantoada pelo brutal autoritarismo em vigência. Alojados no espaço da casa de espetáculos, muitos dos artistas ali se estabeleceram em comunidade, e eram notórias as suas frequentes interações com o público fora de cena. Nesse sentido, tanto por seu conteúdo quanto por sua disseminação imediata, a peça é hoje encarada como um exemplo da manifestação da contracultura em solo nacional.
Importado dos Estados Unidos e aclimatado de maneiras diversas ao redor do globo a partir dos anos 1960, esse movimento cultural questionava e rechaçava os valores e normas tradicionais da sociedade estabelecida. Diferentemente do engajamento político de grupos de esquerda, que viam na revolução da classe trabalhadora ou na luta armada cursos de enfrentamento contra o regime ditatorial, a contracultura confiava em respostas de outra ordem, fundadas primeiramente na libertação subjetiva. Em tal perspectiva, aos indivíduos caberiam a recusa dos códigos vigentes e a fundação de um mundo outro a partir dos tensionamentos do eu. É o que bem ilustra, por exemplo, o momento da fuga de Valente, quando aparece usando a sombra para olhos e uma blusa de Isabel. Rumando para as perdas e os encontros de si, o jovem subverte estereótipos de gênero e sexualidade e toda a vida corriqueira, afigurando-se, de acordo com a irmã, a nada menos do que “um Imperador Asteca”. Naquele que não se fixa no destino escolhido por sua família e rejeita o que lhe seria conformado em nome do que ainda não foi experimentado, a peça propõe, portanto, uma imagem heroica.
Em um contexto sociopolítico de imposição de silenciamento e esquecimento da história e dos sujeitos por ela atravessados, José Vicente conseguiu desamordaçar o seu palco para transformá-lo em um altar para a memória de si e de suas criaturas literárias. Descortinada como um conto de fadas, desenvolvida como uma procura envolta na fantasia, e encerrada com uma procissão de Corpus Christi – a celebração católica da presença de Jesus Cristo no pão e vinho consagrados –, Hoje é dia de rock segue sensibilizando espectadores/leitores, cinco décadas após a sua estreia. Elaborada como uma celebração salvífica, é uma chance de respiro, encanto e trajetórias em pulsação. Afinal, como diz Pedro, “Era a salvação. Continuava tudo”.
Para saber mais
VICENTE, José (1981). Teatro representação litúrgica. Arte em revista, ano 3, n. 6, out., p. 76-77.
MAGALDI, Sábato (1969). A grande força do nosso melhor teatro. Jornal da Tarde, 26 ago. 1969.
MICHALSKI, Yan (1979). O palco amordaçado. Rio de Janeiro: Avenir.
NAPOLITANO, Marcos (2023). Juventude e contracultura. São Paulo: Contexto.
Iconografia


