ABREU, Marcio. MARÉ/PROJETO bRASIL. Rio de Janeiro: Cobogó, 2016.
Nayara Macedo Barbosa de Brito
Ilustração: Léo Tavares
Refletindo sobre as transformações ocorridas na dramaturgia europeia a partir da virada do século XX, e observando as diferentes convenções dramatúrgicas às quais chegaram os autores que analisou em Drama from Ibsen to Brecht (1983), bem como a relação dessas convenções com a realidade social na/da qual emergiram, o crítico de cultura Raymond Williams formulou a noção de “estrutura de sentimento”. Segundo ele, tais convenções seriam “um modo de responder a um mundo particular […], na experiência, o único modo possível” e se fundamentam “nos mais profundos e, com frequência, menos tangíveis elementos da nossa experiência”. Para o crítico, à experiência viva de cada época corresponderiam determinados “modos de sentir” (Ramos, 2010) que, ao serem incorporados e formalizados nas obras de arte, dariam origem a técnicas ou convenções específicas características de um período.
No trabalho da companhia brasileira de teatro, fundada em 2000 na cidade de Curitiba (PR) e formada por artistas de várias regiões do país, a pesquisa de linguagem se traduz no “desejo de reinvenção […] de mundos através da língua […] ou, ainda, do que não cabe [nas palavras]” (Abreu, 2016). Tal pesquisa aponta para os modos de sentir a partir dos quais esse coletivo de artistas vem produzindo seu trabalho, sob a direção de Marcio Alexandre Abreu dos Santos (Rio de Janeiro, RJ, 1970).
É nessa perspectiva que a companhia vem experimentando, desde o início de sua trajetória, a construção de “peças com dramaturgia própria, escritas em processos colaborativos e simultâneos à criação dos espetáculos” (Companhia Brasileira de Teatro, s.d.a). No que diz respeito à relação entre essas construções e à realidade social da/na qual emergiram – ou, nos termos de Williams, à estrutura de sentimento na qual se inscrevem –, PROJETO bRASIL é a primeira peça em que essa articulação é assumida de modo explícito. Todavia, com uma importante ressalva, sublinhada por Abreu em entrevistas e reiterada na apresentação que escreveu para a publicação do texto: não se trata de uma peça sobre o Brasil, mas de uma dramaturgia construída a partir desse país, considerando a experiência das diversas viagens realizadas por seu extenso território, as leituras que fizeram “a respeito da formação de um pensamento sobre o Brasil” e “a vivência das transformações turbulentas que vem [sic] acontecendo no mundo” (Companhia Brasileira de Teatro, s.d.b). Tanto em PROJETO bRASIL quanto em MARÉ, afirma o autor, “há uma dimensão de diálogo com o real, sem a ingenuidade ou pretensão de reproduzi-lo” (Abreu, 2016).
PROJETO bRASIL, estreada em Curitiba em setembro de 2015, com texto publicado em 2016, está organizada sob a forma de 16 discursos verbais e não verbais. Construída em processo colaborativo, a dramaturgia é assinada por Abreu e pelo elenco – Geovana Soar, Nadja Naira (que também assina a iluminação do espetáculo) e Rodrigo Bolzan. Entre os discursos, há aqueles escritos pelo diretor, outros construídos coletivamente e, depois, musicados por Felipe Storino (que executa a trilha sonora ao vivo e também compõe as ações do espetáculo), discursos adaptados de falas reais de figuras públicas estrangeiras e sequências estruturadas como ações performativas, em som e imagem, que igualmente produzem sentidos sobre o Brasil.
Uma passagem exemplar da articulação discursiva – e do mergulho crítico sobre o país – ocorre entre os discursos 4 e 5. No quarto, múltiplas instâncias enunciadoras atuam em polifonia. Ao som de “Dimokransa”(“Democracia”), da cantora cabo-verdeana Mayra Andrade, os corpos de Rodrigo Bolzan e Nadja Naira se beijam “longamente” (Abreu, 2016), enquanto, em off, suas vozes reproduzem uma fala da ex-ministra da Justiça da França, Christiane Taubira, em defesa da proposta de lei para o casamento entre pessoas do mesmo sexo e para a adoção por casais homoafetivos. Em seguida, ainda sob sua fala, os mesmos atores se dirigem até a plateia e oferecem, a cada pessoa espectadora, um beijo.
Essa atmosfera de liberdade e afeto, em toda a sua força política é, no entanto, bruscamente dissipada pelo discurso seguinte, no qual Bolzan e Soar representam uma situação de estupro. Ao final da ação – em que Naira “arremessa violentamente contra eles pequenos objetos que explodem espalhando tinta preta […] sangue preto” e Storino “capta as vozes e os ruídos com microfones e reverbera sons de violência” –, a atriz se aproxima do microfone e, “trôpega”, tenta falar; porém sua fala soa ininteligível.
É nesse sentido que a pesquisa de linguagem da companhia usa-apresenta “a palavra como potência, como abertura de sentidos” (Abreu, 2016) – como na fala de Taubira, que, associada à música e às ações performadas no discurso 4, disponibiliza-nos sensorialmente para a interação que encerra a cena. Mas, também, usa-apresenta a palavra “como insuficiência, como tentativa” (Abreu, 2016), revelando os limites da língua diante de experiências-limite. Para Luciana Romagnolli (2016), em um dos posfácios da publicação, “PROJETO bRASIL desenha um não país: delineia-o e tangencia suas linhas mapeando o fora, aquilo que a identidade nacional não suporta. […] um Brasil que (ainda?) não é, um país que se almeja”.
Foi a partir de outra experiência-limite que Abreu escreveu MARÉ. O massacre ocorrido no complexo de favelas da Maré, no Rio de Janeiro, em 2013, fornece o pretexto para a escrita da peça, elaborada a convite do grupo Espanca! para compor, com textos de outros dramaturgos baseados em fatos reais ocorridos por volta daquela década, o espetáculo REAL, estreado em São Paulo em novembro de 2015.
MARÉ se organiza em quatro “falas sonoras”, atribuídas a membros de uma mesma família moradora da comunidade que dá título ao texto. Embora apresentadas em sequência, as falas, como indica a rubrica inicial, representam “cenas quase simultâneas” que revelam uma mesma situação – o cotidiano atravessado pela violência – por meio de diferentes pontos de vista.
A indicação do caráter sonoro das falas não é redundante, mas expõe o modo de composição do texto. Na publicação, cada fala – da vó, do homem e da mulher – se estende, em média, por três páginas em um fluxo contínuo. A ausência de parágrafos e de pontuação imprime um ritmo acelerado e cíclico, evocando ações cotidianas de modo repetitivo, tal qual o movimento das marés, que levam e trazem imagens, como no seguinte trecho da fala da vó: “o pai de vocês dá um duro danado vocês toma tenência o feijão tá no fogo eu hein vou perder minha novela fica quieto garotos eu tô surda do ouvido quero ver minha novela eu era bem nova tua mãe vai chegar o feijão tá no fogo o teu pai é que gosta”.
A única exceção a essa estrutura é a fala das crianças, a segunda na sequência, proposta sob a forma de versos curtos dialogados, por meio dos quais acompanhamos uma brincadeira tradicional – conhecida por diferentes nomes pelo país – na qual se dizem nomes de pessoas, frutas, cores etc. para cada letra do alfabeto. Se, por um lado, essa cena produz um breve hiato de leveza diante da dura rotina já apresentada – antes de ser interrompida pela tragédia que assola essa família –, por outro, ao jogar com nomes e letras, reafirma o apreço de Abreu pelo trabalho sobre a palavra, sobre a linguagem.
Nessa pesquisa, se o autor “desenha seres sociais e subjetivos facilmente reconhecíveis no contexto brasileiro” (Romagnolli, 2016) – pela menção à telenovela, à feijoada –, ao compor a partir da afetação por um acontecimento, numa “reação artística ao real” (Abreu, 2016), e ao investir na linguagem para reinventá-lo, como lembra Romagnolli, o dramaturgo resgata da reificação os seres humanos ali evocados.
PROJETO bRASIL e MARÉ podem ser compreendidas como expressões de uma estrutura de sentimento contemporânea, marcada pela convivência entre desejo de abertura – afetiva, política, ética – e práticas reiteradas de violência e silenciamento. Ao reinventar o real a partir da linguagem, tensionando os limites da palavra, a dramaturgia de Marcio Abreu, em especial no trabalho com a companhia brasileira de teatro, formaliza esteticamente modos de sentir que emergem de um Brasil repleto de contradições profundas. Nessa formalização, revela não apenas a sociedade brasileira, mas aquilo que ainda não lhe foi possível plenamente nomear e ser, oferecendo ao teatro um lugar de escuta e fabulação do futuro.
Para saber mais
ABREU, Marcio (2016). Escritas [Apresentação]. In: ABREU, Marcio. MARÉ/PROJETO bRASIL. Rio de Janeiro: Cobogó. p. 7-8.
COMPANHIA BRASILEIRA DE TEATRO (s.d.a). companhia brasileira de teatro. Disponível em: https://www.companhiabrasileira.art.br/companhia-brasileira-de-teatro/. Acesso em: 9 mar. 2026.
COMPANHIA BRASILEIRA DE TEATRO (s.d.b). PROJETO bRASIL. Disponível em: https://www.companhiabrasileira.art.br/projeto-brasil/. Acesso em: 9 mar. 2026.
RAMOS, Luiz Fernando (2010). Prefácio. In: WILLIAMS, Raymond. Drama em cena. São Paulo: Cosac Naify. p. 7-16.
ROMAGNOLLI, Luciana E. (2016). Marés brasileiras: discursos em contrafluxo [Posfácio]. In: ABREU, Marcio. MARÉ/PROJETO bRASIL. Rio de Janeiro: Cobogó. p. 85-93.
WILLIAMS, Raymond (1983). Introduction. In: WILLIAMS, Raymond. Drama from Ibsen to Brecht. London: Pelican Books. p. 1-14.
Iconografia


