Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Apareceu a Margarida

ATHAYDE, Roberto. Apareceu a Margarida. Rio de Janeiro: Brasília, 1973.

Fabiana Prudente e Emerson Maia Jr.
Ilustração: Espírito Objeto

Considerada a peça precursora do teatro do absurdo no Brasil, Apareceu a Margarida (1973) é um monólogo tragicômico de grande sucesso do dramaturgo, escritor e tradutor carioca Roberto Athayde (Rio de Janeiro, RJ, 1949), escrito em 1971 e estreado em solo brasileiro em 5 de setembro de 1973, no Teatro Ipanema do Rio de Janeiro, com Marília Pêra no papel da professora Dona Margarida e sob direção de Aderbal Freire Filho. A publicação da peça em livro, realizada no fim de 1973, celebrava a centésima encenação do espetáculo que rendeu à atriz o Prêmio Atriz Revelação e o Prêmio Molière, de grande prestígio no teatro da época.

O enredo de Apareceu a Margarida se desenvolve em torno da professora esquizofrênica Margarida, que se propõe a dar uma aula sobre “os fatos da vida”, ao mesmo tempo em que distorce, de forma irônica e polêmica, conteúdos didáticos que transitam entre o científico, o moral e o político. Essa estrutura dramatúrgica é tensionada pela quebra da quarta parede: a plateia é convocada a ocupar a posição de alunado, submetida a uma condição de espectador passivo e silencioso diante da autoridade da personagem.

Em entrevista, Athayde (2007) comenta como sua relação conturbada com o sistema de ensino brasileiro o levou a pensar na trama. Filho do cronista imortal Austregésilo Athayde, então presidente da Academia Brasileira de Letras e representante do Brasil na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Athayde nutria ambições literárias desde a infância, quando preferia decorar os versos de Os Lusíadas, ao invés da tabuada.

Após ser expulso de três colégios, o jovem Athayde passou a ser educado em casa e, com 17 anos, foi estudar no exterior, em intercâmbio pelas universidades de Sorbonne, na França, onde estudou música, e em Michigan, nos Estados Unidos, onde escreveu seu primeiro conto, em língua inglesa: “Johnathan’s Friend”. Foi quando retornou ao Brasil, em 1971, que, ao se deparar com a política repressora imposta pela Ditadura Militar, decidiu escrever teatro e, com 21 anos, já contava com cinco textos (O reacionário, Um visitante do Alto, Manual de sobrevivência na selva, Apareceu a Margarida e No fundo do sítio), que hoje integram a coletânea As peças precoces – Apareceu a Margarida e outras, publicada pela editora Nova Fronteira em 2003.

Quando redigiu Apareceu a Margarida, Athayde decidiu que não escreveria mais nada enquanto não conseguisse colocar um trabalho seu em cartaz. E foi justamente este texto que se tornou, em 1973, a peça de estreia do autor – e também a mais famosa.

A primeira versão do texto trazia outro título: A esquizofasia didática ou Do que aterra, Margarida, fazendo referência ao Hino Nacional Brasileiro e ao sintoma de esquizofrenia apresentado no falar confuso, fragmentado e incoerente da personagem do monólogo, que tratava de conceitos comuns do ensino em um contexto desfigurado, ao dizer, por exemplo, na aula de história, que “revolução não é nada” e nunca existiu; ou, na aula de biologia, quando afirmava que “micróbio é algo que mata e ninguém vê”; e, na aula de matemática, ao ensinar que divisão é o que ocorre quando “um fica com tudo e outros com nada”. Tais conteúdos fazem menções ostensivas à “revolução” de 64 (como a chamavam os militares), às mortes silenciosas e aos desaparecimentos de perseguidos políticos, bem como aos privilégios militares que acentuavam a desigualdade no Brasil, fazendo de Apareceu a Margarida uma metáfora para a ditadura (Correia, 2013). 

De fato, Athayde deixou claro que buscou, em Apareceu a Margarida, aproximar a figura da professora de educação básica à imagem do ditador: “a fusão dessa ditadura militar e a minha história de aluno expulso da escola pela terceira vez, a opressão que eu senti nos colégios, a mesma opressão que causou o meu total desajuste escolar, isso tudo deu origem a Apareceu a Margarida”, como disse em entrevista a Kaufmann (2007). Assim, Athayde criou um texto visceral com uma personagem forte e contraditória, que oscila entre o moralismo maternal e a opressão violenta, com rompantes de autoritarismo e que só se limita perante Deus. É o que se verifica em várias cenas em que Dona Margarida vocifera contra os alunos (a plateia) e interrompe a própria fala em assombro, questionando se havia alguém chamado Jesus, Messias ou Espírito Santo, as únicas autoridades acima dela.

Uma vez que o Brasil se encontrava sob a opressão da Ditadura Militar instaurada pelo Golpe de 1964, agravada pelo decreto do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em período que ficou conhecido como “anos de chumbo”, a paródia do Hino Nacional Brasileiro, que aparecia no título daquela versão e em diversas cenas do espetáculo, foi vetada pela censura em um processo controverso que, em primeira avaliação, liberou o texto com cortes para estreia e o retirou de cartaz logo após a primeira semana. Levou um mês de negociações entre o produtor Nelson Motta e a Divisão de Censura de Diversões Públicas do Departamento da Polícia Federal – DCDP/DPF para que a peça voltasse a ser encenada, em 18 de outubro de 1973, com versos da cantiga de Guarabyra “apareceu a Margarida olê olê olá” no lugar do Hino (Maia Jr., 2025).

A euforia em torno da encenação – sua retirada de cartaz e seu posterior retorno ao teatro –, somada à presença ilustre de diversos imortais da Academia Brasileira de Letras nas cadeiras de convidados do espetáculo e ao trabalho exemplar de Aderbal Freire Filho e de Marília Pêra contribuíram para o sucesso de bilheteria e de crítica que levaram Apareceu a Margarida a ficar em cartaz por dez anos. A peça é encenada até os dias atuais e já foi traduzida para mais de cinco línguas, sendo considerada um dos textos teatrais brasileiros mais encenados no mundo, consagrado por atrizes como Annie Girardot, na França, sob direção de Jorge Lavelli, em 1974; Anna Proclemer, na Itália, dirigida por Giorgio Albertazzi, em 1975; e Estelle Parsons, nos Estados Unidos, dirigida pelo próprio Athayde, em 1977.

No Brasil, o primeiro ator interessado em encenar Apareceu a Margarida foi Luís de Lima, em 1971, conforme noticiado em O Jornal, que destacou a peça como uma aproximação ao chamado “Teatro do Absurdo” – gênero então associado a nomes como Ionesco e Beckett, do qual Lima já havia sido divulgador no país (Correia, 2013). Prestes a estrear o espetáculo, Lima sofreu um grave acidente durante as gravações de Missão: Matar e, impossibilitado de atuar, chegou a propor que ficasse com a direção da montagem, com Leila Diniz no papel da professora; porém, a morte prematura da atriz em um acidente aéreo fez com que o projeto não se concretizasse (Athayde, 1973). A crença de que a peça estava “amaldiçoada” levou Athayde a se afastar do Brasil por um período, estreando a obra pela primeira vez na Argentina, sob o título Señorita Gloria, com tradução do próprio autor e interpretação de Marilu Marini (Correia, 2013).

Tal percurso inicial, marcado por percalços, evidencia a tensão da obra com o contexto de sua recepção e reforça sua vinculação ao “absurdismo”: a figura da professora que impõe normas arbitrárias, o jogo de linguagem que desestabiliza a comunicação e a circularidade das situações são recursos que, à época, foram lidos como característicos desse teatro. Não por acaso, Athayde classificou a peça como uma “tragicomédia”, posto que a violência simbólica exercida pela professora se alterna com momentos de comicidade, em um registro que faz rir e inquieta ao mesmo tempo. Esse efeito se intensifica com o desfecho trágico da narrativa – quando a aparente comicidade se converte em ameaça explícita à vida da turma –, consolidando a síntese entre riso e desconforto e contribuindo para compreender a singularidade de Apareceu a Margarida em sua estreia e na história do teatro brasileiro.

Com um cenário relativamente simples (uma mesa de professor, uma cadeira e um quadro negro), um roteiro linear e monotemático (uma aula do início ao fim, intercalada por um intervalo para recreio, oferecida a uma turma do último ano do primário) e uma única atriz, Apareceu a Margarida conseguiu conquistar diversos prêmios e públicos. O espetáculo lançou o estreante autor Roberto Athayde como dramaturgo com um texto polêmico e inovador, fruto de um teatro de resistência que rapidamente ganhou notoriedade da crítica, como disse Yan Michalski no Jornal do Brasil, em 1973: “em nenhum outro palco do Rio o teatro, no momento, está cumprindo tão bem a sua missão de nos sacudir, nos desafiar a pensar, nos divertir violentamente, e enriquecer a nossa visão das coisas da vida” (Athayde, 1973).

Para saber mais

ATHAYDE, Roberto (2003). As peças precoces: “Apareceu a Margarida” e outras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

ATHAYDE, Roberto (2007). Nem só de “Apareceu a Margarida” vive um grande intelectual. [Entrevista concedida a] Arlete Kaufmann. Notícias suíças para os meios internacionais. Disponível em: http://www.sncweb.ch/portugues/entrevistas-p/roberto-athayde_2007.htm. Acesso em: 17 fev. 2013.

CORREIA, Fabiana Prudente (2013). O desabrochar de uma flor em tempos de repressão: edição e crítica filológica de Apareceu a Margarida, de Roberto Athayde. Dissertação (Mestrado em Literatura e Cultura) – Universidade Federal da Bahia, Salvador.

MAIA JUNIOR, Emerson (2025). Teatro em tempos de ditadura militar: acervo e crítica filológica dos documentos de censura da peça Apareceu a Margarida, de Roberto Athayde. Dissertação (Mestrado em Literatura e Cultura) – Universidade Federal da Bahia, Salvador.

MICHALSKI, Yan (1973). Jornal do Brasil, 27-29 set. 1973. Caderno B. In: ATHAYDE, Roberto. Apareceu a Margarida. Rio de Janeiro: Brasília, 1973. p. 14-15. 

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Como citar:

PRUDENTE, Fabiana; MAIA JR., Emerson.
Apareceu a Margarida.

Praça Clóvis: 

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da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

06 jul. 2026.

Disponível em:

8419.

Acessado em:

22 jul. 2026.