PEREIRA, Vicente. Solidão, a comédia. Rio de Janeiro: Revista de Teatro da SBAT, 1994.
Luís Francisco Wasilewski
Ilustração: Léo Tavares
Solidão, a comédia é um monólogo escrito por Vicente Pereira (Uberlândia, MG, 1949 – Brasília, DF, 1993), um dos mais importantes nomes do Teatro Besteirol, gênero teatral brasileiro surgido na década de 1980. O termo “besteirol” foi cunhado pelo crítico Macksen Luiz em sua apreciação da comédia musical As mil e uma encarnações de Pompeu Loredo, escrita e encenada por Mauro Rasi e Vicente Pereira em 1980 (Marinho, 2004). A partir daí, tornou-se um adjetivo utilizado pela crítica oitentista para definir um conjunto de espetáculos, geralmente encenados por uma dupla de autores e atores no formato de esquetes, os quais faziam uso da paródia cinematográfica e teatral.
A obra Solidão, a comédia guarda uma importante história de repercussão nos palcos brasileiros. Não à toa, a encenação com Diogo Vilela representando as cinco personagens, sob direção de Marcus Alvisi, foi uma das montagens mais emblemáticas do teatro brasileiro na década de 1990.
Existem duas versões da peça. A primeira foi editada pela revista de teatro da SBAT, em 1994, possui quatro monólogos e no último há uma personagem feminina. Essa montagem foi estreada por Pereira, em 1990, no Teatro do Posto 6, no Rio de Janeiro, com o próprio autor representando todos os papéis. Essa encenação foi dirigida por Jorge Fernando e a cenografia foi assinada por Luiz Carlos Ripper, em um de seus derradeiros trabalhos, pois faleceu em 1996.
A segunda versão, não editada, tem cinco esquetes e, no último, há uma personagem masculina e um epílogo reflexivo sobre a finitude da vida escrito pelo autor, a pedido do diretor Marcus Alvisi (Wasilewski, 2010). Essa versão estreou em 15 de janeiro de 1991, na Sala Gil Vicente do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, com Diogo Vilela interpretando as personagens. O fato de a peça ter duas encenações com dois atores diferentes em um curto espaço de tempo foi apontado pelo crítico Flávio Marinho (2004) como algo “raríssimo na história do teatro brasileiro”.
O ator, dramaturgo e diretor Miguel Falabella afirma que Solidão, a comédia surgiu de uma encomenda feita a Pereira. Após ter assistido, nos Estados Unidos, a uma peça representada por Lily Tomlin, The Search for signs of intelligent life in the universe (A busca de sinais de vida inteligente no universo), pediu que o amigo escrevesse um monólogo em que interpretasse diversas personagens. Por conta da formatação da obra, composta de vários esquetes, Falabella acabou não representando o texto, no entanto, a estrutura e o conteúdo de The Search for signs of intelligent life in the universe serviram de inspiração para que, ao lado de Maria Carmem Barbosa, Falabella escrevesse um de seus textos dramáticos Louro, alto, solteiro, procura…, que estreou em 1994 (Wasilewski, 2010).
Ao se examinar o conjunto de esquetes de Solidão, a comédia, fica evidente que Pereira mantém um aspecto fundamental para a compreensão de sua dramaturgia: a presença de personagens gauches, ou seja, aquelas que estão à margem da sociedade. Como sugere o próprio título, o olhar do autor para essas figuras não só capta a sutileza – triste ou melancólica – de sua condição, mas também as vincula a uma visada nitidamente humorística.
O primeiro esquete se chama “A sétima arte”, e aborda tema recorrente nos textos dramáticos do Besteirol, o universo cinematográfico. A crítica teatral Bárbara Heliodora (2000), no artigo “Um belo filho da censura”, no qual fez um balanço dos vinte anos do Teatro Besteirol, comentou a relação do gênero com o cinema: “Nada poderia anunciar tão claramente que era uma nova geração, um outro tempo, que chegava ao teatro: no universo que o gênero criava choviam as referências a um novo modo de ver as coisas, pesava muito a dinâmica do cinema (que os autores vivenciavam muito mais do que o teatro), e o conteúdo crítico tinha muito a ver com a faixa etária”.
Na rubrica de apresentação de A sétima arte, o autor fala que o esquete se passa em “um velho cinema, desses que não existem mais”. Ao apresentar sua personagem, lança seu olhar sobre os gauches, os estranhos – figuras, segundo sua visão, patéticas e risíveis da sociedade. Em cena, há um homem que marcou um encontro no cinema com uma mulher chamada Aline. O espectador aguarda a chegada da pretendente e, enquanto ela não chega, a personagem masculina faz várias citações cinematográficas. Ele, então, projeta, naquele universo imagético da tela grande, os filmes aos quais assistiu ao longo da vida, estabelecendo uma comparação entre sua solidão e o cinema. Nesse jogo, ora onírico, ora saudoso, ora ridículo e melancólico, ele se revela alguém que sempre usou sua paixão cinematográfica como modo de escapismo.
O segundo esquete se chama “A fogueira das vaidades”, título homônimo do filme de Brian de Palma e do livro de Tom Wolfe, no qual a película se inspirou. O texto de Pereira lançou seu olhar crítico para os yuppies, figuras emblemáticas da década de 1980 que promoviam um frenético culto à moda e se preocupavam excessivamente com a aparência. Em cena está Tony se preparando para ir a uma festa da alta sociedade. Ele faz uso de uma linguagem própria das colunas sociais e dos editoriais de moda. Suas falas soam estereotipadas, o que para o público da época era facilmente identificável: “acho rubi uma pedra demodée, mas as de lápis-lazúli, definitivamente não combinam com este smoking”. Nesse comentário, especificamente, a personagem tenta dialogar com a esposa, que está se arrumando, e parece buscar algum tipo de validação, mas ela não lhe responde. Assim, a cena da personagem falando constantemente e sendo ignorado sugere o vazio existencial que muitas vezes se faz presente entre os ricos.
O terceiro esquete intitula-se “Dama da noite” e nos apresenta Geneviève, uma mulher que decide marcar um encontro às escuras com seu pretendente num bar. Os dois se conhecem, ela entra em um monólogo até que resolvem dançar e Geneviève então começa a falar de seus problemas de saúde. Todavia, o que era para ser uma sucessão de males físicos e mentais, sob a ótica do comediógrafo, acaba sendo risível para o leitor/espectador. Tem-se aqui uma situação que se tornou corriqueira na sociedade contemporânea: os encontros descartáveis e os “relacionamentos líquidos”. Com isso, é como se a personagem materializasse, já nos modelos de encontro daquele período, uma dimensão da vida social que hoje é comum, sobretudo em virtude dos encontros via aplicativos de relacionamento.
O último esquete de Solidão, a comédia se chama “Vamos falar francamente?” e, segundo o autor da peça, foi livremente inspirado em “A visita da verdade”, conto de Dorothy Parker. O texto da autora estadunidense apresenta uma mulher que acompanha sua amiga enferma no leito de morte e Pereira trouxe a mesma situação para sua obra, em que apresenta Lucy, que cuida de sua amiga acamada. Vale destacar uma característica recorrente na obra do autor: a referência a citações musicais, especialmente de canções antigas e tristes, elemento utilizado para acentuar o traço melancólico das cenas. Basta examinar-se seu conjunto de textos teatrais para se constatar como a música era importante. Um exemplo emblemático disso é o esquete “Tristonho sindicato” da peça Pedra, a tragédia, de 1986, escrito em parceria com Miguel Falabella e Mauro Rasi. Nesse caso, “tristonho sindicato” é uma expressão que o escritor tomou como referência da canção “Bar da noite”, de Haroldo Barbosa.
Em determinada passagem de “Vamos falar francamente?”, Lucy relembra que sua amiga acamada cantava bem e tocava acordeon. São então elencadas pela personagem canções como “Siboney”, “Tenderly”, “Balada triste” e “Casinha pequenina”. Como todos os esquetes de Solidão, a comédia tratam de situações tristes de maneira cômica, a cena contém tom humorístico quando Lucy vê a amiga chorando ao ser lembrada de seu passado como cantora e comenta que precisou vender o acordeon para pagar o tratamento hospitalar. Nesse esquete, por meio da comicidade, o dramaturgo tematizou algo que continua muito atual, a saber, o abandono e a solidão das pessoas idosas.
Solidão, a comédia é o texto teatral mais conhecido e encenado de Vicente Pereira. Ele e os outros dramaturgos enquadrados pela crítica teatral brasileira como “escritores do besteirol” não gostavam do rótulo. O escritor fez uma declaração sobre sua procura por outros temas, quando começou a escrever na década de 1990: “estou preocupado em buscar temas mais universais. O teatro de referência fecha as possibilidades, e mesmo na comédia, eu não faria mais isso” (Muniz, 2000). O tom de encerramento e despedida de sua fala, mesmo que contundente, não retira de suas peças – e do que passou a ser visto também como um gênero típico da época – sua força e atualidade.
Para saber mais
HELIODORA, Barbara (2000). Um belo filho da Censura, Jornal O Globo, Segundo Caderno, Rio de Janeiro, 5 abr., p. 2.
MARINHO, Flávio (2004). Quem tem medo de besteirol? Rio de Janeiro: Relume Dumará.
MUNIZ, Alethea (2000). De alma lavada. Correio Braziliense. Brasília, 12 nov.
WASILEWSKI, Luís Francisco (2009). Isto é Besteirol: A obra dramatúrgica de Vicente Pereira no âmbito do Teatro Besteirol. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.
WASILEWSKI, Luís Francisco (2010). Isto é Besteirol: o Teatro de Vicente Pereira. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Coleção Aplauso Teatro Brasil.
Iconografia

