VIANNA FILHO, Oduvaldo. Rasga coração. Rio de Janeiro: Serviço Nacional do Teatro, 1980.
Mileni Vanalli Roéfero
Ilustração: Julio Lapagesse
A peça Rasga coração foi escrita por Oduvaldo Vianna Filho (Rio de Janeiro, RJ, 1936 – Rio de Janeiro, RJ, 1974) entre 1972 e 1974, encenada pela primeira vez em setembro de 1979 e publicada no ano seguinte, em 1980. Vianinha foi um autor muito significativo na década de 1960, sobretudo por não dissociar o seu trabalho artístico da militância comunista e do trabalho realizado no Centro Popular de Cultura (CPC), do qual era um dos fundadores.
Antes de seu percurso com o CPC, Vianinha participou do Teatro de Arena e colaborou para a consolidação de experimentações cênicas voltadas à análise crítica da realidade nacional, marcadas pelo posicionamento político e questionador, pela ruptura com o modelo comercial de encenação e pela criação a partir de temas nacionais. Além disso, teve papel fundamental no processo de apropriação, à brasileira, de procedimentos épicos inspirados no teatrólogo alemão Bertolt Brecht, tais como a menção crítica a dados e estatísticas sociais em cena, e a incorporação ao drama de elementos como a narração, os coros (que costumam apresentar uma perspectiva crítica à narrativa comum) e as músicas (criadas na mesma chave, mesclando o problema da peça com problemas reais).
Ao longo de sua trajetória, Vianinha escreveu peças nas quais analisava as contradições brasileiras com toques de humor satírico e recursos estilísticos, como as rimas, que conferiam fluidez e dinamismo à leitura, e representavam a marca registrada da escrita do autor. Nas suas peças, explorava temas como consciência de classe, transformação política e conflitos familiares atravessados pela ideologia. Vianinha começou influenciado pelo didatismo político e pelo teatro de agitação do CPC, mas, com o passar dos anos, elaborou formas mais complexas de dramaturgia, fundindo procedimentos épicos brechtianos à criação de personagens densos e dialógicos. Como sua escrita era marcada pela crítica social, a censura militar proibiu ou mutilou diversas peças – o que revela o quanto a sua produção confrontava o autoritarismo e indicava a importância de repensar as estruturas sociais e culturais brasileiras.
Rasga coração foi o último texto para teatro escrito pelo autor e se somou às dezenas de peças e roteiros para cinema e televisão escritos ao longo de sua vida. Esse texto, assim como Papa Highirte – também escrito no período mais agressivo da Ditadura Militar, de perseguição política e controle ideológico sobre a produção artística –, tornou-se um dos mais vetados pela censura, e só foi liberado para encenação em 1979, quando se deu início à abertura política.
Rasga coração foi escrita em um momento doloroso, pois Vianinha enfrentava o estágio terminal de um câncer que o colocava sob forte pressão emocional. Nesse período, ele se dividia entre a urgência de concluir a peça e a consciência de suas limitações físicas crescentes. Entre os problemas de saúde, o desencanto político e o desejo de transmissão histórica, a peça surge tentando sintetizar décadas de debates internos da esquerda brasileira e, sobretudo, os impasses de uma geração histórica do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
O enredo é ambientado em um apartamento do Rio de Janeiro, no ano de 1972, e retrata os conflitos da diferença geracional de uma família de classe média. Os personagens que figuram tais conflitos são Custódio Manhães Jr. (Manguari Pistolão), que dedicou a vida às atividades de militância do PCB, e seu filho Luís Carlos (Luca), um jovem de 17 anos, idealista e questionador que diverge da militância tradicional do pai.
Em determinado momento da peça, o jovem Luca passa a integrar o movimento de resistência à proibição de cabelos compridos na instituição em que estuda. Manguari, pai de Luca, o instrui a respeito da importância de organizar institucionalmente o coletivo, dando uma sugestão de plano tático. O garoto, contudo, levado pelas ideias mais radicais de Milena, sua namorada e líder do movimento, junto ao restante do grupo, invade o colégio à noite e queima o arquivo com as provas, em uma tentativa de retaliação à suspensão que haviam sofrido. Ao fim da invasão, Luca é detido e agredido pelo inspetor da instituição.
Como punição pelo ato de vandalismo, Luca é expulso do colégio e tudo indica que perderá o ano letivo. Manguari sugere alternativas para que o garoto não perca a oportunidade de prestar vestibular e, pouco depois, descobrem que outra instituição aceitará os alunos expulsos. As duas possibilidades fracassam, porque Luca desiste da faculdade depois de se envolver com práticas de ioga e estudos sobre ecologia e se encantar com o estilo de vida que prega o equilíbrio na relação com a natureza.
Para além do plano narrativo, há questões estilísticas que complexificam a leitura e a análise da obra, acrescentando camadas interpretativas. Uma delas é o fato de que, a cada vez que surgem situações desafiadoras, as rubricas da peça indicam a abertura, através da iluminação e da reorganização do espaço cênico, de uma “fenda” para o passado, na qual percebemos que o pai, na sua juventude, passou pelos mesmos conflitos que o filho vivencia no presente. Assim, quando os personagens do passado do pai se somam ao presente, ora como uma cena simultânea, ora como intromissão desses personagens no plano periférico da ação, vemos as mesmas situações se repetirem em planos temporais diferentes: com o pai no passado e com Luca no presente.
Embora a tônica realista se faça presente nas cenas familiares da peça, o movimento dinâmico entre passado e presente e as incursões pretéritas rompem com o imaginado realismo cênico. Além disso, a perspectiva épica, evidenciada pelo distanciamento brechtiano, intercambia dialeticamente a razão e a emoção e demonstra a predominante característica do teatro político. A influência do teatro dialético brechtiano no teatro brasileiro começou com consistência na década de 1960 e seguiu ganhando notoriedade nas décadas seguintes, pois o escritor alemão desenvolveu recursos formais de distanciamento para canalizar a fruição estética à consciência crítica, que coincidia com o interesse de parte da comunidade teatral brasileira em chamar atenção para os problemas mais urgentes da materialidade dada. Essas ferramentas tinham como objetivo expor contradições e evidenciar que o mundo é transformável. Em Rasga coração, o distanciamento aparece de maneira destacada por meio das menções às estatísticas reais e aos dados históricos.
Em um segundo momento, o paralelismo temporal demonstra o caráter cíclico que acomete as gerações. Para mencionar apenas um exemplo, Nena, a mãe de Luca, horroriza-se quando chega a casa e percebe que o filho e a namorada estão juntos no quarto. No momento seguinte, a cena reproduzida é a de Custódio e Nena jovens, flagrados no quarto pelo pai dele. O tom de represália que Nena exige que o marido aplique sobre o filho é o mesmo recebido por eles na juventude.
No entanto, mais do que a reprodução do senso comum de que “a história se repete”, a dramaturgia destaca que, por trás da aparente repetição, cada geração reage de uma forma às diferentes circunstâncias históricas, sociais e políticas em que vive. A juventude de Custódio e Nena na década de 1940, por exemplo, é completamente diferente da do filho deles, em 1970, embora pensem e ajam de modos parecidos. O apartamento em que vivem funciona como uma réplica minorada da sociedade brasileira, em que há o pai militante, o filho rebelde e a mãe conciliadora, reproduzindo o ciclo de lutas políticas no Brasil e a repetição das desilusões.
Em Rasga coração, considerada uma das mais completas peças do autor pela maturidade teórico-crítica e pelo tempo de pesquisa que antecedeu sua escrita, Vianinha tenta conciliar responsabilidade familiar e ideologia política. Ao comentar sobre o texto, ele próprio relata seu interesse em homenagear a velha guarda militante, responsável, segundo sua perspectiva, pela politização do país. O enredo da peça se mistura à sua própria história, já que ele era filho de militantes do PCB e também foi um jovem ligado aos movimentos de esquerda, de resistência às opressões e ao teatro político. A questão, então, concentra-se em discutir os diferentes entendimentos da posição revolucionária ao longo do tempo e das gerações. Embora a trama esteja situada no contexto da década de 1970, seu conteúdo apresenta impressionante atualidade no Brasil, porque ainda hoje é possível identificar situações de disputa de projeto de país, contradições internas nos movimentos progressistas, embates entre gerações, especialmente de cunho ideológico, e tensões entre militância e vida privada.
Para saber mais
BETTI, Maria Silvia (1997). Oduvaldo Vianna Filho. São Paulo: EDUSP.
BORGES, Luiz Paixão Lima (2021). História e Dramaturgia: passado e presente em Rasga Coração, de Oduvaldo Vianna Filho. Conexão Letras, Porto Alegre, v. 16, n. 26, jul-dez., p. 158-173.
PEIXOTO, Fernando (org.) (1983). Vianinha – teatro, televisão, política. São Paulo: Brasiliense.
Iconografia


