Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Pérola

RASI, Mauro. Pérola. Rio de Janeiro: Record, 1995.

Luís Francisco Wasilewski
Ilustração: Rafael Trinco

Texto de Mauro Perroca Rasi (Bauru, SP, 1949 – Rio de Janeiro, RJ, 2003), Pérola foi publicado no mesmo ano da estreia do espetáculo, que aconteceu no dia 24 de março de 1995, no Teatro Leblon, Rio de Janeiro. A direção dessa montagem foi do próprio autor, que desde A estrela do lar, encenada em 1994, passou a dirigir suas criações. Pérola foi um dos espetáculos de maior sucesso de público e crítica do teatro brasileiro na década de 1990.

O primeiro texto dramático de Rasi a ter repercussão foi O duelo do caos morto, escrito e encenado por ele em Bauru, quando tinha treze anos. O diretor de teatro e depois apresentador de TV Antônio Abujamra se entusiasmou de tal maneira com o espetáculo que levou nomes como Alcides Nogueira, Consuelo de Castro e Sérgio Mamberti para assistir à montagem no interior de São Paulo. A partir daí, na década seguinte foram encenadas em São Paulo e Rio de Janeiro outras peças suas, como A massagem (1972); Ladies na madrugada (1974) e Se minha empregada falasse (1978).

No entanto, é em 1980, quando começou uma parceria afetiva e criativa com Vicente Pereira na comédia musical As mil e uma encarnações de Pompeu Loredo, dirigida por Jorge Fernando, que o trabalho de Rasi como autor teatral passou a ganhar notoriedade. Foi na crítica para esta peça que Macksen Luiz criou o rótulo “besteirol” para definir um espetáculo teatral (Marinho, 2004). O termo então passou a se referir a um conjunto de esquetes, cenas e peças do período marcadas pelas piadas, pelos jogos de palavras e situações nonsense, em que abundavam situações que convocam o deleite com a ambiguidade sexual e o comentário ácido-jocoso a comportamentos cotidianos. Depois de outras contribuições para o gênero, começou Rasi a escrever comédias dramáticas sobre seu universo familiar. A primeira foi A cerimônia do adeus (1987). Na sequência vieram A estrela do lar (1989) e Viagem a Forli (1993). Nessa trilogia, as personagens que representavam o alter ego do dramaturgo receberam o nome de Juliano como personagem.

Em entrevista, o dramaturgo afirma que o projeto inicial de Pérola era falar da construção da piscina de sua casa, mas mudou seu foco após a morte de sua mãe, que também se chamava Pérola. Não à toa, a primeira fala do texto é da personagem que representa o alter ego de Rasi, dessa vez nomeado como Emílio, comunicando ao leitor/espectador o falecimento de sua mãe. A partir disso, as memórias familiares de Emílio começam a ser representadas em cena de forma não linear. Seguem o fluxo das lembranças do protagonista: ora como memórias da adolescência; ora como fatos que antecederam os últimos dias da vida da personagem-título. Como a peça não é realista, o escritor também colocou diálogos do seu alter ego falando com a mãe sobre quem esteve presente no seu enterro, recheando a situação dramática de estranheza e lirismo.

Há passagens da peça que apresentam traços do que depois se mostraria ser um verdadeiro estilo rasiano. Os diálogos de Pérola com a personagem Norma assumem certo virtuosismo, sobretudo quando começam a enumerar, de forma ao mesmo tempo dramática e cômica, seus problemas de saúde. Em Pérola, o escritor levou ao paroxismo essa característica, ao colocar também a presença, através de uma voz off, da mãe da personagem-título que, no decorrer da peça, começa a gritar que vai morrer. Tal intervenção provoca um alvoroço no núcleo familiar, que chama sempre o Doutor Henrique em socorro, o qual nunca aparece fisicamente em cena, mas é recorrentemente lembrado e invocado pelas personagens.

Outro traço rasiano são as discussões aparentemente banais, que ocorrem em momentos como a preparação de um churrasco, e servem para que o escritor faça uma radiografia familiar e aborde temas densos como o alcoolismo da mãe ou o fanatismo evangélico da irmã e do cunhado. Também aparece translúcido o conflito do alter ego de Rasi com a repressão sexual imposta por Pérola, o que, segundo ele, teria dificultado sua relação afetiva com as mulheres. Nesse ponto, o autor retoma uma característica de sua dramaturgia que já estava presente em seu texto A cerimônia do adeus (1987), no qual, a mãe, Aspázia, queima os livros de Simone de Beauvoir lidos pelo filho e chama a escritora de “vagabunda francesa”.

Por fim, uma característica marcante são as frequentes citações fílmicas nos diálogos das personagens ao longo da peça. Elas constroem um permanente intertexto na dramaturgia ao colocá-la em diálogo direto com enredos, tipos e modas que permeavam a cultura popular da época. Há alusões, por exemplo, a películas como Apertem os cintos… O piloto sumiu! (1980). Além disso, como a ação do texto ocorre em torno da piscina e a personagem Pérola ambicionava ser uma pin-up, também são lembrados os filmes aquáticos de Esther Williams. Pérola diz em uma fala que “minha vida parecia que ia ser um longa metragem da Metro”. Pode-se dizer, inclusive, que o cinema seria uma das principais fontes de inspiração temática e de construção de personagens para a “Santíssima Zé Trindade do Teatro Besteirol”, expressão criada por Miguel Falabella para se referir a ele, Rasi e Vicente Pereira.

Aliás, a lógica de espelhamento e a intimidade com que os dramaturgos se referiam a si próprios dão um sentimento de coerência às produções do gênero. Não à toa, há um diálogo no texto de Rasi que era recorrente na obra dos escritores besteirolistas: “Pérola: Acabar com esta casa em formato de funil, só sobra este quintal pra gente poder respirar. Tô pensando em trazer aquela parede pra cá, empurrar a outra pra lá… Emílio: Mamãe, você pensa que parede tem roda?”. Esta expressão, “parede não tem roda”, já aparecia no esquete de Vicente Pereira, Eu viverei amanhã, que integrava o espetáculo Miguel Falabella e Guilherme Karam, finalmente juntos e finalmente ao vivo (1984).

Além dessas constantes tiradas cômicas, como a citada anteriormente, que contribuem para dar o tom da peça, há passagens de forte carga melodramática, como quando a personagem Pérola faz sua irmã contar a razão pela qual ficou cadeirante. A cena, que promove verdadeiro corte no fluxo acelerado dos diálogos cômicos, ganha aqui um ritmo outro, recorrendo a imagens de forte apelo sentimental. Isso mostra, mais uma vez, o diálogo íntimo do besteirol com as tradições folhetinistas – o próprio Rasi foi cronista do Jornal do Brasil e O Globo e era comum em seus textos comentários satíricos sobre telenovelas como as mexicanas A usurpadora (1998) e A alma não tem cor (1997), que eram exibidas pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT).

A encenação de Pérola, sob direção do autor, ficou cinco anos em cartaz no Brasil. Durante quatro anos foi a maior bilheteria do teatro brasileiro (Wasilewski, 2009). Tornou-se um divisor de águas na trajetória artística de Vera Holtz, que interpretou a personagem-título. Em 1997, estreou uma montagem argentina da peça, intitulada Perla e protagonizada por Soledad Silveyra. No mesmo ano, a atriz espanhola Carmen Maura viajou com a equipe da turnê do espetáculo brasileiro, pois estava interessada em encenar o texto na Espanha, fato que acabou não se concretizando. Em sua biografia, o ator Sérgio Mamberti, intérprete de Vado, lembrou o sucesso da encenação brasileira: “Pérola foi um acontecimento, era a família brasileira retratada de forma sublime. Vera teve o grande papel de sua carreira e ganhou os principais prêmios do ano. Modéstia à parte, também trabalhei muito bem e recebi os prêmios Mambembe e Sharp. Fui tomado inteiramente pelo Vado, algo que aconteceu poucas vezes durante a minha trajetória” (2021).

Em 2022, Pérola chegou aos cinemas em uma adaptação dirigida por Murilo Benício, com Drica Moraes interpretando a personagem-título. No filme, a personagem Emílio ganhou o nome de Mauro e a homossexualidade foi explicitada: Mauro vai ao velório da mãe acompanhado de seu namorado. A concepção estética da película remete ao cinema de Pedro Almodóvar, cineasta espanhol que teve em muitas de suas obras Carmen Maura como protagonista. Mesmo com situações, diálogos e referências que com frequência parecem vincular Pérola a um universo específico dos anos 1980 e 1990, toda essa trajetória dramatúrgica mostra como a intensidade das personagens, a comicidade dos diálogos e a força das situações melodramáticas ali construídas ainda possuem vigor e atualidade.

Para saber mais

MAMBERTI, Sérgio; ALVES JÚNIOR, Dirceu (2021). Senhor do meu tempo. São Paulo: Edições SESC.

MARINHO, Flávio (2004). Quem tem medo de besteirol? Rio de Janeiro: Relume Dumará.

RASI, Mauro (1994). Novela, jamais! [Entrevista concedida a] Elda Priami. Interview, São Paulo, n. 178, p. 78.

WASILEWSKI, Luís Francisco (2009). Isto é Besteirol: a obra dramatúrgica de Vicente Pereira no âmbito do Teatro Besteirol. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Universidade de São Paulo, São Paulo.

WASILEWSKI, Luís Francisco (2015). A receita do sucesso do dramaturgo no Teatro Besteirol: o estudo da comicidade na obra dramatúrgica de Mauro Rasi entre os anos 1978 e 1985. Tese (Doutorado em Literatura Brasileira) – Universidade de São Paulo, São Paulo.

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WASILEWSKI, Luís Francisco.
Pérola.

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15 jun. 2026.

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30 jun. 2026.