BUARQUE, Chico; PONTES, Paulo. Gota d’água. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.
Carlos Gontijo Rosa
Ilustração: Dona Dora
A primeira edição de Gota d’água, publicada em 1977, pela Editora Civilização Brasileira, apresenta uma semiose muito particular: o nome dos autores, Chico Buarque (Rio de Janeiro, RJ, 1940) e Paulo Ponte (Campina Grande, PB, 1940 – Rio de Janeiro, RJ, 1976), figura apenas na lombada da publicação. Já o título da peça também aparece em posição pouco usual, quase em nota de rodapé, tendo em primeiro plano, na capa, uma foto cênica muito escura de uma mulher e duas crianças. Esta imagem é recortada em formato de gota logo acima das figuras, o que deixa antever parte de uma folha de jornal, com manchete e lide legíveis. Um aviso: essa primeira capa contém spoilers! Talvez por se atentar a isso, há já várias edições a editora a alterou.
De maneira quase oposta, a remodelagem da capa para uma edição mais clean apresenta menos elementos – e os que apresenta são menos explícitos das relações intertextuais travadas pelos autores com os textos clássicos. Nessa capa, cuja edição consultada é a 35ª (de 2006, pela mesma editora, que já aponta em 2025 ter publicado a 59ª edição da obra), há o título da peça sobre um varal cheio de roupas para secar, lembrando um cortiço ou as periferias das grandes cidades brasileiras – imagem reforçada pela apresentação do título completo: Gota d’água – Uma tragédia brasileira.
A peça estreou em São Paulo em abril de 1977, com direção de Gianni Ratto e tendo a já famosa Bibi Ferreira interpretando Joana, a protagonista. A multiartista ainda lançou, no mesmo ano, um LP em vinil pela gravadora RCA Victor, intitulado Bibi Ferreira – Gota d’água – de Chico Buarque & Paulo Pontes. Tantos produtos, apenas reforçam o sucesso de público e crítica obtido pela obra quando de sua representação.
Buarque não era desconhecido no meio teatral: já havia musicado Morte e vida severina (1965) e escrito Roda viva, em 1967, que vai à cena com direção de Zé Celso Martinez Corrêa em 1968, além de Calabar: o elogio da traição, com Ruy Guerra, em 1973, inicialmente proibida pela censura e só representada em 1979. Em entrevista em janeiro de 1975, reproduzida em seu site oficial, o autor afirma a respeito de Gota d’água: “É uma peça que prezo, faço questão que as palavras sejam aquelas”, ecoando um posicionamento assumido com seu coautor, Paulo Pontes, no prefácio à publicação do texto: “A forma que nós encontramos para refletir esse estado [da cultura brasileira] foi evidenciar a necessidade da palavra voltar a ser o centro do fenômeno dramático” (Buarque; Pontes, 2006).
A peça é uma releitura da tragédia clássica Medeia, escrita por Eurípides em 431 a.C. Assim como os autores das tragédias clássicas, Pontes e Buarque optam pela estrutura em versos, que se propõem quase sempre rimados, quase sempre decassílabos ou pseudo-alexandrinos – ou pelo menos como versos longos, às vezes quebrados entre as falas das personagens em diálogos mais rápidos. Com isso, ainda segundo os autores no prefácio ao texto publicado: “Nós escrevemos a peça em versos, intensificando poeticamente um diálogo que podia ser realista, um pouco porque a poesia exprime melhor a densidade de sentimentos que move os personagens, mas quisemos, sobretudo, com os versos, tentar revalorizar a palavra” (Buarque; Pontes, 2006).
O texto brasileiro desloca o espaço narrativo da clássica Corinto para o subúrbio carioca e caracteriza as personagens dentro da estrutura social daquele momento e contexto – sem que se perca, entretanto, o caminho narrativo do mito e da construção de personagens já compostos por Eurípides na Antiguidade. Assim, Jasão é tornado sambista; Creonte, um bicheiro; e Egeu, um líder popular da comunidade. Há dois coros que orbitam os ambientes marcadamente masculinos do cenário, que os autores chamam de “set das vizinhas” e “set do botequim”. A função do coro aqui, paralela à do coro grego, é de comentarista da ação. Já Medeia é feita Joana, apresentada ao público-leitor nas primeiras falas da peça como “aquilo é muito mulher” ou “precisa mais que uma calamidade / pra derrubar aquela fortaleza”. Ela é uma mulher mais velha, que por dez anos “construiu” um Jasão que conheceu recém-saído da adolescência e agora, como no mito clássico, se vê abandonada pelo amante, que se casa com outra.
Ainda assim, mesmo acompanhando muito de perto a estrutura narrativa mitológica amplamente conhecida, a peça surpreende: primeiro porque aproxima e, em certa medida, “humaniza” as personagens mitológicas, “melhores do que nós”, conforme o pensamento de Aristóteles; depois porque, mesmo sendo um mito conhecido, as novas relações estabelecidas entre as personagens, o embate entre elas (ou seja, a forma como a história é apresentada) e o final são inesperados. Nesse sentido, a manchete do jornal presente na primeira versão publicada na capa entregava os inéditos clímax e desfecho da peça. Embora em letras bastante pequenas, a “notícia de jornal” que compõe grande parte da imagem dá todo o serviço da peça, apresentando sumariamente a situação inicial catalisadora do conflito: “Vingança macabra. Abandonada pelo amante Jasão, o famoso autor do grande sucesso ‘A gota d’água’. Quando ficou famoso preferiu a filha do rico bicheiro. Ciúme foi a causa do tresloucado gesto”. Nesse excerto, já se vislumbram tanto as referências mais diretas à narrativa mitológica quanto suas adaptações.
Essa versão da tragédia, por sua vez, ainda que estabeleça paralelos muito próximos com a peça grega, foi inspirada numa adaptação de 1972 de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, intitulada Medeia: uma tragédia brasileira – feita a partir da tragédia euripidiana para o programa Caso Especial número 24 da TV Globo, veiculado em 1973. “Paulo e Chico devem ao criador da Medeia televisiva o achado de trazer para a atualidade dos subúrbios cariocas a trama da grande peça clássica. O tratamento dado por eles ao tema soube desenvolver-se com independência, mas conservou diversos traços – a personagem principal torna-se macumbeira e Jasão é compositor popular em ambas as histórias, por exemplo”, diz Fernando Marques (2000), ao analisar a peça.
Se, à altura da escrita de Gota d’água, Buarque já era Chico Buarque – com 11 discos lançados, peças escritas e musicadas e alguma experiência como autor de narrativas; Pontes, que viria a falecer no ano seguinte à estreia de Gota d’água, acometido por um câncer no estômago, também já era Paulo Pontes: o paraibano, marido de Bibi Ferreira, autor entre outras produções relevantes para o teatro brasileiro de dois importantes textos para a cena produzidos em meados do século XX: para o teatro, o show Opinião, em 1964; para a TV, a série A grande família, de 1972 a 1975. Estando no auge de sua carreira, já havia estabelecido parcerias e diálogos com grandes artistas brasileiros atuais e que viriam a ser. Assim como Buarque, foi uma personalidade artística agitada e politizada, sempre mobilizando seu discurso em prol da liberdade e da democracia.
Não é nenhum spoiler dizer que Medeia mata seus filhos. Foi esse o legado de Eurípides para a personagem. Buarque e Pontes não negam o final trágico tradicional, nem a constituição característica das personagens principais: Medeia/Joana, Jasão e Creonte são reconhecíveis nas figuras cariocas, bem como o coro de mulheres; Alma, Egeu e a corifeia Corina ganham novas características a partir de uma leitura mais livre dos caracteres de Eurípides; e há o acréscimo tanto do coro de homens quanto da individualização de personagens secundárias e suas vontades, como Boca Pequena, Estela, Cacetão, Nenê etc.
Contudo, ainda que seguindo de perto a intriga original, os autores brasileiros trazem a novidade tanto por sua adaptação à brasileira, quanto por mudanças no enredo que, apesar de às vezes sutis, alteram bastante a dinâmica do mito inicial – especialmente o desfecho, que não deixa de ser o final euripidiano, embora também não o seja. Dizer mais do que isso é fazer como fizera o primeiro capista na publicação de 1977: se, por um lado, ele pode ter considerado que o prazer da leitura de uma tragédia consiste em já se saber o enredo, mas perceber como o poeta narra “fatos que poderiam acontecer” (ainda, como diz Aristóteles); por outro, ele esquece que o leitor contemporâneo se maravilha em acompanhar o desenrolar dos fatos e se espantar. No final de Gota d’água, há uma surpresa que extrapola o mito clássico, contemporaniza-o, sem que ele perca a tragicidade.
Para saber mais
BUARQUE, Chico; PONTES, Paulo (2006). Apresentação. In: Gota d’água: uma tragédia brasileira. 35ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. p. 9-19.
CHICO BUARQUE. Chico Buarque – site oficial, [s.d.]. Disponível em: https://www.chicobuarque.com.br. Acesso em: 4 dez. 2025.
FERREIRA, Bibi (1977). Gota d’água. Rio de Janeiro: RCA Victor. LP (vinil).
MARQUES, Fernando (2000). O banquete da meia dúzia: fontes e estruturas de Gota d’água. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, v. 1, n. 26, p. 3-12. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/8859. Acesso em: 4 dez. 2025.
Iconografia




