Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

MPB: muita poesia brasileira

MÍCCOLIS, Leila. MPB: Muita poesia brasileira. Rio de Janeiro: Trote, 1982.

Daniella Bertocchi Moreira
Ilustração: Sofia Izar

MPB: Muita poesia brasileira, de Leila Míccolis (Rio de Janeiro, RJ, 1947), publicado em 1982, conta com 151 poemas que dialogam com canções da MPB, selecionadas com base nas composições de artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Gonzaguinha e tantos outros que compunham o repertório da poeta. Os poemas são precedidos de trechos de canções – um, dois ou até três trechos – e apresentam uma relação dialógica com elas, ora complementando, ora discordando ou apenas usando as canções como tema para os versos que seguem. A poética característica de Míccolis já se faz presente nessa obra, marcada por uma escrita que privilegia poemas curtos, geralmente com uma ou duas estrofes, compostos por tercetos ou quartetos, em sua maioria. Como autora integrante do movimento marginal e da geração mimeógrafo, Míccolis escreve de forma objetiva, sintética e marcada por doses de ironia.

A poeta iniciou sua carreira nos anos 1960 e tem, em seu currículo, 13 livros de poesia publicados, abarcando os anos de 1965 a 2023, sendo o primeiro deles Gaveta da solidão (1965) e o mais recente, a coletânea de poemas Em poetisa todo mundo pisa (2023). Além dos poemas, a autora também publicou dois romances, As taras do além (1980) e O cio da donzela (1983). Muito atuante na literatura, Míccolis se aventurou em outras searas como autora ou coautora de roteiros de novelas para televisão, como em Kananga do Japão (1988) e Barriga de aluguel (1990), além de ter escrito crônicas e contos e constar em mais de 30 antologias e coletâneas.

Os autores do movimento marginal e da geração mimeógrafo, expoentes nos anos 1970, valorizavam uma escrita descolada do beletrismo e das formalidades estéticas, marcada pelo rompimento com certa tradição literária. Inicialmente vista como uma tendência passageira, a poesia marginal se firmou como expressão estética característica da década de 1970 e revelou autores hoje renomados, como Cacaso e Francisco Alvim, além da própria Leila Míccolis.

Os poemas dessa geração são marcados pela informalidade, pelo coloquialismo, pelo humor e pela ironia, mas também por um forte tom de denúncia social e de posicionamento contra a Ditadura Militar. Essas características não se limitaram à literatura, mas se expandiram para a cultura como um todo, especialmente no que se refere à música produzida nos anos 1970, impulsionada pelo tropicalismo, pelo movimento hippie e pelos grandes festivais de MPB. Foi nesse contexto que Míccolis produziu e publicou suas primeiras obras, influenciada pelo momento de aperto político e social e, ao mesmo tempo, de efervescência cultural, construindo uma carreira marcada por uma produção que mistura crítica social, subversão dos papéis de gênero, sátira e muito sarcasmo.

A linguagem adotada pela autora é, em geral, coloquial e direta, o que a aproxima do leitor que acompanha em seus poemas uma reprodução da própria realidade. A proposta da poesia de Míccolis é fazer do leitor um interlocutor e torná-lo consciente dos problemas sociais. Sua poesia intenta abalar estereótipos, romper com padrões de comportamento e estimular o pensamento crítico de quem a lê, por meio de poemas que, aparentemente, tratam de questões corriqueiras.

Os poemas presentes em MPB: Muita poesia brasileira refletem não só a marca da escrita de Míccolis, mas também retratam o espírito da época. A obra dialoga com a produção musical dos anos 1970 e início dos anos 1980 e discute questões relevantes para o momento, abarcando, em sua grande maioria, a temática de relacionamento entre casais – impulsionada pela liberação sexual e por mudanças como a lei do divórcio de 1977 – e também a Ditadura Militar.

Dentre os variados temas encontrados nos poemas, 94 deles tratam de relacionamentos, cinco são sobre Ditadura Militar e 52 apresentam temáticas diversas, como solidão, cidades, migração, gatos e mar, entre outros assuntos. A relação entre poesia e canção é evidenciada no prefácio do livro, conforme relata Míccolis. Assim, a obra foi dedicada aos poetas da música popular brasileira e as canções escolhidas foram aquelas que a ajudaram a passar por momentos difíceis. Míccolis complementa dizendo que seu intuito foi o de mostrar como o processo criativo constitui uma constante transformação das informações veiculadas pela música.

A temática prevalente é o relacionamento entre casais, mas não de forma idealizada. O relacionamento é retratado de forma irônica, destacando a desigualdade dos papéis entre homens e mulheres. Míccolis convida seu leitor a pensar criticamente acerca dos papéis impostos pela sociedade, especialmente aqueles atribuídos às mulheres. Em seus poemas, ao contrário do esperado em uma literatura dita feminina, a mulher tem agência e se posiciona de forma ativa na relação, demonstrando seus desejos – ainda que sejam tabus – sem receio de julgamentos. Os poemas, por mais breves que sejam, dão conta de tratar do assunto, como acontece em “Corrimão”: “Correr de mão em mão, / de cama em cama, / e a todos se entregar de olhos abertos”, antecedido pelo trecho da canção “Daquilo que sei”, de Ivan Lins e Vitor Martins: “Não tapei os olhos / não fechei os ouvidos / cheirei, toquei, provei / ah! eu usei todos os sentidos / só não lavei as mãos / e é por isso que eu me sinto / cada vez mais limpo!”.

A linguagem coloquial, próxima da oralidade, ambiciona provocar uma reflexão e uma reação dos leitores ao que foi instituído pela sociedade como certo ou moralmente aceito, além de ridicularizar os valores burgueses por meio do amplo uso de humor e ironia. Um exemplo disso pode ser visto no poema “Esconde-esconde”:

“Esse cara com seu jeito
me mantém como refém:
se eu desisto ele me chama,
se eu procuro ele não vem;
nu em pelo, entra em meus sonhos,
traz pesadelos medonhos,
me atiça como a um cãozinho,
mas foge dos meus carinhos,
Com isso ele pensa (eu acho)
que me prende fácil, fácil…
Quer ser tão forte o meu macho
e nem sabe o quanto é frágil”

Antecedido pelas canções “Como vai você”, de Antônio Marcos, e “Esse cara”, de Caetano Veloso, o poema “Esconde-esconde” retrata uma relação em que o eu-lírico ironiza o comportamento incerto do parceiro, que se afirma como o dominador na relação, mas que revela, na verdade, uma grande insegurança. O jogo de oposição de ações e palavras reforça a insegurança sugerida: desisto/chama, atiça/foge, forte/frágil.

A crítica à Ditadura Militar surge, por exemplo, em poemas como “Mudismo”, que é curto, com apenas seis versos, de uma a oito sílabas e rimas que incomodam. A autora escreve:

“Esse minuto de silêncio,
tenso,
que nos incomoda há tantos anos
feito uma íngua,
não é homenagem póstuma
é que nos cortaram a língua…”

A escolha por “Para não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, e “Na hora do almoço”, de Belchior, como trechos que inspiraram o poema, sugere uma relação dos versos com a censura imposta pelo regime de exceção. O minuto de silêncio nos remete imediatamente à ideia de homenagem a alguém que morreu, a quem, no geral, se presta respeito. Entretanto, essa ideia é contraposta no 2° verso, o qual indica que o silêncio é tenso, e ampliada no terceiro verso, em que se evidencia o incômodo persistente, alusão provável ao silêncio imposto pela Ditadura Militar. No 4° verso, a autora compara o incômodo do silêncio à íngua, problema que surge como uma resposta do corpo a uma inflamação. Essa inflamação poderia ser oriunda de um problema físico ou pode ser vista como uma alusão ao governo militar, que deixou a sociedade doente e que incomodou a muitos. O 5° verso, “não é homenagem póstuma”, reitera o fato de que esse silêncio diz respeito à censura, ideia reforçada pelo último verso: “é que nos cortaram a língua”.

MPB: Muita poesia brasileira reúne poemas escritos há mais de quatro décadas, em um contexto político e cultural distinto, mas cuja força expressiva permanece notavelmente atual. A obra transcende o tempo, não apenas por tratar das relações humanas em sua complexidade, mas também por se configurar como um retrato sensível de sua época e, simultaneamente, como um gesto de resistência diante das tensões políticas e sociais que marcaram o período. Ao revisitar essas vozes, o leitor reconhece que os versos de Leila Míccolis continuam a ecoar, não apenas como testemunho histórico, mas como manifestação viva de contestação, liberdade e permanência da poesia como forma de intervenção crítica no mundo.

Para saber mais

ALMEIDA, Evelyn Santos (2025). A poesia feminista de Leila Míccolis: crítica e resistência à violência patriarcal. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória.

MOREIRA, Daniella Bertocchi (2015). A poesia testemunho de Leila Miccolis. Dissertação (Mestrado em Estudos Literários) – Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória.

SALGUEIRO, Wilberth (2002). Forças & formas: aspectos da poesia brasileira contemporânea (dos anos 70 aos 90). 1. ed. Vitória: Edufes.

SALGUEIRO, Wilberth (2007). Militância e humor na “poesia de testemunho” de Leila Míccolis. In: SALGUEIRO, Wilberth. Lira à brasileira: erótica, poética, política. Vitória: Edufes. p. 75-91.

SALGUEIRO, Wilberth (2013). Poesia de testemunho (com doses de humor): Alex Polari, Glauco Mattoso, Leila Míccolis e Jocenir. Signótica, Goiânia, v. 25, n. 1, p. 35-50.

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Como citar:

MOREIRA, Daniella Bertocchi.
MPB: muita poesia brasileira.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

12 jun. 2026.

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8294.

Acessado em:

29 jun. 2026.