Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Falo

AUGUSTO, Paulo. Falo. Rio de Janeiro: Edição do autor, 1976.

Júlio César de Araújo Cadó
Ilustração: Dona Dora

No livro de entrevistas Além do nome (2008), a poeta e jornalista potiguar Marize Castro assim traça um retrato de Paulo Augusto (Pau dos Ferros, RN, 1950), colega de ambos os ofícios: “Sim, ele é uma pessoa ‘fora da ordem’. Não exijam dele o comum, os valores pequeno-burgueses que sufocam a vida – a verdadeira vida” (Castro, 2008). 

Nascido no interior do Rio Grande do Norte, o escritor foi para a capital do estado em 1953, sendo esta a primeira viagem de uma vida em trânsito. No final da década de 1960, quando o Brasil já se encontrava imerso em uma Ditadura, sob os efeitos do AI-5, Augusto se mudou para o Rio de Janeiro, onde cursou Jornalismo na Universidade Federal Fluminense (UFF) e se aproximou do grupo que viria a compor o primeiro periódico brasileiro LGBTQIAPN+ explicitamente dedicado à pauta da diversidade, o Lampião da Esquina

Nesse tempo, veio à lume Falo, lançado em 1976. Ao todo, o livro conta com trinta e dois textos, majoritariamente poemas, mas com algumas incursões por outros gêneros, a exemplo de um conto e de composições que deslizam entre os limites das formas literárias. Os gestos de subversão do poeta fazem-se ler desde a dedicatória a João Francisco dos Santos, ou Madame Satã, figura que segue imortalizada nas ruas da Lapa e nos versos de um dos poemas do livro:

“Ficou teu brinco, o charme,
a tônica, a perna no ar,
capoeira e pinga.” 

O título da obra instaura uma ambiguidade que aponta para algumas características nucleares. Lido como palavra verbal, “falo” corresponde à forma flexionada do verbo “falar” na primeira pessoa do singular; já em sua entrada substantiva, refere-se ao órgão sexual designado ao masculino. Pela convergência dos sentidos, a escolha do título reflete a expressão de sujeitos poéticos que performam sexualidades dissidentes do modelo heteronormativo. Sublinha-se, ainda, que, para além de representações masculinas explicitamente homossexuais, há textos que questionam as identidades e a norma de cisgeneridade, a exemplo de “a mulher que mora em mim”. 

Os versos de “avant-première”, primeiro poema do livro, soam de modo exemplar na estrutura mais ampla das composições. Neles, o sujeito poético rememora, com todo o corpo, a primeira experiência sexual. A ambientação em que tal descoberta se deu é marcada por sinais de que algo era proibido – “no canto do muro” – e também de hesitação – “e me recordo: meu coração / recuou”. Além disso, deixam transparecer ecos dos discursos que visam à opressão e à chancela sobre a vontade alheia, metonimicamente representados pela voz materna: “– Homem é para-mulher, / e mulher é para-homem”. 

As características destacadas reverberam em outros textos, ora detendo-se na experiência individual de um sujeito, cujo interesse – por João, Antônio ou outro rapaz – é controlado por qualquer forma de moralismo, ora projetando-se sobre um corpo social mais ampliado, sobre o qual o poder institucional pretende legislar. É exemplar, nesse sentido, a presença de figuras que materializam as ordens jurídica e moral, como um “homem togado” e uma “velha despótica”.  

No poema “na pensão flor de minas”, formaliza-se, em um registro de linguagem que beira a prosa, o relato da impossibilidade de concretizar o encontro mais carnal entre o sujeito poético e outro rapaz – “é rebento, 24 anos” –, apesar de compartilharem o mesmo espaço. Se os corpos não se tocam, o desejo, no entanto, extravasa pela visão:

“Olhou nos meus olhos
um dia
seu pecado feito carne
e viu meus cílios baterem”

Desse encontro, um rebuliço parece tomar os dois sujeitos: “Me olha, estremece, tem medo”. 

Rompendo a intimidade de um quarto de pensão, o poeta aponta a existência de estratégias de intervenção, de modo incisivo, na sociedade. Ao considerar o contexto brasileiro, especificamente o período de publicação do livro, observa-se o recrudescimento do controle sobre corpos e subjetividades que põem em questão o paradigma heterocisnormativo. Durante o Regime Militar, diversos mecanismos legais foram criados, bem como ações foram executadas, com a finalidade de coibir aqueles lidos como “perniciosos” (Quinalha, 2021). 

O poeta não descuida dos procedimentos estético-composicionais para inscrever a violência que entranha, consome e desumaniza aqueles que ousam dizer suas paixões. Isso pode ser lido em uma série de textos de Falo, como “system-attica” e “estatuto”. Neste segundo poema, a estrutura dos versos sugere a sobreposição incessante de camadas que restringem as possibilidades de existência:

“Ser bicha é ser enquadrado
no inciso C
do parágrafo terceiro
do artigo 24
da lei de segurança inter
nacional”

Mobilizando um léxico próprio da esfera jurídica, somam-se estrofes a fim de intensificar a sensação de aprisionamento que sujeita a um “estado de espírito, / de choque, de sítio, / de graça”. 

Antes utilizada com valor pejorativo, como motivo de piada que “gargalha garganta a dentro”, a palavra “bicha” foi tomada no poema como espólio da violência e alçada a um valor afirmativo para aqueles que anseiam por “estar entre, no meio, ser meta-de / outros homens”. Nesses versos, mostra-se, mais uma vez, o jogo com a formação vocabular, já que a escritura “meta-de” permite que sejam lidas cada uma das partes de um casal (“metade”) ou uma finalidade (“meta de”). 

Augusto também se vale de certo diálogo com a tradição literária brasileira. Esse gesto de aproximação torna-se evidente no poema “vae victis”. O texto recupera o nascimento do sujeito poético, também chamado Paulo, instaurando um diálogo logo no primeiro verso: especificamente, ele recupera a imagem singular de um “cão sem plumas”, construída por João Cabral. A camada mais superficial da celebração (“o povo festeja”) cifra, no entanto, o ritual da violência (“etiquetado”) que sai pela boca de uma enfermeira, transmutada em serpente: “Oficiosa, a víbora morde, sopra, / cospe um verbete: Homem!”. Em contrapartida, surge, no fim, uma figura angelical, intertextualidade com o anjo torto de Carlos Drummond de Andrade. O anjo de Paulo, porém, se menos entortado, não deixa de cantar sua sina: “– Vai, Paulo, ser gay na vida!”. 

O erotismo, as questões de gênero e os anseios da sexualidade estão, em Falo, ainda modalizados no que diz respeito ao recorte regional. Alguns textos evidenciam o pertencimento ao Nordeste brasileiro, onde a construção imagética de um tipo social esteve fortemente atrelada à formulação de um ideal de virilidade (Albuquerque Júnior, 2013). A dupla de poemas “um homem lá do nordeste” e “homem como carne humana no cariri” demonstram esse aspecto, mobilizando signos costumeiramente ligados à região. No primeiro, percebe-se um tom que se assemelha a uma história contada:

“Lampião jogava a criança
pra riba,
a criança sorria,
o céu era azul,
o vento bom”

Já no segundo, Augusto desfruta dos sentidos da palavra “comer”, entre a fome e a libido, rasurando, assim, um retrato de masculinidade imposta:

“Homens comendo homens,
com farinha e pinga,
comendo paçoca de carne
de bunda – mole e fresca” 

No conjunto do livro, destacam-se, também, os textos “aviso aos navegantes” e “angelino distributors & co”, ambos marcados pela experimentação estrutural e pelo flerte com gêneros da esfera publicitária, além do conto “o heterossexual”. Neste, a ironia de Augusto propõe uma sociedade em que tal orientação sexual se tornou uma exceção. O protagonista da narrativa, Elizeu, é visto como um resíduo de um mundo perdido no tempo, certo “passado belicoso”, antes que a lógica machista e opressora levasse à insurgência de uma Terceira Guerra Mundial. 

Na fresta do estigma e do desejo, numa rotina de “vida-medo”, os poemas de Falo prospectam outros horizontes, atados fortemente à redemocratização do país, distante no ano de publicação do livro, em cuja promessa se avista também uma paisagem mais serena para “aqueles que apreciam / carinhos por outras rotas” – futuro ainda por se cumprir.

Para saber mais

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz (2013). Nordestino: invenção do “falo” – uma história do gênero masculino (1920-1940). 2. ed. São Paulo: Intermeios.  

ANDRADE, Maria Regina Soares Azevedo de; CADÓ, Júlio César de Araújo; MELO JÚNIOR, Orison Marden Bandeira de (2025). O gozo e o jugo em Falo (1976), de Paulo Augusto. Matraga, Rio de Janeiro, v. 32, n. 64, p. 113-128. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/matraga/article/view/85492. Acesso em: 25 set. 2025.

CASTRO, Marize (2008). Paulo Augusto. In: CASTRO, Marize. Além do nome. 1. ed. Natal: Una; Fundação Cultural Capitania das Artes. p. 234-241. 

GOMES VARJÃO, João Victtor (2019). “Quer me tributar, me chupar, foder-me porque sabe que é maravilhoso ser fresco” – A poesia-bicha de Paulo Augusto. Revista Periódicus, Salvador, v. 1, n. 11, p. 192-208. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/article/view/29300. Acesso em: 26 set. 2025.

QUINALHA, Renan (2021). Contra a moral e os bons costumes: a ditadura e a repressão à comunidade LGBT. São Paulo: Companhia das Letras.

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Como citar:

CADÓ, Júlio César de Araújo.
Falo.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

12 jun. 2026.

Disponível em:

8267.

Acessado em:

29 jun. 2026.