CARLOS, Dione. Cárcere ou porque as mulheres viram búfalos. Belo Horizonte: Javali, 2024.
Kil Abreu
Ilustração: Manuela Dib
Cárcere ou porque as mulheres viram búfalos é um texto que se soma às criações dramatúrgicas de Dione Carlos Cuzati Marques (Rio de Janeiro, RJ, 1977), desdobrando a investigação da autora em torno de temas como o presente contrastado com o passado histórico, mitologias afro-brasileiras, conflitos sociais, ancestralidades negras e imaginário da mulher. A peça foi criada a pedido da Companhia de Teatro Heliópolis, de São Paulo, e encenada pela primeira vez em 2022. Em 2024, foi publicada pela editora Javali. A partir da realidade da favela e, especialmente, das mulheres dessas comunidades, a história conta o drama da desigualdade social brasileira em uma das suas faces mais cruéis: o encarceramento em massa.
O título é referência implícita ao orixá Oyá-Iansã, da mitologia iorubá. Em uma de suas variações, a narrativa refere-se a Oyá como divindade que se transforma em borboleta e também em búfalo, sempre pronta a correr, de onde estiver, para proteger os filhos. Ainda que a peça seja escrita fundamentalmente em chave naturalista, essa remissão subliminar do título ganha representação concreta já na primeira cena, quando Iansã entra no palco junto com um coro. Adiante ficará claro o paralelismo. A simbologia mitológica é assimilada em duas personagens, as irmãs Maria dos Prazeres (interpretada por Dalma Régia na montagem da Companhia de Teatro Heliópolis) e Maria das Dores (interpretada por Jucimara Canteiro).
São personagens que intercambiam aquelas características – do voo paciente sobre as circunstâncias ao ataque defensivo, atitudes necessárias às mulheres do andar de baixo na sociedade brasileira em suas lutas ordinárias e na defesa dos seus e das suas. Mulheres retratadas a um só tempo como resilientes e combativas, empenhadas em avaliar, enfrentar e recriar a realidade em que vivem. Nessa encruzilhada de informações mitológicas, metafísicas, reais e imaginadas, a dramaturga opera a construção de uma narrativa colada à vida do país, especialmente à vida das classes subalternizadas.
A história da família e de seu entorno é, entre outras coisas, a história de homens encarcerados entre os muros dos presídios. Em outra frente, é a história de mulheres parcialmente aprisionadas do lado de fora. Contornando o determinismo, contudo, a autora compõe as personagens femininas como forças atávicas capazes de ensaiar o salto para fora da tragédia, inclusive dos vínculos destrutivos de gênero. Mesmo amplamente favorável a adotar a defesa das questões de classe de seus personagens, Dione Carlos não recusa a tarefa de apontar ali certa metafísica do poder, por meio da qual o leitor, ou a plateia, pode notar relações autoritárias também entre os dominados.
No decorrer da narrativa, alternam-se o relato épico e o dialogismo dramático, personagens realistas e simbólicos (chamados pela autora de “figuras”). Entre estes, do lado de fora das grades, estão parentes, vizinhos, testemunhas, policiais e agentes do processo judicial. São personagens que dão conta de testemunhar e viver as agruras do sistema e o trânsito difícil entre a aparente sina dos párias e a incompreensível lógica das leis, que nunca os favorece. Na penitenciária estão os companheiros de Gabriel (o filho e sobrinho preso), um enfermeiro e um carcereiro. Todos têm trajetórias pessoais divididas entre erros deliberados e armadilhas inevitáveis para as quais caminharam, empurrados por demandas de sobrevivência.
São a um só tempo dois mundos e o mesmo mundo, determinados pelas condições de classe e raça. Perfazem dois planos da ação em que os de fora empenham-se na luta persistente pela própria existência; e os aprisionados performam o tempo de espera que parece não passar, assim como parece ser o tempo cíclico do processo histórico brasileiro, assentado na violência que destroça subjetividades, no autoritarismo, no mando e na submissão.
Embora seja carioca de nascimento, Dione Carlos tem suas atividades desenvolvidas essencialmente em São Paulo. Suas peças foram encenadas principalmente por grupos da cidade, na linhagem dos teatros de criação coletiva, como a Capulanas Companhia de Arte Negra, a Companhia Livre, o Coletivo Legítima Defesa e a Companhia de Teatro Heliópolis. Com trajetória considerada por ela mesma “incomum”, começou a escrever aos trinta anos, sem ter acessado a cena teatral regularmente até então. Filha do subúrbio, via o teatro como um bem pertencente a uma classe que não era a dela. Em compensação, as formas de interação social vividas ali foram uma escola em que música e palavra prepararam o interesse em direção à criação literária e dramática: “Fui criada num ambiente extremamente oral onde a palavra era e é garantia. A palavra não é uma performance, no sentido de ser utilizada para tentar se relacionar. A palavra tem uma força. Nesse sentido, acho que sim, venho da tradição dos griôs do Rio de Janeiro, de alguma maneira. Venho do samba. Na casa da minha mãe, por exemplo, as pessoas entravam pedindo licença cantando”, diz ela, em entrevista (Carlos, 2019).
Em Cárcere ou porque as mulheres viram búfalos, são reconhecíveis as influências biográficas da autora. Seu lugar social de origem aparece no rol de referências que vão da mitologia afrodiaspórica à lembrança, na realidade presente, de vidas vividas entre dor e festa, entre cultura popular de massa e necessidade de afirmação política. Exemplar dessas relações é a fala da personagem Maria dos Prazeres, quando comenta com Mocinha, sua afilhada, o que pretende fazer quando o sobrinho, preso, voltar: “Maria dos Prazeres – […] Eu vou colocar a geladeira em cima da laje, vou encher de cerveja, vou comprar um monte de carne […] Eu vou botar a maior caixa de som que eu encontrar e vou meter uma playlist de pagode. Vai ter Katinguelê, Péricles, Art Popular, Soweto, Péricles, Só pra contrariar, Jeito Moleque, Péricles, Karametade e Péricles […] Eu vou beijar meu sobrinho, eu vou receber o meu menino como um rei”.
O gosto pelos retratos de classe em viés de discussão racial ou de gênero é recorrente na trajetória criativa de Dione Carlos e pode ser notado em dramaturgias como Oriki (vindo à cena em 2013), Bonita (2015), Baquaqua (2016), Black Brecht – e se Brecht fosse negro? (2019), Nzinga (2022) e A boca que tudo come tem fome – do cárcere às ruas (2025).
A encenação da peça marcou os vinte anos da Companhia de Teatro Heliópolis. A escolha da autora pelo grupo para escrever esse texto, criado para a comemoração do aniversário da companhia, também diz muito sobre a aproximação entre os planos ficcionais da narrativa e as histórias dos artistas que empreenderam a montagem.
A direção de Miguel Rocha seguiu a orientação de boa parte dos teatros negros dos anos de 2010 e 2020: sempre que possível tratou os incontornáveis elementos de dor sem sublinhá-los. A saída para isso foi criar um plano cênico que justapõe ao naturalismo dos diálogos uma série de soluções teatrais que tendem à estilização. Sobre esse aspecto, disse o crítico Valmir Santos (2022): “A montagem mistura a estrutura do teatro narrativo com cenas que são verdadeiras coreografias e performances baseadas em gestos corporais cotidianos – uma característica das encenações da companhia – e na força estética e discursiva dos rituais religiosos afro-brasileiros”.
Assim, trata-se de uma concepção de cena que deve ser compreendida não como mero formalismo, mas como algo fortemente ligado ao contexto social dos seus agentes. Os gestos artísticos escolhidos por Dione Carlos e atualizados no palco pedem para serem vinculados às histórias pessoais e sociais dos artistas que agenciam a construção da peça e do espetáculo.
Cárcere ou porque as mulheres viram búfalos estreou com sucesso e fez os três primeiros meses de temporada na Casa de Teatro Maria José de Carvalho, sede da Companhia de Teatro Heliópolis. Recebeu inúmeros prêmios Brasil afora. Ao colocar em primeiro plano os dilemas de mulheres periféricas em sua luta com um sistema prisional que aniquila e silencia sobretudo negros e pobres, Dione Carlos foge dos clássicos enquadramentos condescendentes ou moralistas do racismo e do elitismo à brasileira, conferindo a essa dramaturgia força e atualidade.
Para saber mais
CARLOS, Dione (2019). Maratona de dramaturgia. [Entrevista concedida a] Isabel Diegues; José Fernando Peixoto de Azevedo; Kil Abreu. Cobogó, Rio de Janeiro. p. 117-141.
NWABASILI, Mariana Queen (2022). Ritos de prisão e feminina proteção. Teatrojornal – leituras de cena, jun. Disponível em: https://teatrojornal.com.br/2022/06/ritos-de-prisao-e-feminina-protecao. Acesso em: 1º dez. 2025.
SANTOS, Valmir (2022). Assentamento de corpos, ideias e ritos. Teatrojornal – leituras de cena, jun. Disponível em: https://teatrojornal.com.br/2022/06/assentamento-de-corpos-ideias-e-ritos/. Acesso em: 1º dez. 2025.
Iconografia

