PRADO, Adélia. Bagagem. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
Rita Olivieri-Godet
Ilustração: Dona Dora
Adélia Prado (Divinópolis, MG, 1935), poeta, escritora, professora com formação em filosofia, estreou na literatura com o livro Bagagem (1976). O título sinaliza a experiência de vida acumulada – a vida vivida e transmutada em poesia. Na coletânea, a voz poética feminina identifica-se como “mulher do povo, mãe de filhos, Adélia”. A obra pode ser lida como um contraponto ao contexto literário brasileiro da década de 1970, predominantemente masculino, no qual se destacavam poetas da estirpe de João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, entre outros.
Não por acaso, o poema de abertura intitula-se “Com licença poética”, inaugurando um diálogo intertextual com o “Poema de sete faces”, Alguma poesia (1930) de Drummond, por meio do deslocamento de significados: o anjo anunciador do destino da voz poética não é mais “um anjo torto desses que vivem na sombra”, como no poema drummondiano, mas “um anjo esbelto” que lhe prediz o destino combativo de “carregar bandeira”, missão que assume ressaltando a sua identidade feminina no primeiro poema: “Vai ser coxo na vida é maldição para homem. / Mulher é desdobrável. Eu sou.”. O poema se cumpre como uma profissão de fé da autora. Nele se manifestam os traços específicos do itinerário poético da escritora mineira que integra a poesia ao próprio movimento da vida, abarcando as dimensões do cotidiano e do sagrado, do prosaico e do metafísico, guiada por “um olhar interior para experimentar o mundo” (Massi, 2025). Sua poesia contempla as múltiplas e contraditórias facetas do feminino, aproximando as experiências poética, religiosa e erótica.
Na contramão do formalismo do projeto artístico do Concretismo da década de 1950 e da poesia social de um Ferreira Gullar dos anos 1960, os poemas de celebração e de devoção de Prado fundem erotismo e religiosidade, convocando a experiência da condição feminina, no contexto da década de 1970, no qual surgiram outras vozes poéticas femininas como as de Ana Cristina Cesar, Olga Savary e Marly de Oliveira. A recusa das formas convencionais no processo de composição poética da autora conduz ao reaproveitamento de uma série de procedimentos formais experimentados pelos modernistas e incorporados pelos poetas contemporâneos brasileiros, aproximando o poético ao prosaico: a fusão de tons e estilos; a utilização do verso livre; a marcação do ritmo por outros recursos paralelísticos que não os da rima (ausentes ou ocasionais) ou os da métrica tradicional que cede lugar aos versos polimétricos e livres; a construção sintática que rompe com a lógica linear e a apropriação da linguagem popular são alguns dos principais recursos que a poesia de Prado herda das inovações formais modernistas.
De acordo com Margarida Salomão (1979), autora do prefácio de Bagagem, na poesia da escritora, “a linguagem não ocorre como representação”. Na visão de Prado (2000), o caminho que o (a) poeta percorre é muito mais intuitivo que intelectual: “tem profecia na poesia: você fala muito além do que você próprio está percebendo”, afirma. A ideia da poesia como palavra reveladora imprime um sentido místico à criação poética. A originalidade da linguagem poética adeliana e suas epifanias – “a revelação abrupta de uma verdade desnorteante” – levaram o poeta e crítico Affonso Romano de Sant’Anna a declarar que ela seria “a Clarice Lispector da nossa poesia”.
A coletânea Bagagem está estruturada em cinco partes. A primeira, intitulada “O modo poético”, expõe os signos ambivalentes da escritura poética que esquadrinham a simplicidade do cotidiano em busca do sentido da existência. Reflete sobre a linguagem e o poder da palavra, rendendo homenagem a Drummond em “Todos fazem um poema a Carlos Drummond de Andrade”, a Fernando Pessoa em «Reza para as quatro almas de Fernando Pessoa”, a Guimarães Rosa em “Poemas com absorvências no totalmente perplexas de Guimarães Rosa”, escritores que deixaram suas marcas na poesia da autora. A segunda parte – “Um jeito e amor” – é composta de poemas que apontam as múltiplas faces das experiências amorosa e erótica, exaltando o sentimento de plenitude que delas emana, fazendo confluir os planos do amor humano e divino. “Para o Zé”, “Os lugares comuns”, “Para cantar com o saltério” são, dentre outros, poemas modelares da exaltação da plenitude da experiência amorosa, que revelam uma visão mística e integradora do amor. Nas terceira e quarta partes, “A sarça ardente I” e “A sarça ardente II”, os poemas são atravessados pela memória, flagrando cenas da infância que eternizam momentos e resgatam sentidos que se incorporam aos planos multifacetados do real. Os poemas acionam o processo memorialístico, anunciado pela epígrafe retirada do Êxodo: “uma sarça que ardia sem se consumir”. Fecha o volume a parte intitulada “Alfândega”, composta de um único poema de título homônimo, em forma de oferenda, estabelecendo assim uma relação com o título da coletânea ao referir-se ao seu legado poético: “O que pude oferecer sem mácula foi / meu choro por beleza ou cansaço”.
A poesia de Prado transforma o vivido em memória que alimenta a matéria poética: “Ao entardecer no mato, a casa entre / bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo, / aparece dourada” escreve a poeta em “Bucólica nostálgica”. A poesia desentranhada do cotidiano, centrada nas miudezas do dia a dia, extrapola os limites do espaço mineiro da autora, servindo de alicerce a um pensamento que fomenta sentidos insólitos. A escritora realiza escolhas estilísticas que resultam numa linguagem que alia a simplicidade dos acontecimentos do cotidiano à gravidade da reflexão sobre o sentido da existência. A dimensão da linguagem popular encontra-se recriada em poemas que surpreendem pela construção sintática atípica. O texto poético adeliano recorre à mescla de estilos, justapondo palavras e imagens, o prosaico e a reflexão metafísica, o coloquial e o solene, o lugar-comum da linguagem e a citação bíblica, desestruturando, por conseguinte, o encadeamento lógico do discurso para que vigore uma palavra sensível à revelação do inusitado: “Eu gosto de metafísica só pra depois / pegar meu bastidor e bordar ponto de cruz, / falar as falas certas” (“Clareira”).
Sua poesia aproxima-se da experiência mística na sua forma de conhecimento intuitivo do real, privilegiando o caminho enraizado no amor como modo de fruição do mundo: o amor a si mesmo que, seguindo um trajeto imanente remonta, pela palavra poética, às origens do ser; o amor ao outro, movimento de plenitude erótica, corpo e espírito confundidos; o amor a Deus, alteridade transcendente, amor solidário que se estende a todas as criaturas, inclusive às mais insignificantes. O percurso do imanente para o transcendente, na poesia da autora mineira, não se dá nessa única direção. A poeta imprime um movimento circular, explorando as imbricações entre esses planos. Decorre daí o processo de sacralização do profano que se completa no movimento contrário, o da passagem do sagrado ao profano. O primeiro movimento corresponde ao desejo de elevar o cotidiano do ser humano, os prazeres do corpo e o próprio ser humano, às alturas transcendentais, indo além dos limites da matéria para ascender ao ilimitado. A sinalização da passagem do sagrado ao profano, do etéreo ao corpóreo, encontra-se na materialização de Deus identificado ao ser amado, pela incorporação da simbologia cristã da encarnação: na figura ambígua de Cristo, a forma humana de Deus. Cristo simboliza a reconciliação dos planos da imanência e da transcendência. De certo modo, na concepção de Adélia Prado, o ato poético imita o desejo de Cristo de salvar o ser humano da precariedade de sua condição: “A poesia me salvará […] Por ela entendo a paixão / que Ele teve por nós, morrendo na cruz”, escreve no poema “Guia”. A irreverência da palavra poética no tratamento de figuras e temáticas religiosas foi, muitas vezes, motivo de crítica, como constata a autora em entrevista recente: “Em Bagagem eu já fazia certas indagações que pareciam heréticas. Veja só, aquele livrinho inocente, santinho… Chegou um compadre nosso e insinuou: ‘Aí, hein? Dona Adélia, você…’ Outro disse que o livro tinha de vir com tarja preta ou dentro de um envelope” (Massi, 2025).
Em Bagagem, o olhar de Adélia Prado capta avidamente o mundo esforçando-se para compreendê-lo e preencher o vazio existencial, potencializando sentidos. Os mistérios da matéria a seduzem, o real a fascina, mas as palavras estão aquém da experiência vivida, inefável e insubstituível. A autora interroga o poder da linguagem e desconfia da própria eficacidade de seu discurso poético, diante das referências que elege como modelo: “Porque tudo que invento já foi dito / nos dois livros que eu li: / as escrituras de Deus, / as escrituras de João. / Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão” afirma a poeta em “A invenção de um modo”. No entanto, incansável drummondiana, persiste na luta com a palavra como forma de conhecimento do mundo que privilegia a busca da revelação do sentido oculto do real. “Adélia é lírica, bíblica, existencial”, escreve Drummond (1975). A palavra poética adeliana desencadeia conexões entre o ser humano e o cosmos, alicerçada numa profusão de imagens lúcidas e oníricas, sensoriais e eróticas, perseguindo, na poeira do cotidiano, as secretas revelações da experiência humana que desafiam sua tradução em linguagem.
Para saber mais
ANDRADE, Carlos Drummond de (1975). De animais, santo e gente. Jornal do Brasil, 9 out. 1975.
CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA (2000). Adélia Prado. São Paulo: Instituto Moreira Salles, n. 9, jun.
OLIVIERI, Rita (1994). Mística e erotismo na poesia de Adélia Prado. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade de São Paulo, São Paulo.
PRADO, Adélia (2025). Estou madura só por fora, por dentro tenho 17 anos. [Entrevista concedida a] Augusto Massi. Folha de S.Paulo, São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2025/08/estou-madura-so-por-fora-por-dentro-tenho-17-anos-diz-adelia-prado-com-quase-90.shtml. Acesso em: 4 set. 2025.
SANT’ANNA, Affonso Romano de (1978). Adélia: a mulher, o corpo e a poesia. In: PRADO, Adélia. O coração disparado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. p. 7-15.
Iconografia





