Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Anti-Nelson Rodrigues

RODRIGUES, Nelson. Anti-Nelson Rodrigues. In: SÁBATO, Magaldi (org.). Teatro completo de Nelson Rodrigues: peças psicológicas. v. 1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

Mariana Toledo Borges
Ilustração: Julio Lapagesse

Escrita em 1973 e estreada no Rio de Janeiro em 1974, Anti-Nelson Rodrigues foi uma encomenda feita pela atriz Neila Tavares ao então renomado dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues (Recife, PE, 1912 – Rio de Janeiro, RJ, 1980), e marca seu retorno aos palcos depois de oito anos fora da composição teatral. Naquele momento – período marcado pelo enrijecimento dos mecanismos de controle e repressão da Ditadura Militar, pelo Ato Institucional nº 5 e pelo uso indiscriminado da tortura –, Nelson percebe que suas tradicionais tragédias à brasileira haviam perdido espaço para o teatro engajado e de vanguarda, que ele frequentemente criticava em suas crônicas de jornal. Embora nunca tenha tratado diretamente de temas políticos em suas peças, sabe-se que o autor era um apoiador do regime militar, fato que o isolou no meio teatral e lhe rendeu o epíteto de reacionário.

Por isso, o curioso título Anti-Nelson Rodrigues engana o leitor ou espectador incauto. Se é verdade que a peça destoa de todas as outras de Nelson pelo final feliz, pela modulação da violência e do estilo agressivo e pelo romantismo ingênuo, não se deve ignorar que nela se encontram o jornalista conservador e o dramaturgo moralista que sempre esteve disfarçado sob a pele do “tarado de suspensórios” que o encobriu durante a sua carreira teatral. Aliás, esse paradoxo praticamente define a obra rodriguiana: de um lado, um cronista declaradamente de direita e de opiniões antiquadas sobre a mulher, a política e as artes; de outro, um dramaturgo polêmico e obsceno, que revolucionou o teatro nacional com sua segunda peça, Vestido de noiva (encenada em 1943), e desnudou a hipocrisia congênita da família tradicional brasileira. Muito embora fosse conservador, o modo afrontoso como Nelson tratava dos tabus da sociedade brasileira fez cinco de suas peças serem interditadas pela censura – algumas em pleno regime democrático.

Em Anti-Nelson Rodrigues, porém, algo sui generis acontece: as opiniões de Nelson veiculadas pelas crônicas – sobretudo sobre o amor e a mulher, que deveria ser virgem, recatada e incorruptível quando se tratasse das seduções masculinas – transbordam para o teatro, entregando-nos um drama mais realista do que trágico e, de fato, distante da linguagem dramática tipicamente rodriguiana; nesse exato sentido, é antirrodriguiana. Permanecem, contudo, não apenas as teses moralistas do autor sobre a sociedade, mas também a habilidade na construção dos diálogos, o emprego hierático de gírias e de palavrões – palavras como “viado”, “bicha”, “rabo” e “bosta” são enxertadas cirurgicamente no texto e com o deleite da proibição – e a repetição de alguns temas, como o aborto, o parricídio, a perversidade do dinheiro e o conflito entre classes.

Na peça dividida em três atos, Oswaldinho é um jovem e degenerado herdeiro que logra ocupar alto posto no comando de uma das empresas do pai, Gastão, com quem possui uma relação de hostilidade aberta. Gastão mantém um casamento de conveniência com Tereza, uma mulher que o despreza e que abdicou da vida pessoal em nome da patética adoração pelo filho. Temos aí o núcleo familiar abastado da composição do enredo, atravessado por conflitos sórdidos, ambições mesquinhas e infidelidades. Do outro lado, o espectador acompanha Joice, a “secretária suburbana” de Oswaldinho, moça testemunha de Jeová moradora do Quintino, bairro da Zona Norte carioca – um modo de territorialização dos embates de classe que povoam as peças de Nelson. Joice é órfã de mãe e vive com o pai, Salim Simão, e a empregada negra, Hele Nice, uma vida típica brasileira de classe média: é trabalhadora, anda de ônibus, tem um noivo e vai ao culto.

Joice e Oswaldinho representam perfis arquetípicos opostos, acentuados pela diferença dos extratos sociais de origem, mas de substância predominantemente moral. O atrito se dá entre as duas leis que cada um deles encarna: a lei do dinheiro – efêmera, volúvel e devassa – e a lei do “amor eterno”, essencialmente boa, perene e correta, haja vista Joice não se corromper por ilusões pecuniárias e manter postura fiel a si mesma.

Joice é “uma menina, como não existe mais”, segundo Oswaldinho, acostumado a usar beleza e dinheiro para seduzir e humilhar grã-finas emancipadas; Oswaldinho, por sua vez, “se finge de mau”, mas “é bom e infeliz”, como crava Joice. Ela é a secretária honesta que insiste em chamar o chefe de senhor, não gosta de estar a sós com ele porque é noiva e não aceita aumentos de ordenado que considera imerecidos; ele é um patrão invasivo que bebe em serviço, rouba joias da mãe e manda cartas anônimas ao pai, de quem espera impacientemente a morte, dirigindo-se a ele como “meu prezado chifrudo”. “Com a Joice, só casando”, diz Leleco, melhor amigo de Oswaldinho, que, por seu turno, é “cínico” e “sórdido” – o célebre arquétipo rodriguiano do “canalha”.

O conflito em torno do qual gira a ação da peça consiste nas tentativas empreendidas por Oswaldinho de aliciar Joice para sua lei particular, procurando fazê-la ceder a virgindade em troca de dinheiro. No decorrer das investidas, no entanto, aquela a quem considerava uma “vigaristazinha” é que o deixa fascinado, tanto por sua incorruptibilidade quanto pela crença ingênua no amor puro, o que guia o desfecho a uma espécie de triunfo do bem sobre o mal. Enquanto emergem fatos que, na racionalidade interna à peça, são considerados desvios morais – Salim Simão carrega 18 abortos na consciência, Leleco desfrutou de aventuras homossexuais, Gastão possui amantes –, Joice sustenta retidão inabalável, amparada pela ética cristã da condenação ao ódio. Uma personagem que ostentasse tamanha coerência e superioridade moral era até então inexistente na dramaturgia rodriguiana e, nesse sentido, constitui um evento isolado na extensa obra dramática do autor.

É notável que o conflito central da peça, que opõe a imoralidade dos ricos à inocência dos pobres, o amor verdadeiro à luxúria e à ganância, é trivial e gastou-se como mote recorrente da literatura. Sua originalidade, portanto, deve ser buscada ali onde Nelson permaneceu o mesmo de sempre, mas agora gozando de maturidade salutar. Diálogos arquetípicos, que expõem a truculência dos vínculos entre pai e filho, entre marido e esposa e entre homem e mulher, são construídos com a virtude da síntese, e é admirável como a repetição dos temas nas tragédias rodriguianas jamais descambou para a monotonia ou a exaustão; pelo contrário, evidencia o trabalho estético de aperfeiçoamento do autor sobre uma mesma matéria, provando ser ela uma fonte literária e teatral inesgotável.

Um outro recurso que em Anti-Nelson Rodrigues o dramaturgo explorou com dedicação foi o uso de curtos monólogos narrativos que assumem a forma de contos brevíssimos – alguns constituídos por meras seis sentenças, como este, cuja narração é iniciada por Leleco e completada por Oswaldinho: “eu vi meu pai assassinar minha mãe. Deu três tiros no peito de minha mãe. Eu tinha oito anos e vi tudo. Minha mãe estava de calcinha e soutien. […] Teu pai foi absolvido e a absolvição do teu pai foi a segunda morte de tua mãe. E, porque tua mãe foi assassinada e teu pai absolvido, você odiava todo mundo”. Há inúmeros fragmentos análogos espalhados pela peça, sempre de conteúdo violento ou mórbido, dos quais se poderia derivar uma outra obra completa e que demonstram o domínio do autor sobre a arte da criação de tramas ficcionais.

É também aqui que o autor formula a frase imortalizada pela letra de Rita Lee, “Amor e sexo”: “o sexo é uma selva de epilépticos”. Frases como essa se espalham pela poesia dramática rodriguiana e revelam não apenas a tese oculta de Nelson sobre a sociedade brasileira, mas também a autoconsciência de que há algo de grotesco na coragem em verbalizá-las. Um outro exemplo disso é o berro dado por Salim Simão à filha quando conversam sobre seu noivo: “sexo é pra operário!”. Quando se volta o olhar para o tipo de conflito interno que faz as personagens dizerem em voz alta frases como essas, entende-se o que levou o crítico Sábato Magaldi a categorizar o penúltimo drama de Nelson Rodrigues como uma “peça psicológica”. Em Anti-Nelson Rodrigues o leitor ou espectador encontra, em estado mais puro, o romantismo antiquado rodriguiano, àquela época fora de moda, mas o qual confessava que, por trás do “tarado de suspensórios”, havia um dramaturgo que apostava as suas fichas numa ideia enfática de amor.

Para saber mais

MAGALDI, Sábato (2004). Teatro da obsessão: Nelson Rodrigues. São Paulo: Global.

CASTRO, Ruy (1992). O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras.

BORGES, Mariana Toledo (2025). Nelson Rodrigues e o advento da tragédia à brasileira: forma dramática e formação nacional. Tese (Doutorado em Teoria e História Literária). Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP.

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BORGES, Mariana Toledo.
Anti-Nelson Rodrigues.

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12 jun. 2026.

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29 jun. 2026.