Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Modelos vivos

ALEIXO, Ricardo. Modelos vivos. Belo Horizonte: Crisálida, 2010.

Luan Sabino Siqueira
Ilustração: Julio Lapagesse

Modelos vivos é o oitavo livro de poemas publicado pelo poeta, performer, artista visual e sonoro Ricardo Aleixo (Belo Horizonte, MG, 1960). O volume, classificado pelo próprio autor como um “objeto intersígnico”, mobiliza uma diversidade de linguagens e técnicas artísticas, dando origem a uma espécie de álbum a ser “tateado pelos olhos” e “visto pelos dedos” do leitor (Aleixo, 2010). Embora Modelos vivos apresente procedimentos estéticos já experimentados por Aleixo em livros anteriores, como Festim (1992), Trívio (2001) e Máquina zero (2004), a obra se constitui como um ponto de virada na bibliografia do autor por apresentar um aprofundamento de tais experimentos, havendo uma considerável variedade de recursos e técnicas que reafirma o seu viés vanguardista. Desse modo, ao apelar em alguns poemas para a visualidade e para o formalismo, Aleixo evidencia as conexões da sua escrita com a tradição de vanguarda da poesia concreta, dos irmãos Campos e de Décio Pignatari, além de vincular-se às inovações da poesia visual, conjugando palavra, imagem e outros elementos gráficos que concorrem para a construção de sua poética de invenção.

A epígrafe do livro apresenta ao leitor um relato da artista experimental Laurie Anderson em que a ideia de “modelo”, contida no título, aparece de maneira tensionada. O relato conta do equívoco de um aluno de Anderson em relação a uma pintura de Francisco de Goya, na qual figurava um modelo feminino desnudo. Ao julgar que a modelo ainda estaria viva, solicitando à professora o número de telefone da mulher reproduzida na tela, o aluno de Anderson desestabiliza noções importantes da arte ocidental, fazendo com que o leitor reflita desde o início acerca de conceitos como representação e a própria ideia de ficção. É a partir deste novelo que Aleixo desenrola diversos fios, propondo ao longo da obra uma intrincada teia discursiva que dialoga intertextualmente com uma série de referências do campo literário, plástico, musical, pop, religioso e crítico.

Nesse sentido, os poemas de abertura (“Música para modelos vivos movidos a moedas”) e de encerramento (“O peixe não segura a mão de ninguém”) funcionam como molduras de um objeto artístico que se expande para além da sua própria materialidade, uma vez que o projeto gráfico do livro, assinado pelo autor em colaboração com Bruno Brum, busca reforçar o caráter intersemiótico da obra. A ideia de uma poesia expandida, cara ao escritor, afirma-se sobretudo por meio do apelo que a arte performática possui em sua trajetória artística, sintetizada em Modelos vivos pelo poema-ensaio “O poemanto: ensaio para escrever (com) o corpo”, em que Aleixo se autodefine como um “performador”. Mas a expansão também se dá através das intervenções feitas ao longo das páginas, que conta com fotografias, poemas-objetos e “manuscrituras”, fazendo com que a obra tensione ainda mais as fronteiras no diálogo interartes.

Em face a esta diversidade de linguagens, o autor transita com bastante fluidez por técnicas variadas na elaboração de seus textos. O concretismo, já mencionado, lega aos versos de Aleixo a experiência do corte e da constante fragmentação das palavras, em que o enjambement e a paronomásia permitem, na maior parte dos casos, uma dupla leitura que enriquece o jogo linguístico entre significante e significado, como é possível ler nos versos iniciais do poema “Um samba”: “Desfocando da imagem / dela, im- // possível / bela sambista, // atraves- / sado pela pergunta”; ou ainda na permuta, à nível do trocadilho, entre as palavras “bode” e “pode” no breve “Poética #3”: “meu lado bicho: bode / minha parte planta / : comigo-ninguém-pode”.

A visualidade é outro aspecto bastante explorado pelo autor, que insere na obra não apenas fotografias de seu acervo pessoal, como também investe em poemas visuais, experimentando diferentes tipografias, e na técnica da escrita caligráfica. Exemplo desta última é o poema “11 passos para Merce Cunningham”, em que, ao dialogar com o coreógrafo de vanguarda, o poeta reitera a ideia de que a escrita pode ser uma forma de dança, e vice-versa, articulando corpo, movimento e letra numa sequência de onze páginas onde se lê, de maneira fragmentada, a inscrição feita à mão: “devolver o dansarino à dansa”, o que retoma a ideia de “grafar com o corpo no espaço” já contida em outro poema do livro.

Em Modelos vivos, bem como em toda a obra do autor, a experimentação formal não anula o interesse do poeta pela tematização de assuntos relevantes e urgentes no cenário do mundo contemporâneo, afastando a dicotomia, que por vezes aparece nas discussões acerca da literatura, que coloca em polos diametralmente opostos a forma e o conteúdo. Nesse caso, Aleixo, mais uma vez, tensiona o lugar comum da crítica literária que vê o autor negro – ou qualquer outra autoria minoritária – como mero militante, destituído de rigor e valor estético. Desse modo, há em muitos poemas o questionamento, de forma inventiva, à noção de humano/humanidade, além da discussão dos dilemas raciais que assolam o país e o mundo. 

Neste caso, destacam-se os poemas em prosa, que conferem aos textos um tom ensaístico e reflexivo, como é possível constatar em “Objetos suspeitos”,  no qual obras de vanguarda, como as de Marcel Duchamp, Magritte e Andy Warhol são equiparadas a corpos negros: “Mesmo um homem, sob certas condições, torna-se um objeto suspeito. O que faz com que um negro, que apenas sob certas condições é um homem (Marx), e a mulher, negro do mundo (Yoko Ono), sejam objetos sempre suspeitos”. Mas é no poema que fecha Modelos vivos, “O peixe não segura a mão de ninguém”, que a discussão se adensa. Poema que começa antes mesmo de começar, uma vez que está diretamente ligado a uma fotografia que vai aparecendo progressiva e metonimicamente em oito fragmentos ao longo de todo o livro, para ser revelada em sua totalidade apenas no final, nele vemos uma espécie de desdobramento das questões levantadas em “Um ano entre os humanos”, outro poema-ensaio que gira em torno da investigação do que vem a ser o humano, como indicam alguns dos questionamentos irônicos trazidos pelo poeta: “A filha da Madonna é humana?”; “A Barbie é humana?”; “Charles Darwin era humano?”; “Você é humano?”.

Em “O peixe”, Aleixo parte da memória familiar para a construção do poema, baseando-se em uma fotografia em que aparecem quatro seres/modelos vivos: o pai, o filho (o próprio autor, quando criança), um amigo da família e um peixe, este segurado pelo primeiro. O poema, que começa de maneira descritiva, aponta para elementos que figuram tanto dentro quanto fora da imagem, guiando o olhar do leitor para os traços visíveis e os não tão visíveis assim. Logo, o que parecia apenas a rememoração de um episódio familiar, fornece elementos para uma discussão mais ampla sobre relações de poder, diferenças sociais e raciais: 


“Uma fotografia é uma forma de pescar pessoas, pensa o
menino. 

Numa fotografia todos parecem mortos, pensará ainda o 
menino quando já for, não mais um menino, mas o pai de algum 

menino ou de alguma menina. Um dos quatro na fotografia talvez 
seja eu. Eu não sou o/um peixe. Ele, o peixe, já havia sido pescado
 
e exibido como um troféu naquele tempo. Eu não sou um troféu.” 

A discussão travada no poema se organiza mediante negações que acabam sempre afirmando uma outra coisa: se não sou peixe, sou homem; se não sou troféu, não sou objeto, portanto, sou humano. Mas, se sou humano (e, no caso do poeta, sou negro), por que alguns grupos sociais são vítimas de uma série de violências que resultam em sua desumanização? Parece ser nesta encruzilhada que Aleixo pretende colocar o seu leitor, fazendo com que este reflita e esteja atento para observar quem segura a mão de quem, quem pesca quem, quem captura quem, seja na fotografia, na tela ou na página do livro.

Para saber mais

NATALI, Marcos Piason (2021). Um ano entre os humanos: Ricardo Aleixo e a etnografia do humanismo. Literatura e Sociedade, São Paulo, v. 26, n. 34, p. 198-225. Disponível em: https://revistas.usp.br/ls/article/view/194301. Acesso em: 20 set. 2025.

FERREIRA, Laisa Barreto; ALVES, Moisés Oliveira (2019). O expandido em Modelos Vivos, de Ricardo Aleixo. Revista Discentis, Bahia, v. 7, n. 1, p. 28-41. Disponível em: https://www.revistas.uneb.br/index.php/discentis/article/view/5935. Acesso em: 20 set. 2025.

SCHERER, Telma (2016). O peixe não segura a mão de ninguém: écfrases de Ricardo Aleixo. eLyra: Revista da Rede Internacional Lyracompoetics, n. 8, p. 201-222. Disponível em: https://elyra.org/index.php/elyra/article/view/160. Acesso em: 20 set. 2025.

SANTOS, Luciany Aparecida Alves (2015). Modelos vivos em uso: Poesia e performance de Ricardo Aleixo (em) um exercício crítico de literatura contemporânea. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa.

Iconografia

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Como citar:

SIQUEIRA, Luan Sabino.
Modelos vivos.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

11 jun. 2026.

Disponível em:

8281.

Acessado em:

29 jun. 2026.