SAVARY, Olga. Magma. São Paulo: Massao Ohno; Roswitha Kemp, 1982.
Rafael Fava Belúzio
Ilustração: Julio Lapagesse
A natureza, o erotismo e a expansão formal são traços fundamentais de Magma (1982), o quarto livro autoral de poesia lançado por Olga Savary (Belém, PA, 1933 – Teresópolis, RJ, 2000). A palavra-título, masculina e terminada com a vogal “a”, corresponde a um substantivo concreto a recordar rochas derretidas no interior da Terra. Elemento natural viscoso pronto para a erupção: esperma incandescente aguardando o voo vermelho vindo do ventre vulcânico. Ao ser expelido, no leito de lava talvez lembre que é impossível ser duas vezes o mesmo, pois persiste expandindo com dura mobilidade os continentes, criando outros limites. Consoantes assim à titulação, os poemas de Magma têm uma pedra no meio do seu rio de fogo: certa harmonia de tensões contrárias entre o avançar do desejo e a acomodação.
Muitos de tais aspectos estão situados já na epígrafe, retirada de Manuel Bandeira: “Porque os corpos se entendem, mas as almas não”. O trecho equivale à chave-de-ouro de “Arte de amar”, do livro Belo belo (1948). Evocar o poeta recifense é expressivo, em ambos há um instável fluir de composições: Bandeira chega a arquitetar “Poética” e depois “Nova poética”, sinalizando a escrita movente; Olga Savary estreia, em 1970, com a publicação de Espelho provisório, apontando, na provisoriedade, alguma filiação a Heráclito de Éfeso. Os corpos literários desses poetas, portanto, variam, oscilam, se afastam das almas ou da ideia de um mundo das ideias. Em Magma, especialmente, é sensível o materialismo corpóreo, a ontologia carnal a delinear uma visão de mundo com bastante sensualidade e desejo.
Prosseguindo, o poema de abertura, “Ser”, uma poética:
“o sexo tão livre, natural,
obsessão de areia e seixos rolados:
regresso à água.”
O vocábulo “Ser” convoca questão ontológica fundamental; os versos, com plasticidade líquida, olham para o sexo, para a vida das rochas, para os sedimentos, lembrando, afora as tensões, certo retorno. No âmbito da bibliografia savaryana, são retomadas, desde logo, temáticas abordadas em obras anteriores, uma vez que, no “regresso à água”, são revisitados tomos como Sumidouro (1977) e Altaonda (1979), cujos nomes dimensionam a importância dos recursos hídricos na pós-modernista de Belém do Pará. Além disso, “Ser” corresponde a um haicai, composição de origem japonesa e relevante na literatura de Olga Savary. Para se ter noção, pouco adiante a escritora lança Hai-kais (1986) e, em O livro dos hai-kais (editado em 1980 e 1987), reúne suas traduções de Bashô, Buson e Issa, contando com prefácio de Octavio Paz.
No Brasil, em particular, há certo cânone haicaísta que estrutura o poemínimo com rigidez, limando uma pepita parnasiana. Nome decisivo nessa dicção nipo-brasileira é Guilherme de Almeida, que tece os haicais em três versos, sendo o primeiro e o terceiro redondilhas menores e, o segundo, redondilha maior; nas rimas externas, cria homofonias entre a primeira e a terceira linhas e, internamente, compõe igualdade sonora no setissílabo, porque nele a sílaba dois é semelhante à sete. Contudo, Olga Savary liquefaz essas cristalizações. O terceto de abertura, “Ser”, elabora 9, 10 e 4 segmentos; as homofonias internas pareiam a segunda sílaba do primeiro (“SExo”) e do terceiro (“reGREsso”) versos, e se escutam proximidades, na pauta do meio, em “aREIa” e “SEIxos”. Assim, o poema parece caminhar, feito ele mesmo diz, “tão livre, natural”, retornando à água, permitindo a melopeia se entornar um pouco mais do que, na tradição, seria esperado, ainda que haja alguma tensão com a forma fixa. Outros haicais, aliás, novamente dançam toadas próprias, como se ouve em “Sensorial”, “O Segredo”, “Rota”, “Dionisíaca” e “Uroboros”.
Em Magma – rio de rocha –, o soneto também sintetiza a dialética da expansão líquida dionisíaca e da forma pétrea apolínea. Vale observar a composição “Nome I”. Está disposta em dois quartetos e dois tercetos, bem ao gosto de Petrarca e Camões. No entanto, não há escansão monótona nos versos. Seria possível os metrificar em 7, 8, 10, 10; 11, 10, 11, 11; 9, 8, 12; 12, 11, 12. Conquanto haja ritmos tradicionais, notadamente devido a decassílabos e alexandrinos, a instabilidade chama a atenção, guardando intimidades com a dureza da terra sonetística e com o mobilismo aquático. Conflito análogo aparece nas rimas; por exemplo, a primeira estrofe segue em ABBC, polarizando o homófono e o livre.
À parte o soneto e os haicais, bem como os traços de poesia visual (em “Delta”) e de quadras (em “Personagem”), em Magma se espraiam as formas livres. Ao mesmo tempo, a liberdade é constrangida pelo ecoar de legados mais convencionais. Não há uma expansão ilimitada até as fronteiras do irreconhecível:
“só agora te descubro, ah minha força,
instrumento contra meus excessos,
minha imperfeita perfeição.”
A poética de Magma – e, por extensão, de Olga Savary – avança nessa dita imperfeita perfeição, pareamento que aproxima os excessos e o instrumento repreensivo, uma pulsão expansiva e uma consciência do limite. Se o haicai desenvolve linha decassílaba (isto é, não muito estreita para um poemínimo), não se caminha, contudo, para a trilha sem fim. Se no soneto não incide padrão alexandrino, nem por isso se deixa entornar o caldo até os deslimites de certo poema em prosa. Defronte ao exposto, parece emblemático alguns textos do livro ganharem o nome de “Acomodação do Desejo”.
Na sua bruta flor do querer, o eu lírico é um corpo lírico. Seu vocabulário é repleto de “sexo”, “sangue”, “saliva”, “ventre”, “entranhas”, “carne”, “coxas”, “ancas”, “boca”, “dedo”, “rosto”, “pele”, “pernas”, “mão”, “coração”, “respiração”. Também se alargam as alusões aquáticas, cheias de “mar”, “igarapé”, “rio”, “açude”, “ycatu” (do tupi, “água boa”), “corrente”, “peixes”, “medusas”, “ostras”, “centauro”. Ampliando ainda mais as margens, não faltam elementos naturais, “árvores”, “frutos”, “mato”, “fera”, “loba”, “polpa”, “cavalo”, “égua”, “asas”, “pterodáctilo”, “barro,” “esterco”. O catálogo imagético abarca o erotismo, notável no termo fálico “espiga”, ou em duetos de “macho e fêmea”, “cavalo e égua”, não raro variando, em tais duplas, quem ocupa o lugar do vigor, da violência – são desestabilizadas as hierarquias, os patriarcados. Nesse horizonte, a animal força humana pulsa na escrita aberta ao ecológico, bem como às tensões entre as temporalidades biológica e geológica. De todo modo, não se está, ao menos em Magma, próximo ao “Canto do irmão sol”, de Francisco de Assis, a criar uma irmandade, uma igualdade pacificadora entre as espécies. E mais lascívia do que gostaria o santo, Olga Savary elabora poemas como “Venha a Nós o Vosso Reino”, alumbrando profanações.
Com seu materialismo corpóreo, esculpe “Em Uso”:
“Não acredito em empertigadas metafísicas
mas numa alta sensualidade posta em uso:
que o meu homem sempre esteja em riste
e eu sempre úmida para o meu homem.”
Manifestando sujeito lírico feminino, a quadra de versos longos, divididos em dois pares, recusa a metafísica e o tom sentimental; sensual e epigramática, avizinha a feminilidade líquida (fértil e orgânica) e a masculinidade pétrea. Em pronunciamentos públicos, com frequência a autora anuncia que Magma é o primeiro livro erótico publicado por mulher na literatura brasileira. Não obstante, a obra se insere em uma tradição do erotismo feminino, no qual há poemas tipo “Dança de centauras”, de Francisca Júlia; “Sensual”, de Gilka Machado; “Cavalgada”, de Cecília Meireles; e “Erótica”, de Dora Ferreira da Silva. Especialmente durante o autoritarismo militar de 1964 a 1985, é emblemático o volume apresentar uma corporeidade desejante – pode a mulher falar sobre si, ela não é subalterna. Olga Savary está próxima de Hilda Hilst, Adélia Prado, Alice Ruiz, Ana Cristina Cesar, Maria Esther Maciel, na medida em que todas elas, nos anos de chumbo, criam poéticas de fortes subjetividades femininas. Em 1949, Simone de Beauvoir edita O segundo sexo, a dimensionar que sexo é político; em 1982, Olga Savary aborda haveres animais do corpo, expandindo a liberdade frente às repressões da época.
Em Magma, ademais, alguns legados afluem. A pós-modernista paraense é muito marcada por nuances caras ao Romantismo. Liberdade, expansão formal, proximidade entre humano e natureza, tudo isso rememora, salvadas as diferenças, um Castro Alves mais erotizante; e a escritora descendente de indígenas e de russos chega a usar a língua tupi, retomando artifício de Gonçalves Dias e José de Alencar. Em acréscimo, conquistas do Modernismo convergem. Se na epígrafe há Manuel Bandeira, cabe lembrar o poema “Claro enigma”, homônimo ao livro de Drummond, outra figura que sempre perpassa as obras savaryanas. No campo das coincidências, o termo “Magma” é o título dado por Guimarães Rosa às suas poesias, em 1936; em ambos os autores, e ainda em Manoel de Barros, a ecologia ganha ênfases pluriformes. E se em João Cabral é engenhada A educação pela pedra (1966), em Olga Savary o conhecimento do mundo é ainda mais sensorial na sua educação pela rocha incandescente. Além disso, é sensível a sua importância para o haicai brasileiro, sendo um contraponto à tradição rítmica de Guilherme de Almeida, como dito. A liberdade sonora dialoga com Paulo Leminski e Millôr Fernandes; a ex-esposa de Jaguar, por sinal, funda O Pasquim junto a sete rapazes e possui afinidades libertárias com o grupo do periódico. Aliás, a dimensão política da corporeidade savaryana cabe ser comparada a Cláudia Roquette-Pinto e Ana Martins Marques, mesmo transcorrendo várias distâncias e matizes entre cada uma delas. Angélica Freitas e as As 29 poetas hoje (2021), reunidas por Heloísa Teixeira, também seguem aberturas estético-políticas conquistadas. Íntima da água, Olga Savary escreve Magma como mulher forte e sua poesia escoa para leitoras, leitores, escorre aberta a novos encontros.
Para saber mais
SAVARY, Olga (2013). Entrevista 26. [Entrevista concedida a] André Amaro. Rio Tv Câmara. 1 vídeo (43 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=WfsSzWk_hCQ. Acesso em: 26 set. 2025.
HENRIQUES NETO, Afonso (2009). Roteiro da poesia brasileira: anos 70. São Paulo: Global.
SAVARY, Olga (1987). O livro dos hai-kais. Prefácio de Octavio Paz. Ilustrações de Manabu Mabe. 2. ed. São Paulo: Aliança Cultural Brasil-Japão / Massao Ohno.
SAVARY, Olga (1998). Repertório Selvagem: obra reunida: 12 livros de poesia, 1947-1998. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional / MultiMais / Universidade Mogi das Cruzes.
SOARES, Angélica (2012). A “Animal força humana” em Repertório selvagem, de Olga Savary: uma leitura ecofeminista. Navegações, Porto Alegre, v. 5, n. 2, p. 149-155. Disponível em: https://pucrs.emnuvens.com.br/navegacoes/article/view/12786. Acesso em: 29 set. 2025.
Iconografia

