Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Grupo Escolar

CACASO (DE BRITO, Antonio Carlos). Grupo Escolar. Rio de Janeiro: Mapa, 1974.

Matheus Tomaz
Ilustração: Julio Lapagesse

Cacaso, ou Antônio Carlos de Brito (Uberaba, MG, 1944 – Rio de Janeiro, RJ, 1987), foi, ao lado de Heloísa Teixeira, o principal incentivador da “poesia marginal”, organizando debates, coleções e exposições sobre esse novo movimento, o que confundiu seu nome com a produção média do período. Sua teoria do “poemão” em que, deixando individualidades de lado, os autores estariam fazendo uma grande obra coletiva sobre os anos de chumbo, colaborou para tal impressão, que não leva em conta a sua poesia como realização específica e de interesse formal. 

Grupo Escolar, de 1974, foi editado pela Mapa e é integrante da coleção Frenesi organizada por ele próprio. A obra revela a singularidade de sua voz, não se tratando de edição mimeografada como logo se associaria ao poeta. Cacaso viveu as expectativas ascendentes pré-64 e transformou a elaboração do golpe em sua matéria. Publicado sete anos após seu primeiro conjunto, A palavra cerzida (1967), abandona o tom grandiloquente, inspirado em Murilo Mendes e Cecília Meireles, em nome de uma revisão crítica e humorística da literatura. Faz uma ponte direta com os poetas de 1922, recuperando sua verve mais crítica.

Inspirado no Primeiro caderno do alumno de poesia (1927) de Oswald de Andrade, Cacaso tomou seu título do sistema educacional responsável pela alfabetização à época. De Oswald herdou a postura de contestação, o humor e a irreverência, bem como a estrutura de inventário do conjunto. Absorveu as diferentes vozes que refletiam o país, sua literatura e a formação de ambos: realiza paródias (“cartilha”), homenageia artistas (“praça da luz”), achincalha poetas de outros grupos (“política literária”), registra “kodaks” da vida nacional (“sinais de progresso”), refaz ditos populares (“as aparências revelam”) e, em muitos poemas, faz isso e muito mais simultaneamente. O livro apresenta quatro seções: 1ª. lição: “Os extrumentos técnicos”; 2ª. lição: “Rachados e perdidos”; 3ª. lição: “Dever de  caça”; 4ª. lição: “A vida passada a limbo”. Os títulos se baseiam na perversão paródica de uma expressão fixada na língua. As fotografias e colagens que eram parte da composição foram excluídas das edições posteriores que reuniram suas obras completas.

A primeira lição trata dos antigos instrumentos poéticos, que já não dariam conta da nova realidade do país, por isso o sufixo “ex” – associado foneticamente a estrume ou excremento, indicando sua avaliação de certa produção poética. João Cabral de Melo Neto é seu paradigma, porém, a partir da tendência construtiva por ele realizada, a poesia tenderia ao silêncio, uma vez que aquela renovação de linguagem teria um princípio social que não é mais o mesmo. Por isso, experimenta com as formas racionais do “engenheiro”, mas escolhe sempre a mistura orgânica, o “poema anfíbio”, o “útero/híbrido”, opostos ao projeto cabralino. 

Em “Rachados e perdidos” a reflexão sobre as suas próprias escolhas poéticas dá vez à menção ao “sufoco” ditatorial e às críticas diretas a outros artistas. Assim, o suicida e o torturado ganham figuração, em tentativa de dar forma à violência convertida em subjetividade alarmada. A morte “protocolar e simpática” vai se anunciar “a chupar laranjas” ao longo de sua produção. Nessa seção, também explicita seu “racha” com outros poetas que reivindicavam a herança de João Cabral: os concretistas Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Cacaso considera a poesia feita por eles uma adesão ao projeto modernizante dos militares, o que será reforçado em sua obra crítica. Em outros termos, o autor acreditava que, mesmo sem intenção, ofereciam suporte ideológico para a concepção de progresso técnico que sustentava o regime.

Para Cacaso, o concretismo, com seu projeto de explorar simultaneamente e com o mesmo grau de importância as dimensões verbal (“verbo”), sonora (“voco”) e imagética (“visual”) da palavra, seria uma forma de rotinização poética, matando o “engajamento da forma” que a literatura brasileira teria herdado dos modernistas. Ele deixa isso claro em “política literária” e “estilos de época” em que faz troça dos irmãos Campos e de Pignatari, descrevendo a produção concreta como “tautologia” e “elogio à coisa dada” – associando os lados do triângulo à “verbo-voco-visualidade” do signo como também aos três autores.  

“Dever de caça” se concentra na questão nacional, não estando claro se a lição é para caçar a poesia, um país ou se caçados foram os poetas. Convém lembrar dos grupos paramilitares de extrema direita que perseguiam artistas e militantes, como o Comando de Caça aos Comunistas. Em que pese a importância das questões, o tom irônico apela ao popular e se aproxima do leitor. Publicado entre fotos de uma pilha de lixo abaixo da placa “Justiça Eleitoral. Privativo dos senhores desembargadores e juízes” e de uma pichação escrita “Jesus é amor”, o poema  “reflexo condicionado”, transcrito abaixo, deixa entrever as características do conjunto:

“reflexo condicionado

pense rápido:
Produto Interno Bruto
ou
brutal produto interno
?”

A relação entre nexo econômico e terror de estado é construída pela conversão de “bruto”, núcleo do verso, em “brutal”, adjetivo que qualifica “produto” – a semelhança sonora revela algo da proximidade real entre ambos. Poemas como esse e “as aparências revelam” explicitam a relação entre silenciamento na poesia e na realidade social, dada a constante ameaça de violência física e censura.

Na 4ª. lição, o sujeito lírico encontra-se em revisão de si e de seu legado familiar. Carlos Drummond de Andrade está presente desde o título: “A vida passada a limpo” vira “a vida passada a limbo”. Ao contrário de outras citações em Grupo Escolar, essa obra não é posta nem como paradigma de superação nem como objeto de paródia. Drummond converte-se em referência nostálgica capaz de formalizar a experiência contemporânea de contraste e convivência simbólica com o passado. “O maligno” retrato do pai que “observa o observador”, no poema “imagens”, ressoa a fotografia de “Confidência de um itabirano” (“Itabira é apenas uma fotografia na parede./ Mas como dói!”) – ambos são fonte de dor pelo que se perdeu. Na edição de 1974, a fotografia do pai se repete ao lado de cada uma das estrofes, impressa com máxima nitidez na primeira e superexposta na quinta. 

Tematicamente, não apenas a questão familiar é afim ao itabirano – nessa presença subjetiva e virtual do patriarca fisicamente ausente –, como se repetem a investigação do passado, a autorreflexão sobre a própria obra e o diálogo aberto com referências artísticas – Cacaso dialoga com Drummond como Drummond faz com Goeldi (“A goeldi”), Di Cavalcanti (“Pacto”) e Machado de Assis (“A um bruxo, com amor”). Além disso, Grupo Escolar retira de A vida passada a limpo (1959) uma série de motivos e imagens, como a presença de restos e rastros; a instabilidade do eu; o desencontro com o outro e até reverberações da ideia de herança.

O sujeito poético cacasiano expressa seu presente como paralisia. Sem projetos, dado o caráter infernal do regime militar, fica preso entre um futuro bloqueado e um passado que já não pode oferecer significados. Fica no entre-lugar, “limbo”, como no último verso do poema abaixo: 

“trago comigo um retrato
que me carrega com ele bem antes
de o possuir bem depois de o ter perdido.
Toda felicidade é memória e projeto.”

O presente é construído como tempo vazio, entre o futuro do qual teme não participar e o passado infrutífero que insiste em permanecer. Sua poesia expressa uma perda dupla: no campo literário, ligada à inventividade participante do modernismo; no político, ligada ao país pré-64, que parecia produzir um futuro que em 1974 já não era possível. 

Na poética cacasiana, a figura do filho concentra a tensão entre continuidade e desaparecimento, algo de si que permanece à revelia da sua vontade e das possibilidades almejadas. Assim, multiplicam-se as imagens de Pedro Brito, filho de Cacaso, no conjunto, como em “história natural”.  

“Meu filho agora
ainda não completou três anos.
O rosto dele é bonito e os seus olhos repõem 
muita coisa da mãe dele e um pouco
de minha mãe.
Sem alfabeto o sangue relata
as formas de relatar: a carne desdobra a carne
Mas penso:
que memória me pensará?
Vejo meu filho respirando e absurdamente 
imagino
como será a América Latina no futuro.”

A criança carrega o tempo que antecede ao eu-lírico e a ela em sua própria carne, representando também o discurso sobre os anos 1970 e seus agentes, o próprio enunciador entre eles, a ser reconstruído a posteriori. Essa subjetividade poética questiona-se sobre qual seria a herança dessa geração e qual seria o legado que aquela que lhe sucedeu dela tiraria. O futuro da criança é o do continente e a possibilidade de pensá-lo. O filho repõe o passado e projeta o futuro na incerteza. O poema é sucedido por mais uma fotografia de Pedro, cuja imagem de costas encerra o volume. 

Grupo Escolar captura questões que permearam toda a obra de Cacaso, composta por poemas, canções e ensaios: a articulação de humor e crítica como combate à ideologia do período. O conjunto tem como ponto de fuga a experiência de sua geração durante o regime civil-militar, captando a violência, a injustiça social e os cortes, políticos e estéticos, operados pelo golpe. As figurações de futuro paralisado dão testemunho formal do rebaixamento do horizonte de expectativas legado pelo período de exceção.

Para saber mais

CACASO na corda bamba (2016). Direção: Ph Souza. Produção: Luiz Salazar e Ph Souza. Imagin&Som; Cafeína Produções, Documentário, (88 min).

MAROVATTO, Mariano (2015). Inclusive, aliás. Rio de Janeiro: 7letras.

MICHELETTI, Guaraciaba (2017). Os sentidos e o estilo de Cacaso em Grupo Escolar. Interfaces, Guarapuava, v. 8, n. 3, p. 61-72. Disponível em:  https://revistas.unicentro.br/index.php/revista_interfaces/article/view/4809. Acesso em: 11 set. 2025.

SCHWARZ, Roberto (2014). Pensando em Cacaso. In: SCHWARZ, Roberto. Sequências brasileiras – ensaios. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras. p. 212-214.

SOARES, Débora Racy (2011). Dor, sombra, lucidez: leitura de Beijo na Boca iluminada pela  trajetória poética de Cacaso e pelo éthos de sua geração. Tese (Doutorado em Teoria e História Literária) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

TOMAZ, Matheus (2025). Notas sobre Cacaso e a Tradição. Littera: Revista de Estudos Linguísticos e Literários, São Luís, v. 16, n. 32, p. 253-280. Disponível em: https://cajapio.ufma.br/index.php/littera/article/view/25814. Acesso em: 11 fev. 2026.

Iconografia

Tags:

Como citar:

TOMAZ, Matheus.
Grupo Escolar.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

11 jun. 2026.

Disponível em:

8272.

Acessado em:

29 jun. 2026.