ROQUETTE-PINTO, Claudia. Corola. Cotia: Ateliê, 2000.
André Luiz dos Santos Rodrigues
Ilustração: Graça Craidy
No ano 2000, a Ateliê Editorial publicou Corola, o quarto livro da poeta Claudia Roquette-Pinto (Rio de Janeiro, RJ, 1963). Como em Saxífraga, livro de 1993, a autora confere estranhamento a um topos comum da poesia – a flor –, fazendo uso de um nome técnico para qualificá-la. Saxífraga é um tipo de flor pequena que cresce em frestas de rochas e “corola” é o conjunto de pétalas de uma flor. A opção por tais títulos, sonoros e desabituais, antecipa que os lugares-comuns da poesia serão colocados à prova.
Composta por quarenta e sete poemas sem título (com exceção do último), a obra faz uso da infinidade de elementos que existem em um jardim de forma coerente. Submetidos somente ao título do livro e nascendo do mesmo núcleo, cada poema é uma pétala da corola. Neles, encontram-se, entre outros, o pólen, o orvalho, as abelhas, os vaga-lumes, as aranhas, as lagartas, o sol, o céu, a chuva, a folha, as cigarras, a grama, as margaridas, as hortênsias e as borboletas. Todos vivem, e a instância poética, impessoal e cercada pelo ambiente doméstico, faz com que reflitam seus impasses de pensamento, seus impasses de escrita, seus impasses de compreensão do mundo. Sem fazer uso explícito de conceitos, a poesia de Corola é filosófica.
Defini-la assim se justifica porque a instância poética que se delineia a cada poema se caracteriza por uma personalidade isolada e ensimesmada, um pensamento obsessivo e inflado, um corpo lasso e imóvel. No primeiro poema, na contramão do que ocorre com a flor, o eu poético faz movimentos inversos ao dela: “Longe daqui, de mim / (mais para dentro)”. Ao invés de se abrir, fecha-se em uma “ideia”, em “especulações”, em um “hipotético jardim”. A concretude da natureza mais próxima, corriqueira e cotidiana, é o meio pelo qual a instância poética tenta apreender a dinâmica do pensamento. Ela procura conhecer a realidade por meio de fontes seguras, mas, desde esse primeiro poema, sabe que está distante do entendimento: não há “nenhuma / floração nem ao menos / um botão incipiente”. Aquilo que se segue são variações sobre o mesmo tema. A beleza dos seres do jardim não traz calma ao sujeito lírico, que ironiza o comércio do mundo e as ilusões que o sustentam:
“É certo que lá fora algo acontece,
insetos voam, pessoas (seus ruídos)
sobem, descem,
pensam que isso é tudo:
a terra embaixo acima o céu
e nuvens.”
O jardim não está a serviço de poemas bucólicos, os quais, metrificados, celebrariam a vida, o presente e o amor. Contrariamente, os seres que constituem o cenário de Corola – além de aparecerem em versos livres e com sintaxe imprevisível – adquirem significado autônomo, espelhando o caráter filosófico da instância poética, para quem componentes opostos habitam as coisas em igual medida.
Dessa constatação é que surge um recurso de linguagem recorrente nos poemas: o contraste. Alguns exemplos: “ínfimo ao infinito, / mínimo onde o superlativo esbarra”; “tarde indecisa / em ser, ainda, tarde, ou ver-se noite”; “no céu que hesita entre a chuva e a indiferença. / Imóvel, vertiginosa”. Junto ao contraste estão a musicalidade sem ritmo e as assonâncias como recursos empregados frequentemente:
“O que não fala
esbarra
na palavra, parte
em outra direção.
O que não
fala arfa no ar da sala,
toma a casa,
vaza pelo vão
de cada janela sonsa,
que nem disfarça.”
Esse trecho, além de exemplificar como os poemas são sonorizados, também apresenta o ambiente a partir do qual o eu enuncia: a casa. Além do próprio território corporal, a instância poética transita pelo ambiente doméstico e escreve com base no que vê ali. O excesso de observação do qual o olhar filosófico lança mão – “o olho impiedoso, / pai do meu desconforto” – impede que a casa seja o reduto da tranquilidade, pois a imobilidade corporal do eu é mais doença do que descanso.
A restrição ao lar parece não ter ligação direta com as restrições sociais colocadas à mulher – a autora que escreve o livro, porém sem surgir nos poemas como sujeito feminino –, mas sim com o fato de o corpo ter sido contaminado pelo excesso de pensamento. O corpo está impossibilitado de se retirar da casa, pois o sujeito a que pertence nega, ademais, o exterior que o rodeia – “Terras ou rebanhos desdenho” –, não sendo capaz de aderir ao seu passo.
Nos poemas, há, contudo, o anseio constante por um clarão, uma tempestade que rompa com a agonia e reverta o movimento mortífero do sujeito, fazendo-o sair de si para se religar ao mundo. O desejo de contato com o outro é raro. O que se vê é o sujeito se comunicando com objetos e com a natureza, os quais são indiferentes – adjetivo diversas vezes usado no livro – a seus apelos de entendimento. É o que se vê no fragmento a seguir:
“Na pele abrasada das coisas
o pensamento entorna,
não penetra, espalha e
torna a reunir-se
em gotas, um suor.”
O eu-lírico, bastante imagético, não só percebe a impossibilidade de entender, mas também a de dizer, pois “tudo é muro, palavra que não acende / neste anelo em que me enredo”. O trecho apresenta outras características centrais de Corola: o desejo de entendimento expresso por meio de imagens plásticas e, por vezes, eróticas; o olhar meditativo do eu poético; e sua desistência diante da força da realidade.
Tentando situar a produção de Roquette-Pinto no cenário da poesia brasileira contemporânea, os estudiosos Iumna Maria Simon e Vinicius Dantas (2019) afirmam que a situação existencial do eu de Corola, elidindo o espaço urbano de suas preocupações, encena o paradoxo da vida contemporânea, especialmente o das classes abastadas da sociedade. Muros, grades, câmeras de vigilância e seguranças não trazem a paz que se deseja em oposição ao tumulto da cidade. Por isso, “a figuração do jardim está sempre assombrada pela consciência negativa de um empreendimento falhado”.
Os autores observam, ainda, que há na escrita da autora uma “miopia do olhar”, expressão cunhada por Gilda de Mello e Souza (1980) para “apontar na literatura feminina a vocação da minúcia, o apego ao detalhe sensível na transcrição do real, características que, segundo Simone de Beauvoir, derivam da posição social da mulher”, fechada na geografia do lar. Para Simon e Dantas (2019), “mais do que marca de gênero, a diminuição do campo de visão corresponderia ao estreitamento contemporâneo da experiência”.
Já no posfácio de A extração dos dias (2025), o pesquisador Gustavo Silveira Ribeiro, defendendo que Corola é um livro central da produção de Roquette-Pinto, afirma que a autora, ao lado dos escritores Carlito Azevedo, Josely Vianna Baptista e Ricardo Aleixo, integra uma geração de poetas da década de 1990 que, utilizando o minimalismo, a impessoalidade, a linguagem rigorosa e os repertórios da modernidade poética do século XX, retornaram à forma poema. Mais do que marcar a década de 1990, a consistência da obra de Roquette-Pinto, defende Ribeiro, ecoa em obras posteriores de outras autoras, como Ana Martins Marques, Mônica de Aquino e Leila Danziger.
Ambas as interpretações – a primeira enfatizando o contexto social de produção e a segunda a ligação entre Roquette-Pinto e as correntes de escrita – reconhecem que Corola é um livro que se destaca no conjunto da obra da autora. Deliberadamente, faz uso de imagens consolidadas na tradição poética para solapá-las. A casa, a flor e o jardim encarnam o que o sujeito tem de mais incômodo – o seu próprio pensamento. A sonoridade exacerbada, o ritmo inconstante e associações peculiares fazem a leitura de Corola ser também um incômodo de pensamento, pois coisas familiares são tingidas por aquilo que lhes é alheio: a aridez toma conta do solo fértil onde uma flor cresceria e o lar íntimo causa mal-estar.
Para saber mais
DANTAS, Vinicius; SIMON, Iumna Maria (2019). Consistência de Corola. Novos Estudos, São Paulo, n. 85, p. 215-235. Disponível em: https://www.scielo.br/j/nec/a/TFhrSZMg85R3sdVRt8Kdngn/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 28 set. 2025.
MELLO E SOUZA, Gilda de (1980). O vertiginoso relance. Exercícios de leitura. São Paulo: Duas Cidades. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/clarice-lispector-o-vertiginoso-relance/. Acesso em: 30 set. 2025.
RIBEIRO, Gustavo Silveira (2025). Imóvel, vertiginosa. In: RIBEIRO, Gustavo Silveira (org.); ROQUETTE-PINTO, Claudia. A extração dos dias: poesia 1984-2005. São Paulo: Círculo de Poemas. [Edição digital]
SCHMAEDEL, Michaela (2025). Claudia Roquette-Pinto se consolida como poeta relevante. Folha de S. Paulo, 2 mai. 2025. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/05/claudia-roquette-pinto-se-consolida-como-voz-relevante-para-a-poesia-brasileira.shtml. Acesso em: 28 set. 2025.
Iconografia


