Giovanni Ricciardi: Quem é Antônio Torres?
Antônio Torres: Nasci no dia 13 de setembro de 1940, num lugar chamado Junco e que hoje se chama Sátiro Dias, no sertão da Bahia. Meu pai era lavrador – e ainda é; minha mãe era – e é – costureira. Toda nossa experiência de vida, toda minha experiência de infância é uma experiência ligada à terra. Plantávamos para comer; o excedente da safra era vendido para comprar roupas e coisas assim. Estava acostumado àquele mundo, àquele mundo telúrico, àquele mundo rural. Quando eu fui para a escola – escola rural –, eu já sabia ler e escrever um pouco, pois minha mãe já tinha me ensinado. Na própria escola rural, interessei-me por literatura, porque entre os livros adotados havia sempre um livro de leitura, que trazia poemas e trechos de romances. Chamava-se Seleta Escolar, e isso me entusiasmou muito. Comecei a descobrir a poesia. Os primeiros poetas que marcaram minha vida foram Gonçalves Dias (um poeta maranhense) e Castro Alves (um poeta baiano). Lia trechos de José de Alencar e ficava empolgadíssimo.
Ao lado disso, houve como que uma complementação da minha formação: a literatura de cordel. Talvez tenha sido mesmo o traço mais importante, mais forte da minha formação literária. Nós a chamávamos de “rimance”, porque para o sertanejo é um romance com rima. O cordel é aquele livreto que conta uma história em versos; como essa história é rimada, eles a chamam de “rimance”. Nós tínhamos uma vizinha que tocava violão. À noite, ela ia à minha casa e cantava aquelas histórias de cordel. Enquanto isso, minha cabeça voava, viajava; a minha imaginação se soltava naquelas histórias.
Como me alfabetizei muito rapidamente, fui escolhido para escrever as cartas para os analfabetos do lugar. Havia um rapaz que estava apaixonado por uma moça que morava longe. Como ele não sabia declarar sua própria paixão – pois não sabia escrever –, todas as segundas-feiras (dia de feira) ele me chamava secretamente, contava-me tudo o que sentia, e eu passava sua paixão para o papel. Depois, a moça me chamava para ler a carta que eu mesmo havia escrito e também para escrever a resposta. Eu sei que, nesses dias de feira, eu levava um vidão, porque recebia ótimos direitos autorais, já que essas cartas eram pagas com guloseimas, arroz doce, pão de ló, rosário de Ouricuri. Foi nesse mesmo tempo – final dos anos 1940, começo dos anos 1950 – que começaram as migrações para o sul; não ainda para o “Sul-Maravilha” do Rio e de São Paulo, mas para o sul rico da própria Bahia, da região do cacau. Como não havia estradas, esses homens levavam dias para ir do nordeste da Bahia ao sul da Bahia, e as mulheres ficavam à espera de que esses homens lhes escrevessem. O correio chegava às segundas-feiras, no lombo de um burro, trazido pelo famoso estafeta – um grande personagem nacional. E quando o estafeta chegava com o correio, na portinha da loja que o distribuía, fazia-se uma enorme fila de mulheres, verdadeiras viúvas de homens vivos, à espera das cartas dos seus maridos. Quando chegava alguma, eu era convocado a ler, para tentar entender aqueles garranchos todos. Enquanto eu lia, aquelas mulheres choravam, choravam, choravam. Depois eu escrevia a resposta. Como dentro dos envelopes que chegavam sempre havia algum dinheiro para aquelas mulheres, eu também recebia ótimos direitos autorais. Os melhores direitos autorais de toda minha vida são todos da minha infância.
Depois houve a professora, que era minha maior incentivadora. Obrigava-me quase todos os dias a escrever uma composição. Essa composição escolar quase diária foi excelente treinamento para mim. Ela mesma se entusiasmou com meu desenvolvimento na escola. E no dia 7 de setembro, no dia da parada de 7 de setembro, na praça empoeirada, lá estava eu, vestido de azul e branco, com uma fita amarela no peito; a bandeira do Brasil numa mão e Castro Alves na outra: “Auriverde pendão da minha terra/ Que a brisa do Brasil beija e balança/ Estandarte que à luz do sol encerra/ As divinas promessas de esperança”. E aquele povo em volta de mim chorava, chorava. A minha formação foi essa.
G.R.: Estou gostando. Continue, por favor.
A.T.: Minha mãe era um pouco mais alfabetizada, e muito por esforço próprio. Naquela região, bastava você aprender a assinar o nome para votar nas eleições, que já era considerado um cidadão útil do ponto de vista civil. Não havia, pois, um incentivo ao aprendizado, à escolaridade. Minha mãe, por esforço próprio, conseguiu aprender um pouco mais do que as outras pessoas.
Meu pai, muito ligado à terra, não ligava para essas coisas. Meu pai, inclusive, tinha uma estranha teoria de que escola não enche barriga de ninguém. Ele acreditava mesmo era na terra, no homem da terra, na plantação nascendo, crescendo. O que, diga-se de passagem, é uma beleza. Eu também acordava muito cedo para ver o milho crescer, para ver o feijão crescer; com isso, meu pai gostaria que eu fosse o seu sucessor na roça, no trabalho da natureza.
Acontece que, com todo esse meu assanhamento – essas bravatas de escrever cartas, de recitar poesias –, todo aquele povo começou a fazer pressão sobre minha família para que eu fosse estudar num outro lugar. E eu fui para uma cidade mais adiante, fui morar com meus tios, para fazer o ginásio. A cidade se chama Alagoinhas, fica a 108 km de Salvador e é uma cidade de que eu gosto muito. É muito linda e, naquela época, já tinha ginásio. Minha mãe hoje mora lá.
Então eu fiz o ginásio em Alagoinhas e foi lá que eu comecei a descobrir mais livros. O diretor do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) era meu amigo e deixava eu ir lá pegar livros para ler. Na prefeitura tinha uma biblioteca e eu também ia lá pegar livros para ler. No próprio ginásio havia uma pequena biblioteca. Comecei a ler Monteiro Lobato. Comecei a descobrir Monteiro Lobato. Chegou um professor de fora e começou a me emprestar livros: Graciliano Ramos, Jorge Amado. Comecei a descobrir as maravilhas do conto russo, as maravilhas do conto norte-americano.
Comecei a ler Machado de Assis; aqueles textos de Machado de Assis que se liam mais pelo enredo, como Helena, A mão e a luva. Ainda não era a grande fase de Machado de Assis, mas já era uma entrada em Machado de Assis. Comecei a descobrir Tolstói, com Ressurreição. Isso no tempo do ginásio, com 14, 15 anos.
Depois fui para Salvador fazer o curso científico, como se chamava antigamente. Então fui para a cidade e, em Salvador, consegui entrar num jornal. Como o jornal pagava pouco, comecei a trabalhar num banco e não deu mais para estudar. Larguei de estudar e enfiei a cara no jornal, pois o que eu queria era aprender a escrever. De Salvador, fui para São Paulo.
G.R.: Em Salvador, não chegou nem a terminar o científico?
A.T.: Não acabei nem o 1o ano científico. Interrompi e fui para São Paulo. Enfiei a cara no jornal, depois passei para a propaganda. Nos jornais de São Paulo, fui colega de Ignácio de Loyola Brandão, que é meu amigo até hoje. De São Paulo fui para Portugal, onde, por sorte, conheci logo de cara um grande poeta, Alexandre O’Neill, que, como eu, trabalhava em publicidade; era redator publicitário. Aliás, em Portugal, muitos eram os redatores publicitários, como, por exemplo, o romancista José Cardoso Pires. Em Portugal eu li de tudo, porque morei na casa de Alexandre O’Neill. Ele uma vez me disse: “Escreva!”. E eu: “Como é que você sabe que eu quero escrever?”. Ele respondeu: “Ouvindo suas histórias”. Aí, eu disse: “Você acaba de me dar a maior alegria do mundo: descobrir que eu quero escrever”.
Em Portugal descobri muita coisa. Naquela época, Portugal publicava mais literatura estrangeira do que no Brasil. Então você conseguia descobrir quase tudo que era norte-americano, descobrir os ingleses, os young angry men; descobrir o neorrealismo italiano que se divulgava muito em Portugal e que tinha grande influência sobre os portugueses. Você tinha Pavese, Pratolini, Vittorini. Outro que tinha grande influência lá era o grande escritor Ítalo Calvino. Descobri um escritor por quem fiquei apaixonadíssimo e que me fez ter uma vontade louca de viajar pela Itália, principalmente pelo sul da Itália. É um escritor chamado Carlo Levi. Li Cristo si é fermato a Eboli e um outro texto de reportagem que é sensacional: “As palavras são de pedra”. Basicamente foi essa minha formação.
Um dia cheguei a Paris para tentar encontrar Fitzgerald e Hemingway, para ver se eles ainda estavam lá, frequentando os cafés. Chegando lá, não havia mais nem Fitzgerald nem Hemingway. E descobri que o que existia mesmo era eu com a minha terra; quer dizer, me deu vontade de escrever sobre o mundo de onde eu tinha vindo.
Se olho para trás, acho que tive uma boa infância. Não sei… Imagine uma pessoa que sai de casa muito cedo, ganha o mundo e até hoje não ficou maluca. Eu não me transformei num marginal nem em outra coisa qualquer. Canalizei todas as minhas buscas, angústias, loucuras, insatisfações, enfim, tudo para a escrita. Logo, só posso deduzir que tive uma boa infância. O que é uma coisa difícil de se ter na cidade. Na cidade é muito difícil ter pais full-time. Eu tinha pai e mãe 24 horas por dia. Eu aprendi um grande sentido de vida comunitária: meu pai contratava trabalhadores para trabalhar na lavoura. Ele e nós trabalhávamos junto com os trabalhadores. Eles tinham que se sentar na nossa mesa e comer a nossa comida. Se dormiam em casa, dormiam usando os mesmos espaços das pessoas da casa. Isso me deixou com alguns problemas para a vida urbana. Vim para a cidade e moro num apartamento amplo. Entretanto, o quarto de empregada é minúsculo. Para mim, essa convivência com as divisões de classe da vida urbana é muito complicada; é uma coisa muito radical essa diferença de classes na vida urbana. Então, eu tenho uma boa lembrança da infância; a lembrança de uma coisa ligada à terra, a pais de tempo integral. Eu gostaria de ser esse pai para os meus filhos, mas não posso.
G.R.: Quem foi o teu “mestre”, Antônio?
A.T.: Acho que tive vários mestres. Começou com aquela professora na escola rural. No ginásio, eu também encontrei um professor de português que dava muita atenção para essa minha inclinação para escrever. Esses primeiros professores foram os primeiros grandes estímulos que tive. Mas o primeiro grande estímulo foi o povo mesmo; depois, foram os professores.
G.R.: Por que escreve?
A.T.: Por causa das manifestações daquele povo que chorava quando me ouvia recitar poesias. Esse povo que ia me chamar para ler livro de rezas quando alguém estava morrendo. Esse povo que me chamava para escrever suas cartas. Tudo isso me dava estímulo, de uma maneira ou de outra. Acho que já comecei sentindo dentro de mim a necessidade de escrever como uma coisa socialmente útil, como um serviço. Num país com os índices tão alarmantes de analfabetismo como o nosso, as pessoas, às vezes, dizem: “Poxa, escrever aqui é um elitismo”. Eu acho que não. Pela minha experiência pessoal, não. Escrever é um serviço.
Por isso, eu acho que devo tudo à minha infância. Todo o meu trabalho está plasmado na minha infância. Eu sempre quis sair daquele mundo, mas saí daquele mundo para servir um pouco melhor àquele mundo. O Brasil está cheio de mundos em volta. É um mundo muito mais representativo desse tipo de experiência do que esses núcleos urbanos brasileiros de feição “euro-norte-americana” e que também é uma realidade do país.
Nós temos, por exemplo, aqui no Rio de Janeiro, bares sofisticadíssimos, como os de Saint Germain-des-Près, de Via Veneto, de Nova York, sei lá de onde, mas você tem todo o Nordeste em volta, pendurado nos morros ou nas próprias ruas. Você encontra esse Nordeste, esse choque do século XVII com o século XX, e eu estou dentro, vivendo todo esse entrechoque, o conflito dessas realidades a partir da minha própria experiência individual, pessoal. Eu sou este homem de cidade, mas trago dentro de mim toda essa experiência anterior.
G.R.: Quando pensa ter acabado seu período de formação?
A.T.: Continuo aprendendo, até me comporto mesmo como aprendiz. Isso na esperança de que seja um caminho para uma evolução permanente. Eu tenho a impressão de que, se olhar para trás, tudo na minha vida foi marcante; como era aquela professora na escola, como era aquele escritor da Bahia, chamado Ariovaldo Matos, que era o redator-chefe do jornal onde eu trabalhei, como aquele poeta chamado João Carlos Teixeira Gomes, que foi meu chefe de reportagem, como todas as pessoas com quem eu viria a me ligar em São Paulo. O escritor Marcos Rey, por exemplo, era redator de propaganda como eu; Ignácio de Loyola Brandão era meu colega de jornal, como o Alexandre O’Neill em Portugal. Encontrar essas pessoas, viajar, mudar de lugar foram etapas muito marcantes na minha vida. Evidentemente, o Brasil teve um corte em 1964. Para a contemporaneidade do Brasil, a história está dividida assim: antes e depois de 1964; ou, mais marcadamente dividida, antes e depois de 1968, o ano em que as coisas realmente arrocharam.
G.R.: Quando começou a escrever?
A.T.: A sensação que eu tenho é de que, quando eu vim ao mundo, já estava querendo uma folha de papel. É aquela coisa que eu descobri cedo, por todo um traço biográfico que eu já lhe dei, por causa da minha infância. Aos 8 anos de idade, eu já escrevia meus poemas e os guardava debaixo do colchão, com vergonha que os adultos descobrissem aquilo. Eu estava apaixonado por uma garota e estava fazendo uns poemas para ela. Mais tarde, descobri que o meu negócio não era poesia; meu negócio era prosa. Mas eu saí por aí, pelo mundo, procurando meu texto. Tive pouca escola, então tive que partir para as escolas da rua.
G.R.: Como foi seu primeiro livro?
A.T.: Eu o escrevi aqui no Rio de Janeiro em oito meses. Escrevi-o de um jato. Esse romance foi motivado por uma visita que fiz a um amigo, que estava internado numa clínica psiquiátrica no Rio de Janeiro. Tinha todo aquele quadro dos anos 1970, 1971, 1972, a época mais dura do regime militar. A nossa juventude tinha duas saídas: de um lado, a luta armada; do outro, as drogas. Eu fui visitar esse amigo que estava internado. Ele estava sofrendo, sendo submetido a eletrochoques; davam muitas drogas para ele, e as drogas o deixavam muito excitado. Fiquei duas horas conversando com ele e fiquei muito impressionado. Comecei a ligar para alguns amigos médicos, e todo mundo dizia que não tinha jeito.
Aí eu comecei, a princípio, a escrever um conto, porque, em toda minha vida, eu escrevia, escrevia, e eu era o melhor escritor para mim mesmo até a segunda página, depois eu não sabia continuar. Fiquei muito tocado com aquela visita e comecei a criar uma situação de um louco batendo um papo com ele mesmo. Meu projeto inicial era um conto. Aí eu cheguei à 3a página, esfreguei as mãos, feliz da vida (“agora é um romance”), e fui em frente. O romance foi publicado em 1972, e o escrevi rapidamente. Eu não conhecia ninguém no meio literário, e o romance foi um sucesso extraordinário. Fui tido pela crítica como a revelação do ano. Chegaram a escrever nos jornais: “Ninguém sabia quem era esse cara, embora seja uma das maiores revelações de escritor de todos os tempos no Brasil”. Mas, quando eles estavam dizendo isso, eu achava que não era comigo aquele papo, porque eu já tinha escrito os capítulos iniciais de Os homens dos pés redondos, que nunca avançavam, e peguei da 1a página e fui embora: menos de um ano depois terminei Os homens dos pés redondos que, basicamente, reflete a minha experiência portuguesa.
G.R.: Por que o primeiro romance se chamou Um cão uivando para a lua?
A.T.: Esta foi uma ideia que guardei de uma madrugada paulista na casa de uma amiga, às 4 horas da manhã. Com aquele frio todo de São Paulo, a gente estava bebendo e ouvindo um trompete americano, Miles Davis, que tocava My Funny Valentine. Ouvindo aquele trompete, tão rasgado, tão dilacerado, eu dizia a ela: “Parece um cão uivando para a lua”; e ela dizia: “Mas hoje não tem lua, parece um boi berrando para o sol”. Assim, num papo de doido, eu dizia: “Mas hoje não tem sol…”. Guardei essa imagem, e o título pegou de uma maneira extraordinária, porque as pessoas o associaram ao clima político.
G.R.: Talvez mais do que com o conteúdo do texto.
A.T.: Exato. Foi muito associado ao clima político da época, com a imagem de uma solidão desgraçada. Um sujeito querendo algo impossível, que era uivar para a lua, sabendo que a lua está muito distante. O livro vendeu que foi uma beleza. De repente, eu começava a receber convites para lançar o livro em Recife, e eu não conhecia ninguém em Recife.
O livro foi lançado no mesmo dia em que Teresa Batista, cansada de guerra, de Jorge Amado, foi lançado (em São Paulo, no mesmo horário, a um quarteirão de distância). O Jorge Amado foi o primeiro a passar na livraria onde eu estava: comprou um exemplar, deixou um embrulho e um bilhete para eu autografar o livro para ele. Belíssimo isso!
E eu, que pensava que meu lançamento ia ser um fracasso! No entanto, não foi. Minha estreia foi já autografando duzentos livros (o que é muito bom, mesmo hoje). Fantástico para uma noite de autógrafos! Ainda mais para um estreante (hoje eu já autografo quatrocentos). Cheguei ao Recife e li nos jornais: Um cão uivando para a lua, 1o lugar; Teresa Batista, cansada de guerra, 2o lugar, na lista de vendas. Vou confessar a você uma coisa que é muito difícil de confessar: eu tenho muita saudade desse tempo.
G.R.: Por que era a estreia?
A.T.: Sim, porque era o primeiro livro. Eu achava que não sabia nada. Não que hoje eu saiba alguma coisa, mas acho que já sei mais um pouco do que sabia naquele tempo. Hoje eu já sei da crítica, já sei disso e de uma série de coisas, já tenho temor da crítica. Naquele tempo, eu não tinha temor de nada, não sabia de nada. Estava que nem um cão solto, doido no mundo. Então, o efeito disso tudo me deixou muito feliz.
G.R.: Um pouco como se fosse a infância, a infância da escrita?
A.T.: Exatamente. Dei sorte no primeiro livro. Acho que isso é definitivo para um escritor, porque, a partir daí, eu não tive nenhum problema editorial, nem problema de espaço na imprensa. Não tive mais problema algum.
G.R.: Pode viver só de literatura?
A.T.: Eu trabalho com publicidade. Não ganho ainda o bastante para viver dos meus livros, apesar de venderem muito bem. O fato de trabalhar com publicidade é um jogo muito duro, muito pesado. Também me instiga muito para escrever romance. Depois, a publicidade tem uma coisa que, para mim, é fascinante: a técnica. Aprendi muito com a técnica publicitária. Você vê que meus livros são magrinhos; quase todos, fora Os homens de pés redondos. Não é que eu escreva pouco; ao contrário, escrevo muito para chegar a pouco.
G.R.: Como surge um texto? Como nasceu Essa Terra?
A.T.: A ideia do livro surgiu numa tarde paulistana, em 1973. Eu estava trabalhando como redator numa das maiores agências de publicidade do Brasil, na avenida Paulista. Eu ficava numa sala no 12o andar e lá de baixo vinha um barulho infernal, das obras do metrô. E eu na máquina de escrever: mais um volks, mais um torno, mais um forno.
Naquela tarde, não estava dando para prosseguir com uma campanha para a Volkswagen do Brasil, por causa da barulheira. Resolvi parar um pouco e descer ao bar na galeria do edifício, para espairecer. Quando desci, deu vontade de me aproximar dos operários com suas máquinas barulhentas e de tentar conversar com alguns deles. Ao me aproximar, percebi que eram todos das minhas bandas; logo, como eu, tinham vindo dos fundões do país. E sobre os rostos desses homens, eu via a imagem de um outro, que eu havia visto pela última vez num subúrbio chamado São Miguel Paulista, à época uma espécie de gueto de “baianos”, como todos os nordestinos, baianos ou não, são chamados em São Paulo. O homem em questão era da minha terra. Estava bêbado e queria beber mais. Quando me viu, disse aos berros: “Primo, conta para ele quem é a nossa família na Bahia”. Senti o drama: esse ele era o português dono do botequim, e o bêbado queria mais e fiado, com o aval de uma família a uns 2 mil quilômetros de distância. Para encurtar a história, paguei-lhe uma cachaça e fui embora.
Alguns anos depois, fiquei sabendo que aquele homem havia voltado para a sua terra – a nossa terra – e havia se matado, do jeito que descrevo no livro. Ao tomar o elevador de volta ao escritório, muitas imagens se cruzaram na minha mente: o homem em São Miguel Paulista e depois, com o pescoço numa corda, no interior da Bahia; os operários do metrô; outros baianos em São Bernardo do Campo fabricando os carros da Volkswagen; e eu numa agência de propaganda, para vendê-los. O louco motor do parque industrial movido pelos migrantes – não só por eles, claro, mas também por eles.
Ao voltar à máquina de escrever, bati o seguinte diálogo: “Se estiver vivo, um dia ele aparece, foi o que eu sempre disse”. Pronto. Estava começado o Essa Terra. É um romance com muita história por trás dele. Assim como o Um táxi para Viena d’Áustria. Este nasceu de um sonho. Uma noite sonhei que havia matado um homem, num apartamento em Ipanema, e depois fugia de táxi, para não ser apanhado pela polícia. Tudo parecia tão real, que acordei apavorado e me perguntando que violência era aquela que eu carregava dentro de mim. Até perceber que aquilo dava um romance, com o rádio do táxi tocando a “Missa em dó maior” (a “Missa da Coroação”), de Mozart, uma trilha e tanto para uma viagem imaginária, em contraponto com a violência do Rio de Janeiro. E assim, la nave va. Minha nave romanesca.
G.R.: Qual é a sua relação com a escrita, com a linguagem?
A.T.: Eu sou um desses escritores para quem o texto é mais importante do que o contexto. É claro que a história tem importância, evidentemente, você está contando uma história. Mas, para mim, por uma questão de temperamento, o que interessa mais é a maneira de contar, e isso remete ao estilo. Trabalho muito a linguagem. Reescrevo mais do que escrevo. Na verdade, é uma coisa compulsiva, é uma coisa até neurótica, uma necessidade. No fim do livro, eu fico morrendo de ansiedade, achando que podia ter escrito, reescrito mais vezes as coisas. Mas também fica aquele medo de você reescrever tanto que acabe perdendo a substância original, o impulso original.
G.R.: A emoção do texto.
A.T.: Sim, a emoção.
G.R.: A escrita é também testemunho, denúncia, comunicação, expressão?
A.T.: Acho que é tudo isso. Mas tem que ser aquela combinação de arte e beleza. Por meio da arte e da beleza, você deve passar muita emoção. Acho que nós estamos chegando a um fim de século com muitas perguntas na cabeça. Aqui no Brasil, nós somos uma geração que conhece muito a fundo a crise do país e a nossa própria crise diante das coisas que acreditávamos e que não deram certo; de promessas que não se cumpriram, de destinos que não se realizaram. Acho que o escritor brasileiro está muito empenhado também num aprofundamento dessa crise nacional, no que diz respeito às questões éticas da sociedade, assistindo, por exemplo, a todo esse processo histórico nacional que nos fez perder uma identidade, uma identidade de nação, uma identidade cultural. Acho que é o romancista, o poeta, o contista, o ensaísta, enfim, o escritor, que está empenhado no resgate dessas perdas, dessa identidade.
G.R.: Há momentos ideais para escrever?
A.T.: O momento mais feliz é quando você bate no teclado e as teclas respondem. Sim, porque elas nem sempre respondem; nem sempre são suas camaradas. Às vezes, você fica batendo, batendo, batendo, e o que vem é nada. Mas aquele momento em que você bate e sente a resposta, em que vem uma frase que te surpreende – esse momento, pode crer, é o momento mais glorioso da vida de um escritor! Mas o momento ideal – que me perdoem os que acham que vou falar uma besteira –, o momento ideal é quando você está inspirado. Eu sou um dos últimos escritores que ainda acredita na inspiração. Não sei explicar o que é que é isso, mas é um momento em que parece que você está com a “cachorra”. Naquele momento, realmente, tudo flui.
G.R.: Onde você encontra estímulos para escrever?
A.T.: Os estímulos não são tantos nesse tipo de sociedade em que a gente vive, mas existem. Existem na própria cobrança do público. Você se mexe de um lado para o outro, e as pessoas cobram: “O que é que você está escrevendo?”, “O que é que você vai escrever?”. Isso é um estímulo, claro. Não há escritor sem leitor. A gente escreve para ser lido e, sobretudo, para ser amado.
G.R.: Qual é o papel do imprevisto no seu processo criativo?
A.T.: É tudo imprevisto. O imprevisto é que te tira da normalidade e te acorda, te desperta. Muitas vezes, desperta num acontecimento doloroso. Contei, por exemplo, a visita que fiz àquele meu amigo que estava internado e que tem sido fundamental para todo o meu trabalho até hoje. Isso porque, por um processo qualquer, aquele choque que eu senti com aquele meu amigo de cabeça raspada, espumando de tanto choque que levava, desencadeou em mim todos os textos que eu tinha dispersado no meio do caminho, toda a minha necessidade de escrever.
G.R.: Existe o prazer de escrever?
A.T.: Claro! É um jogo lúdico. É como um brinquedo. É o brinquedo de adulto. Ele fica brincando de encontrar palavras para descrever situações, brincando de inventar pessoas ou reinventá-las. Eu não sei te explicar, mas é gostoso escrever. Eu adoro escrever. Principalmente quando o teclado responde.
G.R.: Como o cotidiano influencia seu trabalho criador?
A.T.: A vida implica momentos de tensão, momentos de muita paz, conflitos ou harmonia. Minha esposa é professora e estudante: Sônia Regina Aguiar Torres da Cruz. Devo confessar que só consegui escrever decentemente depois que me casei com a Sônia. Enquanto andei pelo mundo, arrebanhei muito material, mas não conseguia lhe dar forma. A partir do casamento, eu me estruturei. Acho que alguma coisa se organizou, não no sentido de ter uma casa, não; é uma organização mental, uma organização espiritual. A Sônia, inclusive, é uma ótima crítica. Ela está fazendo um curso de Letras, estou aprendendo muito com ela, acompanho os trabalhos que ela faz na universidade (na PUC do Rio). Através dela, estou fazendo o curso que não fiz.
G.R.: Como se sente dentro da literatura brasileira?
A.T.: Ela é muito vasta: vai de Antonio Callado, J. J. Veiga, Autran Dourado, Lygia Fagundes Telles a Júlio César Monteiro Martins, que é o mais novo da turma e o mais garoto. Fisicamente, por um problema de geração, de enturmação e de trabalho realizado, estive muito ligado, nos anos 1970, principalmente ao João Antônio e ao Ignácio de Loyola Brandão. Nós três, depois de um debate que fizemos em 1975, aqui no Teatro Casa Grande, saímos pelo Brasil inteiro fazendo palestras em teatros, universidades, escolas, criando uma sensibilização maior para o fato de que existe no Brasil uma literatura que não é boa só agora, uma literatura que já era boa cem anos atrás. O brasileiro já andava muito esquecido disso. É um país muito invadido culturalmente, muito tomado.
G.R.: Quem organizou esse tour de conferências?
A.T.: O do Rio, quem organizou foi o João Antônio. Dele participaram, além do Loyola, João Antônio e de mim, José Louzeiro, Antônio Houaiss (como moderador), Wander Piroli (de Belo Horizonte) e o finado Juarez Barreto, um escritor cearense que morava no Rio de Janeiro.
G.R.: Aceitaria trabalhar com salário fixo?
A.T.: Não, não aceitaria, porque seria o mesmo que trabalhar em publicidade. Escrever, para mim, tem outro significado, entendeu? Eu tenho muito medo de assinar um contrato para escrever um livro em um ano, pois, de qualquer maneira, você tem que escrever o livro simplesmente porque você assinou um contrato. O tempo do livro é um tempo meu, interno. Vou escrevê-lo quando tiver um assunto, uma boa motivação, quando a inspiração descer, no tempo que der.
G.R.: Quando escreve, pensa nos críticos, nos leitores?
A.T.: Conscientemente, não. Talvez eu pense neles depois que o livro fica pronto.
G.R.: Não tem uma imagem do leitor ideal?
A.T.: Não, não tenho. Em princípio a coisa é comigo mesmo, é o “corpo a corpo” entre mim e o texto. Depois, claro, vem a ansiedade de saber se o crítico vai gostar, o que o editor vai dizer, o que é que o leitor vai achar, se vai gostar. Eu acho que é depois que a gente fica com essa paranoia na cabeça. Enquanto escrevo, estou numa outra direção, buscando outro tipo de resposta; para mim mesmo, ali. Quando acabo o livro, e ele já não me pertence, aí vêm as perguntas.
G.R.: É importante a publicidade para o sucesso de um livro?
A.T.: Vivemos numa sociedade movida à propaganda. O nome da rosa é um sucesso mundial por causa da publicidade, independente do livro que é. Claro que a publicidade, por si só, não faz tudo; evidentemente, o livro tem que corresponder às expectativas do leitor. Mas, sem publicidade, você corre o risco de ficar completamente ignorado, de passar completamente despercebido. No Brasil, então, essa história é dramática. Boa parte dos escritores brasileiros não tem boa divulgação, não tem boa publicidade, e isso tem atrapalhado enormemente o desenvolvimento desses autores.
G.R.: O sucesso de uma obra, então, depende de que ou de quem?
A.T.: De vários fatores. Primeiro, deve ter uma boa divulgação, uma boa aceitação da crítica para levar o público a tomar conhecimento da existência dessa obra. Depois, depende da obra em si mesma. Aí é com ela, porque acho que a melhor propaganda do livro ainda é o boca a boca. Mas, para uma pessoa ler um livro, é preciso que saiba que esse livro existe.
G.R.: Quando escreve, sente algum vínculo, algum impedimento, algum temor, alguma autocensura em se revelar?
A.T.: Acho que a autocensura é algo incontrolável. Acredito que, em todo o período da ditadura, todos nós, de uma maneira ou de outra, nos autocensuramos um pouco. Outros, colegas meus, discordam de mim; acham que isso não se passou, etc. Acho que é humanamente impossível que, num regime totalitário, de censura pesada, um indivíduo não se autocensure. Acho que isso atinge a todos nós. Por mais que a gente se esforce para dar uma volta na autocensura, alguma coisa permanece lá dentro.
G.R.: Um autorretrato relâmpago?
A.T.: Antônio Torres, baiano, moreno, brasileiro, meio índio, meio português, meio ibérico. Paulista e estrangeiro; uma pessoa que gosta muito de escrever, que adora escrever e que, como dizia Ernest Hemingway, tudo o que gostaria de ser é um bom escritor e um bom sujeito.
Para saber mais
COELHO, Lilian Reichert (2024). O cachorro e o lobo. Resenha de: TORRES, Antônio. O cachorro e o lobo. Praça Clóvis: mapeamento crítico da literatura brasileira contemporânea, Brasília. Disponível em: https://pracaclovis.com/?p=2453. Acesso em: 14 jan. 2026.
GONÇALVES, Rogério Gustavo (2016). Entre experiência e invenção: incidências autobiográficas em Antônio Torres. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n. 47, p. 287-302. Disponível em: https://doi.org/10.1590/2316-40184714. Acesso em: 14 jan. 2026.
GONÇALVES, Rogério Gustavo (2017). O não-lugar do retirante nordestino em Essa terra, de Antônio Torres. Itinerários, Araraquara, n. 44, p. 43-52. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/itinerarios/article/view/8858. Acesso em: 14 jan. 2026.
MUNHOZ, Estella Maria Bortoncello; CECCAGNO, Douglas (2025). A recriação do mito de origem no conto brasileiro “Por um pé de feijão”. O Eixo e a Roda, Belo Horizonte, v. 34, n. 1, p. 38-48. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/o_eixo_ea_roda/article/view/58206. Acesso em: 14 jan. 2026.
OLIVIERI-GODET, Rita (2025). Essa terra. Resenha de: TORRES, Antônio. Essa terra. Praça Clóvis: mapeamento crítico da literatura brasileira contemporânea, Brasília. Disponível em: https://pracaclovis.com/?p=4707. Acesso em: 14 jan. 2026.
OLIVIERI-GODET, Rita (2025). Meu querido canibal. Resenha de: TORRES, Antônio. Meu querido canibal. Praça Clóvis: mapeamento crítico da literatura brasileira contemporânea, Brasília. Disponível em: https://pracaclovis.com/?p=4741. Acesso em: 14 jan. 2026.
PELINSER, André Tessaro; ALVES, Márcio Miranda (2020). A permanência do Regionalismo na literatura brasileira contemporânea. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 59, e593. Disponível em: https://doi.org/10.1590/2316-4018593. Acesso em: 14 jan. 2026.
* Apresentação do autor feito por Giovanni Ricciardi na obra O escritor corporal. Uma sociologia para a literatura, Foz do Iguaçu: EdUnila, 2021.
** Ela foi previamente publicada na obra Biografia e criação literária. Vol. VI: escritores do Norte e Nordeste – Entrevistas. Lauro de Freitas, BA: Livro.com, 2009.