Giovanni Ricciardi: Como apresentaria sociológica e culturalmente seu núcleo familiar de origem e seu meio social?
Antonio Callado: Um meio tipicamente burguês. Meu pai era médico, minha mãe também; meu avô materno, desembargador. Meu bisavô paterno veio de Portugal, no tempo de D. João. Então todo esse alinhamento vai mostrar que a minha é uma família tipicamente burguesa. Meu pai nasceu no Rio de Janeiro, mas fixou-se em Niterói, do outro lado da baía, onde exerceu a profissão de médico durante toda a vida; morreu moço, com 48 anos. A organização familiar era bastante tranquila, confortável. Minhas tias tinham um colégio em Niterói onde eu estudei as primeiras letras lá, na mesma grande casa em que a gente morava. Na parte baixa do prédio, havia o colégio: lá eu estudei. Ainda em Niterói fiz o ginásio; depois entrei para a Faculdade de Direito. Quando me formei, em 1939, eu já trabalhava como jornalista no Correio da Manhã, desde 1937. Fiz o curso de Direito por determinação do tipo de sociedade em que eu vivia. Era quase indispensável que eu fosse advogado, médico ou engenheiro. Eu tinha de ser uma dessas coisas para depois, então, resolver o que eu queria da vida, mesmo que a família vivesse momentos difíceis – o que nos aconteceu quando papai morreu. Houve momentos bastante difíceis, mas havia um status a respeitar e lá fui eu fazer meu curso de Direito. Para você ter uma ideia de como o curso tinha importância para mim, eu o terminei e nunca fui apanhar o diploma.
G.R.: Como foi a sua infância?
A.C.: Eu tenho boas lembranças do meu tempo de infância, porque havia este colégio e as minhas tias muito solícitas. Meu pai era um homem extremamente simpático e muito amável. As lembranças que eu tenho dele são muito agradáveis, mas distantes, distantes. Era sempre ocupado e com certas paixões extras. Minha mãe era uma mulher de temperamento forte e difícil, nervosa e ciumenta. Então, em casa, havia um ambiente um pouco tenso e muito distante de nós. Relação forte mesmo eu tinha com minha avó materna e com as minhas tias.
G.R.: Que tipo de educação recebeu?
A.C.: Aí também eu tenho de invocar muito a influência das minhas tias. Pelo menos duas destas eram muito católicas. Minha mãe não me deu uma educação religiosa. Ela já tinha uma formação livre-pensadora. Ela era muito ligada à memória do pai. Meu avô era um homem do seu tempo; gostava muito das ideias, da literatura, do livre-pensamento. Era um pouco europeizado. Mamãe seguia esse modelo. As irmãs, não. Elas eram mais católicas. Eu cresci muito católico, em parte, evidentemente, por influência das tias.
G.R.: Quais os livros destes verdes anos?
A.C.: Meu pai, além de médico, tinha uma grande veleidade poética. O que ele deixou como obra poética certamente não é importante. Acho que há umas poesias bonitas, agradáveis. Há pouco, eu estava olhando para os meus livros lembrando disso. Eu tinha em casa não só os livros de medicina, mas também muita coisa de poesia, brasileira e francesa. Lembro-me de que desde cedo eu tentava ler francês, que era a segunda língua de meu pai. Naquele tempo pouca gente sabia inglês, francês era a língua que se sabia. Então, eu me lembro de muitos poetas brasileiros, como Olavo Bilac, por exemplo. Meu pai, que era seu contemporâneo, gostava muito dele. Era um poeta parnasiano, com uma poesia muito forte, bem feita, muito amorosa. A grande poesia do Bilac não tem nada a ver com a pátria, graças a Deus. É uma poesia amorosa, às vezes de muita beleza, mas, sobretudo, muito sensual; é uma poesia “macha”, sensual. Ele não é um poeta dispensável. Li outros ainda, muito mais próximos a mim, como Castro Alves, um poeta baiano, muito do gosto do meu avô materno e, portanto, muito do gosto da minha mãe.
G.R.: Repassando na memória esse período de formação, encontra a figura de um “mestre”?
A.C.: Parece um pouco ridículo dizer isso agora, mas eu me lembro de uma figura, no meio dessas primeiras lembranças, que me pareceu muito modelar: exatamente a de Byron. Ele tinha uma grande influência no Brasil. Nem precisa dizer que a poesia dele eu só fui conhecer muito mais tarde. Conhecia só a sua biografia: um grande poeta, um grande homem que quis libertar a Grécia moderna e, ao mesmo tempo, um homem com uma intensa vida sentimental e amorosa. Acho que esse tipo me marcou muito do ponto de vista da imaginação.
G.R.: Houve em sua vida uma encruzilhada, um acontecimento que o marcou fortemente?
A.C.: Houve uma encruzilhada que eu diria quase óbvia: foi a minha ida para a Europa, em 1941. Fui com um contrato da BBC, imaginando ficar lá alguns meses, talvez um ano. Fiquei cinco.
G.R.: Poderia descrever a sua “vocação”?
A.C.: Essa é uma pergunta que sempre me fazem, quando começam a querer distinguir entre meu trabalho jornalístico e meu trabalho literário. Chega sempre um momento em que se pergunta: “Mas, na realidade, o jornalismo influenciou a sua literatura ou a sua literatura o jornalismo?”. Mesmo em entrevistas mais rápidas, eu nunca escapo desta pergunta. Mas eu sempre digo – e é verdade – que eu fui jornalista mais tarde, por uma questão de facilidade. Mas eu gostava mesmo era de escrever. Você estava falando de episódios. Vou lhe contar, agora, um episódio em que pensei nesse momento e que faz uma ligação tanto com a minha educação religiosa, quanto com o meu começar a escrever. A primeira coisa que eu ganhei na minha vida, ainda de menino rico, foi um pato vivo, evidentemente de um menino pobre a quem eu ensinei (ele estava fazendo um exame qualquer de colégio) alguma coisa. Fiquei um tanto orgulhoso por ganhar esse meu primeiro salário. Mas me lembro que, neste mesmo dia, eu estava sentado do lado de fora, encostado exatamente na parte da parede da minha casa que dava para o quintal, onde havia o quarto de meu pai e de minha mãe, com um caderno na mão escrevendo; mas não eram apontamentos de aula; era alguma coisa que eu estava escrevendo pra mim. Não me esqueço disso porque tive uma espécie de sangria do nariz que, embora não tendo nenhuma consequência, me assustou. Eu estava escrevendo e, de repente, a cor do sangue vermelho lá na página. Fui para dentro e meu pai disse: “Deite um pouco. Descanse”. Realmente não houve nenhuma sequela de que eu me lembre. Mas me gravou pelo fato de eu estar escrevendo alguma coisa que me interessava; não sei o que pudesse ser. Acho que nunca me referi a isso na minha vida. Eu me lembro disso como um pano de fundo, quando me perguntam quando comecei a escrever. Direi que foi nesse dia, mas realmente não foi; foi um pouco antes, mas nesse dia eu estava escrevendo quando aconteceu o que eu acabei de contar. E nesse tempo eu devia ter – não sei – talvez uns oito anos… não sei, realmente não sei… Mas desde muito cedo era a vontade de comunicar alguma coisa, escrevendo.
G.R.: E quando começou, digamos assim, a aprendizagem, o artesanato, o exercício de escrever?
A.C.: Com treze anos eu publiquei um conto. Um conto! Já prometi a mim mesmo procurar esse conto que deve estar em algum lugar. Um conto chamado “Inferioridade”. É a história de um pintor que se desespera quando descobre que a mulher pinta melhor do que ele. Do enredo eu me lembro. Eu tive a sorte de ver esse contozinho publicado no Suplemento Literário. Tive o maior orgulho possível. Depois, então, já com dezessete anos (talvez seja outro marco) eu ganhei um concurso de contos lá em Niterói. O jornal chamava-se Praia. Publiquei um conto, de cujo enredo não me lembro exatamente, e com ele ganhei um prêmio: uns livros e um retrato meu de perfil e outro de frente. Uns livros eram assinados; um deles ainda está aqui. Era de um escritor muito conhecido naquele tempo e de quem agora ninguém se lembra mais. Chamava-se Theo Figaro. Com dezessete anos eu já me considerava, pois, com vocação, e tinha intenção de ser escritor.
G.R.: Você considera seu primeiro livro um marco determinante em sua vida?
A.C.: Não. Curiosamente não. Eu levei muito tempo – apesar do meu novo aprendizado e da determinação de ser escritor – para publicar meu primeiro livro. É uma reportagem muito literária, já com um estilo de escritor, publicada somente em 1953, pelo Serviço de Documentação do Ministério da Educação. Eu tenho ela aí, agora, e chama-se O esqueleto da Lagoa Verde. Foi quando eu saí do Rio para procurar os ossos de um explorador chamado Fosseti que teria desaparecido no sertão do Brasil, em 1925 (em 1950 apareceram os ossos dele por lá). Em torno desse tema meio romântico, eu fiz uma série de reportagens, depois fiz um livro. Logo a seguir publiquei meu primeiro romance, Assunção de Salviano (1954). Como você vê, em 1953, 1954, já numa fase bem adiantada da minha vida. Então eu não diria que os livros me alteraram muito a vida; eu já tinha um nome razoável como jornalista. A gente espera que um livro tenha grande sucesso e eu diria que o primeiro romance, Assunção de Salviano, foi recebido com interesse, mas não foi um grande sucesso. Ele não foi um livro tipo “publicou, disparou, bam!”. Não foi nada disso. Então não deu para alterar a minha vida. Aliás, nem o segundo romance que eu publiquei alguns anos depois. A madona de cedro (1957) também teve um êxito razoável e também não modificou a minha vida, compreende? Só mesmo Quarup, em 1967, me deu um momento, um momento mais intenso de renome.
G.R.: Hoje você é um escritor muito conhecido. Vive ou pode viver só desse trabalho?
A.C.: Hoje, para dizer a verdade, estou com a vida que pedi a Deus. Sou um jornalista aposentado. A aposentadoria não dá muito dinheiro, mas ajuda. Já escrevi esses livros todos que me dão direitos autorais, que também não são uma grande coisa, mas que, junto com a aposentadoria, ajudam. Como antes eu já tinha comprado um apartamento, o primeiro automóvel, o segundo, o terceiro, o quarto. Eu já tinha realmente preparado a minha vida bastante bem para poder finalmente me dedicar à literatura. Hoje em dia, eu vivo dessas coisas: da aposentadoria, dos direitos autorais, de trabalhos que eu faço de vez em quando para revistas, para folhinhas de fim de ano; enfim, trabalhos extras que hoje, no Brasil, para uma pessoa de nome, como eu sou, são bastante bem pagos. E isso supre. Só de direitos autorais, eu certamente não viveria tão confortavelmente, de jeito nenhum. Por isso, hoje em dia, graças a Deus, posso me dedicar à literatura com uma vida economicamente tranquila, direita.
G.R.: Um trabalhador intelectual!
A.C.: Exato! Convidado pelo editor, viagem paga, tudo bem. De maneira que eu consigo viver uma vida de escritor não exclusivamente com meus proventos de escritor, mas uma vida de escritor.
G.R.: Mas, antes da aposentadoria, como estas duas carreiras se influenciavam?
A.C.: Eu vou lhe dar um resumo. No princípio, era um jornalista full-time, com pouco tempo para a literatura. Quando eu escrevi Quarup, eu me concedi o direito de dois anos sem jornal, para poder escrevê-lo, porque realmente eu não teria tempo material para escrever um livro de maior fôlego. De modo que, até eu me aposentar, em 1975, do meu último emprego de jornalista, tive realmente uma grande dificuldade na divisão do tempo. Tive de sustentar a minha família, tive de educar meus filhos, tive de fazer essas coisas todas. E podia fazer isso com meu trabalho de jornalista. O trabalho literário me rendia muito pouco para aguentar isso. Quando eu era jornalista, trabalhei, por exemplo, três anos para a Enciclopédia Britânica, no Brasil. Fui muito bem pago, pois me pagavam em dólar, aqui no Rio mesmo. Eu só consegui o meu direito de ser escritor em 1975, com a aposentadoria e outros trabalhos importantes, mas sem ter de sair de casa. O segredo para você ser escritor é não ter de ir à rua. Tem de ficar em casa e se defender do telefone, na medida do possível. Isto eu conquistei em 1975. De lá pra cá, me considero um escritor profissional. E a marca desse profissionalismo é o meu livro Reflexos do baile (1976), o primeiro livro que eu escrevi inteiramente dedicado ao próprio livro.
G.R.: Poderia contar como escreveu um de seus livros?
A.C.: Vou contar-lhe as minhas duas maneiras de escrever. E também aí o divisor de águas de 1975 é muito importante. Até o Quarup, tinha escrito todos os meus livros anteriores à máquina. Até o rascunho eu fazia à máquina. Depois eu corrigia, conferia. O Quarup já foi um livro bastante corrigido. Mas escrevi-o de um jato. Durante dois anos, escrevi o Quarup à máquina. Depois passei um tempo longo revendo-o e passando a limpo, antes de entregar a uma datilógrafa. A partir de 1975 e a partir de Reflexos do baile, eu passei rigorosamente a escrever todos os meus livros, todo o meu trabalho de literatura, à mão. Sinto uma intimidade maior com meu assunto. Sinto que o ritmo mais lento me ajuda muito. Ganho tempo, perdendo tempo no escrever. E de lá pra cá não me afastei mais disto. É uma divisão importante, porque define o modo de produção de um autor perturbado pelo trabalho externo e de um autor entregue exclusivamente à sua literatura.
G.R.: É importante o fato de você ter um contato mais íntimo com a página, escrevendo à mão?
A.C.: Não tem a menor dúvida. É uma descoberta que eu fiz quando eu tinha todo o tempo da minha vida e pensei em escrever um livro sobre a agitação clandestina no Rio, Reflexos do baile. Eu tinha a minha máquina, mas insensivelmente comecei a tomar notas à mão, escrevendo mais devagar, e tive um prazer maior ao escrever do que eu tinha antes.
G.R.: Poderia dizer como surgiu a ideia de Quarup?
A.C.: Foi o seguinte: eu costumo dizer que sou uma pessoa sem província, porque eu nasci em Niterói. E tenho muita inveja de meus amigos escritores que tem uma ligação intensa com uma província. Meu amigo Otto Lara Resende é um cidadão de São João del-Rei, uma cidade barroca, mineira. São João del-Rei tem aquelas igrejas, conventos, aquela coisa. Tenho outros amigos que nasceram em cidades minúsculas, como o Antônio Torres, que nasceu em Junco, na Bahia, uma cidade desse tamaninho, que tinha 90 habitantes, um povoado. Evidentemente, ele é um cidadão que tem raízes. Niterói é uma cidade-dormitório. Você trabalha no Rio e mora em Niterói ou, de qualquer maneira, vive em Niterói. Mesmo antes da ponte já eram cidades muito próximas. Então, eu sou um cidadão do Rio de Janeiro, uma cidade que eu adoro, mas que é uma cidade grande, uma cidade linda, aberta para o mar, uma cidade de onde eu saí em 1941, de onde eu saio, ainda, com frequência. Morei em Petrópolis com papai, morei em Teresópolis – tudo perto do Rio, tudo dependente do Rio. Então, eu sou um homem sem província. Na Itália, teria nascido em Roma; na França, teria nascido em Paris e me criado em Paris. Então, sou um cidadão carioca, sempre solto. Quando estava na Inglaterra, senti uma saudade muito grande do Brasil. Depois dos três primeiros anos, senti uma vontade intensa de conhecer o Brasil. Eu conhecia São Paulo, Rio; tinha ido à Bahia; tudo por aqui. Quando voltei, fui à Amazônia; subi o rio Amazonas. Depois da Amazônia, fui ao Xingu conhecer os índios; depois fui ao Nordeste, em tempo de seca; tive uma imensa vontade de incorporar o Brasil à minha sensibilidade. Realmente, meu regresso foi um regresso de sede de conhecer o Brasil e, ao mesmo tempo, de revelar este Brasil; revelá-lo talvez a mim mesmo. A missão do Quarup era fazer um romance brasileiro, um romance que contasse o Brasil a todo mundo que tivesse curiosidade sobre o Brasil. Até que ponto o livro funcionou nesse sentido, não sei. É um dos livros que realmente tem tido uma popularidade maior, um dos meus livros mais vendidos, mais badalados, mas na realidade foi isso: eu quis explicar o Brasil a mim mesmo e, se possível, aos outros também.
G.R.: Por que escreve?
A.C.: Você conhece este número do Libération? É um número especial: Pourquoi écrivez-vous?: 400 écrivains répondent. Eu li tudo isso. Tem gente de todos os cantos: Itália, França, todo o mundo. Eles espalharam essa pergunta literalmente no mundo inteiro. Aliás, uma coisa incrível: apesar de a revista ser francesa, a maioria dos escritores que há ali são americanos. O domínio americano é tão violento… Sendo curioso, eu observei que (não li tudo, mas li muita coisa, pois estando lá dentro fiquei interessado em ler o que os outros estavam dizendo) os escritores em geral não sabem por que eles escrevem. Há respostas até muito bonitas, muito elaboradas. Para minha surpresa, o Borges, por exemplo, dá muito espaço a isso. Acho que entre os italianos o Calvino também se detém muito sobre a arte de escrever. É bonito, mas não é convincente. O grande orgulho do escritor – marxista ou não marxista – é ganhar a sua vida escrevendo. Não tenha dúvida: este é o maior orgulho que o escritor pode ter. Gostaria de ter dito a você como certos grandes escritores: “Vivo exclusivamente dos meus livros”. É uma glória, é uma coisa importante. Então você sente que é muito profundo. Você quer viver daquilo, você quer ser escritor. Sei lá, é uma vocação que considero uma coisa muito forte, quase física. No entanto, “por que é que eu escrevo?”, “para que é que eu escrevo?”. Eu começo a ficar muito perdido, porque eu sou um homem, por exemplo, pouco político do ponto de vista partidário, mas muito ideológico, sou muito ideológico. Então, eu sinto que em tudo o que eu escrevo transparece a minha ideologia. Acho muito difícil não transparecer o que eu penso, o que acho da vida em geral, talvez sobretudo em relação ao Brasil. Mas é esse o meu motivo de escrever? Certamente, não. Nesse sentido, eu me sinto muito mais poderoso quando me manifesto como jornalista. Não há a menor dúvida. Um artigo meu, violento, claro e nítido, é muito mais satisfatório do que boiar isso na cabeça de um herói dentro de um livro meu. Então, é por isso que eu escrevo? Não! É por pura vaidade, pela ideia de que o escritor é um ser especial que consegue mais do que os outros, como uma coisa meio mágica. Sim, porque a escrita literária é invariavelmente mágica. Estou convencido de que os principais escritores de nossa devoção são escritores muito mágicos, escritores que criam muito, independentes de tudo. É isso então: possivelmente a gente está querendo emular estes grandes escritores; o escrever é muito ligado à ideia de glória. Acho que escrever é a ideia de sobreviver. Realmente, outros motivos me parecem insuficientes. Acho que é o duro desejo de durar.
G.R.: Quando escreve, é a vontade que puxa a escrita, é a neurose, o prazer da inteligência ou da fantasia?
A.C.: Tenho a impressão de que deve haver uma dose de neurose para uma pessoa se dedicar, realmente, a ficar sentado, numa cadeira, escrevendo coisas inventadas. É um lado bem inaceitável, sobretudo se você achar que poderia fazer outras coisas mais rentosas. Tenho a impressão de que eu poderia, se me dedicasse exclusivamente ao jornalismo, a um jornalismo pago e bem pago de revistas, por exemplo, tenho a impressão de que eu poderia ganhar mais dinheiro assim. Creio que seja isso: a neurose e o desejo de “fantasticar”, de criar fantasias. Acho que é isso, principalmente.
G.R.: Há momentos felizes ou ideais para escrever?
A.C.: Hoje em dia eu não saberia responder a esta pergunta, porque os momentos realmente bons e felizes da vida são, evidentemente, os momentos que eu passo com a minha mulher, que vivo com ela. Nós temos nossa casinha em Maricá. Essa coisa física da vida, para mim, tem muita importância. Mas, além disso, o único prazer que eu tenho, o único prazer real para mim é escrever.
G.R.: Escreve metodicamente, agora, todos os dias?
A.C.: Todos os dias.
G.R.: Mas há crises, interrupções devidas a crises?
A.C.: Graças a Deus, não. Eu vejo, sobretudo, os ingleses falarem muito, os americanos ainda mais, no writer’s block, aquele bloqueio que fica entre você e a máquina, entre você e a pena. Até hoje não sofri o writer’s block. Tenho medo, confesso. Os americanos falam muito nisso, sobretudo em cartoons, em caricaturas, dá um certo medo. Até agora, não tive ocasião. Acabo um livro, passo um tempo repousando, com uma certa vagabundagem mental, mas não dura muito, não. Volta a vontade de escrever e fabular.
G.R.: De onde nasce um livro?
A.C.: Em geral – para mim pelo menos – a ideia de um romance chega como a ideia de um poema, no sentido de que ela vem muito concentrada. Eu nunca fui poeta em minha vida, as poucas vezes em que tentei fazer poesia foi realmente uma coisa muito ruim, de adolescente. Mas o romance vem como um poema. Uma vez que a ideia me invade e me vem essa vontade de escrever, eu me considero num estado muito especial de felicidade. Realmente, eu me sinto privilegiado nesses primeiros momentos, porque não tenho outro tipo de preocupação. Graças a Deus, posso me dar ao luxo de não ter preocupação, porque estou garantido, no sentido de comer, viver etc. A grande conquista da minha vida é exatamente essa. Uma vez que a ideia me vem e que eu posso me dedicar a ela, entro num estado absolutamente perfeito de felicidade.
G.R.: Qual é o papel que o imprevisto desempenha no seu trabalho criativo?
A.C.: Vou dizer-lhe com toda a franqueza o seguinte: do ponto de vista pessoal, coisas terríveis podem acontecer e algumas vezes têm acontecido na minha vida, mas nada suficientemente forte para me abalar o desejo de continuar fazendo o que estou fazendo. Eu tenho uma visão muito forte do que eu quero do mundo. Quando fui preso depois do AI-5, eu tive o privilégio de ser condenado a não escrever mais em jornais, a perder minha profissão. Naquele tempo eu era jornalista e, ficando sem profissão, não podia ganhar a vida. Isso não durou muito, porque causou um escândalo o fato de eu ser impedido de trabalhar. Durante dez anos perdi os direitos políticos – como todo mundo –, mas recuperei o direito de trabalhar. Conto isso só para dizer que houve momentos em que a política invadiu a minha vida de uma maneira um tanto rude e, naturalmente, fui preso, interrompi meu trabalho; mas nunca, nunca, nem por um momento, tive a ideia de que aquilo me afastasse do meu trabalho. Continuei pensando no que estava escrevendo.
G.R.: Como se sente dentro da literatura brasileira de hoje? Qual seria seu papel?
A.C.: A minha literatura teria a função de apresentar o Brasil, talvez de uma maneira mais compreensível aos brasileiros, mas também aos estrangeiros. Tenho a impressão de que com Quarup, A madona de cedro, Concerto carioca e Sempreviva comuniquei a visão do que é o Brasil.
G.R.: Entre as palavras seguintes, gostaria que você escolhesse três e dissesse alguma coisa sabre elas: amor, cidade, poder, povo, solidão, solidariedade, prazer, amizade, violência, noite, silêncio.
A.C.: Bom, você escolheu palavras poderosas, palavras fortes, muito densas, de maneira que fica um tanto difícil. Mas eu diria que, destas palavras, a primeira e a última têm uma importância muito grande para mim. Amor, porque realmente é a mola, é o que importa, é o que realmente cria. Silêncio, porque é o único ambiente, a única maneira, a única forma que você tem de escrever. Você realmente só pode escrever em silêncio. Você pode, talvez, ser pintor e falar. Eu fui pintado pelo meu amigo Portinari e me lembro dele pintando e falando comigo o tempo todo. Há artes em que isso é possível. Não digo que num momento de alta concentração, o Portinari fosse interromper um dos seus grandes quadros para conversar com alguém. Não é o caso. Mas o pintor pode. O escritor não pode. Você pode falar para um gravador, se for o seu método, mas você não pode, de maneira alguma, sair dessa bolha, dessa membrana de silêncio em que você tem de se trancar para criar a obra literária.
G.R.: Poderia dizer como conseguiu publicar seu primeiro livro?
A.C.: O primeiro livro não me deu trabalho nenhum, pelo seguinte: como já disse, eu já era muito conhecido como jornalista. Naquele tempo havia o Serviço de Documentação do Ministério da Educação, que era dirigido por um homem muito empreendedor, muito interessante – Simeão Leal. O Serviço de Documentação publicou uma edição muito bonita de O esqueleto da Lagoa Verde, que foi o meu primeiro livro. Aproveitei o embalo desse livro e escrevi o meu primeiro romance, Assunção de Salviano, levei-o ao grande editor da época – José Olympio –, que o publicou imediatamente.
G.R.: Gostaria de ter trabalhado com salário fixo se alguma editora lhe tivesse proposto essa ideia?
A.C.: Ah, muito, muito. Eu teria deixado o jornalismo muito antes. Se alguém tivesse me financiado para fazer literatura, eu teria aceitado sem a menor hesitação.
G.R.: Qual é a sua relação com os críticos?
A.C.: Para mim, o crítico bom é aquele que me louva, que gosta muito do que eu escrevo. E isso me dá a impressão de uma grande empatia da minha obra e pode me ajudar. Às vezes sou forçado a dar alguma razão aos que não gostam dos meus livros; não com prazer, mas reconheço. Tenho sofrido críticas muito violentas, que me machucam, é claro, mas de críticos muito temperamentais. Enfim, as críticas duras que eu tenho recebido vêm de pessoas que não me parecem importantes. Se um crítico realmente importante não gostasse da minha obra, eu ficaria chateado, mas isso nunca me aconteceu.
G.R.: Você pensa que em seu trabalho criativo haja vínculos, laços, impedimentos de qualquer espécie, temores em se revelar?
A.C.: Acho que isso é uma coisa presente, mas, para dizer a verdade, são poucos os terrenos em que isso me tem afligido. Como eu não tenho tido dúvidas do ponto de vista ideológico, não tenho o que temer. No Brasil, há muita gente que eu respeito e que passou por uma fase profundamente autoritária, que pertenceu ou apoiou o movimento fascista nacional, o Integralismo, pessoas respeitabilíssimas, como Alceu Amoroso Lima, Santiago Dantas e outros. Eu nunca tive a menor simpatia pelo movimento. O único autoritarismo que tem me abalado a convicção não autoritária é o Comunismo. Este tem me abalado. Mesmo porque as pessoas comunistas aqui no Brasil são pessoas respeitabilíssimas e muito coerentes; são pessoas muito lúcidas. Algumas extremamente inteligentes, outras muito sérias e de um nível moral extraordinariamente bom. Eu fui até lá, algumas vezes, seduzido a entrar no partido para reconhecer o risco que eles corriam, mas sempre me detive porque eu sabia que ia ser uma invasão na minha particularidade humana.
G.R.: O sucesso de uma obra depende de quê? De quem?
A.C.: Essa é uma perguntinha curiosa. O sucesso da obra pode ser prejudicado por uma opinião crítica, saída num órgão de divulgação. É um caso que pode acontecer. Mas eu não penso assim. Realmente não concordo. Isso é desculpa, ou melhor, é defesa. Acho que o sucesso da obra depende de você.
G.R.: Quem é Antonio Callado?
A.C.: Um camarada que sempre, desde muito pequeno, quis escrever. Quis, portanto, transformar sua vida numa espécie de… – como é que se pode descrever isso? – … numa coisa muito mais permanente do que a vida pode normalmente ser. Talvez seja exatamente a resposta que eu lhe estava dando, quando você perguntou “Por que é que se escreve?”, “O que é que leva a gente a escrever?”. É essa vontade de manter-se vivo, a despeito do passar do tempo. Ao mesmo tempo diria – talvez um pouco em minha defesa – que, quando morrer, gostaria de deixar um mundo melhor do que ele era no meu tempo. Não acho que isso seja afetação, não. Eu tenho muita vontade de ver este mundo mais justo, mais sério, mais honesto. Uma coisa que eu vi em Cuba, quando estive lá. Sei perfeitamente que certas críticas feitas ao governo de Fidel Castro são genuínas, são legítimas. Mas, em relação à América Latina, a indecência da América Latina, a falta de caráter de nós, latino-americanos, em termos de comer, em termos de uma vida razoável em relação a essas massas famintas e infelizes deste continente espoliado, eu penso em Cuba como aí está: uma obra de arte, uma coisa feita pelo homem num continente tão desgraçado, e de uma maneira tão absolutamente bonita, linda, compreende? Como resolver esta coisa pior da América Latina, que é a indiferença do homem pelo homem? O Brasil é um horror, o Brasil é um pavor. E confesso que eu podia, que eu devia estar fazendo muito mais do que estar escrevendo livros, mas eu não sei muito bem como fazer. Não tenho tido sorte, não tenho possibilidade. Mas eu diria que são estas as minhas duas vontades: a grande vontade de escrever e o grande desejo – infelizmente pouco correspondido – de deixar um Brasil, pelo menos, menos injusto.
Para saber mais
DIAS, Maria Heloísa Martins (2009). A “Missa do Galo” na matriz e nas filiais. Itinerários, Araraquara, n. 29, p. 353-370, jul./dez. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/itinerarios/article/view/2371/1904. Acesso em: 13 jan. 2026.
KARLO-GOMES, Gean (2019). O conflito apocalíptico em Assunção de Salviano, de Antonio Callado. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 57, p. 1-11. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/26026. Acesso em: 13 jan. 2026.
TORRES FILHO, José Humberto (2021). Contra todos os fogos, o fogo: vingança como resistência em Antonio Callado. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 63, p. 1-14. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/40351. Acesso em: 13 jan. 2026.
TORRES FILHO, José Humberto (2025). A expedição Montaigne. Praça Clóvis: mapeamento crítico da literatura brasileira contemporânea, Brasília, 11 abr. Disponível em: https://pracaclovis.com/?p=4692. Acesso em: 13 jan. 2026.
VASSAITIS, Adeline Alves (2025). Adeus às armas: uma leitura de Quarup e Reflexos do baile, de Antonio Callado. O Eixo e a Roda, Belo Horizonte, v. 34, n. 4, p. 227-241. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/o_eixo_ea_roda/article/view/59730. Acesso em: 13 jan. 2026.
ZERBINO, Eugenia (2025). Reflexos do baile. Praça Clóvis: mapeamento crítico da literatura brasileira contemporânea, Brasília, 13 mar. Disponível em: https://pracaclovis.com/?p=3295. Acesso em: 13 jan. 2026.