Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Os possessos

ALMEIDA FILHO, Leonardo. Os possessos. Brasília: Patuá, 2022.

Mayara Esteves-Costa
Ilustração: João Victor Flecki

Os possessos (2022), livro de Leonardo Almeida Filho (Campina Grande, PB, 1960), combina os gêneros romance, entrevista, poema, crônica e conto em comentários acerca da vida, do luto, da solidão e, sobretudo, das configurações políticas que regem o Brasil contemporâneo. Residente em Brasília desde 1962, Almeida Filho é mestre em literatura brasileira e publicou oito livros antes de Os possessos, obra finalista do Prêmio Candango de Literatura de 2022.

No cerne do romance está a morte de Luiz Carlos Mariano, notável literato e professor universitário aposentado que, com a ascensão de movimentos neoliberais e as crescentes ameaças à democracia no Brasil, abdica de seu ativismo e se isola em um apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro. A rememoração de sua vida e obra, majoritariamente apresentada pelo ponto de vista das pessoas mais próximas a ele, mobiliza temas como fake news, racismo, violência policial, desemprego, precarização das condições de trabalho, entre outros próprios à instauração do bolsonarismo no Brasil, como a negligência estatal, os discursos de ódio, os ataques aos direitos humanos e a apologia à ditadura.

O romance foi publicado após um ano do falecimento do professor Hermenegildo Bastos, a quem a obra é dedicada. Para seus coetâneos, o livro desvenda-se como uma saudação a esse mestre e, nesse sentido, como um manifesto antifascista em memória de seu legado. Não é necessário conhecer a trajetória de Hermenegildo Bastos para que a obra produza sentidos, mas fazê-lo permite uma leitura outra, haja vista sua defesa incansável pelo estado democrático.

Bastos compreendia a poesia como um todo que evidencia os processos de evolução histórica da humanidade. Para o professor, corroborando Lukács, a dialética entre história e poesia revela que esta se inscreve na processualidade temporal da ação humana, transformando-a, agindo sobre a história na medida em que a própria história a inspira e edifica, mas também corrói.

Repousa nesses ensinamentos a estrutura narrativa de Os possessos, que além de registrar, no campo do conteúdo, o desalento de um intelectual de esquerda, apresenta, em seu desenvolvimento, um apelo ao soerguimento coletivo para a superação da barbárie. Para tanto, o livro é composto por capítulos apresentados por um narrador em terceira pessoa que ambienta a história, explica algumas das relações pessoais da trama e introduz alguns dos narradores em primeira pessoa que aparecerão em seguida. Essas narrações entremeiam capítulos em que foram criadas entrevistas, reportagens de jornal, poemas traduzidos, crônicas, notas autobiográficas e, ao final da obra, um conto.

E é justamente dos poemas traduzidos que emerge a voz direta de Luiz Carlos Mariano. Ele na obra, assim como Hermenegildo Bastos em vida, assume o epíteto de célebre professor do departamento de Letras da Universidade de Brasília. O protagonista, nascido em 1960, migra da Região Nordeste para a capital do país e se consagra no meio literário como escritor, poeta e professor. Em seguida, são apresentadas as crônicas nomeadas Cenas de Copacabana. Nelas, o professor-personagem faz jus ao seu prestígio, perpassando temas como o suicídio, a velhice e a violência policial, em cenas do cotidiano carioca. Há surpreendente leveza e bom humor em sua escrita, ainda que não seja alheia ao caos vigente no Brasil. O conjunto dos seis textos permanece no imaginário do leitor por dias findada a leitura de Os possessos. A leitura dessas crônicas é como ler Drummond na Praia do Arpoador.

Nas páginas que se seguem, são apresentadas as notas autobiográficas ficcionais e, por fim, um conto, que explica o título da obra, “Os possessos”. Este conto, intitulado “A longa noite das avestruzes”, enuncia Bertold Brecht em sua epígrafe: “A cadela do fascismo está sempre no cio”, anunciando o caos e o desespero frente à calamidade estabelecida pelos monstruosos “verde-amarelos” no cenário do Brasil contemporâneo. É um registro da selvageria própria desse recorte da história brasileira e, com isso, uma assinatura de toda a obra, como quem rubrica e data seu documento.

Embora seja uma figura central, Luiz Carlos Mariano tem menos espaço de narração do que as personagens que o circundam, uma vez que a história começa justamente com seu velório. Assim, a construção ficcional da obra é realizada por meio da visão dos outros personagens que conviveram com ele, como Teo, seu irmão; José Matias e Tião, porteiros de seu prédio; Helena, sua namorada; e Luiz Carlos Mariano Júnior e Sofia, seus filhos. As vozes desses personagens quase se confundem na primeira parte da obra, uma vez que não há tanto contraste entre marcadores linguísticos que diferenciam a estilística de cada narrador. Isto é, ainda que apresentem diferentes níveis de escolaridade e que estejam situados em contextos socioeconômicos muito distintos, suas narrações, acrescidas às do narrador heterodiegético, são feitas a partir de uma linguagem muito parecida, própria das variedades linguísticas de prestígio.

A voz de Teo, por exemplo, uber e motoboy que não concluiu o Ensino Médio e reafirma com frequência seu desapreço pelos estudos, conta com construções em linguagem acadêmica, além de elaboradas divagações psicanalíticas e hermenêuticas. É o que se nota no uso de termos como “semelhança medular” e “taciturno” e em trechos de digressões sobre a figura de seu pai. Se o leitor consegue superar o estranhamento relativo à dissonância entre o personagem e a linguagem esperada, pode encontrar algum alívio em perceber uma alternativa aos maçantes estereótipos de classe, nos quais comumente se retratam trabalhadores como sujeitos acríticos e iletrados, limitados a uma comunicação empobrecida lexicalmente, pouco coesa e autoconsciente.

Outro incômodo surge nas narrações de José Matias. Ao porteiro do prédio de Luiz Carlos Mariano é incutida a função de discorrer sobre racismo, violência policial, fake news e feitos das igrejas neopentecostais. Para além do léxico e da sintaxe, por vezes suas falas parecem programáticas, como em “Eu estava até muito feliz, tinha conseguido financiar uma casinha no programa Minha Casa, Minha Vida e sabia muito bem que era uma coisa dos governos do PT e da presidenta”. O desconforto, entretanto, dá lugar à razão ao lembrar da necessidade de reafirmar o óbvio nos tempos em que a verdade era diariamente aviltada.

Fez parte da luta daqueles dias reafirmar a ciência e a história. Não tão distante, ainda se percebem as sequelas desses ataques. Na literatura brasileira contemporânea, em especial, ecoam recursos que utilizam diversos gêneros para passar a mesma mensagem, na esperança de se fazer entender por algum deles. É uma redução estrutural do desespero frente a um diálogo que não se fazia possível, de pessoas que explicavam, demonstravam, comprovavam e recebiam de todos os seus esforços duas respostas: o negacionismo e mais ódio.

É também nesse sentido que o livro funciona como um retrato da angústia desse momento, que é uma marca profunda na história do Brasil. O episódio de discussão entre Luiz Carlos Mariano e Teo rememora as diversas relações dissolvidas durante a ascensão do bolsonarismo. As falas relacionadas à “mamadeira de piroca” e ao “kit gay” marcam o absurdo daquele momento. Por sua vez, embora a pandemia de covid-19 não seja diretamente um tema presente no enredo, a memória de crianças alvejadas em operações policiais atinge a urgência de recobrar o valor da vida. Isto é, a banalização de mortes pelo Estado e a necropolítica que assolam o Brasil são temas que emergem do livro para urgir práticas de mobilização contra toda forma de ameaça à democracia. Dentre elas, o não esquecimento, o não à anistia, a responsabilização dos criminosos que, de diversos modos, permitiram esse extermínio e, de muitas outras maneiras, financiaram a destruição de milhares de famílias brasileiras.

Para saber mais

BOIDE, Alexandre (2023). Monstros verde-amarelos. Impressões Aleatórias. Disponível em: https://impressoesaleatorias.medium.com/monstros-verde-amarelos-cd19a48ea5b6. Acesso em: 18 ago. 2025.

KOVACS, Alexandre (2023). Leonardo Almeida Filho – Os possessos. Mundo de K. Disponível em: https://www.mundodek.com/2023/02/leonardo-almeida-filho-os-po.html. Acesso em: 18 ago. 2025.

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Como citar:

ESTEVES-COSTA, Mayara.
Os possessos.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

20 abr. 2026.

Disponível em:

7983.

Acessado em:

23 abr. 2026.