Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Corpo desfeito

ARRAES, Jarid. Corpo desfeito. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2022.

Renan Henrique Messias de Paulo
Ilustração: Espírito Objeto

Detentora de uma das vozes mais criativas e representativas do Cariri, no Ceará, Jarid Arraes (Juazeiro do Norte, CE, 1991) é autora de sete obras, tendo estreado, em 2015, com As lendas de Dandara, em edição independente e, em 2016, pela editora Cultura. A autora não se restringe a um único gênero literário: sua escrita transita entre poemas, cordéis, contos e romance. Com o livro de contos Redemoinho em dia quente (2019), recebeu os prêmios Biblioteca Nacional e APCA de Literatura.

Em entrevista concedida a Bruno Inácio (2025) para o jornal Le Monde Diplomatique, Arraes confessa que uma das principais chaves de sua produção literária, sua “grande obsessão como escritora, é o trauma”. Seja ele social, coletivo, transgeracional, individual, continua a escritora: “É o trauma e o que considero belo, sempre juntos: o animalesco, o horror, a extrapolação, a insolência, a iconoclastia e os ícones do feminino monstruoso e terrível. Assim me sinto confortável, inspirada, criativa e viva. Sou obcecada por explorar o horrível”.

Corpo desfeito, publicado em 2022 pela Alfaguara, é o romance de estreia de Arraes. Narrado em primeira pessoa, acompanha a história de Amanda, uma menina de 12 anos que passa a viver com a avó após a morte trágica da mãe em um acidente de trânsito, e do avô, que morre alcoolizado nas ruas de Juazeiro do Norte.

Com a avó, esperava-se que a garota fosse acolhida, mas, naquele âmbito familiar, os papéis se invertem e é a menina quem carrega o peso de cuidar da mais velha, ao mesmo tempo que se encontra em uma situação de opressão e encarceramento dentro da própria casa.

Marlene, a avó, após um período de luto em que sua vida se desmorona, já que era a filha quem sustentava economicamente a família, resgata a imagem da mãe de Amanda e a subverte em santa. Esse gesto, a princípio cômico, ganha camadas de horror ao associar a figura beatificada da filha a desejos tirânicos sobre a neta.

Nessa situação, Amanda se vê desolada, sem voz ativa para se desvencilhar da violência física, psicológica e simbólica a que é submetida. Sua vida se transforma em um martírio quando passa a usar um único vestido azul que cobre todo o corpo; é obrigada a tomar banho três vezes ao dia, apenas com sabão; a rezar de joelhos sobre grãos de milho quando não cumpria alguma regra; além de suportar agressões que deixavam marcas visíveis em sua pele após as explosões de ira da avó.

O leitor não é poupado de cenas em que a infância é corrompida. A cada dia, a avó despeja mais ações arbitrárias para dominar por completo a neta. Longe da única pessoa que antes a protegia, sua mãe, Amanda sente o desamparo absoluto, sobretudo porque nem mesmo os vizinhos, que ouviam o que acontecia na casa de Marlene, se dispunham a agir.

Ainda que conserve alguma fé e se apegue à figura de Padre Cícero, em diversos momentos da narrativa, a protagonista de Corpo desfeito não encontra lampejos de esperança no futuro. Resigna-se a uma vida que compreende como normal e chega a acreditar que “amar é como oferecer o corpo para ser punido”. Na escola, sofre bullying por não poder usar o uniforme ou roupas diferentes, como as demais crianças.

Percebe-se, também, que Amanda é vítima de um ciclo de violência já atravessado por sua mãe e por sua avó. A mãe, criada sozinha, foi rejeitada pelo avô por “não reconhecer” seu rosto ao nascer; e a avó, por sua vez, havia sofrido com traições e violências físicas dentro de casa: “Quando casou, vó foi ameaçada de morte muitas vezes. Muitas vezes quase foi morta. Jamais faltaram motivos para que vô Jorge, virado na cachaça, aceitasse o impulso de pegar uma peixeira”. O pai de Amanda não é exposto no romance, e a criação solitária da filha era motivo de ira dos avós, que julgavam a mãe como “puta”.

O culto à mãe, agora santificada, vinha acompanhado de uma série de regras para manter a imagem da santa. Entre as imposições, determinava-se: “usar somente vestidos azuis. Calçar somente sandálias de couro marrom. Não cortar o cabelo. Manter o cabelo preso. Tomar três banhos por dia: manhã, tarde e noite”. A essas prescrições somavam-se interdições rígidas: “é proibido ouvir música. É proibido assistir televisão e filmes. É proibido ter contato com qualquer tipo de material impróprio. É proibido tocar em si mesma de maneira imprópria. É proibido ser tocada por rapazes de maneira imprópria. É proibido ter amigos meninos, rapazes ou homens. É proibido tocar meninos, rapazes ou homens de maneira imprópria”. Por fim, estabeleciam-se obrigações religiosas estritas: “É obrigatório praticar a reza de domingo. É obrigatório seguir todas as etapas da purificação. É obrigatório rezar todos os dias: durante os banhos, ao acordar e antes de dormir”. Dessa forma, o domínio sobre a garota era abusivo e impactava diretamente a maneira como ela percebia a própria realidade.

A virada na vida de Amanda demora a acontecer. O leitor é conduzido pela sofrida e turbulenta existência da menina até os capítulos finais, sem tom de esperança, apenas com o gosto amargo da impotência. Entretanto, assim como na vida sempre existe a possibilidade de escapar, ainda que momentaneamente, às formas de controle, a narrativa apresenta outra figura essencial em sua vida: Jéssica, sua colega de classe. Retratada como ouvinte atenta das dores da protagonista, a amiga surge como um refúgio em meio à aridez que queimava sua pele.

À medida que Amanda se torna mais isolada pelas proibições da avó, a reaproximação com Jéssica ocorre em um passeio ao sítio da família. Esse reencontro faz com que o corpo desfeito de Amanda comece a se reconstruir. Diante do amor entre amigas, as regras da avó são rompidas e, mais importante, ocorre uma fissura na visão da narradora, que passa a questionar se tudo aquilo estava de fato correto, pois não acreditava que sua mãe desejasse tais imposições, como se constata no trecho: “Exausta, o corpo doendo. Escrevi que queria que as regras se lascassem, eu não mereço aquilo, eu não tenho que viver para esfregar, lavar e cozinhar, eu quero ter uma vida e só porque mainha morreu não significa que eu não posso viver”.

Arraes constrói a trajetória de sua protagonista a partir de uma inflexão orientada pelo afeto, configurando-o como gesto de superação da violência e do obscurantismo que estruturaram, até então, o ambiente narrativo. O amadurecimento precoce de Amanda é moldado pelos constantes lutos e enclausuramentos que perpassam sua vida. Ao final de seu percurso, já desvinculada das forças que a constrangiam, a personagem passa a vislumbrar a possibilidade do amor e do afeto como dimensões até então pouco acessíveis em sua experiência.

A trama romanesca de Arraes, organizada em 17 capítulos, articula-se em primeira pessoa a partir da memória de Amanda, uma menina cuja infância é progressivamente corrompida. O relato íntimo revela uma realidade que se desagrega sob o peso das violências físicas, psicológicas e simbólicas às quais é submetida, bem como pelas tragédias que atravessam o núcleo familiar. Essa perspectiva narrativa confere densidade à obra, pois expõe a fragilidade da protagonista diante de um cotidiano opressor, além de problematizar o modo como a memória individual se entrelaça com marcas coletivas de trauma, tradição e religiosidade.

Vale a pena destacar, ainda, a linguagem escolhida pela autora. Arraes recorre a expressões próprias de sua terra natal e a vocábulos que remetem ao universo da infância, o que confere maior verossimilhança à narrativa. Esse recurso estilístico reforça a construção da voz da protagonista e também explora, de maneira singular, o cotidiano, revelando como o espaço, a oralidade e a memória se entrelaçam na tessitura romanesca.

Com Corpo desfeito, Jarid Arraes confirma a centralidade do trauma como marca de sua poética e se afirma como uma voz potente da literatura brasileira contemporânea, ao articular memória, violência e resistência em uma narrativa que expõe a dor, mas que também abre espaço para o amor como possibilidade de sobrevivência.

Para saber mais

BARBOSA, Larissa Dias (2025). Infância, adolescência e dissidência: uma análise de Foi um péssimo dia e Corpo desfeito. Trabalho de Conclusão de Curso (Letras – Língua Portuguesa e Literaturas) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal.

INÁCIO, Bruno (2025). Jarid Arraes: “Hoje sei que minha grande obsessão como escritora é o trauma”. Le Monde Diplomatique Brasil. 9 jul. Disponível em: https://diplomatique.org.br/jarid-arraes-poemas/. Acesso em: 30 ago. 2025.

MACHADO, Daniel Almeida (2024). Outros personagens, outros amores: afetividades lésbicas em Corpo desfeito, de Jarid Arraes. Caligrama: Revista de Estudos Românicos, Belo Horizonte, v. 29, n. 1, p. 126-136. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/caligrama/article/view/53949. Acesso em: 20 ago. 2025.

MACHADO, Daniel Almeida; GUIDA, Angela Maria (2023). Violência psicológica na literatura contemporânea: cenas do invisível. Scripta, Belo Horizonte, v. 27, n. 61, p. 18-49. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/scripta/article/view/31293. Acesso em: 26 ago. 2025.

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Como citar:

PAULO, Renan Henrique Messias de.
Corpo desfeito.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

20 abr. 2026.

Disponível em:

7978.

Acessado em:

23 abr. 2026.