MONTEIRO, Benedicto. Verde vagomundo. Brasília: Ebrasa, 1972.
Juliana Florentino Hampel
Ilustração: João Victor Flecki
O crítico Benedito Nunes (1973) afirma que Verde vagomundo (1972), do escritor paraense Benedicto Monteiro (Alenquer, PA, 1924 – Belém, PA, 2008), é o primeiro “romance contextual” sobre a Amazônia que extrapola os limites do regionalismo ao apresentar uma narrativa “universalmente representativa” em que o característico e o peculiar do meio físico e cultural se conjugam perfeitamente com as relações humanas. O romance é o primeiro volume de sua tetralogia amazônica, composta ainda por O minossauro (1975), A terceira margem (1983) e Aquele um (1985), considerado pelo autor o fechamento do ciclo e sua obra mais bem acabada.
Em Verde vagomundo, a narração em primeira pessoa feita pelo Major Antonio Medeiros se inicia com seu regresso à área rural da cidade de Alenquer, em um igarapé “que em vez de sair para um lago ou para o mar, se esconde nos brejos e se enfurna na floresta”, no coração da Amazônia paraense. Ele retorna para vender as terras que recebera de herança do pai, propriedade vasta cujos limites ninguém conhecia ao certo. É recebido por seu tio Jozico, que toma conta de tudo e se decepciona ao ver o sobrinho ainda solteiro aos 45 anos de idade: “— É, meu sobrinho, não adianta nada todas essas estrelas e todas essas medalhas. Teu pai queria que fosses também um homem… […] — E um homem só é mesmo homem, quando faz um filho, escreve um livro e planta uma árvore”.
No decorrer da narrativa, o leitor vai descobrir que o Major não terá um filho ou plantará uma árvore, porém irá escrever a história de Miguel dos Santos Prazeres, o caboclo conhecido como Cabra-da-Peste, grande conhecedor da região e afilhado do ex-cangaceiro Possidônio, que o preparara para se tornar jagunço. A figura de Miguel vai começar a se configurar nos capítulos intitulados “Gravador automático – Fita”, nos quais o Major registra discursos sobre e do próprio Miguel, esse típico caboclo amazônico, que é “moreno-cor-de-cobre-quase-roxo”, com “olhos claros e amendoados” e “cabelos lisos, mas [com] a compleição atlética”, diferente da gente “que habita a beira destes rios [que] é bastante raquítica”. Miguel é um mito local, uma síntese do homem amazônida com uma feição na qual “as três raças se misturam: os olhos, o nariz, e a boca conservam de todas elas um pouco”.
Do primeiro ao quarto romance da série, Miguel vai se transformar de personagem a narrador de sua própria trajetória. Em Verde vagomundo, contudo, sua figura vai sendo apresentada pouco a pouco, sendo formada pelos discursos do tio Jozico, do fazendeiro Pepe Rico e do funcionário da prefeitura Norberto. O Major recolhe e organiza esses discursos, declarando que “estava descobrindo aos poucos quem era o cabra-da-peste, o tal afilhado-do-diabo… No fundo, no fundo, era um caboclo crédulo e simplório que tinha lutado desde criança para não seguir à risca os conselhos de um bandido”.
O tempo do romance é marcado por uma espécie de “presentidade” (Souza, 2020) em que mesmo o uso de verbos no passado não interrompe a sensação de que os acontecimentos se passam muito próximos ao momento em que são enunciados. Concebido mediante uma incorporação literária de aspectos da realidade amazônica, Miguel é aquele que conhece tão a fundo o meio onde vive que com ele se confunde: “Eu andava mesmo procurando um pau, um pau que pudesse servir de marco na minha vida. […] Felizmente, que eu tinha encontrado a árvore sonhada. Andei tanto pela mata, corrigi restingas, baixas, tesos, igapós, e ali, bem pertinho, onde minha mãe nem precisava andar muito estava o brutelo de pau-mulato”.
No projeto do autor de reatualizar a simbologia da floresta por meio de um diálogo entre o regional e o universal, a natureza extrapola as limitações do regionalismo ao se confundir com a vida mítica da população, regulada por um calendário no qual “não existem semanas nem meses”, e que se move ao sabor das cheias; “o sol e a chuva marcam a divisão do tempo” e, na estação seca, só há a preocupação com a festa de Santo Antônio.
A aliteração é o recurso estilístico escolhido por Monteiro para descrever a relação homem-floresta pela “força da nomeação, repetição e enumeração” (Nunes, 1973) de elementos, que acaba por revelar identidades culturais forjadas nesse meio. O Major, ausente da terra e estranho ao local, é arrebatado ao contemplar as nuances de verde a seu redor, provocadoras de uma verdadeira festa dos sentidos: “O vento espalhava todas as cores. Tudo vasto. Verde e vasto. […] TUDO VAGO: vago vazio, vagomundo, vago-espaço. […] Milhares de tons verdes: verde-cinza, verde-mar, verde-mata, verde-chão, verde-terra […] verde-manhã, verde-tarde, verde-réstia-de-sol, verde-água, verde-árvore, verde-lago, verde-algo, verde-rio, verde-cerca, verde-distância. Principalmente: verde-distância…”.
Entremeada à construção da figura de Miguel, estão os capítulos designados como “Rádio – Transistor”, quando a narração se inicia com notícias que são ouvidas pelo Major todas as manhãs. Esse momento de escuta representa sua conexão com o mundo, e é nesse ponto da narrativa que o projeto de Monteiro mais uma vez se evidencia, ao apresentar um microcosmo amazônico envolvido e subordinado por um macrocosmo de ordem geopolítica.
A história como processo social e político se entrelaça à história interpretada e contada como poesia que vai do macro ao micro: enquanto uma guerra está em curso em um continente distante e o presidente da maior potência mundial é assassinado, os moradores de Alenquer só se dão conta do golpe de Estado ocorrido no país ao receberem uma comitiva militar que busca por comunistas subversivos escondidos na floresta.
Esta é a parte final do romance, chamada de “Diário” e na qual o Major busca retratar os fatos que se sucedem na cidade quando seus moradores começam a ser convocados a depor durante a instauração de um Inquérito Policial Militar. A narração, pela primeira vez, assume uma cronologia em contagem regressiva para a festa de Santo Antônio. Nos 13 dias que a antecedem, a presença de militares na cidade retira os moradores de suas existências ritmadas e provoca um clima de tensão que se intensifica com as ameaças dos militares de cancelar as festividades e, consequentemente, a queima de fogos de artifício tão esperada pelos moradores e ambicionada por Miguel, eleito o pirotécnico oficial do evento.
A reação de todos, e em especial a de Miguel, será a resposta dada literariamente por Monteiro para o momento histórico de instauração da ditadura militar no país. Ao se colocar contra as intransigências de censura à festa, o texto exalta a força dessa população que luta pelo único evento anual que representa sua cultura e religiosidade, ato que também pode ser compreendido como uma forma de resistência possível ao novo regime de exceção vigente, e do qual eles tomam conhecimento apenas depois da alteração drástica de suas rotinas. Verde vagomundo é um romance que mantém sua atualidade ao apresentar uma Amazônia ainda distante do eixo econômico e político do Brasil situado mais ao sul, isolada por uma floresta que a cada dia se encontra mais devastada, e que, com a chegada de um progresso tido como necessário, escancara as mazelas sociais de um povo que, em vez de usufruir desse suposto desenvolvimento, simplesmente é sua maior vítima. A ideia do autor de incorporar o contexto sociopolítico nacional a fim de demonstrar os efeitos devastadores de ações que ameaçam a democracia não poderia ser mais relevante como alerta para o perigo que tais regimes podem representar no que diz respeito à destruição de ecossistemas e, por conseguinte, de populações que vivem mediante esses ciclos naturais. Os recursos estilísticos elegidos pelo autor exaltam o poder mítico da floresta, repleta de elementos sinestésicos que a universalizam, destacando seu importante papel em âmbito nacional e internacional.
Para saber mais
MEDEIROS, Adonai da Silva de; FERREIRA, Raphael Bessa (2021). Contemplação interpretativa das criações das paisagens impressionistas em Verde vagomundo: uma aproximação entre Benedicto Monteiro, Claude Monet e Van Gogh. Revista Água Viva, v. 6, n. 2. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/aguaviva/article/view/32719. Acesso em: 23 mai. 2025.
NUNES, Benedito (1973). Benedicto Monteiro, Verde vagomundo. Colóquio/Letras, n. 14, p. 94-95. Disponível em: https://coloquio.gulbenkian.pt/cat/sirius.exe/issueContentDisplay?n=14&p=94&o=p. Acesso em: 9 mai. 2025.
SANTOS, Dalva Lima dos (2022). A ficção de teor testemunhal em Verde vagomundo, de Benedicto Monteiro. Dissertação (Mestrado em Comunicação, Linguagens e Cultura) – Universidade da Amazônia, Belém.
SOUZA, Abilio Pacheco de (2020). No rastro e no rumo das palavras, dos fragmentos, da história brasileira recente na obra de Benedicto Monteiro. Tese (Doutorado em Teoria e História Literária) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas.
Iconografia







