Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Diorama

BENSIMON, Carol. Diorama. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

Sheila Jacob
Ilustração: Espírito Objeto

O que é um diorama? Segundo o dicionário Houaiss, citado na epígrafe do livro de Carol Bensimon (Porto Alegre, RS, 1982) que traz esse vocábulo como título, trata-se da “representação de uma cena, onde objetos, esculturas, animais empalhados etc. inserem-se em um fundo pintado realisticamente”. É possível fazer a mesma reflexão sobre o romance em questão, que, apesar de ter como mote um caso real do passado, aborda, por meio da inscrição de elementos ficcionais, a sociedade brasileira atual, especialmente pós-ascensão da extrema direita com o fenômeno Bolsonaro, momento presente da narrativa. O caso que serve de inspiração para a trama é um assassinato real ocorrido em Porto Alegre no final da década de 1980, e é com base nele que a autora trata da permanência dessa cultura de ódio, hipocrisia, negligência ambiental e de diversos preconceitos que, quarenta anos depois, continuam a vigorar no país.

O livro começa com a narradora em primeira pessoa, Cecília Matzenbacher, lembrando-se de uma cena familiar ocorrida em 1987, quando ela tinha nove anos e estava “rodeada pelo campo vazio e mordendo a poeira da BR-473”, em viagem pelo sul do Brasil com a família para um dia de caça na estância de um amigo do pai. Essa inscrição do deslocamento logo no início dará o tom do enredo, construído em idas e vindas no tempo e no espaço para apresentar as lembranças e os traumas da protagonista. Em 2002, aos 24 anos, Cecília decide sair do Brasil e ir morar nos Estados Unidos em uma espécie de “fuga” da própria vida. Dezesseis anos se passam sem que ela volte ao país natal, até ser convocada pelo irmão mais velho a retornar em razão da deterioração da condição de saúde do pai. Prestes a romper com esse exílio voluntário, ela passa, então, a revirar as caixas – literais e metafóricas – em que guardou o passado, precisando lidar com os acontecimentos traumáticos que mancharam sua infância, esgarçaram suas relações familiares, impactaram sua personalidade e acabaram definindo os caminhos que, anos depois, ela escolheria trilhar.

No presente da narrativa – ano de 2018 –, a personagem principal está perto de completar quarenta anos, vive em Los Angeles, passa por uma crise no casamento e exerce uma profissão curiosa: trabalha como taxidermista, ou seja, seu ofício é empalhar animais com fins científicos e pedagógicos, principalmente para serem expostos em museus. Em suas palavras, trata-se de um “trabalho meticuloso, a ideia de que é preciso ser uma mistura de cientista, pintora, escultora e artesã para recriar o que a natureza gerou ao longo de milhões de anos de aleatoriedade e evolução”. Em certo momento, a narradora pondera que “um diorama de habitat traz sempre um duplo deslocamento, espacial e temporal”, tal qual a própria literatura.

Aos poucos os leitores passam a conhecer o sofrimento que reside nas lembranças da narradora: seu pai, Raul Matzenbacher, médico e deputado estadual pelo PMDB no final dos anos 1980, foi o principal suspeito de ter assassinado, em 1988, João Carlos Satti, companheiro de partido. Ao que tudo indicava, o crime foi motivado por uma questão de honra, que a princípio se sugere que sejam ciúmes da esposa, mas com o avanço da narrativa outras possíveis causas se vão anunciando. O caso não chega a ser solucionado, mas a acusação, as evidências e as distintas reverberações na opinião pública marcam a vida dos envolvidos para sempre.

O enredo é baseado em um caso verídico, que mobilizou a sociedade gaúcha no final dos anos 1980. Como seu duplo na literatura, a vítima era, além de deputado estadual, um reconhecido radialista, que fazia muito sucesso com suas crônicas inflamadas transmitidas pela Rádio Gaúcha. Na noite de 4 de junho de 1988, em Porto Alegre, José Antônio Daudt foi assassinado com dois tiros de espingarda quando chegava em casa. O crime real, assim como o ficcional, também nunca chegou a ser solucionado e acabou prescrevendo em 2008. O principal suspeito era o deputado estadual Antônio Carlos Dexheimer, do PMDB, colega de partido da vítima tal qual o personagem acusado, que foi absolvido dois anos depois naquele que viria a ser o primeiro julgamento televisionado do país.

Daudt, assim como o ficcional Satti, ganhou notoriedade ao defender uma pauta ambiental, novidade no Brasil de quarenta anos atrás. Ele foi autor de um projeto que proibia a comercialização de produtos que contêm clorofluorcarbonetos (CFCs), em tempo de descoberta e incipiente conhecimento público dos malefícios causados por tais substâncias à camada de ozônio. Como recupera a narrativa na voz da amiga Glória Andrade: “imagina esse negócio, um homem muito à frente do seu tempo, querendo discutir meio ambiente nos anos oitenta!”, o que inclusive deu, no texto literário, a alcunha de “Deputado Ozônio” ao personagem nele inspirado. Após seu assassinato, informações da sua vida privada começaram a ser divulgadas, até questionamentos acerca de sua orientação sexual, um choque em um país que teve eleito o primeiro parlamentar assumidamente gay, Clodovil Hernandes, apenas em 2006, como a própria escritora faz questão de sinalizar no texto.

O romance conduz os leitores, por meio da efabulação, para essa teia de tramas pessoais e coletivas, convocadas para mostrar “tudo igual e tudo tão diferente” nesse percurso histórico. A ambientação da infância da personagem contradiz várias ideias, como a da exemplar “família tradicional brasileira” e a de que o povo brasileiro é pacífico e harmonioso. Sucedem-se em sua memória cenas regadas a espingardas, clubes de tiro, caça por lazer, exposição orgulhosa de animais abatidos, ou seja, lembranças marcadas pelo signo da violência que historicamente constitui o país, cuja herança, nas palavras de Darcy Ribeiro (2015), “é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista”, acrescida, como o livro sugere, de outras formas de discriminação. 

O jogo de espelhamento entre passado e presente também levanta reflexões sobre a relação predatória estabelecida entre seres humanos e natureza e as consequências nefastas ao próprio planeta Terra. Esse aspecto possibilita incluir a obra em um conjunto de textos literários que se dedicam a discutir o Antropoceno, ou seja, os impactos das ações humanas sobre o meio ambiente. Isso é reforçado em diversos momentos pelas reflexões acerca da escolha da profissão da protagonista, que se especializou em eternizar e tornar visíveis as vidas que os homens aniquilaram e, ao trabalhar, costuma sentir que deve “pedir desculpas pelos atos contraditórios da minha espécie”. Em dado momento, em diálogo com o companheiro, Cecília chama a atenção para o fenômeno da sinantropia, que consiste na “capacidade adaptativa de certas espécies para conviver conosco” depois de os seres humanos destruírem ou, no mínimo, modificarem severamente três quartos das terras e dois terços das águas. O homem faz, a natureza responde.

Assim como a narradora do livro, Carol Bensimon vive nos Estados Unidos e de lá tem lançado um olhar crítico e reflexivo sobre o Brasil, algo que esse distanciamento geográfico muitas vezes possibilita e incentiva. Ela estreou na literatura em 2009 com o romance Sinuca embaixo d’água (Companhia das Letras), finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura. No ano seguinte, reuniu alguns de seus contos no livro Pó de parede, que saiu pela independente Não Editora e ganhou uma reedição em 2023 pela Dublinense. Depois vieram, pela Companhia das Letras, os romances Todos nós adorávamos caubóis (2013), O clube dos jardineiros de fumaça (2017), com o qual venceu o Jabuti na categoria de Melhor Romance, e Diorama (2022). Com sua produção literária, já traduzida nos Estados Unidos, França, Itália, Espanha e Argentina, ela tem lançado pistas para que se possa investigar permanências e rupturas da sociedade brasileira, porque, segundo sua própria protagonista, “entender esse país é entender a tolerância ao horror. […] Entender esse país é entender minha mãe criança aplaudindo Getúlio, depois dançando para o general Castelo Branco, depois exultante com a redemocratização que elegeu meu pai, depois sacudindo a bandeira verde e amarela em apoio a um capitãozinho saído dos esgotos do Brasil”. No final das contas, é atentar para o fato de que “o Brasil sempre mudava para, no fundo, continuar exatamente igual”.

Para saber mais

ANGELINI, Paulo Ricardo Kralik (2025). O gosto pelas coisas mortas: Uma leitura de Diorama, de Carol Bensimon. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 74, p. 1-14. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/56814. Acesso em: 18 mar. 2025.

BENSIMON, Carol (2022). Carol Bensimon: animais empalhados nos Estados Unidos e um crime real no Brasil inspiram romance com clima de “road movie” da escritora gaúcha. [Entrevista concedida a] Iara Biderman. Quatro cinco um, São Paulo, ed. 63. Disponível em: https://quatrocincoum.com.br/entrevistas/fichamento/carol-bensimon. Acesso em: 17 mar. 2025

CASARIN, Rodrigo (Produtor) (2023). #162 – Carol Bensimon e a tal família tradicional brasileira. Página Cinco [Podcast]. Spotify. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/3MWepHG0hGybCAIzhcRX0m. Acesso em: 15 mar. 2025. 

DUSSE, Fernanda (2023). Diorama, de Carol Bensimon. Resenha. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 70, p. 1-3. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/54382. Acesso em: 18 mar. 2025.

RIBEIRO, Darcy (2015). O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Global.

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Como citar:

JACOB, Sheila.
Diorama.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

22 abr. 2026.

Disponível em:

7973.

Acessado em:

23 abr. 2026.