GEISLER, Luisa. De espaços abandonados. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2018.
Larissa Dantas
Ilustração: Carolina Vigna
De espaços abandonados (2018), terceiro romance da gaúcha Luisa Geisler (Canoas, RS, 1991), é uma narrativa de muitos vazios. As histórias dessa obra se constroem na experimentação da forma, na temporalidade e na espacialidade fluidas, no limiar entre ficção e não ficção. Como enredo, apresentam-se linhas narrativas que acompanham alguns personagens. Eles buscam o que nunca encontram, perdidos em encontros e experiências fugidias, em uma Dublin configurada como Terra Prometida, que lhes escapa e os imobiliza. Em suas mais de 400 páginas, percorrer Dublin, os espaços da memória e os pedaços de textos abandonados ao longo do romance é um desafio.
A estrutura fragmentada de De espaços abandonados intensifica o movimento de busca e desencontro: o romance se constrói por blocos narrativos que se tocam sem necessariamente se completar, dissolvendo a linearidade convencional e expandindo a fronteira entre lembrança e invenção, presença e ausência. Nesse processo, o texto não se fecha em respostas, mas insiste em deixar rastros entre os vazios, cabendo ao leitor percorrê-los e tentar compor uma espécie de unidade para o romance.
O livro integra trechos de gêneros distintos (cartas, e-mails, recados, rascunhos etc.) e linguagens diversas, como a fotografia de colchões expostos para venda nas ruas da cidade, acentuando sua dimensão híbrida. Essa ruptura com a tradição formal do romance é uma característica do trabalho de Geisler, que espelha preocupações recorrentes em livros de outros autores, tais como Luiz Ruffato em Eles eram muitos cavalos (2001). Deslocamento e resistência, memória e esquecimento, pertencimento e solidão são temas da contemporaneidade, portanto, que, em sua fluidez, repercutem na estrutura fragmentária da obra.
Essa fragmentação manifesta-se igualmente na temporalidade e na espacialidade do romance. Em cada pedaço de narrativa que se apresenta ao leitor, na tentativa de estabelecer certezas sobre o que ocorre com as personagens, um novo corte se impõe e, em muitos deles, há um deslocamento temporal. É possível compreender algo da infância de um personagem ao mesmo tempo que seu presente se apresenta embotado, indefinido.
Quanto ao espaço, Dublin é mais que cenário: funciona como metáfora de uma promessa que não se cumpre. A cidade é atravessada por memórias de imigração, expectativas frustradas e experiências fracassadas que os personagens carregam consigo. Não é uma Dublin turística ou monumental, mas um lugar vivido no cotidiano dos trânsitos, das perdas e dos encontros inacabados. O romance transforma a cidade em reflexo da instabilidade das relações humanas. Na narrativa, observam-se movimentos pela cidade – bares, escolas de línguas, lojas de departamento – e por algumas localidades turísticas, como os Cliffs of Moher. Também no apartamento sublocado, diversas pessoas transitam em festas ou apenas dormem por alguns dias. Assim como ocorre com o tempo, os espaços também se movem rapidamente, entre viagens lisérgicas e virtuais. Os espaços urbanos abandonados pelos quais passa a protagonista Maria Alice não se restringem à Irlanda: incluem também os do Japão, apresentados por meio de fotografias de um blog especializado no tema.
A obra está organizada em três partes, sendo a mais extensa delas apresentada como um manual de escrita literária. Essa seção é composta por orientações, exercícios e, sobretudo, 366 perguntas que funcionam como provocações ao ato de escrever. Nesse ponto, o romance atravessa o limite da ficcionalidade, confundindo o leitor sobre onde termina o enredo e onde começa a reflexão metalinguística. A inclusão desse tipo de manual incorpora formalmente o princípio da hibridização de gêneros textuais e faz da própria escrita o tema central da narrativa.
Esse recurso aproxima De espaços abandonados a uma literatura que se pensa a si mesma, que não apenas conta uma história, mas também interroga os mecanismos de sua produção. Ao propor perguntas e exercícios, a obra desloca o leitor para o lugar do escritor, tornando-o parte de um jogo literário em que a experiência de leitura se converte em experiência de escrita. Assim, o romance não apenas tematiza o vazio e a cisão formal, mas também experimenta a incompletude, abrindo mão da linearidade para incorporar uma dimensão ensaística e processual.
Ao inserir a reflexão sobre o ato de escrever no interior da trama, Geisler transforma o romance em um campo expandido, em que a fronteira entre ler e escrever se torna instável. Nesse gesto, a obra se destaca, pois não se limita a reproduzir a falta como forma, mas inscreve na sua estrutura uma proposta de experimentação que questiona o que se entende por romance.
Diante de uma estrutura tão movente e com poucos alicerces, o leitor, por vezes, se vê impelido a perguntar: afinal, do que trata este livro? Uma possível resposta é percorrer as linhas narrativas que apresentam a vida de imigrantes brasileiros na Irlanda. Alguns personagens ganham maior destaque entre as inúmeras vozes que se erguem no texto, caso da protagonista, mas também de Maicon e Bruna. São jovens em trânsito, experimentando a liberdade e o desamparo longe do país de origem, movendo-se entre empregos temporários, cursos de língua e festas efêmeras. Outros buscam uma vida estável no exterior, mas a precariedade das relações e das próprias condições de permanência os empurra a novos deslocamentos. As personagens surgem e desaparecem porque o romance traduz literariamente a instabilidade da experiência migratória – sujeitos que, incapazes de se fixar, deixam rastros imprecisos, lembranças partidas e vínculos que se desfazem no instante em que se anunciam.
Esse mesmo movimento orienta a trajetória de Maria Alice, cuja busca pela mãe desaparecida na Irlanda espelha o próprio desencontro dos demais personagens. Assim como os imigrantes que cruzam brevemente a narrativa, Maria Alice deixa vestígios insuficientes para que se saiba onde está e o que lhe aconteceu. A tentativa de reconstruir seu percurso a partir desses pedaços exige o esforço do leitor diante de uma história que se compõe de ausências. Ao fazê-lo, Geisler inscreve na forma e no enredo a mesma impossibilidade de fixação que marca o destino de suas personagens, transformando o desaparecimento em linguagem e a errância em estrutura narrativa.
É importante destacar, portanto, que as linhas narrativas convergem em Maria Alice. Gaúcha, filha de um militar e de uma dona de casa com bipolaridade, Maria Alice busca compreender seus abismos familiares, sua insatisfação no trabalho e o fracasso do casamento. O que move sua trajetória é o desaparecimento da mãe, Lídia, dada como morta, mas que ela acredita estar na Irlanda. Ela supõe receber mensagens cifradas da mãe por meio de um blog especializado em lugares abandonados. Essa é a motivação de sua migração: buscar uma mãe que, como o livro que escreve – e que o leitor acompanha na segunda parte do romance –, mimetiza a tentativa de encontrar sentido para a vida. O irmão, Caio, a procura, e a ele são direcionados e-mails e cartas de pessoas que possivelmente conviveram com Maria Alice, dividiram um quarto ou a viram de relance em uma festa. Ninguém sabe ao certo de seu paradeiro. Somem – e se fundem – mãe e filha.
Portanto, no plano temático, De espaços abandonados apresenta personagens marcados pelo abandono, pela impossibilidade de permanência e pela tentativa de preencher lacunas que jamais se fecham. São trajetórias atravessadas por lembranças partidas, por marcas de um passado que não se acomoda e por vínculos que se desfazem.
Na trajetória de Luisa Geisler, De espaços abandonados reafirma o interesse pela investigação das subjetividades em crise e pela experimentação formal. Se nos primeiros livros, Contos de mentira (2011) e Quiçá (2012), ambos premiados, a autora já demonstrava afinidade com personagens deslocados, aqui a aposta no fragmento e na ausência alcançam um novo patamar. Inserida na produção literária brasileira contemporânea, a obra se destaca por propor uma reflexão sobre memória, migração e pertencimento, em diálogo com narrativas que exploram intimidade e incompletude.
Com prosa econômica e marcada por pausas, cortes e repetições, a autora explora o silêncio como matéria literária. O texto avança mesmo quando parece desconexo. É um quebra-cabeça cujas partes se encaixam, mas que, ainda assim, deixa a sensação de que algo falta. E é nessas faltas, que se acumulam e se interrompem, que do leitor se exige uma postura ativa, atenta ao que se encontra nas margens do que é mencionado. É nesse ritmo entrecortado que o romance busca se fazer: ao recusar a completude, convida o leitor a habitar o inacabado.
A importância de De espaços abandonados reside em sua capacidade de traduzir experiências comuns da contemporaneidade – a instabilidade, a desagregação, o desamparo – em forma literária. Ao transformar o silêncio em linguagem e a ausência em narrativa, o romance amplia o repertório da literatura brasileira atual, apontando para modos de leitura que não buscam certezas, mas a convivência com o que permanece em aberto.
Para saber mais
BALDI, Matheus (2018). Romances nacionais recentes abordam semelhanças entre Brasil e Irlanda. Estado de S. Paulo, 7 mar. 2018. Disponível em: https://www.estadao.com.br/cultura/romances-nacionais-recentes-abordam-semelhancas-entre-brasil-e-irlanda/ . Acesso em: 16 ago. 2025.
GEISLER, Luisa (2022). Luisa Geisler – “Caminhos teóricos na construção da personagem: o que dizem os escritores?”– PUCRS. [Entrevista concedida a] Matheus Guménin Barreto. Ruído Manifesto, 6 jul. Disponível em: https://ruidomanifesto.org/luisa-geisler-caminhos-teoricos-na-construcao-da-personagem-o-que-dizem-os-escritores-pucrs/. Acesso em: 16 ago. 2025.
LENGERT, Hugo Ricardo (2024). A fragmentação textual na obra De espaços abandonados, de Luisa Geisler: uma análise semiótica. Revista de Estudos Acadêmicos de Letras, Pelotas, v. 17, n. 1, p. 1-14. Disponível em: https://periodicos.unemat.br/index.php/reacl/article/view/12035. Acesso em: 20 ago. 2025.
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