Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

O amante das Amazonas

SAMUEL, Rogel. O amante das Amazonas. Belo Horizonte: Aió, 1992.

Luís Gustavo Bandeira de Sousa
Ilustração: Julio Lapagesse

O Brasil é marcado por um passado exploratório, escravocrata e opressor, o qual deixou marcas que podem ser sentidas até os dias atuais. Em O amante das Amazonas (1992), Rogel Samuel (Manaus, AM, 1943 – Rio de Janeiro, RJ, 2023), crítico literário e professor, desenvolve um romance que mescla elementos ficcionais com fatos históricos, narrando o Ciclo da Borracha no estado do Amazonas, ocorrido entre os anos de 1879 e 1912. Resultado de uma vasta pesquisa realizada ao longo de mais de dez anos e também inspirada em relatos de seu próprio pai (que navegou pelo rio Amazonas por um período de quarenta anos), o autor retrata o apogeu e a decadência do vasto império que marcou a história da região.

Publicada em 1992, a obra é considerada o segundo volume da coleção Sagas do país chamado Brasil. Apesar de um pouco densa e complexa, dada a vasta quantidade de temáticas e críticas sócio-históricas que aborda, ela apresenta uma linguagem simples, narrada majoritariamente em primeira pessoa por meio da fala de Ribamar de Souza, um jovem pernambucano que parte para o interior da floresta amazônica na madrugada de natal do ano de 1897, na esperança de encontrar seu tio e seu irmão. Marcado pelos sentimentos de abandono e solidão, o narrador-personagem define a narrativa como uma “paródia de romance histórico” que registra com boa precisão a tardia confissão da sua vida.

Apesar do tom biográfico, o foco principal do romance está centrado na própria história do Amazonas, apresentando personagens e tramas diversas, contadas em formato de flashbacks, os quais vão costurando a narrativa de uma forma única que, apesar de parecer confusa, torna-se surpreendente. Dessa maneira, a trama ocorre, em um primeiro momento, em torno do mítico seringal do Maxixi, o qual apresenta um majestoso palácio art-nouveau, de propriedade do francês Pierre Bataillon, localizado às margens do chamado “Igarapé do Inferno”, em uma região habitada por povos Numas e Caxinauás. Os primeiros representam a resistência indígena, sendo fortes guerreiros que não se deixam ser intimidados pelos brancos colonizadores, os ameaçando; enquanto os outros representam os povos escravizados e dizimados em meio ao processo de colonização.

No desenrolar da trama, o leitor é apresentado a José Bataillon, filho de Pierre, o qual tem como servos os indígenas Pauxinauá (um sanguinário e forte guerreiro) e Maria (sua amante e considerada como uma “segunda mãe” para o personagem), ambos Caxinauás. O rapaz vai estudar na Europa, retornando ao seringal em 1908. Quatro anos depois, justamente no período de declínio do Ciclo da Borracha, ele acaba desaparecendo, de modo que a narrativa passa a girar em torno da busca e do mistério que envolvem o sumiço do rapaz e de uma caixa de libras esterlinas, a qual havia sido roubada de Pierre anos antes.

Ao longo da leitura, nota-se que o próprio narrador tenta se colocar como um personagem secundário na trama, tendo poucas participações ou se referindo a si mesmo em terceira pessoa. Esta escolha narrativa feita pelo autor torna-se muito significativa para a construção final do enredo, pois, a partir da decadência do Ciclo da Borracha, Ribamar ressurge como protagonista, mostrando sua ascensão na sociedade manauara, algo diferente do que ocorreu com os demais seringueiros, muitos mortos por doenças, conflitos ocorridos no seringal ou largados em meio à miséria.

Todavia, cabe ressaltar que, em vários momentos do romance, o narrador busca fazer um contato direto com seu leitor. Esta característica dá à obra um tom humorístico em determinada altura, sendo um frescor em meio a uma trama complexa e construída por fortes episódios de violência, estupros e caos. Há um trecho em que o narrador afirma que, apesar do livro se constituir como uma obra confessional, as histórias narradas ocorreram apenas em sua imaginação e, portanto, é completamente fictício e deve ser tratado como mentiroso. Contudo, esta é uma narrativa que possui um grande potencial de surpreender aqueles que a leem.

Pode-se afirmar que O amante das Amazonas seja dividido em duas partes: a primeira com foco no apogeu e declínio do império da borracha, tendo o interior da floresta amazônica como seu plano de fundo; já a segunda, dando destaque à decadência da cidade de Manaus, envolta por ruínas físicas e morais, e à reconstrução da vida de Ribamar. Desse modo, a obra perpassa por diversos momentos importantes não somente da história do Amazonas, mas de parte do período colonial e pós-colonial brasileiro. Há ainda, ao longo de seu desenvolvimento, referências a intelectuais da literatura, como Euclides da Cunha, figuras religiosas e acontecimentos políticos, deixando sua trama mais rica e dialógica, dado o seu contexto histórico.

Tendo este caráter em vista, o narrador consegue situar o leitor temporalmente (indicando o ano em que cada acontecimento ocorre) de uma maneira muito bem construída, descrevendo suas ambientações e personagens de um modo detalhado. Dessa forma, ele contribui para a imersão do leitor na narrativa, fazendo-o visualizar nitidamente a situação da região na época em que as histórias são contadas.

O modo como a obra é construída, apoiada em sua temática verídica, colabora para que se possa realizar uma comparação com o romance O coração das trevas (1899), de Joseph Conrad, que retrata a barbárie gerada pela colonização inglesa à beira do rio do Congo, no interior da selva africana. Assim como o livro de Conrad, O amante das Amazonas também evidencia a situação desumana e caótica a que indígenas e nordestinos eram submetidos em prol do capitalismo imperialista. Estes últimos, vale destacar, migraram para o norte em busca de melhores condições de vida devido à crise econômica e à intensa seca que assolava a sua região de origem entre o final do século XIX e início do XX.

Também é possível estabelecer um diálogo entre o teor aventureiro, episódico e ficcional do texto e as narrativas de viagem, como as famosas e verídicas aventuras de Hans Staden presentes no livro Duas viagens ao Brasil (1557), onde o mercenário alemão narra suas experiências, enquanto esteve aprisionado em uma aldeia Tupinambá. Assim como a obra de Samuel, a trama é constituída por um relato que retrata a vida dos povos originários no período colonial, mostrando como eram suas tradições e rituais. Ambas as narrativas destacam o modo em que se deu o contato entre indígenas e colonizadores, bem como os interesses capitalistas e exploratórios destes últimos.

Todos os personagens que surgem ao longo do enredo apresentam simbologias diversas, as quais constroem um dialogismo entre ficção e realidade, de maneira que a obra possui um forte caráter polifônico em seu desenvolvimento. O “Igarapé do Inferno”, como dito pelo próprio narrador, reflete o “limite do fim do mundo”, sendo uma metáfora para o “marco extremo” do próprio humano. As figuras femininas apresentadas na trama, apesar de coadjuvantes, surgem com uma certa relevância, representando a sociedade patriarcal da época, possuindo corpos que exalam sedução e sensualidade, remetendo-as às características românticas.

Os povos indígenas, como mencionado, são retratados com uma proeminente importância no texto, sendo vistos como fortes e guerreiros, mas, também, como seres submissos e despossuídos de suas tradições pela colonização europeia. Maria Caxinauá é o símbolo vivo desse fato, representando a memória e as tragédias históricas envolvendo milhares de indivíduos, os quais tiveram suas riquezas, culturas e crenças arrancadas de si em favor dos desejos da elite capitalista, representada, ao longo do livro, pelo personagem Pierre Bataillon, dono do seringal.

Em suma, a obra de Rogel Samuel configura-se não somente como um testemunho da decadência, das barbáries e dos fatos ocorridos no período do Ciclo da Borracha, mas, também, como uma trama histórico-ficcional desenvolvida a partir de um rico aparato estético-literário. Por meio de suas alegorias e da união entre o sublime e o grotesco, o autor ressignifica o romance e constrói o retrato de um país marcado por uma cultura exploratória e escravocrata. Assim, sua escrita serve como um registro e como um mecanismo de alerta para que os fatos descritos jamais voltem a se repetir. Seus capítulos, envoltos por questões filosóficas e duras críticas ao passado brasileiro, são reflexos de uma intensa pesquisa realizada pelo autor ao longo dos anos, a qual contribui para a construção do seu caráter polifônico, historiográfico, documental e dialógico.

Para saber mais

A GÊNESE da criação literária de O amante das Amazonas (2012). Produção: Portal Entretextos. YouTube. 1 vídeo (15 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=p2TNT-7NLAg. Acesso em: 13 ago. 2025. Entrevista.

FRANÇA, Elvira Eliza (2023). Morre Rogel Samuel, autor de O amante das Amazonas. Amazônia Real, 2 jul 2023. Disponível em: https://amazoniareal.com.br/morre-rogel-samuel-autor-de-o-amante-das-amazonas/. Acesso em: 14 ago. 2025.

GONÇALVES, Maiara Malta (2022). Análise pós-colonial sobre a obra O amante das Amazonas, de Rogel Samuel. Dissertação (Mestrado em Letras Vernáculas) – Fundação Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho. Disponível em: https://ri.unir.br/jspui/bitstream/123456789/4192/1/Dissertacao.pdf. Acesso em: 14 ago. 2025.

LEITURAS Compartilhadas de O amante das Amazonas de Rogel Samuel (com estudo de Zemaria Pinto) (2021). Produção: Círculo Literário Entretextos. YouTube. 1 vídeo (98 minutos). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9OJzHVyUl7o. Acesso em: 16 ago. 2025.

SANTOS, Fernando Simplício dos (2024). Fronteira, memória e imaginário em O amante das Amazonas, de Rogel Samuel. Revista Discente de História da UFAC, Rio Branco, v. 7, n. 2, p. 138-152. Disponível em: https://periodicos.ufac.br/index.php/amazonicas/article/view/7495/4864. Acesso em: 14 ago. 2025.

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Como citar:

SOUSA, Luís Gustavo Bandeira de.
O amante das Amazonas.

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Brasília. 

22 abr. 2026.

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7873.

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23 abr. 2026.