NEVES, Reinaldo Santos. Sueli: romance confesso. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1989.
Camila David Dalvi
Ilustração: Léo Tavares
Ambientado em regiões urbanas de alta circulação na Grande Vitória, no Espírito Santo, o livro Sueli: romance confesso (1989), de Reinaldo Santos Neves (Vitória, ES, 1946), possui 172 páginas e é o quarto romance do autor em uma vasta produção que inclui romances, antologias, contos, poemas, dentre outros. Em termos estruturais, é dividido em 129 pequenas partes numeradas e apresenta uma linguagem sagaz, permeada de intertextos – especialmente ligados ao jazz ou à literatura, por vezes referenciados em nota de rodapé –, metalinguagens e neologismos formados a partir de palavras do português, do inglês e do francês. Encontram-se, aqui e acolá, expressões latinas e bastante conhecimento sobre outras línguas e alfabetos.
Sobre o percurso do autor, sabe-se que, entre 1970 e 2012, Reinaldo atuou como servidor público na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Estando nesses ambientes acadêmicos, após ter cursado Letras, ocupou-se de leitura, pesquisa e escrita literária, bem como do trabalho com edição de coleções que punham no centro a produção capixaba. Sua atuante presença à frente da Fundação Ceciliano Abel de Almeida (entre 1978 e 1989) desvelou suas habilidades de se projetar como escritor e de, sobretudo, difundir a literatura produzida no Espírito Santo – caminho que outros trilharam junto a ele, como é o caso do escritor, pesquisador e professor, além de seu amigo, também mencionado no romance, Paulo Roberto Sodré. Assim, colocou em cena escritores aclamados pela crítica, tais quais Bernadette Lyra e Waldo Motta.
De fato, sua vasta obra o coloca em posição de evidência não só no recanto espírito-santense, mas pelo país. Sua carreira como escritor, que começa aos oito anos de idade, passa de 70 anos de duração. Há, entre seus romances, enredos de fôlego e complexos. Suas obras A crônica de Malemort (1978) – mencionada, inclusive, pelo personagem de Sueli: romance confesso – e A longa história (2007) remontam a ambiências medievais, com escritos em linguagem que emulam o arcaico. Posteriormente, em um grande projeto que envolve estudo, camadas ficcionais e temas relativos a escritas apócrifas, desenvolve a trilogia A folha de hera (2011, 2012 e 2014). Outros textos importantes são O poema graciano (1982) e A ceia dominicana: romance neolatino (2008), os quais tratam de um mesmo personagem: Graciano, que circula entre as elites do espaço urbano de Vitória.
O enredo de Sueli: romance confesso gira em torno de um escritor, Reynaldo Santos Neves – e aqui, no exercício da escrita autoficcional, narrador-personagem e autor se diferenciam apenas pela troca do “i” pelo “y” no nome –, que conta a história de sua fulminante paixão pela, à época, jovem jornalista Sueli, 14 anos mais nova que ele. Os acontecimentos da narrativa se iniciam em 1983 e duram alguns anos. Assim, autor, personagem e narrador, todos são Reinaldos/Reynaldos, escritores, servidores públicos que frequentam palestras, lançamentos e outros eventos culturais comuns à capital do estado na década de 1980. Já a “musa”, amada, segundo o próprio narrador, não apresentava nada de extraordinário em sua aparência, já que era de uma “antibeleza”, de um “contracharme” flagrantes. Todavia, justamente por isso e por seus cabelos negros e seu prognatismo mandibular, fisgou o interesse do escritor. Essa paixão foi ganhando peso após o reconhecimento, vindo de outros conhecidos, das habilidades de escrita que Sueli, “avis rara”, apresentava. Não só suas matérias eram bem escritas, como seu trabalho era realizado com seriedade digna de atenção. Cabe notar nesse movimento o olhar de tutela masculino, que a vê, mais jovem, como alguém promissor a ser referendado. Esse ser amado corresponde a uma figura real que, posteriormente, veio a se tornar editora-chefe de uma das redes de jornalismo mais proeminentes do estado do Espírito Santo; porém, a grafia do nome real é com “y”: Suely. Ou seja, em um primeiro jogo com a escrita performática, Reinaldo e Suely, nas combinações de linguagem, misturam-se igualmente na grafia de seus nomes.
Como se adivinha pelo título da obra, a grande motivação é confessar um romance. Como gênero literário, parece se situar, à primeira vista, no âmbito da escrita ficcional, entretanto a caracterização pelo adjetivo “confesso”, ao perturbar seu status de puramente ficcional, localiza-o nos entremeios da autoficção. E assim o autor embaralha fronteiras entre vida e obra, demonstrando, ainda, gostar de fazer jogos metalinguísticos e polissêmicos. Não à toa, há vários momentos de brincadeiras com o termo romance, que ora é narrativa ficcional, ora é sentimento amoroso, ora é variante vulgar da língua; e às vezes pode adquirir mais de uma acepção. Nessas e em outras reflexões, permeadas de bom humor, ironias, sarcasmos ácidos e algum pessimismo, o autor demonstra que, além de falar sobre um amor “contemplatônico” – sobre sua “loverie” –, que lhe causou muitas inquietações, seu compromisso com a literatura, com o fazer ficção, está extremamente vivo e vívido. Portanto, o texto, que se poderia imaginar inebriado de sentimento, na verdade não é desordenado: o trabalho retórico é visível; a precisão é trabalhada até no que pode parecer ser acidental. Reynaldo, narrador, dá uma amostra de sua afiada compreensão do que está fazendo. O texto inicia em um seminário de poesia, quando o personagem conhece aquela que lhe tirará a paz: “seminário que, como o nome indica, traz então em seu ventre a semente deste romance. Poesia gera romance […]. E poesia (entre outras coisas) é ambiguidade, é polissemia”. Trabalhando ludicamente com as etimologias das palavras, Reynaldo fecunda, como sêmen no ventre, a palavra: seminário de poesia; seminário de linguagem.
Outras estratégias são usadas pelo autor para enriquecer sua obra no intento autometaficcional. Uma dessas estratégias encontra-se na orelha do livro, denominada “intróito”, em que o autor – e aqui parece ser o Reinaldo –, em um jogo argumentativo instigante, afirma que havia prometido a si mesmo não fazer mais textos de orelha de livro algum; porém, por isso mesmo, acreditava que “não podia, em sã consciência, pedir a ninguém para escrever o texto da orelha” de seu livro. Sendo assim, decide ser coerente com sua promessa, quebrando-a, para escrever “ainda que de má vontade” a orelha que não teria coragem de pedir a ninguém para escrever. No texto, Reinaldo, provocativo, reflete sobre uma suposta “autoridade” do escritor sobre o que se escreve, além de afirmar que tal introito poderia trazer ao leitor uma “ilusão de estar no portal de uma rara experiência literária” e justificar, legitimar “quase tudo que for dito”. O texto apresentado ao leitor é definido como uma represália, pois “apesar do tom de ironia, o romance é bilioso; é vingativo; é, até, criminoso”. O crime é passional e, segundo ele, pode ser lido como uma declaração de amor. Nesse texto, aguçando a curiosidade para a leitura, convoca o leitor: cabe a ele “o papel de sacerdote que escuta e absorve” a versão unilateral daquele que Reinaldo (ou Reynaldo?) afirma ser o oprimido da história. Confessando-se – e talvez eximindo-se – no elemento paratextual, assume que tomou nomes das pessoas a sua revelia e que o teor impresso do romance tornou-se pura literatura; afinal “já não está mais aqui quem amou”.
Repete-se, no texto literário, o recurso de reportar-se ao leitor, de maneira sutil, sem assediá-lo tão assertivamente, evocando-o a partilhar dessa confissão e até mesmo emitir possíveis juízos de valor favoráveis ao personagem – um homem casado –, que mantém um interesse teimoso pela jovem Sueli. Ela é apresentada como melindrosa e fria por não aceitar relacionar-se com alguém que não seja solteiro. Ele, de sua parte, mostra-se surpreso por Sueli não conseguir compreender que ele ama sua esposa – e, portanto, nem cogita separar-se – e quer envolver-se com a jornalista. Reynaldo é tão obcecado que conversa sem pudores sobre Sueli com amigos do círculo, escreve cartas sobre ela, investiga sua postura no trabalho e aproxima-se de Edna Teixeira, amiga da jornalista, criando, assim, um triângulo discursivo peculiar de leva-e-traz de informações entre eles. Nenhuma dessas pessoas, se se examina o que o narrador permite ao leitor saber, questiona seu estado civil e sua sanha pelo caso extraconjugal, apenas Sueli, que, para ele, o odeia. E esse suposto ódio por essa perseguição é combustível que alimenta o apaixonado, pois, para ele, o pior seria a indiferença completa.
Como escritor que é, Reynaldo afirma que seu “ofício é fazer ficção”. Alterna, em momentos pontuais, entre primeira e terceira pessoa: “O autor, eu lavo as mãos […]: deixo o herói achar se lhe apraz, que é amado sob a forma de ódio”. Isso mostra sua (de Reinaldo e Reynaldo) lucidez quanto às várias dobras que a literatura pode dar, no jogo com elementos como memória, história, encenação, contradição. Há na obra numerosos elementos que sugerem polifonias, como câmeras, telefones, cartas, cenas, cenários, teatros, palcos, diálogos enviesados, pressuposições, poemas, além de jogos labirínticos e espe(ta)culares. Em uma passagem pelo centro histórico da cidade, onde a cena cultural acontecia, indo em direção ao Teatro Carlos Gomes, ansioso por encontrar Sueli, afirma: “Sou eu: eis-me em cena”. A cena, aqui, não é o palco do teatro, mas a própria rua da vida.
Para saber mais
DALVI, Camila David (2019). Sueli: romance confesso e o jogo performático do escritor. Fernão, v. 1, n. 1. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/fernao/article/view/24529/0. Acesso em: 20 ago. 2025.
MARTINELLI FILHO, Nelson (2002). Confissão e autoficção na obra de Reinaldo Santos Neves. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória.
MARTINELLI FILHO, Nelson (2024). Os múltiplos mundos do escritor Reinaldo Santos Neves. A Gazeta, 30 nov. Disponível em: https://www.agazeta.com.br/pensar/os-multiplos-mundos-do-escritor-reinaldo-santos-neves-1124. Acesso em: 19 ago. 2025.
RIBEIRO, Francisco Aurélio; GOMES, Deny; BOUDOU, Telma (2019). Três ensaios sobre Sueli: romance confesso, de Reinaldo Santos Neves. Fernão, v. 1, n. 1. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/fernao/article/download/24532/16716. Acesso em: 20 ago. 2025.
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