Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Tempo de servidão

BICHARA, Ivan. Tempo de servidão. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.

Carlos Wender Sousa Silva
Ilustração: Julio Lapagesse

Tempo de servidão, romance publicado em 1988 pelo escritor, advogado e político Ivan Bichara Sobreira (Cajazeiras, PB, 1918 – Rio de Janeiro, RJ, 1998), tem como plano histórico e político a presença de um Estado autoritário que impõe à sociedade seu projeto de poder, corroendo significativamente ideais como democracia e liberdade. O romance é construído em torno da relação entre Cacilda, uma menina do sertão, criada entre a Paraíba e o Ceará, que cresceu ouvindo falar dos parentes que foram trabalhar na extração da borracha na Amazônia, explorados nos seringais, e Cristiano Barbosa, jovem professor no liceu de João Pessoa e estudante da Faculdade de Direito de Recife.

Ainda jovem, Cacilda é expulsa da escola de freiras por ter recebido uma carta de um caixeiro viajante chamado Maneco Torres. Além disso, a fome e a miséria que testemunhava a levam a deixar a família e seguir os caminhos dele. Essa era uma decisão motivada pela infelicidade e pelo desespero que se impunham cotidianamente. Este homem se revelou, nesse contexto, como uma possibilidade de futuro para a personagem. Cacilda passa, assim, a ajudar Maneco Torres no controle, distribuição e reabastecimento de tecidos pela região. Tempos depois, afasta-se dele e vai trabalhar num bar em João Pessoa por indicação, “registrando as compras, as vendas, as dívidas, os papéis”, mas é logo demitida por inadequações ao ambiente.

É nesse período que surge Cristiano. Ele busca saber quem era essa jovem que lhe chamara a atenção. Ela então tenta uma relação com o rapaz, mas, tempos depois, separa-se dele em razão dos ciúmes excessivos e parte para Pernambuco, pois Maneco Torres, que tinha assumido uma delegacia em Recife, havia lhe convidado para trabalhar com ele. Tratava-se, na verdade, de uma tentativa de reaproximação. O Dr. Manoel Torres havia se tornado delegado da Ordem Política e Social (DOPS). “Maneco era, mesmo, um homem importante, com três telefones na mesa enorme, um retrato, na parede, de Getúlio Vargas sorrindo e outro, de um homem gordo, de olhos miúdos e maliciosos, com cara de chinês”. Tinha conquistado respeito e fama de cruel, torturador de presos e carrasco. Maneco queria, dessa forma, demonstrar seu prestígio e sua nova posição social à protagonista.

Trava-se então, entre Cristiano e o delegado, um duplo interesse antagônico em torno de Cacilda. De um lado, Cristiano remetia à paixão e à dúvida, por outro, essa possibilidade de um novo emprego lhe colocaria num mundo totalmente distinto daquelas memórias de fome e miséria da infância, ainda que o custo disso fosse permanecer à disposição dos interesses repulsivos de Maneco. Este já sabia da presença de um professor da Paraíba na cidade. Cristiano já era visto como um impedimento para a reaproximação entre o agente repressor do Estado e Cacilda. Ele ainda considerava Cristiano, um estudante, um inimigo do regime. Este tinha se tornado alvo do Dr. Manuel Torres e do regime autoritário.

Cristiano, por sua vez, questiona o amigo de universidade Daniel sobre quais razões o Estado Novo – na figura de Maneco – teria para persegui-lo, não sendo ele um alvo do regime por não ser nem comunista, nem integralista, tampouco ter envolvimento com qualquer movimento político considerado inimigo  do Estado. No que o personagem rebate: “Se ele resolver perseguir você, ele o transformará no que quiser: comunista, ladrão, tarado sexual. Dispõe de todos os recursos para a instauração desse clima de medo, de terror. Dispõe de toda força, prende, forja inquéritos, tortura, obtém confissões, cartas de suicidas; condena e executa a sentença. […] O que se tem feito, aqui, com os presos políticos, com os comunistas, principalmente, deve causar inveja à Gestapo”. É nesse contexto então que o personagem precisa enfrentar os interesses de Maneco, figura que sobrepõe seus projetos pessoais aos públicos num contexto de exceção.

Tempo de servidão tem um narrador em terceira pessoa que dirige as sucessões de eventos na narrativa de forma coordenada, com cortes e amarrações que se entrecruzam e formam um mosaico das relações que se atravessam no romance, dividido em dezoito capítulos. O narrador tem uma posição parcial dos acontecimentos, revelando, em diversos momentos, sua visão em relação a determinado fato ou personagem. Ele tem, por exemplo, uma visão racializada das posições sociais das personagens, o que é notado nas descrições e nas relações entre os brancos e negros: o “moleque” que ajuda Cacilda a encontrar a rua do escritório de Maneco; a “negrinha” que ajuda nas coisas da casa de Tio Francisco; o investigador de rua “mulato” que atende às ordens de Maneco Torres. O narrador faz juízos de valor, faz avaliações morais e psicológicas e descreve as personagens a partir de uma posição social também demarcada.

Além disso, o texto é marcado por elementos de suspense que promovem expectativas, tensões e curiosidades no leitor. O escritor se vale desse recurso narrativo na construção estética do romance, ou seja, como um recurso estilístico, cujo objetivo é provocar esses efeitos na recepção, na medida em que o tempo narrativo – cortes, idas e vindas, alternâncias de percepções (narrador central-personagens) – e a focalização – narrador-personagens-leitor – são conduzidos de maneira a produzir essas expectativas e tensionamentos. Em relação à focalização, por exemplo, o narrador, por vezes, se coloca na posição das personagens, antecipando ou revelando as ideias, as impressões e as orientações destas.

Tempo de servidão traz, portanto, para o centro da narrativa, a presença de um Estado arbitrário e autoritário que procura moldar os interesses individuais e as relações sociais. Nos deslocamentos entre um lugar e outro, percebe-se a maior presença de força policial e repressiva, que parava viajantes para verificar ostensivamente documentos e revistar as bagagens. O contexto sócio-histórico do romance também está demarcado: o Brasil tinha entrado na guerra contra o Eixo – Alemanha nazista, Itália fascista e Japão; os praças embarcavam para a Itália. Ao visitar Recife para sondar como Cacilda estava, Cristiano passa na Faculdade de Direito, onde os estudantes discutiam a restauração das liberdades e o restabelecimento da democracia. Questionam a presença de infiltrados nas aulas e a necessidade de aprovação dos nomes do Diretório Acadêmico pelo Gabinete do Interventor Federal.

De cima de um banco, um estudante discorria: “A ditadura, minha gente, não aparece de repente, da noite para o dia; ela germina e cresce, lentamente, como erva daninha, nos disfarces mais variados”. Pessoas eram presas pela polícia política sob a alegação de “atividade subversiva”. No corredor da Faculdade de Direito, outro estudante esbravejava: “Acusam, prendem, torturam, forjam provas, julgam e executam a própria sentença”. Outros também questionavam as pretensões do Estado de concentrar em si poderes absolutos e sem quaisquer mecanismos de contenção.

Na trama que envolvia as três personagens centrais, Cristiano, após uma armação de Maneco para pegá-lo, conclui que as concepções de justiça, de liberdade e as garantias individuais que tanto estudara no curso de Direito iam, de certa maneira, no sentido oposto ao projeto de sociedade e à nova ordem promovidos pelo Estado Novo. Moacir Vieira, ex-policial que ajudava Cristiano, ao ser indagado sobre a legalidade de determinadas ações de cooperação e de articulação entre policiais, responde ao amigo: “Manda quem pode, rapaz. Essa é a lei em vigor”. Nesse contexto, o estudante é vítima de emboscadas com o objetivo de prendê-lo ou matá-lo e passa a se esconder nas casas de amigos. Havia se tornado um inimigo do regime. A paixão entre Cacilda e Cristiano enfrenta, dessa maneira, a fúria institucional de Maneco, que fará de tudo para sobrepor sua vontade.

Por sua vez, o delegado constrói um currículo contundente de repressão, com informações de muitas prisões de comunistas e desaparecimentos inexplicáveis. Já era visto por muitos como cruel e sanguinário. Ganhou fama de acusador, juiz e carrasco. Fazia suas próprias interpretações da lei, determinava unilateralmente seus usos e alcances. Perseguia e calava os inimigos do regime, da religião, da família, da pátria. O doutor Manoel Torres, como gostava de ser chamado, tinha se tornado um dos homens mais influentes de Pernambuco e uma figura de prestígio dentro do governo. De dentro do seu gabinete de investigador-chefe do DOPS, soava como um homem imbatível e marcado por condutas eticamente injustificáveis. Manejava o orçamento e o quadro de funcionários de sua pasta como bem queria. Maneco se valia dos recursos do Estado autoritário de que dispunha não apenas para perseguir e eliminar movimentações políticas contrárias ao regime, mas também para favorecer e impor seus interesses pessoais, como a tentativa abusiva e forçada de retomar o relacionamento com Cacilda.

Em síntese, Ivan Bichara apresenta um romance em que narrador e personagens marcam suas posições em meio a conflitos, contradições, tensões, expectativas e interesses eminentemente humanos. Há um domínio da linguagem e de seus usos que torna o interesse pela obra permanente, apesar das contradições que podem estar presentes, quem sabe, na própria trajetória do escritor paraibano. Se, por um lado, o romance expõe e denuncia o potencial autoritário e arbitrário do Estado Novo, por outro, o próprio Bichara foi eleito indiretamente como governador da Paraíba em 1975, cargo que ocupou até 1978, quando disputou uma vaga no Senado pela ARENA. De toda forma, Tempo de servidão é uma obra da literatura brasileira contemporânea que emerge de um trabalho estético, estilístico e histórico importante, produzida após o autor encerrar sua carreira política, junto com Carcará (1984) e Joana dos Santos (1995).

Para saber mais

SILVA, Lucas Pereira da (2019). Aspectos do regionalismo literário do romance de 30 em Carcará, de Ivan Bichara Sobreira. Trabalho de Conclusão de Curso (Monografia) – Universidade Federal de Campina Grande, Cajazeiras. Disponível em: https://dspace.sti.ufcg.edu.br/handle/riufcg/11889 . Acesso em: 22 abr. 2026.

RICARTE, Michell Alves de Almeida (2020). A política econômica do Governador Ivan Bichara Sobreira na Paraíba (1975-1978). Trabalho de Conclusão de Curso (Monografia) – Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande. Disponível em: https://dspace.sti.ufcg.edu.br/handle/riufcg/23311. Acesso em: 22 abr. 2026.

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SILVA, Carlos Wender Sousa.
Tempo de servidão.

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Brasília. 

23 abr. 2026.

Disponível em:

7930.

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23 abr. 2026.