Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Solução de dois Estados

LAUB, Michel. Solução de dois Estados. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

Carlos Wender Sousa Silva
Ilustração: Rafael Trinco

Solução de dois Estados, romance de Michel Laub (Porto Alegre, RS, 1973) publicado em 2020, surge num momento de significativas transformações sociopolíticas mundo afora, especialmente em razão do crescimento e fortalecimento da extrema direita que, em países como o Brasil, tem corroído o ideal de Estado de direito e a frágil, mas importante, democracia que o país conseguiu construir após a redemocratização. A obra circula por esse cenário em que determinados atores políticos promovem agendas baseadas em ações e manifestações de ódio, de racismo, de xenofobia, de homofobia, entre outras violências, e assumem abertamente um projeto de sociedade baseado em valores antidemocráticos, fundamentalistas e reacionários. Esse movimento histórico contemporâneo não funciona apenas como pano de fundo temático, mas como dispositivo formal: a fragmentação estrutural do romance mimetiza a própria fragmentação do espaço público brasileiro, marcado pela impossibilidade de escuta e pela radicalização discursiva. Esses sintomas sociais atravessam o romance e refletem inquietações presentes em diferentes momentos históricos.

Cabe destacar que a trajetória literária de Laub é marcada por romances como Diário da queda (2011) e A maçã envenenada (2013), em que memória, culpa e conflitos geracionais são articulados por meio de estruturas igualmente fragmentárias. Solução de dois Estados aprofunda o interesse do autor por narrativas em tensão e por personagens transpassados por contradições éticas e morais. Se antes o trauma histórico e íntimo organizava o enredo, aqui o trauma é social e contemporâneo: a polarização política brasileira torna-se o eixo estruturador do conflito. A obra constrói fragmentos estruturais que funcionam como aberturas interpretativas, permitindo múltiplas chaves de leitura. Além disso, a experiência jornalística-redacional de Laub lhe permite a construção de textos marcadamente concisos, como é o caso de Solução de dois Estados, sem, contudo, limitar as questões que envolvem a obra.

O autor se vale de discursos e sentimentos de ódio para criar personagens que mobilizam reflexões a respeito dos impactos, consequências e alcance dessas manifestações. O romance tem dois protagonistas irmãos no centro da trama: Alexandre e Raquel. Raquel é uma artista, espancada por um homem num palco diante de uma plateia, quando participava de um simpósio. Alexandre é empresário e vê a irmã como uma oportunista que se vale de um discurso vazio para promover uma vida que ignora a realidade concreta da sociedade – de violência, de “trabalho duro”, segundo ele. Raquel enxerga o irmão como alguém essencialmente ambicioso, egoísta e que só pensa em lucro e números. Alexandre não acredita no país nem nas instituições. Ele demoniza a política como mediadora das relações humanas, apoiando-se em suas contradições e limites. O personagem despreza políticas públicas, mobiliza seus seguidores para se manifestarem contra uma exposição num museu, contra um professor que indicou um livro. Ele enxerga a irmã e a mãe como uma planilha de custos. Raquel, por sua vez, afirma, em tom irônico, viver dos impostos da população. Ela ressalta o alto grau de desprestígio e de irrelevância que as artes têm para pessoas como seu irmão e acusa a plateia que presenciou a agressão de reagir com indiferença, quando não com um silencioso consentimento. Ela pretende desenvolver um trabalho artístico que retrate a obviedade da realidade política contemporânea, marcada pela expressão deliberada de ódio, de intolerância e de polarização.

O romance está estruturado de maneira a remeter a um projeto cinematográfico em construção, essencialmente em três partes que aparecem em diferentes momentos da narrativa: Material pré-editado, Extras/Material a inserir e Material bruto. Os trechos de “Material bruto” expõem a todo instante esses questionamentos e juízos de valor que tensionam tanto a cineasta quanto o próprio projeto do documentário. É esse material que também vai revelando o conflito entre os irmãos e sua família, os grupos sociais nos quais ambos se inserem, a tensão na sociedade e no Brasil em geral, que vai se desenhando em torno desses dois polos irreconciliáveis, num contexto em que a ruptura se sobrepõe, marca a impossibilidade de diálogo e inviabiliza qualquer abertura ao outro e à diferença. O que torna, portanto, inalcançável uma solução entre dois Estados – dois projetos de sociedade distintos que se disputam.  

Na estrutura narrativa, os fragmentos de “Extras/Material a inserir” falam de diversos elementos contextuais e históricos: a atuação do presidente do Banco Central; a programação de um evento acadêmico; o discurso de um pastor num programa; uma reportagem de um site sobre moda, corpo e cultura; depoimentos de sujeitos que supostamente tiveram êxito na cura gay e no tratamento alternativo para depressão. Esses elementos fazem com que se transite entre a ficção e a realidade concreta noticiada nos jornais e vivida no cotidiano. Assim, o leitor sai das personagens e de suas contradições e é exposto aos tensionamentos que marcam o Brasil contemporâneo: os discursos de ódio e de intolerância; o político antidemocrático que menospreza a pluralidade e a diferença; o pastor fundamentalista que tenta impor goela abaixo sua ideologia e faz tendenciosas confusões entre Estado e Igreja; o “cidadão de bem” que sobrepõe público e privado; a figura que, paradoxalmente, associa sua prática religiosa a discursos contra minorias sociais.

A narrativa é construída a partir de fatos apresentados pelos protagonistas em depoimentos para um documentário, cujas entrevistas e gravações se passam em 2018. Os dois retomam histórias da família e do país: confisco da poupança por Collor em 1990, que levou à falência a metalúrgica do pai; bullying; as disputas entre os irmãos em torno dos usos e significados do inventário deixado pelo pai; Plano Real; as articulações questionáveis de Fernando Henrique para viabilizar a reeleição para presidente no país; a nova classe C no governo Lula; a ausência do Estado na periferia e a consequente promoção do discurso religioso como forma de suprir necessidades econômicas, sociais e psicológicas; a sobreposição entre público e privado; as indagações de Raquel a respeito do corpo, da sexualidade e do preconceito. Todas essas questões permeiam a construção dos dois protagonistas.

Há ainda entre ambos uma personagem mediadora, a documentarista Brenda Richter, que recolhe separadamente os testemunhos dos irmãos e protagonistas para um filme sobre ódio, polarização e violência, afinal, sobre o Brasil. Essa mediadora procura fazer poucas intervenções ao longo dos depoimentos de Alexandre e Raquel. Por vezes, ela tem o seu papel de cineasta e o seu projeto profissional questionados: “Imagine, Brenda, você aparecer na frente da câmera sem hipocrisia. Sem fingir que precisa ser tolerante com a complexidade das questões históricas que dividem as pessoas neste mundo tão polarizado”. Brenda funciona, assim, como instância metanarrativa: ao ser questionada pelos próprios entrevistados, o romance desloca a discussão do campo ideológico para o campo da representação – quem fala? Quem edita? Quem seleciona? Esse enfrentamento, consequentemente, revela que toda narrativa, inclusive a literária, opera por enquadramentos e cortes. O leitor percebe que se trata de escolhas narrativas interessadas e parciais.  

Em Solução de dois Estados, o óbvio não é sinônimo de simplificação, mas de explicitação daquilo que já se naturalizou no cotidiano brasileiro: a violência discursiva, o desprezo pelo outro e a normalização do autoritarismo. Ao deslocar essas obviedades para o centro da representação literária, Laub as desautomatiza e as submete ao exame crítico do leitor. Essa é uma marca importante da obra: ao trazer o evidente para o centro da narrativa, o romance ainda mobiliza elementos intertextuais e estilísticos que ultrapassam as marcas históricas do presente. O óbvio, portanto, não impossibilita que o livro seja construído por um conjunto de elementos literários centrais como o paradoxo, a ironia, o eufemismo, entre outros: “Sabe qual é o problema da ironia? É que ela serve para ganhar dinheiro, prestígio, o que você quiser, mas nunca vai servir para falar de ódio. O ódio é sempre literal”.

O romance se vale, portanto, dessa literalidade do ódio, da raiva, do menosprezo e se revela, afinal, uma metáfora da sociedade brasileira contemporânea. E é por dentro dessa dualidade entre metáfora e literal, óbvio e original, trivial e excepcional que o livro de Laub emerge como um mecanismo artístico importante de reflexão sobre todas essas deturpações morais e éticas que atravessam o século XXI, chegando a um desfecho em que se desembarca nessa realidade de ascensão de forças autoritárias e violentas, de promoção de intolerância e de agressão nas redes sociais. Solução de dois Estados é, dessa forma, uma proposta literária que adentra em tempos sombrios, de incertezas sociais e de banalização do menosprezo ao outro. É um romance que aborda a impossibilidade de diálogo em contextos contemporâneos e as tentativas de silenciamento, de sobreposição, de apagamentos, promovendo uma abertura para a reflexão a respeito do crescimento de projetos discursivos e políticos que se legitimam por meio do ódio. Nesse texto, Michel Laub mobiliza recursos como a fragmentação, a sobreposição de registros documentais e ficcionais e a instabilidade do ponto de vista para expor – sem resolver – as fragilidades éticas que atravessam o Brasil contemporâneo.

Para saber mais

FONSECA, Mauro Gabriel Morais da (2024). Testemunhas presentes – Solução de dois Estados, de Michel Laub: ficção e memória na literatura contemporânea brasileira. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora.

NALERIO, Nathaly Silva; SPAREMBERGER, Alfeu (2025). O efeito de realidade em Solução de dois Estados, de Michel Laub. Anuário de Literatura, Florianópolis, v. 30, p. 1-23. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/literatura/article/view/101012. Acesso em: 4 ago. 2025.

SILVA, Carlos Wender Sousa (2021). A literatura como ferramenta estética e ética diante de realidades antidemocráticas e distópicas. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade de Brasília, Brasília.

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Solução de dois Estados.

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23 abr. 2026.

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