Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Parabélum

CARVALHO, Gilmar de. Parabélum. [S. l.]: ed. do autor, 1977.

Carolina Vigna
Ilustração: Julio Lapagesse

O romance Parabélum, do advogado, escritor, jornalista e professor Gilmar de Carvalho (Sobral, Ceará, 1949 – Fortaleza, Ceará, 2021), inscreve-se no panorama literário brasileiro como um texto singular, pela maneira como articula oralidade, memória coletiva e crítica social em torno da violência como linguagem. A obra, publicada originalmente em 1977, retorna a um momento em que a ficção nordestina buscava novas formas de expressão, afastando-se do regionalismo tradicional e incorporando procedimentos de fragmentação, paródia e montagem. Ao mesmo tempo, reafirma a ligação do autor com a cultura popular cearense, campo que constituiu o eixo de sua trajetória intelectual e criativa.

O título escolhido, Parabélum, já anuncia a tensão fundamental que atravessa o romance. A expressão latina si vis pacem, para bellum – “se queres a paz, prepara-te para a guerra” – é deslocada para um cenário sertanejo, onde a arma de fogo aparece como signo onipresente, tanto material quanto simbólico. Parabélum é também o nome de uma pistola automática de grande calibre, de fabricação alemã. A arma não é apenas um instrumento técnico, mas também uma metáfora do destino, da honra e da justiça feita pelas próprias mãos. É um objeto que narra, que carrega histórias, que inscreve na vida cotidiana marcas de poder e de medo.

A estrutura do romance caracteriza-se pela fragmentação. Em vez de uma narrativa linear, o leitor encontra blocos curtos, composições descontínuas, alternância de registros e vozes. Há trechos que soam como relatos orais, outros como sermões, outros ainda como anúncios de rádio ou televisão. Essa montagem cria um efeito de colagem, quase um palimpsesto, que obriga o leitor a recompor o sentido a partir da justaposição de discursos. O sertão, nesse procedimento, deixa de ser retratado como cenário fixo e torna-se espaço de disputa de narrativas. É um campo de batalha não apenas material, mas também simbólico, onde mitos, memórias e rezas competem por autoridade.

Essa opção formal dialoga com as pesquisas que Gilmar de Carvalho desenvolveu ao longo da vida. Professor universitário, ele se dedicou a estudar as manifestações da cultura popular do Ceará, em especial a literatura de cordel, a xilogravura e os folguedos. Ao escrever Parabélum, transporta para a ficção recursos que aprendeu com esses universos: a cadência repetitiva, o uso de paralelismos, a construção de imagens rápidas e intensas. O livro, assim, não apenas fala sobre a cultura popular, mas a incorpora como modo de narrar. A oralidade é elemento estruturante e forma de pensamento.

O protagonista do romance é uma figura alegórica. Não se trata de um personagem psicológico, construído pela introspecção, mas de uma condensação de símbolos. Com uma certa licença poética, pode-se dizer que é uma síntese semiótica. Ele carrega em si traços de Cristo, de líderes revolucionários e de cangaceiros. É, ao mesmo tempo, messias e bandido, santo e criminoso, profeta e justiceiro. Essa escolha desloca a narrativa de uma biografia individual para um campo mais amplo: o da mitologia social. Ao fundir essas referências, Carvalho sugere que a cultura brasileira elabora suas figuras de liderança e de contestação em torno da violência e da promessa de redenção. O herói é, portanto, um espelho das tensões históricas do país.

Parabélum aborda o entrelaçamento entre violência e fé. O sertão aparece como lugar em que a promessa de paz só se cumpre por meio da guerra, em que a justiça se faz pelo disparo, em que a devoção convive com a ameaça. Não se trata de glorificação da violência, mas da exposição de sua naturalização no cotidiano. O romance mostra como a arma se integra à vida comunitária, como ela marca rituais, regula conflitos e até organiza as memórias transmitidas de geração em geração.

Outro aspecto central é a relação entre arcaico e moderno. O romance mescla sermões bíblicos, ladainhas religiosas e relatos tradicionais com slogans políticos e ressonâncias da cultura de massa. O efeito é de simultaneidade. O sertão não aparece como espaço congelado no passado, mas como lugar onde temporalidades diversas se cruzam. Essa convivência de discursos evidencia o modo como o Brasil reelabora constantemente seus mitos, sem eliminar contradições. A violência do passado atualiza-se nas formas contemporâneas.

Ao inserir essas dimensões em uma narrativa literária, Gilmar de Carvalho desloca a produção nordestina da visão folclórica que pode, às vezes, ser compreendida de forma caricata. O sertão não é apresentado como curiosidade exótica, mas como território de reflexão crítica sobre a sociedade brasileira. O romance mostra como as práticas simbólicas do interior dialogam com questões nacionais: a banalização da violência, a disputa por narrativas políticas e religiosas e a permanência do mito como forma de organização social. Ao mesmo tempo, reafirma a importância da memória coletiva, da oralidade e da cultura popular como reservas de imaginação e de resistência.

A linguagem de Parabélum reforça esse gesto crítico. Não há descrições longas ou detalhistas, mas cortes secos, imagens rápidas, construções que lembram a fala oral. De uma certa maneira, é possível compreender o corte seco como uma menção ou homenagem aos repentistas nordestinos. O efeito é de ritmo pulsante, que aproxima o texto da cadência de uma cantoria. Essa escolha estilística abre espaço para se perceber a lógica da oralidade como modo de conhecimento. A leitura, assim, torna-se experiência de contato com outro regime de linguagem, em que o essencial se transmite pela repetição, pelo ritmo e pela condensação.

No conjunto da obra de Gilmar de Carvalho, Parabélum representa um ponto alto. O autor transitou entre a crítica cultural, a pesquisa acadêmica e a criação literária. Sua contribuição consistiu em dar visibilidade à riqueza da cultura popular nordestina e em mostrar como ela se relaciona com problemas centrais do Brasil contemporâneo. Em Parabélum, essa vocação se realiza de modo literário, propondo ao mesmo tempo uma leitura da violência e uma reflexão sobre os modos de narrar.

A atualidade da obra é evidente. Em um país marcado por debates sobre armamento, violência urbana e rural e narrativas de salvação política e religiosa, o romance ressoa com força. Sua crítica à naturalização da violência, sua exposição das contradições entre paz e guerra e sua valorização da palavra popular como instrumento de reflexão mantêm-se pertinentes. O livro convida a pensar sobre como a sociedade brasileira segue estruturada por lógicas de confronto, estratégias polarizantes e violências sociais.

Sua forma fragmentária, sua figura alegórica de herói e sua reflexão sobre violência e mito o mantêm como obra necessária para a compreensão do Brasil. Não se trata apenas de romance regional, mas de intervenção crítica em debates nacionais. Ao inscrever a oralidade sertaneja na literatura, Gilmar de Carvalho mostrou que o sertão é também espaço de vanguarda estética e de elaboração simbólica complexa.

Para saber mais

CARVALHO, Gilmar de (1993). Gilmar une o erudito ao popular. Revista Entrevista, Fortaleza, n. 2, p. 3-9. Entrevista concedida a Clariane Rebouças, Cláudio Ribeiro, Demitri Túlio, Eduardo Freire, Francisco Roberto, José Rocha, Júlio César, Liliana Couto, Márcio Régis, Oceli Lopes e Sílvia Carla. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/34269. Acesso em: 3 out. 2025.

CASTRO, Lídia Barroso Gomes (2019). Literatura e jornalismo: entrevista e notícia em Parabélum, de Gilmar de Carvalho. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal do Ceará, Fortaleza (CE). Disponível em: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/49122. Acesso em: 3 out. 2025.

PORTELLA, Cláudio (2011). Parabélum transforma narrativa em jorro de frases. Folha de S. Paulo, 6 ago. 2011. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0608201118.htm. Acesso em: 20 ago. 2025.

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VIGNA, Carolina.
Parabélum.

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literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

22 abr. 2026.

Disponível em:

7915.

Acessado em:

23 abr. 2026.